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Vidas Secas: um final alternativo

Foto do escritor: Pedro Sucupira
Pedro Sucupira
há 20 horas
6 min de leitura

E se Fabiano, depois de uma vida de humilhações, finalmente enfrentasse aqueles que o mantiveram de joelhos? Nesta releitura ficcional de Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos, o encontro com o soldado amarelo toma outro rumo, abrindo caminho para um destino inesperado para Fabiano, Baleia e sua família.

Ilustração em estilo de pintura expressionista de uma família sertaneja caminhando com a cadela Baleia pelo solo rachado da caatinga. Ao fundo, uma casa simples, árvores secas e um enorme sol alaranjado dominam a paisagem avermelhada, evocando a seca, a pobreza e a luta pela sobrevivência em Vidas Secas, de Graciliano Ramos.

Fabiano tomou o caminho que desembocava na lagoa seca, cercada por catingueiras e capões de mato. Caminhava meio curvado, com a bolsa cheia a tiracolo e a bainha do facão batendo contra a cintura. A aridez da terra e os capins ressequidos, que lhe roçavam as pernas e os braços, tornavam a caminhada mais penosa.

Como de costume, avançava de olhos baixos, atento aos rastros no chão. Reconheceu as marcas da égua ruça e da prole, os cascos maiores acompanhados dos menores. Num tronco de angico, a égua deixara alguns pelos. Mais adiante, urinara sobre a terra, e o mijo, espalhando-se pelo chão, desmanchara parte das pegadas.

Fabiano avançava desprevenido, atento àqueles sinais e a outros rastros de bichos menores que cruzavam seu caminho. Curvado, quase parecia farejar o solo ressequido da caatinga deserta.

Seguiu na direção tomada pela égua. Depois de caminhar cerca de quinhentos metros, sentiu o cabresto que trazia ao ombro enganchado num pé de quipá. Desembaraçou a corda, puxou o facão da bainha e começou a cortar os cactos que lhe barravam a passagem.

Tinha feito um estrago feio. A terra estava coberta de palmas espinhosas quando se deteve, alertado pelo ruído de botas às suas costas. Voltou-se de supetão, brandindo o facão, e deu de cara com o soldado amarelo que, um ano antes, o levara à cadeia, onde suportara uma surra e passara a noite. Tudo aconteceu numa fração de segundo. Se aquele instante tivesse durado um pouco mais, o soldado teria caído esperneando na poeira, com o facão enterrado na cabeça.

O impulso que moveu o braço de Fabiano foi tão violento que o golpe teria sido fatal se outro impulso não o tivesse desviado no último instante. A lâmina estacou junto à cabeça do soldado, logo acima da boina preta.

A princípio, o vaqueiro não compreendeu o que estava acontecendo. Viu apenas o inimigo diante de si. Depois reconheceu nele um homem e, coisa mais grave, uma autoridade. Sentiu um choque violento. O braço perdeu a firmeza, ficou suspenso, irresoluto, balançando de um lado para o outro.

O policial, magrinho e enfezado, bufava de olhos arregalados. Tremia. Fabiano pregou nele os olhos ensanguentados. Podia matá-lo com as unhas. Nem precisava do facão. Bastavam as unhas.

Lembrou-se da surra que levara, da noite passada na cadeia. Ele, Fabiano, tinha sido provocado. Tinha ou não tinha? O amarelo pisara-lhe o pé. Fabiano se impacientara e soltara o palavrão sem querer. Natural. Xingar a mãe de uma pessoa não queria dizer nada. Todo mundo sabia que, nessas horas, ninguém tinha intenção de maltratar ninguém. Era apenas força de expressão, um desafogo da indignação. Todo mundo compreendia. Uma zombaria sem importância. O soldado amarelo devia saber disso. Mas, pelo visto, não sabia. Queria demonstrar poder. Estava com os seus e saíra de casa com quatro pedras na mão, apitando.

Aquilo ganhava dinheiro para maltratar criaturas inofensivas. Estava certo isso?

O rosto de Fabiano se contraía, medonho, mais feio que focinho de vira-lata. Estava certo isso? Provocar gente que não fazia mal a ninguém. Por quê? Sufocava-se. As rugas da testa se aprofundavam, os pequenos olhos azuis se arregalavam, numa interrogação dolorosa.

Fabiano irritou-se. Por que diabo aquele safado batia os dentes como um porco-do-mato? Nunca vira uma pessoa tremer daquele jeito. Não era ele autoridade na cidade? Não pisava nos pés dos indefesos na feira? Não botava gente na cadeia? Sem-vergonha. Covarde.

Agitando a bolsa e o corpo, Fabiano levou a mão esquerda, grossa e cabeluda, à cara do policial, que recuou até se encostar a uma catingueira. Sem a árvore, o infeliz teria caído. Fabiano repetia a si mesmo que não precisava da arma, mas sabia que não conseguiria usá-la. Dizia aquilo apenas para se enganar.

O policial se encolhia, escondido atrás da árvore. Fabiano cravava as unhas nas palmas calosas. Queria ficar cego outra vez. Era impossível recuperar aquele instante de inconsciência. Por um minuto, a raiva de se sentir impotente foi tão grande que ele recobrou as forças e avançou contra o inimigo.

Grudado à catingueira, o policial deixava à mostra apenas metade do corpo. Um braço, uma perna, um pedaço da cara. Mas aquela metade começava a crescer aos olhos do vaqueiro. E a outra, escondida atrás da árvore, devia ser ainda maior. Fabiano teve uma ideia absurda.

— A gente pensa coisas bestas — disse para si mesmo.

A raiva amainou, os dedos que lhe feriam as palmas se abriram.

Minutos antes, não pensava em nada. Agora, suava frio e se via assaltado por lembranças insuportáveis. Era um sujeito violento, de coração perto da goela, endurecido pela seca e pelas dificuldades da vida no sertão. Pensou na mulher, Vitória, nos dois meninos e em Baleia. Coitada da cachorra. Estava doente, precisava de remédio. Fabiano se comovia sempre que pensava na companheira fiel.

Era um homem que se irritava com facilidade, perdia a paciência e, quando isso acontecia, sempre acabava se dando mal. Naquela tarde, na feira, por exemplo, se não tivesse se descontrolado e xingado a mãe da autoridade, não teria passado a noite na cadeia depois de apanhar. Dois policiais excomungados o haviam segurado enquanto o soldado amarelo, armado de um cacete, lhe batera no peito e nas costas. Depois, ele se arrastara, tremendo como um frango molhado. Tudo por causa de uma palavra dita sem pensar. Tinha culpa da vida que levava? Tinha culpa de ser vaqueiro numa terra rachada, onde até a lama parecia endurecer? Tornara-se seco como aquela terra para sobreviver. Adaptara-se.

Deu um passo na direção da catingueira. Agora, sozinho, o policial já não parecia tão valente. Se Fabiano gritasse, que faria o amarelo? Aquela coisa amarela, murcha e combalida metia gente na cadeia, distribuía surras. Não entendia. Por que o governo se aproveitava de gente simples e trabalhadora como ele? Aquela cambada só servia para maltratar os inofensivos. E ele, Fabiano, seria tão ruim assim se andasse fardado? Iria pisar nos pés dos trabalhadores e encher-lhes o corpo de pancadas? Não. Não faria isso.

Parecia que sua vida inteira se resumia a injustiças. Na feira, o governo e a polícia. Na fazenda, o patrão branco. Todos se aproveitavam de quem realmente trabalhava, gente como ele. Estava farto de apanhar da vida. A ideia de continuar sendo insultado, preso e moído por criaturas avarentas e covardes tornava-se insuportável. Olhava para a covardia do policial e, nela, enxergava a própria miséria. Sentia-se ainda mais lastimável que o homem encolhido diante dele.

Aproximou-se devagar, contornou a árvore e parou diante do soldado, que o encarava, embasbacado, ainda escorado ao tronco, com a pistola e o punhal inúteis. Fabiano esperou que ele se mexesse. Queria que fizesse isso.

Baixou a cabeça e coçou os pelos ruivos do queixo. Devia mesmo se sujeitar àquela tremura, àquela amarelidão? Era bicho resistente, calejado. Tinha nervo, gostava de brigar, já se metera em outras contendas e saíra de crista levantada. Recordou as lutas antigas, os bailes, as mulheres, a cachaça. Uma vez, de faca em punho, dispersara uma turma inteira. Foi naquela época que Vitória começara a gostar dele. Sempre fora teimoso. Estaria amolecendo com a idade? Quantos anos teria? Não sabia. Sabia apenas que envelhecia, que as forças lhe faltavam. Estava arruinado, um caco. Não percebera quando a mudança começara, mas agora sentia que estava se acabando.

O suor umedeceu-lhe as mãos calejadas. Fabiano virou a cara e avistou o facão. Era uma arma de verdade, pesada e afiada, que minutos antes se movera como um raio, abrindo caminho entre as palmas de quipá. Fixou os olhos nos do policial, mas o amarelo desviou os seus. Fabiano tirou-lhe a boina.

  — Governo é governo — disse sussurrado.

Com a força que ainda lhe restava, ergueu o facão e golpeou.

O policial amarelo jazia no chão, as pernas abertas, um fio de sangue empastando-lhe os cabelos e escorrendo pela terra, formando um pequeno riacho entre as palmas de quipá.

— Muito bem!

Fabiano começou a arrastá-lo para dentro da caatinga.

Endireitou o corpo e olhou para o céu. Os urubus já rodeavam acima de sua cabeça, farejando o alimento. Não sentiria remorso.

Assobiou alto, e Baleia se aproximou, trazendo um preá na boca. Estava adoentada, magra, enfraquecida, mas tinha cura. Fabiano arranjaria os remédios de que a companheira precisava. Afagou-lhe a cabeça e tomou o caminho da fazenda. Depois buscaria a égua. Era hora de acertar as contas com o patrão.

Dormiria com sinhá Vitória, sossegado, numa cama de verdade, de couro e sucupira, igual à de seu Tomás da bolandeira. Depois chamaria os meninos, que precisavam de criação. Era um homem, evidentemente.

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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.

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