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Terapia de Conversão

Foto do escritor: Pedro Sucupira
Pedro Sucupira
há 2 dias
11 min de leitura

Homem tatuado e acorrentado em uma cela escura diante de uma mulher que segura uma seringa; sobre a mesa, comprimidos, uma fotografia e utensílios reforçam a atmosfera de tortura e confinamento.

1, 2, 3, 4, 5, 6… sétimo comprimido.

Cada um tinha uma cor e um formato diferentes. Eu os catalogava mentalmente — um hábito antigo, de quem sempre precisou catalogar as coisas para controlá-las. O oval branco. O redondo azul. Esse amarelo que deixava a língua amarga por horas. Desde que chegara ali, a quantidade variava. Começaram com três. Agora eram sete, e eu já não sabia ao certo o que cada um fazia; apenas que, juntos, faziam algo com o que eu chamava de eu mesmo.

Ela segurou minha mandíbula com uma mão e, com a outra, deslizou um dedo pela lateral do rosto até a têmpora, onde pressionou com o indicador. Eu a observava. Tinha aprendido a observar as pessoas como se observa um mecanismo procurando a engrenagem que, se removida, paralisa o conjunto. Mas agora meu olhar deslizava sobre ela sem aderir a nada. Ela não temia meu olhar. Isso antes teria me irritado. Agora, não sabia ao certo o que sentia, ou se sentia alguma coisa.

Ela pegou uma agulha no bolso da camisa e começou a penetrá-la na minha têmpora, como se testasse alguma hipótese. Mesmo sentindo uma dor excruciante, continuei imóvel. Os medicamentos estavam cumprindo o seu propósito.

No início, eu contava os dias. Havia uma janela no canto superior direito pela qual conseguia ver a luz do sol e acompanhar a passagem do tempo. Desenvolvera rituais: quando a luz batia oblíqua na parede, eram quatro da tarde. Quando desaparecia de vez, eram sete da noite. Contava. Organizava. Porque organizar é uma forma de poder, mesmo quando não se tem nenhum outro. Era minha única âncora à certeza de que o mundo continuava existindo.

Mas a janela deixou de existir. Isso aconteceu quando tentei fugir.

— Bom dia, assassino. — Era assim que ela me chamava.

Eu tinha um nome. Tinha, tenho, terei sempre, mesmo que hoje já não o lembre. Estava ali, em algum lugar da memória que os comprimidos alcançavam com seus dedos químicos. Todas se dirigiam a mim com esse nome. Às vezes eu tentava relembrar, mas encontrava apenas uma forma vaga, como a silhueta de alguém que partiu há muito tempo. Elas sabiam que o nome é a primeira camada do que chamamos de eu.

Naquele dia ela veio despreocupada, confiante de que eu já estaria domesticado. Olhei para os meu braços: as tatuagens se misturavam às marcas de ferro em brasa que haviam feito no dia anterior. Contei-as. Vinte e três nomes, tatuados com destreza. Vinte e três marcas sobre a carne ainda viva. Um número que já não significava nada, mas que eu precisava que significasse, porque a contagem ainda era algo que eu sabia fazer.

Arrastei-me até a mesa, as correntes dos pulsos estavam frouxas; eu havia deslocado um deles para conseguir passar a mão pela argola. A corrente do pé esquerdo, serrei-a durante três noites consecutivas, escondendo a lima improvisada no reto, lubrificada com fezes. A que ponto eu havia chegado.

Elas sempre foram macias. Sempre se amolecem, se condoem, se compadecem por qualquer coisa. Eu estudara isso durante anos, não como teoria, mas como prática, como quem aprende um idioma por imersão. Havia uma janela de vulnerabilidade que se abria em determinadas mulheres: bastava que alguém sangrasse perto delas, ou chorasse com convicção suficiente, ou simplesmente parecesse perdido. A compaixão era uma porta e eu apenas sabia como encontrá-la.

É por isso que eu sempre as escolhi. As vítimas perfeitas.

Ela deixou a bandeja e demais utensílios, todos de plástico silicone com bordas arredondadas, sobre a mesa no centro do cômodo, com alguns restos de comida. Quando me aproximei, esfomeado com a fome mecânica, sem prazer, que os comprimidos me deixavam, havia uma foto no meio da bandeja.

Olhei para ela como olhava para tudo: catalogando.

Não era uma foto sorrindo, mostrando como teria sido se não tivesse atravessado meu caminho. Era a foto do dia em que a encontraram no porão da minha casa.

Era filha dela.

Estava nua, os cabelos grandes e soltos jogados para os lados, a cabeça virada para o outro lado. Primeiro notei as composições, os ângulos, minha mente ainda tentando funcionar pelo modo antigo. Eu havia cortado os pés e as mãos porque essa era muito arisca. Lembrava disso com a precisão com que se lembra de uma decisão prática, necessária.

Mas então os olhos.

Opacos, de quem procura, quer enxergar, mas não encontra nada, totalmente vazios. E olhando para eles, aconteceu algo que não sei nomear de outra forma senão como um travamento. Minha mente procurava o ângulo, a engrenagem, o ponto de controle e não havia nada para controlar. Ela estava morta e eu estava acorrentado e a pergunta que me ocorreu — uma pergunta que nunca me havia ocorrido antes com aquela força, com aquela textura — o foi que eu fiz?

Não como acusação, mas como espanto genuíno. Como se a pergunta fosse de outra pessoa e os comprimidos houvessem aberto alguma fechadura e ela houvesse entrado sem que eu soubesse como impedir.

— Tudo isso é culpa minha. — As palavras saíram antes que eu entendesse que estavam saindo. Comecei a chorar — também sem reconhecer aquilo como meu — me joguei no chão.

Ela estava no canto, de pé, segurando a porta entreaberta, assistindo a tudo. No rosto, um sorriso que misturava prazer e repulsa. Olhando para ela, pensei que era o sorriso mais honesto que já vi num rosto humano, pois não havia nada de disfarçado nele. Era o rosto de alguém que havia decidido algo e estava vivendo com todas as consequências dessa decisão.

Eu ainda no chão, as mãos abandonadas ao lado do corpo, a bexiga soltou e a urina começou a formar uma poça ao meu redor.

— Seu porco desgraçado. — Ela disse, pegando um pedaço de pano. — Você vai ter que limpar isso.

Quando se aproximou para jogar o pano sobre mim, eu havia liberado as mãos. Com a serra improvisada que usara para cortar as amarras do pé, pulei em cima dela, mas escorreguei na própria urina. A serra acertou a panturrilha dela. Um grito estridente reverberou por todo o cômodo.

Que delícia escutar um grito de dor novamente. Cada célula do meu corpo reagiu àquele som como sempre reagira: o acendimento imediato, a sensação de estar finalmente presente num corpo que os comprimidos haviam entorpecido. E depois, quase simultaneamente, algo que não reconheci de imediato como sendo o que era: um enjoo profundo que ia além do estômago, como se duas versões de mim houvessem escutado o mesmo grito e chegado a conclusões opostas.

Não tive tempo de examinar isso. Enquanto ela ficava no chão, corri para a porta. Deparei-me com uma escada íngreme e alta. Estava escuro. Comecei a tatear as paredes e a subir degrau por degrau.

— Volta aqui, seu desgraçado. Você não vai conseguir escapar. Nunca vai escapar. — Ela gritava lá embaixo.

Subi até as mãos alcançarem uma alça de metal presa a uma estrutura de madeira. Um alçapão. Tentei levantar com as mãos, mas estava fraco demais. Levantou, mas caiu.

Os gritos lá embaixo cessaram. Silêncio absoluto. Não me importei. Um sentimento de esperança me invadiu, desespero e vontade de ser livre. Ansiei pela liberdade como minhas vítimas haviam ansiado. A frase me atravessou enquanto forçava o alçapão, e eu não soube se havia pensado nela ou se ela havia pensado em mim.

Forcei o tronco contra a porta e ela se abriu de repente, completamente. A luz do dia me cegou. Fui puxado por várias mãos. Não consegui identificar nada, apenas senti as mãos me apertando. Comecei a me debater até sentir duas picadas, uma na perna e outra no pescoço. Apaguei.

Meu cérebro parecia se degenerar aos poucos, como se estivesse derretendo dentro do crânio, perdendo a forma, transformando-se numa massa morna e amorfa. Às vezes tinha a impressão de sentir um líquido frio escorrendo pelos ouvidos. Levantava a cabeça e o mundo começava a girar, tudo se deslocava sem sair do lugar.

Perdi completamente a noção do tempo e do espaço.

Já não sabia onde terminava um dia e começava outro. O passado invadia o presente; o presente se confundia com aquilo que eu lembrava. Às vezes uma lembrança acontecia diante dos meus olhos como se estivesse acontecendo naquele instante; outras vezes, alguma coisa que acabara de acontecer parecia pertencer a uma vida muito distante.

O que era?

O que é?

O que fui?

O que sou?

As perguntas começaram a perder o sentido. As palavras também. Passado, presente, antes, agora, tudo se misturava, tudo se mesclava numa coisa só, sem começo ou fim.

Tudo ao redor se tornou um borrão. Meu corpo doía em cada centímetro; cada articulação rangia como uma dobradiça enferrujada. Virar o pescoço, levantar a cabeça, eram tarefas quase impossíveis. Quando abri os olhos, havia uma luz branca e intensa logo acima de mim.

Por um momento, não soube onde estava. Depois, não soube quem eu era. Havia uma lacuna entre o homem que tentara fugir e o homem que despertava ali.

Estava deitado de lado, preso ao chão. Tentei catalogar o que doía, mas não consegui. A dor era toda ao mesmo tempo, algo que nunca me havia acontecido, porque sempre fora eu quem a distribuía com precisão. Queria me encolher em posição fetal, mas o corpo não obedecia.

Minhas mãos, puxando novas correntes, tatearam o corpo até alcançarem o pescoço, onde encontraram uma barra de metal ligada a uma corrente. Espertas, pensei. Aprenderam comigo.

Mas o pensamento que veio logo depois — é assim que elas se sentiram — esse eu não soube de onde havia chegado.

Se continuassem assim, eu já sabia até onde iriam chegar.

— Ai! Preciso de água. Por favor. — Supliquei.

Senti o jato de um líquido de cheiro forte cair no meu rosto.

Urina.

— Malditas. — Grunhi.

Com muito suplício, consegui abrir os olhos. Ao meu redor, várias mulheres permaneciam de pé. Algumas usavam máscaras.

Ela não. Nunca precisou esconder o rosto, pois era a mais corajosa de todas, ou talvez apenas a que não tivesse mais nada a temer. Nunca imaginei que um dia sentiria tanto medo do rosto de uma mulher. Os outros rostos talvez se apagassem com o tempo. O dela, porém, eu não conseguia esquecer. O dela não. Permanecia quando eu fechava os olhos. Permanecia quando os abria.

Onde eu estava com a cabeça quando tentei fugir? Quando pensei em atacá-la?

Entre as que não usavam máscaras, minha memória reconheceu algumas do dia do julgamento. À extrema esquerda, uma mulher de cabelos ruivos e compridos, olhos azuis, lembrei-me dela imediatamente. A filha tinha os mesmos cabelos, os mesmos olhos, o mesmo semblante. Era impossível esquecer. Uma das minhas mais preciosas. Fiz questão de mantê-la em cativeiro por mais tempo que as outras.

Quando a sentença foi promulgada e fui absolvido por falta de provas, procurei aqueles olhos na plateia. Encontrei-os. Olhei para ela e sorri. Hoje, quem sorria era ela.

— Desgraçadas! — saiu um grito abafado, sem força.

Então vieram as gargalhadas, os xingamentos, as vozes, sobrepondo-se umas às outras. Todas mulheres.

Será que todas são mães? 

A pergunta ficou mais tempo do que eu deveria ter deixado. E eu estava ali, no centro, imóvel, cercado por cada uma delas.

Foram quantas? 

Vinte e três. Isso nunca esquecerei. Cada uma enterrada em um local diferente. Às vezes, perto do local onde eu as abordava. Facilitava a construção do mapa.

Pela primeira vez, compreendi que não havia para onde fugir.

Ela gargalhou. Uma risada seguida de um resmungo de dor. Abaixou-se para ajeitar o curativo da perna.

Além dos nomes, elas tatuaram o mapa no meu corpo. Eu estava todo marcado.

Minhas mãos passaram da barra de ferro presa ao pescoço para a cabeça. Senti uma ardência quando toquei o couro cabeludo. Haviam acabado de raspar meu cabelo. Isso era novidade. Nunca raspei o cabelo de nenhuma delas. O cabelo era precioso demais. Adorava cheirá-lo quando o desespero chegava ao auge.

Uma delas se agachou.

— Vamos fazer isso rápido, pois tenho compromisso.

— Eu seguro as pernas dele. — Uma voz nova.

Será que agora serei morto de vez? Pensei desejoso.

Ela respondeu:

— Não será preciso. Ele está fraco demais. Olha para isso. — Chutou minha perna.

Foi nesse dia que fiquei completamente na escuridão. Ou a escuridão se alojou muito antes disso? Uma barra grossa de ferro foi colocada sobre os meus olhos, e, perpendicularmente, outra barra de ferro foi posicionada sobre a minha cabeça, partindo dos olhos, passando pela nuca e alcançando a barra que estava no meu pescoço. Então comecei a escutar o som de uma furadeira.

O desespero que sentia chegou ao auge. Tentei me debater, tentei me mover, mas o corpo não respondia. A dor permanecia nítida.

Elas estavam me superando.

Seria isso possível? 

Eu havia feito vinte e três vítimas.

Era possível superar isso? 

Nunca. Elas jamais se igualariam a mim. Eram fracas.

O primeiro parafuso foi atarraxado diretamente no crânio. Meus gritos inundaram o lugar, reverberando pelas paredes e formando ecos que ecoam, desde então, nos meus ouvidos, na minha mente.

Na escuridão total, o tempo perdeu o nome; depois fui eu que perdi o meu. Não sei quanto tempo passou. Talvez horas. Talvez anos.

Às vezes penso que ainda sou aquele homem, reconheço sua voz, os pensamentos, a frieza com que tudo era calculado, ele continua aqui. Fica à espreita, em algum lugar dentro de mim, paciente, como se soubesse que, cedo ou tarde, eu acabaria voltando para ele.

Mas existe outro. Ele se lembra de tudo, se envergonha e sente horror. Às vezes deseja que aquilo tenha acontecido com outro homem, em outro corpo, em alguma vida que não fosse a minha.

Então vem o pensamento mais difícil: os dois sou eu.

Um se lembra e não se arrepende. O outro se lembra e gostaria de esquecer. Um olha para o passado e reconhece a própria face. O outro olha para a mesma face e pergunta como foi possível.

E eu fico no meio. Não sei qual deles pensa, não sei qual deles sente, não sei sequer se existe um terceiro, aquele que observa os dois e ainda espera descobrir de que lado deve ficar. Talvez eu já não seja nenhum deles, talvez seja apenas esse intervalo entre uma coisa e outra.

Quem sou para os outros?

O monstro que conheceram?

E para mim?

Um corpo encostado num canto, um espantalho que respira, que passa os dias sem agir, sem desejar, sem procurar. Às vezes ainda me pergunto se isso seria um alívio.

Hoje foi dia de visita, dia que ela me dá aquele comprimido adocicado. Esse traz de volta uma parte de mim que eu julgava morta. A cabeça clareia, o corpo responde, voltam a garra, a raiva, aquela antiga disposição para avançar sobre as coisas antes mesmo de pensar nelas. Tudo fica lúcido demais e volta sem distância: os lugares, os rostos, os gritos, os pequenos detalhes que eu preferia não lembrar. Não havia como olhar para o passado de longe. Eu estava novamente dentro dele.

Até onde aquilo que sinto é meu?

E até onde é delas?

O arrependimento que me corrói nasceu de mim? 

É possível que um homem se transforme assim? 

Que olhe para aquilo que foi e sinta nojo de si mesmo?

Ou tudo isso é apenas química?

Às vezes me arrependo amargamente de tudo; às vezes penso que finalmente me tornei outra pessoa; e às vezes desconfio das duas coisas. Porque, se o arrependimento pode ser provocado, então até a minha culpa deixou de me pertencer.

E se não for?

Se for realmente minha?

Então quem era aquele homem?

E quem sou eu agora?

Fecho os olhos, a escuridão continua, e, pela primeira vez, não sei qual dos dois está com medo.

Não consigo responder.

Talvez essa seja a pior parte ou talvez seja apenas o sétimo comprimido.

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Terapia de Conversão.

Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.

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