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A Clareira

Foto do escritor: Pedro Sucupira
Pedro Sucupira
há 5 dias
12 min de leitura

Atualizado: há 8 horas


Clareira ensolarada em uma floresta densa, com árvores altas, vegetação coberta de musgo e raios de luz dourada atravessando a copa.

Caminhávamos por quase três horas mata adentro. Eu já havia conferido o relógio cinco vezes nos últimos quinze minutos e perdido a conta de quantos ajustes fizera nas alças da mochila para distribuir melhor o peso. O silêncio da floresta era bonito, mas também me deixava alerta demais.

Sofia seguia à frente, conduzindo o grupo com a segurança de quem conhecia cada desvio da trilha. Apesar da baixa estatura, andava tão depressa que parecia estar sempre alguns segundos à frente do próprio corpo.

Parou diante de uma bifurcação e acenou energicamente.

— Rápido, meninas. É por aqui. Já estamos quase chegando!

Estava a uns cem metros de nós.

— "Quase chegando"... Você disse isso faz quarenta minutos. — resmunguei, sem saber se reclamava com ela ou comigo mesma.

Aceleramos o passo.

Fernanda encostou a palma da mão no tronco de uma árvore para recuperar o fôlego. Mesmo cansada, mantinha a postura ereta, como se admitir exaustão fosse uma ofensa pessoal.

— Quando eu pegar essa bruxa baixinha... — disse, balançando a cabeça com um sorriso de canto de boca. — Ela anda como se tivesse sido criada por capivaras.

Lá na frente, Sofia nem se virou.

— Eu ouvi isso!

— Claro que ouviu. Você deve ter pacto até com a audição.

Vanessa gargalhou.

— Se ela começar a correr, eu peço um Uber.

Até Lívia sorriu discretamente, abaixando a cabeça enquanto afastava um galho do caminho para que eu passasse. Era sempre assim. Falava pouco, mas parecia notar tudo.

Depois de alguns minutos de silêncio, Vanessa caminhou ao meu lado.

— Paula... será que ele não vai acordar antes?

Respirei fundo antes de responder. Minha mente refez automaticamente os cálculos de doses, tempo de ação, metabolismo e margem de segurança.

— Não se preocupe. Eu o sedei muito bem.

Ouvir minha própria voz tão segura chegou a me incomodar. Um sorriso involuntário escapou quando me lembrei da cena.

— Usei etomidato, cetamina, propofol, midazolam, fentanil... Fiz tudo de forma bastante criteriosa. Ele não vai acordar tão cedo.

Fernanda lançou-me um olhar de soslaio.

— Você fala isso como quem explica uma receita de bolo.

— Protocolos existem por um motivo — respondi quase automaticamente.

— Virginiana... — Vanessa suspirou teatralmente. — Aposto que, antes de sequestrar o homem, ela fez uma planilha.

— Fiz uma checklist.

As quatro caíram na gargalhada.

Lívia, à frente, recuperou o fôlego. Sua voz, sempre tranquila e acolhedora, soou como se estivesse comentando sobre o clima:

— Mas, mesmo se ele acordasse, seria impossível que conseguisse fugir. Acho que os nós que fiz ficaram fortes até demais. Poderia ter deixado um pouco mais frouxos.

— Por favor, Lívia. Nos poupe de sua bondade. Afrouxar? Jamais. — Fernanda respondeu de supetão, como se tivesse acabado de ouvir uma provocação e não uma simples sugestão. — Ele merecia que arrancássemos todos os membros e deixássemos só o tronco. Que cena linda.

Fernanda falava sempre assim, como quem estivesse prestes a enfrentar uma fera. Havia nela uma espécie de força que não fazia concessões. Nós conhecíamos aquela agressividade e, no fundo, a admirávamos. Ela parecia enxergar o mundo sem o véu das delicadezas, sem a necessidade de torná-lo mais suportável do que era. Onde nós ainda hesitávamos, ela já tinha visto. Onde procurávamos alguma desculpa, ela simplesmente apontava o que estava diante dos olhos.

Lívia limitou-se a olhar para Fernanda e sorrir. Era aquele sorriso que parecia desarmar qualquer pessoa. Meiga por fora, serena, quase doce, mas todas sabíamos que, por dentro, era a mais inabalável de nós. Não precisava levantar a voz, nem se impor. Havia nela uma firmeza silenciosa que, às vezes, assustava mais do que os rompantes de Fernanda.

Os rompantes de Fernanda, aliás, já haviam se tornado uma espécie de alívio cômico entre nós. Bastava alguém dizer alguma coisa que lhe parecesse absurda e ela explodia e nós ríamos. E, depois, seguíamos em frente.

Quando alcançamos Sofia, que nos esperava na bifurcação, batendo impacientemente a ponta da bota contra uma pedra, ela ergueu as sobrancelhas e voltou-se para mim.

— E onde você conseguiu todo esse medicamento?

Dei de ombros.

— No hospital é mais fácil do que parece. Um frasco aqui, outro ali... Ninguém percebe quando se sabe exatamente o que está fazendo.

Lívia, que permanecia calada desde a última curva da trilha, soltou uma risada baixa.

— Agora eu entendo de onde vem a fama dos anestesistas.

— A fama ou o medo? — perguntou Vanessa, caindo na risada.

— Muito engraçado — respondi.

— Eu só estou tentando descobrir se a doutora é respeitada ou temida.

Fernanda revirou os olhos.

— Você não consegue levar nada a sério, Vanessa?

— Consigo. Só não vejo por que começar agora.

Fernanda cruzou os braços. Por alguns segundos, permaneceu assim, olhando para Vanessa e tentando conter o riso. O rosto oscilava entre a irritação e a gargalhada, preso numa careta quase infantil. Por fim, descruzou os braços e apontou para a mata.

— Depois vocês continuam a sessão de comédia. Se a Sofia disse que estamos perto, então vamos logo.

Sofia sorriu satisfeita.

— Finalmente alguém sensata.

— Não se acostuma — respondeu Fernanda, retomando a caminhada. — Só quero sair daqui antes de escurecer.

— Gente, cadê a Cristina? — Fernanda gritou.

Todas paramos e olhamos ao redor.

Lá atrás, Cristina vinha arrastando os pés, completamente alheia à nossa preocupação. Caminhava devagar, ora observando as copas das árvores, ora parando para examinar um cogumelo que brotava da base de um tronco.

Quando finalmente nos alcançou, sorriu como se tivesse acabado de entrar na conversa.

— Vocês já repararam que toda floresta de filme de terror tem esse mesmo cheiro?

Ficamos em silêncio.

— Cristina... — Fernanda respirou fundo. — Você ficou para trás.

— Eu sei.

— E por quê?

Ela apontou para um emaranhado de líquens preso a um galho.

— Achei que fosse um líquen. Era um musgo. Passei uns cinco minutos tentando decidir.

Vanessa levou a mão à testa.

— A gente sequestrou um homem e ela está fazendo botânica.

— Não era botânica. Era curiosidade científica. São coisas diferentes.

Lívia sorriu discretamente.

Sofia, já impaciente, bateu os pés no chão.

— Cristina, anda!

Cristina ajustou os óculos no nariz e olhou para a mata ao redor com genuína admiração.

— Vocês não acham curioso que quase toda criatura mítica more em floresta? Faunos, dríades, leshy, kodamas... É um padrão narrativo interessante.

Fernanda cruzou os braços.

— Eu acho curioso como você consegue estar em outro universo o tempo inteiro.

— É um mecanismo de defesa.

E voltou a caminhar como se aquilo encerrasse completamente o assunto.

Depois da bifurcação, Sofia reassumiu a dianteira. Caminhamos por mais uma hora. A trilha tornava-se cada vez mais fechada; as árvores cresciam em altura e espessura, cipós pendiam dos galhos como cordas abandonadas, e a luz da tarde já mal conseguia atravessar o teto de folhas que se fechava sobre nossas cabeças.

Seguíamos em silêncio, cada uma no seu próprio ritmo. Fernanda mantinha o passo firme, sempre alguns metros atrás de Sofia, como se inconscientemente protegesse a retaguarda. Vanessa, mesmo ofegante, ainda encontrava disposição para assobiar melodias que nunca terminavam. Lívia caminhava observando tudo ao redor, desviando dos galhos sem quebrar um único ramo. Cristina, por sua vez, havia parado duas vezes para fotografar fungos no tronco de árvores caídas e, em algum momento, começou a comentar sozinha que aquela floresta lembrava os cenários de Aniquilação.

Eu apenas contava os passos. A ansiedade costuma precisar de números. Foi então que algo chamou minha atenção.

— Meninas... o que é aquilo?

Apontei para um símbolo entalhado grosseiramente no tronco de uma árvore.

Sofia sequer precisou se aproximar.

— É o Sigilo de Lilith.

Passou os dedos sobre a madeira como quem reencontra uma velha conhecida.

— Já estamos quase chegando.

— Parece que não é só ali... — observou Lívia, apontando mais à frente.

Seguimos com os olhos. Outro tronco. Depois outro. Mais adiante, outro. O mesmo símbolo reaparecia, gravado na casca com aquela profundidade irregular, como se mãos diferentes o tivessem repetido ao longo de muitos anos.

— Toda vez que venho tenho a impressão de que alguma coisa mudou — disse Fernanda. — A floresta inteira parece se reinventar. O caminho nunca é o mesmo. E olha que tenho boa memória.

— Não é impressão — respondeu Sofia.

Apontou para as árvores adiante, onde os sigilos surgiam entre os galhos, às vezes quase apagados, às vezes tão fundos que pareciam ter sido abertos na madeira ainda jovem.

— Ela muda. — Os olhos de Sofia brilharam de reverência. — A floresta. O templo. O caminho não pode ser encontrado duas vezes da mesma maneira.

Ficamos em silêncio.

— É uma proteção — continuou ela. — A cada retorno, só uma de nós guarda a lembrança do caminho.

— E, nos últimos anos, foi você — comentei.

— Foi.

Sofia continuou andando.

— Não é a única coisa que muda. Cada uma recebe uma tarefa. Eu encontro o caminho.

— Fernanda encontra a oferenda — acrescentou Vanessa.

Fernanda lançou-lhe um olhar de lado.

— E você captura.

— Eu capturo.

Vanessa sorriu, satisfeita.

Fernanda voltou os olhos para a mata.

— Aquele infeliz merecia muito mais — disse, quase para si. Um sorriso pequeno apareceu no canto da boca. — Espero que a morte se esqueça dele por muitos anos. Que a Deusa ainda lhe reserve um pouco mais de sofrimento.

— Cristina registra tudo no livro — disse Lívia. — Cada ritual muda alguma coisa. Se não escrevermos, esquecemos.

Cristina não respondeu. Apenas apertou contra o peito o livro que carregava na bolsa tiracolo de couro.

— E eu preparo as oferendas — continuou Lívia. Sorriu. — Gosto dessa parte.

Havia alguma coisa estranhamente serena naquele sorriso.

— E eu faço o esquartejamento — completei. — A Deusa nunca escolhe por acaso. Ela sabe que a oferenda precisa permanecer viva até o fim.

À medida que avançávamos, as marcas se multiplicavam até que, sem percebermos exatamente quando, a floresta inteira parecia coberta por aquele sigilo. Não havia tronco que escapasse ao desenho. Era como se a mata tivesse deixado de ser apenas floresta para tornar-se um imenso templo, onde cada árvore servia de coluna e cada símbolo lembrasse que, dali em diante, estávamos caminhando por um território que pertencia a outra vontade.

Uma reverência silenciosa tomou conta do grupo. As conversas cessaram sem que ninguém precisasse pedir. Caminhávamos de cabeça baixa, instintivamente mais devagar, como se a própria floresta exigisse discrição.

Foi Sofia quem rompeu o silêncio.

— Chegamos!

Uma rajada suave percorreu a copa das árvores. O farfalhar das folhas atraiu nossos olhares para o alto e, quase ao mesmo tempo, percebemos que a mata havia se aberto.

Estávamos no centro de uma clareira perfeitamente circular.

Nenhuma árvore ultrapassava seus limites. Era como se alguém tivesse desenhado aquele círculo com um compasso sobre a floresta.

Ali, até os detalhes pareciam obedecer a uma ordem sagrada.

Musgos, líquens e plantas rasteiras brotavam do solo formando desenhos que lembravam antigos sigilos. Alguns eram simples; outros, intrincados o suficiente para parecerem escritos numa língua anterior à humana. Não havia qualquer sinal de intervenção recente. Era a própria natureza quem os desenhava, como se a floresta cultivasse seus próprios símbolos.

Cristina deu um passo à frente, os olhos brilhando por trás dos óculos.

— Isso me lembra Princesa Mononoke... Como se a floresta tivesse consciência de si.

Pela primeira vez desde o início da caminhada, nem Vanessa encontrou espaço para uma piada.

— Tomara que tudo dê certo. — Vanessa quebrou o silêncio.

Fernanda soltou um riso curto, daqueles que não chegam a ser uma risada.

— Esperança, amiga, é o consolo dos pobres.

Vanessa fez uma careta.

— Tenha dó, Fernanda.

— Eu tenho dó é de mim, que tenho de lidar com gente burra todo dia. — respondeu, no mesmo tom ácido de sempre.

Cristina agachada levantou a cabeça.

— Na verdade, a esperança era a última coisa que restava na caixa de Pandora. Tem uma discussão enorme sobre se aquilo era um presente ou uma maldição.

Ninguém respondeu.

Vanessa olhou para mim e sussurrou:

— Ela faz isso de propósito.

— Estatisticamente, pessoas pessimistas costumam sofrer menos frustrações... — comentou Cristina, distraída, observando uma samambaia.

Lívia sorriu disfarçadamente. Até Fernanda deixou escapar um sorriso de canto de boca.

— Vamos nos sentar — comandou Sofia.

Sem que ninguém precisasse de novas instruções, formamos um círculo acompanhando o contorno perfeito da clareira.

Ela esperou que todas se acomodassem.

— Tudo o que não será utilizado deve permanecer fora do círculo. Deixem consigo apenas o necessário.

Uma a uma, deixamos mochilas, garrafas e casacos próximos às árvores. Dentro da clareira, nada podia existir além do ritual.

Lívia apoiou a palma da mão sobre o musgo que revestia o chão. Fechou os olhos.

— Como eu amo este lugar... — disse quase num sussurro. — É o único lugar em que realmente me sinto segura.

Um silêncio respeitoso se instalou.

— Eu também — respondemos quase ao mesmo tempo.

Sofia respirou fundo. Seu semblante, sempre inquieto, adquirira uma serenidade incomum.

— Hoje completamos mais um ciclo desde a formação do nosso clã. Como em todos os anos, retornamos para agradecer, renovar nossos votos e entregar nossa oferenda.

Ergueu discretamente o queixo.

— Salve.

— Salve — respondemos em uníssono.

No centro da clareira, Fernanda já havia erguido um pequeno altar de pedras. Não era alto nem ornamentado.

Sofia fez um gesto com a cabeça.

Lívia levantou-se primeiro. Retirou da mochila um embrulho de algodão cru, cuidadosamente amarrado por um cordão de sisal. Ajoelhou-se diante do altar e o desenrolou com uma delicadeza quase maternal.

No interior repousava uma mão decepada, cuidadosamente limpa e sem qualquer vestígio de sangue, quase como se tivesse sido moldada em cera.

Por um instante, lembrei-me dos olhos da oferenda. Ainda estavam arregalados de horror quando o bisturi tocou a pele. Depois vieram os primeiros cortes, a resistência dos tecidos, o sangue quente escorrendo pela minha mão. Eu sabia exatamente onde cortar. Era apenas uma questão de anatomia.

Lívia acomodou a mão sobre a pedra como quem devolve um objeto precioso ao seu verdadeiro dono.

— À terra que nos sustenta e aos antigos poderes, ofereço este presente em sinal de respeito e gratidão.

Voltou ao círculo.

Vanessa foi a seguinte. Depositou um pé.

— Àquela que guia nossos caminhos, ofereço os passos de quem ousou nos perseguir.

Lembro-me de quando ele acordou. Estava preso à cama, cercado por nós. Abriu os olhos de repente e se debateu. Tentou gritar, mas o som morreu dentro da boca costurada. Ficou apenas aquele ruído abafado, úmido, desesperado, que atravessava a sala e parecia não vir mais de uma garganta humana.

Fernanda aproximou-se logo depois. Sem hesitar, colocou duas orelhas e um nariz sobre o altar.

— Que os antigos ouçam apenas aqueles que sabem escutar.

No momento de extrair as orelhas é que a Deusa nos concedia o seu verdadeiro presente.

As lembranças vinham sem aviso. Não eram só imagens, mas sim vidas inteiras despejadas dentro de nós. E compreendíamos.

Compreendíamos por que aquele homem havia sido escolhido. O que ele fizera. As crianças. As mulheres. Os anos de impunidade protegidos pelo sobrenome, pelo dinheiro, pelo pai desembargador, pelas portas que sempre se abriam quando deveriam permanecer fechadas.

Tudo vinha de uma vez. E, quando as lembranças terminavam, restava apenas a certeza:

A Deusa não errava.

Cristina caminhou distraidamente até o centro, como se ainda estivesse pensando em algum livro. Colocou dois rins ao lado das demais oferendas e ficou alguns segundos olhando para eles.

— Dizem que, na Antiguidade, eram os rins, e não o coração, a sede da consciência. Sempre achei essa ideia bonita.

Era exatamente o tipo de comentário que Cristina faria. Então começou a cantarolar. Primeiro baixinho, quase para si mesma. Uma melodia que eu não conhecia.

O som das folhas se intensificou, como se o vento tivesse encontrado o mesmo ritmo. Voltei a escutar os gemidos abafados que atravessavam a boca costurada e que se misturavam ao canto de Cristina. Havia alguma coisa hipnótica naquela mistura de canto e sofrimento, como se um som respondesse ao outro.

Aos poucos, o canto de Cristina deixou de parecer um som vindo de uma pessoa e passou a se misturar à própria clareira.

Sofia aproximou-se por último antes de mim. Retirou um fígado do embrulho e o acomodou bem ao centro das pedras.

— Àquela que transforma morte em permanência, entrego o órgão do renascimento.

Então todos os olhares recaíram sobre mim. Respirei fundo. Abri meu embrulho devagar. Ali repousava o pênis, a última parte da oferenda. Levei-a até o altar e a depositei junto às demais.

O silêncio que se seguiu não era apenas ausência de som. Era como se a clareira tivesse prendido a respiração. O vento cessou. As folhas permaneceram imóveis. Até os galhos, que há pouco se agitavam acima de nossas cabeças, pareciam suspensos.

Foi então que todas sentimos e todas vimos.

O homem sedado, respirando lentamente onde o havíamos deixado. O corpo se arqueou todo, de uma vez, como se alguma coisa o tivesse arrancado de um sono profundo. Ele tentou gritar, mas a boca costurada produziu apenas um som abafado, quase um lamento. As pálpebras, também fechadas pelos pontos, começou a sangrar sob a força desesperada com que ele tentava abri-las. Mesmo com os olhos costurados, ainda assim, tive a estranha impressão de que ele nos via.

Os nós feitos por Lívia começaram a se mover. As cordas se enroscaram mais profundamente, rasgando a pele, espremendo, e ele se debateu outra vez.

Então vimos o sangue. Primeiro, apenas uma fina linha escura. Depois outra. E mais outra. Vimos que não era apenas sangue que deixava aquele corpo. Alguma coisa vinha com ele. Alguma coisa atravessava o chão da clareira e chegava até nós.

Senti o peito se encher de ar, como depois de um longo mergulho. O cansaço desapareceu. O coração bateu mais forte. Ao meu redor, as outras também respiravam profundamente, como se acabássemos de despertar de um sono.

Enquanto a vida dele se esvaía, alguma coisa em nós se renovava. Era preciso que ele morresse para que nós continuássemos vivas.

Foi então que compreendemos: o ritual havia começado.

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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.

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