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O Deus-Porco

Foto do escritor: Pedro Sucupira
Pedro Sucupira
24 de set.
10 min de leitura

Atualizado: há 20 minutos


Rapaz ajoelhado e curvado diante dos pés descalços de uma pessoa em pé, em um ambiente escuro com iluminação quente e atmosfera dramática.

José Miguel permanecia parado sob o ipê, segurando a guia de seu cão vira-lata, enquanto observava, em silêncio, as árvores ao redor. Era meado de junho, e o frio já começava a se insinuar.  As folhas do ipê caíam lentamente, como um anúncio discreto do inverno que, dentro de poucas semanas, tomaria conta de tudo.

Assistir às folhas caindo era um de seus prazeres íntimos e inegociáveis. Havia naquela lenta decomposição uma beleza que José Miguel compreendia melhor do que muitos compreendem a alegria. Gostava de assistir às árvores ficando lentamente nuas, secas, anunciando a chegada de sua estação preferida.

Via sentido naquela lógica silenciosa da natureza. Para que o novo surgisse, era preciso que o velho caísse. José Miguel sempre acreditara nessa espécie de violência necessária do renascimento. Nunca tivera receio de arrancar pedaços antigos de si mesmo para que outros, mais fortes ou ao menos mais suportáveis, crescessem no lugar.

Abandonou a contemplação e iniciou o caminho de volta para casa. Já estava na hora de dar comida ao cão e de tomar o café. Pretendia também concluir a leitura de O Iluminado, de Stephen King, iniciada duas semanas antes. Estava ansioso para descobrir qual destino aguardava Danny Torrance e sua família naquele inverno sufocante, isolados entre as montanhas do Colorado, dentro do hotel Overlook e de sua arquitetura mal-assombrada.

O inverno lhe era tão precioso que, vivendo no Brasil, só conseguia experimentar a verdadeira sensação de frio congelante e o aconchego quase espiritual que dele emanava através da ficção. Sobretudo nas histórias de terror, que tantas vezes escolhiam como cenário aquele paraíso melancólico. Para José Miguel, aquela paisagem não representava medo, mas desejo. Era ali — entre o silêncio da neve, o estalar da lenha na lareira e a ameaça invisível da vastidão branca — que imaginava existir o cenário ideal para sua vida.

Os seres humanos pareciam condenados a desejar justamente aquilo que lhes faltava — uma existência menos feita de plenitude do que de ausência.

Ao entrar em casa, colocou ração para o cãozinho. Só então se permitiu sentar. Preparou uma xícara de café com leite, adoçada com duas pequenas colheres de açúcar, e acomodou-se para retomar a leitura. Aquele pequeno ritual doméstico lhe devolvia a sensação de ordem depois das banalidades do cotidiano. Na vida dividida entre o trabalho e os estudos, José Miguel fazia questão de preservar pequenos territórios de calma. Sempre que podia, entregava-se a manhãs lentas, sem pressa e sem grandes acontecimentos. Passeava com o cãozinho, lia, escrevia. Eram gestos simples, quase insignificantes aos olhos dos outros, mas que lhe permitiam escapar, ainda que por algumas horas, da ansiedade e da agitação que pareciam dominar o mundo moderno.

À medida que avançava pela narrativa sombria, José Miguel se pegava desejando ser um iluminado. Não queria apenas possuir algum dom sobrenatural. Queria ultrapassar os limites da experiência humana comum, enxergar o que os outros não podiam ver, compreender aquilo que permanecia oculto e tocar uma realidade que existisse para além daquilo que os sentidos eram capazes de alcançar. Havia nele uma atração quase infantil, mas também profundamente mórbida, por tudo aquilo que escapasse aos limites estreitos da realidade.

Passando as páginas, algo inesperado deslizou do interior do livro e repousou sobre seu colo. Era uma folha de papel escurecida, amarelada pelo tempo, com as bordas envelhecidas e corroídas. Parecia queimada pelo fogo.

José Miguel a recolheu com cuidado. No topo da página, escritas em letras negras desenhadas à mão com caneta-tinteiro, levemente inclinadas para a direita, havia três palavras:

Oração ao Deus-Porco.

Ao segurar a folha, sentiu um movimento atrás de si e se virou para olhar por cima dos ombros em direção ao corredor, mas não viu nada; ainda assim, tinha uma estranha sensação de canto de olho de que alguém, ou alguma coisa, acabara de se mover e se escondera atrás da porta, antes que seus olhos pudessem registrá-las.

A casa permanecia silenciosa. José Miguel voltou o olhar para o cão, que descansava deitado ao seu lado como um fiel guardião. Afagou-lhe a cabeça, buscando afastar a inquietação súbita que lhe atravessara o corpo, e voltou a atenção para a folha. A oração continuava com as seguintes palavras:


Ó Deus-Porco, senhor das bocas sem fundo,

abre os ventres da terra

e desperta a fome dos homens.

Faze crescer o desejo nos corações,

assim como a podridão cresce sob a carne esquecida.

Que os celeiros transbordem

e permaneçam vazios.

Que as mesas se encham

e jamais satisfaçam.

Ó Senhor das Moscas e das Profundezas,

ergue tua voz sobre os abismos

e faze tremer os ossos

daqueles que se julgam completos.

Que o ouro se multiplique em minhas mãos.

Que toda abundância produza uma falta ainda maior.

Grande Devorador,

ensina-me a desejar aquilo que não possuo

e a desprezar aquilo que já conquistei.

Que meus olhos encontrem beleza apenas no raro.

Que minha alma jamais conheça repouso.

Ó Rei do Pântano e do Mar Profundo,

faz de meu coração um poço sem fundo,

de minha mente, uma fome,

de minha vida, uma busca interminável.

Assim como os rios correm para o oceano sem enchê-lo,

que meus desejos corram para ti.

Assim como os homens erguem deuses para adorar,

que eu adore apenas a falta.

Ó Deus-Porco,

que devora os vivos,

os mortos

e os sonhos dos que ainda não nasceram,

ouve minha voz.

Alimenta-me com a fome.

E nunca com a paz.


José Miguel leu a oração como quem lê uma página qualquer de um livro. Não pronunciou as palavras em voz alta; limitou-se a acompanhá-las com os olhos, deixando que se formassem silenciosamente em sua mente. À medida que avançava pelas linhas, porém, algo começou a mudar. Os dedos que seguravam a folha passaram a tremer. O coração acelerou, pulsando com força contra o peito. Um calor estranho espalhou-se pelo corpo, enquanto as pernas, antes confortavelmente dobradas sob a poltrona, começaram a se esticar.

Então percebeu que estava se movendo. Não por vontade própria.

Havia uma delicadeza perturbadora naquele movimento, como se uma corrente invisível o conduzisse. Nenhuma violência. Nenhuma dor. Apenas uma irresistível sensação de entrega. Tentou interromper a leitura. Tentou desviar os olhos do papel. Tentou fechar a folha ou voltar a atenção para qualquer outro objeto da sala. Não conseguiu.

Era como se a oração desejasse ser lida. Aquelas palavras pareciam carregadas de uma ansiedade acumulada ao longo de séculos, aguardando pacientemente por alguém que lhes devolvesse existência através da leitura.

Quando chegou à última linha, José Miguel já não estava sentado.

Encontrava-se ajoelhado sobre o chão da sala.

A cabeça pendia levemente para frente. As mãos seguravam a folha com um cuidado quase reverencial. Em nenhum momento se lembrava de ter decidido assumir aquela posição. O movimento acontecera de forma gradual, espontânea, como uma folha sendo conduzida pelo vento. Seu corpo parecera perder todo o peso, toda resistência, toda autonomia.

E, enquanto a oração se completava em sua mente, ele compreendeu com um desconforto crescente que não fora ele quem lera aquelas palavras. Foram elas que o haviam lido primeiro.

De repente, de uma só vez, seu corpo foi libertado da força invisível que o conduzia. As mãos caíram inertes, e, logo em seguida, ele próprio desabou sobre o chão da sala. Teve reflexos suficientes apenas para virar o rosto antes do impacto, evitando bater a face contra o piso.

Permaneceu alguns segundos imóvel, tentando compreender o que acabara de acontecer. O coração ainda disparado. A respiração curta. Os músculos estranhamente fatigados, como se tivesse percorrido uma longa distância sem sair do lugar.

De relance, percebeu que o cão continuava adormecido no sofá. O peito do animal subia e descia lentamente, num ritmo sereno e constante, como se estivesse sob o efeito de um sedativo profundo. Nem sequer abrira os olhos.

José Miguel apoiou as mãos no chão e tentou se erguer. Os braços tremiam. Fez força, como quem executa uma flexão lenta e desajeitada, até conseguir elevar o tronco alguns centímetros. Então levantou a cabeça.

Foi nesse instante que o viu.

A pouco mais de um metro de distância, imóvel sobre o assoalho da sala, havia um par de pés. Descalços.

José Miguel sentiu o sangue abandonar-lhe o rosto. Seu olhar subiu alguns centímetros, mas algo dentro dele hesitou. Uma parte de sua mente já sabia que, acima daqueles pés, encontraria alguém. Outra parte, mais instintiva, suplicava para que não olhasse.

Sem saber o que fazer com o corpo, que aos poucos voltava a lhe obedecer, nem com a mente, que lentamente recuperava a lucidez, permaneceu ajoelhado, o rosto voltado para o chão, encarando apenas os pés da figura que surgira à sua frente. Por um breve instante, cogitou tratar-se do Deus-Porco. Mas aqueles pés eram inequivocamente humanos. Não havia cascos. Não havia patas. Não havia nada de suíno neles.

Reparou que os pés eram lisos, impecavelmente cuidados. Grandes, de proporções harmoniosas, com os dedos obedecendo à ordem quase perfeita da anatomia: o dedão robusto, seguido pelo segundo dedo apenas ligeiramente menor; depois o dedo médio, e assim sucessivamente até o mindinho.

Os pés estavam imóveis. Havia algo naquela imobilidade que fez José Miguel prender a respiração. Não sabia exatamente o que o incomodava, mas sentiu um arrepio percorrer o corpo. Era uma firmeza serena, uma espécie de controle silencioso que tornava aqueles pés mais inquietantes do que qualquer movimento poderia ser. Quanto mais os observava, mais difícil lhe parecia acreditar que aquela quietude fosse natural.

Pés de guerreiro, pensou

O Deus-Porco era humano demais para um porco. Nada de divino transparecia naqueles pés. Onde estava o sobrenatural, além do simples fato de que, um instante antes, eles não estavam ali e, agora, estavam? Perguntava-se. Onde estava o divino?

Certamente não nos pés. Deuses possuíam pés? E, se possuíam, por que eram tão comuns? Nunca havia pensado nisso.

Parecia-lhe absurda a ideia de que aqueles pés pertencessem a uma divindade. E, no entanto, era justamente essa banalidade que os tornava perturbadores. Os pés do Deus-Porco eram humanos demais, comuns demais, próximos demais. Talvez fosse isso que os tornasse tão desejáveis. Pela primeira vez, José Miguel pensou na oração. Ensina-me a desejar aquilo que não possuo. A frase atravessou sua mente sem que soubesse de onde vinha. Olhou novamente para os pés. Estavam ali. Ao alcance de seu corpo, mas ainda assim impossíveis de possuir. 

E quanto mais próximos pareciam, mais queria tocá-los.

Ainda ajoelhado, José Miguel apoiou o peso do corpo sobre os braços e impulsionou lentamente a cabeça e o tronco para a frente. Permanecia curvado, em atitude de reverência, incapaz de erguer os olhos. Tinha medo de contemplar o rosto daquele que supunha ser o Deus-Porco.

Aproximou-se devagar até que a ponta do nariz tocou a ponto do dedão. Inspirou. Um perfume inesperado invadiu-lhe os sentidos: o sal delicado do suor misturado a notas doces de lavanda francesa e morangos silvestres. Os pés permaneceram absolutamente imóveis.

Voltou a inspirar, dessa vez com mais profundidade. O aroma parecia ganhar corpo a cada respiração, embriagando-lhe a mente com uma fragrância ao mesmo tempo terrestre e impossível. Como se o perfume pertencesse a alguma memória primordial da natureza.

Sem perceber, deixou que a ponta do nariz deslizasse da extremidade do dedo até sua base, seguindo lentamente pelo peito do pé. Cada centímetro percorrido era acompanhado por uma nova inalação, como se buscasse decifrar, pelo olfato, a essência daquela presença.

Já não distinguia com clareza onde terminava sua curiosidade e começava o encantamento. Sentia-se tomado por uma força silenciosa, irresistível, que o impelia a permanecer ali, explorando com uma devoção quase litúrgica aquela matéria estranhamente humana e, ao mesmo tempo, incompreensivelmente divina.

Continuou a inspirar o cheiro dos pés com uma avidez cada vez menos contida. As pálpebras se fechando lentamente, entregues a um prazer silencioso. Não resistiu. Já estava tomado. A boca abriu-se levemente à medida que avançava. Os olhos, fechados em total êxtase e entrega, acompanharam o gesto enquanto ele começava a lamber o peito daqueles pés.

Foi então que sentiu as mãos.

Grandes, pesadas, surpreendentemente delicadas, pousarem sobre sua cabeça. Os dedos começaram a massagear lentamente seu couro cabeludo, percorrendo seus cabelos com uma ternura quase maternal. Afagavam-lhe os cabelos, incentivando, massageando a mente, o ego, o orgulho. O movimento de vai e vem, pressionando-lhe suavemente a cabeça para baixo, sugerindo submissão, fazia crescer nele a vontade de possuir aquele que estava à sua frente.

A oração voltou-lhe à memória — Alimenta-me com a fome e nunca com a paz — e José Miguel percebeu, com um arrepio, que talvez tivesse sido atendido.

A língua tocou a carne. O sabor era quente, salgado, quase adocicado. José Miguel abriu os olhos. Não estava mais na sala. A escuridão o envolvia novamente, mas agora havia algo sobre seu colo. Um pé. Humano.

Os olhos se arregalaram, a expressão no rosto mudou. Um terror invadiu-lhe. E então percebeu. Ainda ligado à perna, embora a dor não existisse, era o seu próprio pé. Suas mãos o seguravam com delicadeza enquanto seus dentes já haviam encontrado a carne.

Deveria ter gritado. Mas não conseguiu. Seu corpo reagiu antes que pudesse impedi-lo. A pele se arrepiou, os músculos se contraíram, o coração disparou. Sentia cada resposta fisiológica, cada pequeno movimento, cada alteração da respiração. Sua consciência permanecia intacta. Sabia o que estava acontecendo. Sabia que deveria recuar. Mas não recuou. 

Assistiu, de dentro de si mesmo, enquanto o próprio corpo continuava a agir. Os músculos obedeciam a uma vontade que não era a sua. A mão se movia. A cabeça se inclinava. A respiração se aprofundava. A mandíbula se movia. Primeiro, lentamente, quase como um reflexo. Depois, num ritmo contínuo. Sentiu os músculos do rosto se contraírem, os dentes se encontrarem, a língua deslocar o que havia dentro da boca. A saliva se acumulou. A garganta trabalhou por conta própria. Então veio o reflexo da deglutição: a garganta se contraiu, a língua pressionou o palato e aquilo desceu pelo esôfago.

Ele sentia tudo, compreendia tudo, mas não conseguia interromper nada. 

Era um espectador aprisionado no próprio corpo. 

E, para seu horror, percebeu que o corpo não estava apenas desobedecendo à sua vontade. Estava desejando.

Estava sendo guiado pelo desejo da oração. Uma necessidade antiga, absoluta, que parecia ter existido dentro dele muito antes daquela noite.

Continuou a comer.

A cada mordida, sentia-se mais satisfeito e, ao mesmo tempo, mais vazio. A carne desaparecia entre seus dentes, mas a fome permanecia. Quanto mais devorava, mais queria.

José Miguel fechou os olhos e entregou-se ao afago das mãos. Continuou comendo.

Não havia mais diferença entre prazer e horror. Entre fome e saciedade. Entre aquele que devorava e aquilo que era devorado.

E, enquanto os dedos do Deus-Porco massageavam sua cabeça, uma voz grave sussurrou junto ao seu ouvido:

— Você finalmente compreendeu.

José Miguel sorriu mesmo diante da compreensão de que estava amaldiçoado. E continuou a comer. A fome nunca terminaria.

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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.

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