Sete
Atualizado: 6 de out.

Em um fim de tarde, Adão encontrava-se no jardim, rastelo em mãos, cuidando do terreno, limpando-o com atenção e preparando a casa para um encontro familiar. Ivo fora ao encontro dos filhos, netos e bisnetos, que logo mais chegariam.
— Adão, onde estás?
Ao escutar aquela voz, cada músculo de Adão retesou. Parou o rastelo, olhou ao redor e permaneceu em silêncio. Não havia mais razão para se esconder. Virou o rosto e deparou-se com um ser extremamente velho, quase decrépito, frágil, como se estivesse à beira da dissolução. Viu uma entidade cuja presença não emanava vida nem amor. No jardim, o pai era um abismo que só exalava o desejo por poder, expansão e domínio.
Mais uma vez, o pai invadia sua privacidade sem ser convidado. Quando adolescente, Sete entrava no quarto de Adão sem bater. Não por descuido, mas sim por mera indiferença ao limite.
Numa tarde, Adão havia organizado os livros por tema: filosofia, ficção científica, poesia. Havia nisso um prazer pequeno, a sensação de ter decidido alguma coisa. Saiu para o banheiro. Quando voltou, Sete estava sentado na cama, um livro no colo, os demais, reorganizados por tamanho na estante.
— Fica mais arrumado assim — disse Sete.
Não havia raiva no tom. Apenas uma certeza incômoda, que destruía até a maior das convicções. Era assim que ele operava. Sem gritos, sem ameaças. As regras chegavam como verdades evidentes, instalavam-se antes que se pudesse perceber, e quando Adão se dava conta, já não sabia mais o que era vontade própria e o que era obediência.
Sete não exigia submissão. Ele a produzia.
Diante da imagem de Sete, rodeado pelas folhas secas que varria, os dedos apertaram com tamanha força o cabo do rastelo que as unhas, ainda sujas de terra, cravaram-se na palma da mão.
Sete sorriu.
— Quero falar com meu filho. Trazer-lhe uma nova perspectiva do que o aguarda, caso insista em me negar.
Aquele sorriso gasto e calculado. Nunca mudara.
Quando Adão construiu uma cabana com os irmãos, levaram semanas. Paletes, papelão, tábuas da garagem, um tapete de saco no chão. A sensação de ter um lugar.
No domingo de manhã — era domingo, ele sempre soube que era domingo, dia de descanso do pai —, foi ao quintal e a cabana não estava mais lá. Tábuas empilhadas junto à garagem, a terra revolvida. O pai estava na varanda.
— Estava bagunçando o quintal — disse Sete, sem levantar os olhos, com aquele sorriso gasto e calculado.
Adão olhou para os irmãos, mas nenhum falou. Aprendeu, ali, o que se aprende uma vez e nunca mais se esquece: o que se constrói sem permissão pode ser desfeito sem explicação.
Adão afrouxou as mãos do rastelo e deu um passo à frente.
— Pois saiba que aqui não há filho seu. Nunca houve filho. Nunca houve casa. Nunca houve lar. Tudo ilusão criada para dominar, aprisionar e satisfazer uma necessidade narcisista de um ser estéril.
Enquanto falava, teve a estranha sensação de enxergar, pela primeira vez, a própria vida. Passara quarenta anos naquela casa como quem permanece tempo demais na mesma posição até esquecer que o corpo foi feito para caminhar.
Nunca trabalhara. Anos antes, concluíra um curso técnico em informática. Quisera continuar os estudos, mas o pai encerrara o assunto com a autoridade de quem não admitia réplica.
— Faculdade não é necessária. Um curso técnico basta para você se manter.
Adão apenas ouvira. Como sempre fazia. A cabeça baixara sozinha, obedecendo a um gesto aprendido muito antes de compreender o seu significado.
Naquela casa, sob a vigilância do pai, os dias sucediam-se iguais. Permanecia no quarto entre livros, jogos e séries; uma existência organizada ao redor do mínimo, confortável o bastante para não parecer uma prisão. Saía pouco e, quando saía, era ao lado do pai, carregando alguma ferramenta, algum saco, alguma caixa — tarefas pequenas o suficiente para fazê-lo acreditar que participava da vida, embora jamais a conduzisse.
Era um homem alto, beirando os dois metros. O tempo livre preservara-lhe o corpo; e a barba espessa, os cabelos escuros presos num coque frouxo, acentuavam uma beleza discreta que intrigava a vizinhança. Como podia um homem assim permanecer escondido? Ninguém compreendia.
Os olhos, porém, desfaziam a impressão. As olheiras profundas denunciavam um cansaço que o sono jamais alcançava, como se alguma parte dele permanecesse desperta havia décadas.
Naquela mesma casa onde conviveu com seis irmãos, viu-os partir, um a um. Descobriram, cada qual a seu tempo, que aquele lar era apenas uma extensão da vontade do pai. Adão foi o único que permaneceu. Não porque acreditasse mais do que os outros, mas porque, quando percebeu a verdade, já não sabia para onde ir. Ficou para trás, guardando uma casa que nunca lhe pertencera, desempenhando o papel de filho numa peça escrita para satisfazer um único espectador.
Adão continuou.
— Todos já conhecemos a verdade. Arrancou-nos de nossas origens e nos criou como prisioneiros, sob um jugo de culpa que jamais nos pertenceu.
O pai permaneceu em silêncio por um instante, como se pesasse cada palavra.
— E, ainda assim, estás aqui — respondeu, com calma. — Vivo. De pé. Pensando com a mente que eu te dei. Falando com as palavras que te ensinei.
— Não. Jamais! — Adão gritou batendo o rastelo no chão. — Estou aqui apesar de ti. Não por tua causa.
— Apesar de mim? — o pai repetiu, aproximando-se lentamente. — Tudo o que és nasceu sob o meu olhar. Cada dúvida tua, cada medo, cada limite... fui eu quem semeou. Eu estou em ti, Adão. Mais do que imaginas.
Adão sentiu o peso das palavras, mas não recuou.
— Estavas. — corrigiu. — Hoje, eu te vejo e ver é o início do fim.
O vento atravessou o jardim. As folhas tremularam. Sete inclinou levemente a cabeça, estudando o filho.
— E o que farás com isso? — perguntou. — Arrancar-me de ti? Extirpar aquilo que te formou?
Adão respirou fundo.
— Não preciso arrancar. Basta não obedecer.
O pai deu mais um passo. Agora estavam próximos.
— Acreditas mesmo nisso? — disse, com uma voz mais baixa. — Acreditas que a liberdade é apenas um gesto de vontade?
Adão sustentou o olhar, escutou a voz de Sete e nela não viu mais o comando do mundo, mas o ruído de uma máquina antiga e gasta. O pai ainda tentava convencê-lo de que a liberdade era uma troca de senhores, uma ilusão interna que jamais silenciaria a culpa.
Aquela obsessão com idolatria. Por que falava tanto em ser o único? Esse discurso sempre fora irritante.
Sete sorriu novamente.
— Acreditas mesmo nisso? — repetiu.
Adão avançou em direção ao pai. Passos lentos, medidos, como quem reflete e calcula cada sinal que lhe fora revelado. Perscrutava o pai, o espaço ao redor, tudo aquilo que o cercava, o jardim, a casa, agora ameaçados por uma presença da qual julgava já ter se emancipado.
Enquanto caminhava em direção ao usurpador, Adão os viu. Viu Ivo, os filhos e os netos que se aproximavam. Viu sua família.
Adão só tinha olhos para Ivo — que um dia fora Eva.
Conheceram-se jovens. Eva era luminosa com uma coragem que Adão admirava. Com o tempo, Eva deixou de caber no nome. E para Adão aquilo foi um deslocamento — não da pessoa, mas de tudo que ele pensava saber sobre si mesmo.
O afeto não mudou. O desejo, ainda que sem nome, também não. Tentou racionalizar. Tentou a distância. Mas Ivo tinha algo — a mesma coragem de antes — que sempre o puxava de volta.
— Eu jamais entrarei nesta casa — disse Ivo certa tarde, parado na calçada, do lado de fora do portão.
Enquanto falava, Ivo ergueu os olhos para a janela do segundo andar. Sete permanecia imóvel atrás do vidro, observando os dois. Não fazia qualquer gesto. Apenas seguia cada movimento de Adão com uma atenção silenciosa como quem vigia algo que lhe pertence.
Ivo voltou-se para ele.
— Você ainda não percebe, Adão... quem é o seu pai?
Adão abaixou a cabeça. Os ombros se fecharam sobre si mesmos, como os de uma criança apanhada em culpa que não sabe explicar.
O silêncio prolongou-se entre os dois.
— Eu amo você — continuou Ivo, mais baixo. — Mas esta casa nunca será um lar. Enquanto você permanecer aqui, tudo o que tentar construir vai pertencer a ele. Um lar de verdade só pode começar do lado de fora desse portão.
Foi com Ivo que constituiu família. Longe dos olhos do pai, aquela vida pôde, enfim, germinar. Cresceu como um jardim que jamais fora permitido, florescendo onde antes só havia contenção. Tiveram três filhos: Abelardo, Caius e Setheus.
Ali, não havia serpente; nem queda. Nem voz que interditasse o fruto. Cresceram sem a sombra de Sete, sem a vigilância que transforma afeto em obediência. Ali, a liberdade não era promessa, era prática. Os filhos cresceram como árvores em terreno aberto. Revestiram-se de conhecimento, criaram raízes próprias, tornaram-se fortes, resilientes, combativos na busca da verdade e na construção de si mesmos.
Sete continuava sorrindo, os dentes à mostra. O sorriso permanecia, mas os olhos já não participavam dele. Estavam perdidos em algum lugar onde ninguém mais podia alcançá-lo.
Foi nesse instante que a filosofia de Adão encontrou o gume do rastelo. Ele percebeu que, para desmentir a ideia, era preciso destruir o suporte que a sustentava. Se Sete era o "sistema" que organizava seu espaço e tempo, bastava provar que esse sistema era feito de tendões e sangue.
Ergueu o rastelo com uma força que desconhecia possuir e golpeou. O rastelo atingiu o rosto, logo acima dos olhos, abrindo a testa. Um grito de surpresa e agonia ecoou pelo jardim, reverberando por toda a propriedade.
Adão tentou puxar o rastelo, mas ele havia ficado cravado na fronte do velho. Fez mais força, e a ferramenta finalmente se desprendeu. O sangue começou a escorrer pela face do usurpador.
Sete levou as mãos ao rosto, incrédulo diante do que acontecera. Enquanto fitava as próprias mãos ensanguentadas, ainda tomado por um grito quase mudo que lhe rasgava a garganta, sentiu o golpe novamente. O sangue jorrou em abundância. O velho cambaleou; a consciência, enfim, começava a abandoná-lo.
Durante a queda, Adão desferiu novos golpes, e, quando o corpo já jazia no chão, continuou.
O sangue se espalhava pelo jardim, inundando os canteiros. Escorria entre a grama, acumulava-se na base das roseiras, dos amores-perfeitos, dos girassóis.
Ele ainda golpeava quando a família chegou.
Os filhos, Abelardo, Caius e Setheus, aproximaram-se. Retiraram o rastelo de suas mãos, enquanto Ivo o envolvia em um abraço.
A família reuniu-se ao redor. Entreolharam-se. Em silêncio, abaixaram-se. Cada um com sua ferramenta, uns com pás, outros com as próprias mãos, e juntos começaram a cavar a cova.
************************************************************************************
Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.
Se este texto te interessou, aqui no blog você encontra outros escritos meus, entre resenhas, contos, reflexões e poemas.
No Instagram, você me encontra como @pedrosucupiraa.
No Skoob, como Pedro Sucupira, onde compartilho os livros que li, estou lendo e pretendo ler.
E no Lattes, é possível acessar minha produção acadêmica, incluindo artigos científicos, capítulos e livros publicados.
Se quiser conversar, trocar ideias, críticas, sugestões ou experiências, sinta-se à vontade para me escrever: pdrohfs@gmail.com.



Comentários