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Negroni

Foto do escritor: Pedro Sucupira
Pedro Sucupira
22 de set.
7 min de leitura

Copo de Negroni em primeiro plano sobre uma mesa, com um homem loiro de olhar intenso ao fundo e convidados desfocados em um ambiente de bar sombrio e sofisticado.

Quando notaram sua presença, ninguém à mesa soube dizer quem havia chegado primeiro. Se ele já estava ali quando se sentaram, sem que o percebessem, ou se simplesmente havia escolhido a mesa errada.

Naquela comemoração de aniversário de Juliana, poucos se conheciam profundamente; alguns eram mais próximos, outros nem tanto. Ele permanecia sentado, com o drink apoiado sobre a mesa. Às vezes, olhava para o céu; outras, encarava quem ocupava o centro da conversa, como quem prestava atenção. Sabia que, em determinado momento, seria incluído. Sempre fora assim quando aparecia.

A aparência, considerada bela pelos padrões da sociedade, garantia-lhe fácil entrada e aceitação em muitos lugares. Cabelos loiros e ondulados, pele branca, corpo esbelto e forte. Os olhos nitidamente heterocrômicos funcionavam como um atrativo adicional à curiosidade de quem os percebia.

Em suas aparições e andanças pela Terra, sempre tomara o cuidado de assumir a forma mais atraente e aceitável aos olhos daqueles que encontrava.

Mantinha os gestos cautelosos e elegantes. O olhar, firme e penetrante. Cultivava uma aura enigmática, algo que funcionava muito bem em ambientes predominantemente ocupados por humanos narcisistas, sempre envolvidos em disputas veladas.

— E você? O que acha? — perguntou Fernando, arrogante, em tom de deboche, erguendo o copo e apontando para ele com um movimento de cabeça que pretendia transmitir superioridade.

— Você só se apaixona por quem não se interessa por você. — A voz saía sem inflexão, como quem comenta o tempo. — Quando alguém demonstra interesse, você some. Se não quebrar esse padrão, vai envelhecer se contentando com o que aparecer, em vez de construir algo bonito agora, com alguém que goste de você de verdade.

Completou a frase como quem fazia uma previsão.

Todos à mesa arregalaram os olhos. Juliana, a aniversariante, sentada à direita, bateu palmas.

— Está vendo? Eu sempre te digo isso. E olha que ele mal te conhece.

Essa última afirmação de Juliana saiu tanta convicção. Será mesmo que eles não se conheciam? O que ele dizia era específico demais. Já em sua primeira fala, o visitante havia tocado em um ponto sensível, dizendo em voz alta aquilo que todos à mesa pensavam, mas ninguém tinha coragem de expressar.

Fernando, visivelmente desconcertado com a maneira como havia sido exposto, procurou uma saída para a conversa, como fazia sempre que se via encurralado. Sorriu de lado, bebeu um gole e, numa tentativa quase infantil de devolver a leveza à mesa, perguntou:

— Qual é o seu signo?

— Áries... — respondeu o visitante, entre um gole e outro. — Ascendente em Escorpião.

Houve um breve silêncio. Não havia mais elasticidade nos olhos para que se arregalassem.

— Você é o verdadeiro cão — disse Rodrigo, sentado ao lado de Fernando. Tentou rir, mas a graça morreu antes de chegar à boca.

O visitante virou-se para ele com a mesma calma.

— Cão é você. Com essa cara de cachorro abandonado, ainda chorando pelo pé na bunda do namorado. — Deu outro gole. — Até quando vai continuar se lamentando por ser um escroto nojento? A culpa foi sua.

Voltou a atenção para o copo. Apoiou a bochecha na mão e soltou um suspiro de tédio, enquanto fazia o único cubo de gelo deslizar lentamente de um lado para o outro com a ponta do dedo.

— Negroni. — Essa cor intensa, âmbar escuro, como o próprio inferno. Quente aos olhos. Mas quando toca os lábios é frio como o Ártico. Há beleza maior do que esse contraste? O olhar cria uma expectativa. A boca encontra outra coisa — como se bebêssemos da morte sem saber que estamos bebendo.

Levantou os olhos. As pálpebras caídas, pesadas, como quem acordou há pouco. A mesa inteira o observava.

Apoiou o queixo na mão esquerda. Um dos cachos dourados escorregou sobre os olhos. Tentou afastá-lo com um sopro brincalhão, os lábios levemente voltados para cima. O cacho tornou a cair.

Deixou-o ali por alguns instantes, entretendo-se com ele até finalmente ajeitá-lo com a outra mão.

Quando voltou a atenção para a mesa, seu olhar passeou de rosto em rosto, demorando-se em cada um com uma precisão que desconcertava. Aqueles olhos — um azul, o outro castanho — provocavam em todos uma sensação difícil de nomear: havia neles alguma coisa acolhedora, quase íntima, e ao mesmo tempo profundamente incômoda.

Alguns desviaram o olhar e voltaram para os próprios copos, como se neles pudessem encontrar alguma coisa capaz de ocupá-los. Talvez estivessem, naquele instante, revendo a própria vida. Porque ninguém ali queria vê-la exposta. Todos guardavam segredos. Todos tinham alguma coisa que prefeririam manter enterrada.

Ainda assim, ninguém se levantava.

Poderiam ter ido embora. Bastava uma cadeira arrastada, um pedido de desculpas qualquer, uma desculpa inventada. Mas permaneciam.

A curiosidade pelo que ainda seria dito era maior que o instinto de sobrevivência. Estavam presos. Como presas hipnotizadas diante do predador.

O garçom reapareceu, quebrando a dinâmica e arrancando-os do transe, trazendo-os de volta à realidade. Oferecia, sem saber, a trégua e o alívio que todos ali, até então inconscientemente, pareciam clamar.

— Alguém deseja mais alguma coisa?

— Ah, eu vou querer outro desses — disse Fernando, quebrando o silêncio e apontando para o copo vazio.

Fernando e Rodrigo olharam para Juliana, sentada ao lado do noivo, Bernardo. Ele segurava a mão dela num aperto quase sufocante, enquanto os dois encaravam o visitante.

— Uma porção de batatas, por favor — pediu Juliana, soltando a mão das de Bernardo.

— Anotado — disse o garçom.

— Você não vai pedir nada? — alguém perguntou ao visitante. — Precisa decidir logo. A cozinha vai fechar.

— Logo é uma palavra exclusivamente humana.

Fernando girou o corpo na cadeira.

— Quem é você? Você chega sem pedir licença, senta na nossa mesa e começa a soltar essas acusações. Quem você pensa que é?

Ainda com os movimentos lânguidos, como se toda aquela tensão lhe despertasse apenas tédio, o visitante respondeu:

— Quem eu sou não é relevante. O que importa aqui é o quanto vocês se conhecem de verdade. Eu não tenho amigos para enganar. Mas enganar...

Retirou o dedo do copo e o levou lentamente à boca, lambendo-o enquanto percorria a mesa com os olhos, saboreando a tensão no ar.

— ...isso vocês fazem com maestria.

O garçom esboçou uma expressão entre a perplexidade e o constrangimento. Recuou dois passos e saiu.

O visitante começou a deslizar o copo em lentos círculos pelo tampo da mesa. O gelo batia nas laterais — era o único som audível. Por alguns momentos concentrou-se nos gritos das almas condenadas que se multiplicavam, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado, até que os uivos foram ficando mais remotos, abafados, como se viessem das profundezas da terra.

Quebrou o silêncio criando outro, mais pesado.

— Fernando, você já contou aos seus amigos o quanto é caloteiro? A quadrilha de estelionato? Os golpes em idosos, em gente que mal sabe se defender?

O visitante não parecia disposto a lhe dar sequer o tempo de uma resposta.

— E os golpes que aplicou na Carla, dizendo que tinha sido seu ex? — Fez uma pausa e soltou o ar devagar, como quem se livrava de um incômodo. — Isso também ficou de fora?

Os olhos voltaram para Fernando, cuja face havia perdido a cor. Abriu a boca. Fechou. Baixou os olhos para a mesa, onde o copo permanecia.

— Para mim já chega. — Bernardo empurrou a cadeira para trás. — Não dá para aceitar esse comportamento.

Estava a meio caminho entre sentado e de pé quando ouviu:

— Fica quieto. — O visitante ordenou. A voz monótona, o dedo ainda no gelo. — Ou quer que todo mundo saiba das suas aventuras de madrugada com sua prima?

Bernardo parou. Foi como se tivesse esquecido o próximo movimento. Esqueceu de respirar. Voltou a sentar.

Juliana virou-se para ele.

— Quais aventuras, Bernardo? — perguntou. Havia uma calma estranha na voz. — Posso saber?

— Eu não sei do que ele está falando, amor. — O canto da boca de Bernardo começou a tremer.

— Sabe perfeitamente. — O visitante levantou o rosto. Tomou um gole. — Como sabe.

Juliana se levantou. As palmas das mãos apoiaram-se sobre a mesa. Os olhos permaneceram em Bernardo.

— Do que ele está falando?

— Nada, mulher. Sossega. — Bernardo afastou o cabelo que lhe caía nos olhos e esvaziou a cerveja de um gole, embora já estivesse quente.

Com exceção do visitante, todos à mesa olhavam para a garrafa vazia entre as mãos de Bernardo.

— Parem de me olhar. Ele é o intruso aqui.

Ninguém respondeu.

Juliana continuava de pé. Ora olhava para Fernando, ora para Bernardo, como quem, diante de duas catástrofes, ainda não soubesse qual delas encarar primeiro.

O visitante girou o gelo devagar. Esperou.

— Eu ainda quero saber, Bernardo. O que você anda aprontando com sua prima?

A voz de Juliana saiu mais baixa dessa vez. A raiva, porém, já não precisava de volume. As mãos tremiam.

Bernardo não respondeu. A mão de Juliana permanecia apoiada sobre a mesa, os dedos agora fechados, como se precisasse se agarrar a alguma coisa para não perder o equilíbrio.

Ele pegou a garrafa de cerveja. Vazia. Ficou olhando para ela por alguns segundos, como se esperasse encontrar ali alguma resposta. Então sorriu.

Um sorriso curto. Desajeitado.

— Juliana... esse cara é louco.

Ninguém riu. O silêncio parecia ter engrossado o ar da mesa.

— A única prima que eu tenho tem cinco anos de idade.

Dessa vez ninguém desviou os olhos. Ele percebeu. Olhou para um. Depois para outro. Nenhum rosto lhe oferecia abrigo. Passou a língua pelos lábios. Coçou a barba. Ajustou, sem necessidade, o relógio no pulso.

Juliana não respondeu. Continuava olhando para ele. A raiva havia cedido lugar a outra coisa. Uma repulsa lenta, asco, quase incrédula. Era talvez a primeira vez que realmente observava o homem sentado à sua frente.

Foi então que o visitante voltou a falar. Ainda girava lentamente o gelo dentro do copo. Sem levantar os olhos.

— Talvez esse seja realmente o problema.

Matou o Negroni de um só gole. Levantou-se e saiu.

Juliana acompanhou-o com os olhos até a porta. Depois voltou-se para a mesa. Um a um, encontrou os rostos dos amigos. O horror estava estampado em todos.

Por fim, seus olhos encontraram os de Bernardo.

Ela não disse nada. Ninguém disse.

Então olhou para a cadeira vazia.

O copo de Negroni permanecia intacto sobre a mesa. Cheio. O gelo, inteiro.

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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.

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