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Garoto espancado não tem medo de espantalho

1

Como viver uma vida fundamentada na verdade?

 

Como ser fiel à própria sinceridade?

 

Como manter-se leal à própria essência enquanto crescemos, amadurecemos e nos reinventamos diante das adversidades?

 

São perguntas difíceis de responder. E talvez as respostas jamais sejam encontradas, ou, quando são, acabam por se perder ao longo do caminho.

 

A vida é assim. A minha vida tem sido assim.

 

É esse "ser assim" que me faz buscar referências, vidas semelhantes à minha, pessoas que passaram pelo que passei, na esperança de aprender algo sobre esse enigma que chamamos de vida. Reinventar-se a partir da experiência alheia, utilizar a trajetória do outro como âncora, como matéria-prima para suportar o cotidiano e continuar.

 

Esta é uma das histórias que encontrei durante minhas buscas e divagações. Uma história de vida das mais impactantes. Se tudo o que descobri é verdadeiro? Não sei. Mas vale o esforço de sentar-se e revisitar de tempos em tempos, justamente pela inconveniência que carrega.

 

A história, por si só, já basta para nos arrepiar, provocar, deixar-nos perplexos e nos fazer perguntar: Como isso aconteceu? Será mesmo verdade? O que poderia figurar num inventário de morbidades ou num compêndio de assombrações, aqui se apresenta como uma referência de luta e sobrevivência.

 

Donzell, hoje um homem, foi um garoto que cresceu no interior com sua família. Desde muito cedo, não se identificava com o corpo nem com a realidade que lhe haviam sido designados. Era considerado esquisito. Rejeitado. Sempre o último a ser escolhido.

 

Na escola, era alvo de chacotas, motivo de riso para uns e de pena para outros. Seu cabelo, estranho e despenteado, frequentemente trazia galhos e folhas presos entre os fios, fruto de sua paixão por vagar entre as árvores. Isso lhe rendia apelidos cruéis: meio bicho-grilo, meio menino do mato, mas sempre, sem dúvida, um garoto. Disso, ele tinha certeza.

 

Sua grande inteligência e perspicácia não foram suficientes para lhe garantir aceitação. Era sempre o primeiro nas notas, o vencedor nas competições de conhecimento, mas, no mundo social, continuava sendo o último. Viveu uma infância isolada, com poucos amigos, e uma adolescência solitária. Aqueles poucos amigos de infância desapareceram à medida que tomavam consciência do grupo social a que pertenciam. Laços antes moldados pela inocência, livres de julgamentos, cederam à pressão das normas ditadas pelos populares. E, sob esse peso, a amizade se desfez.

 

Na adolescência, foi preciso buscar subterfúgios para preservar a sanidade e não permitir que a solidão se transformasse em depressão.

 

Com a inteligência altamente aguçada, Donzell transformou a solidão em uma aliada: a solitude. E, assim, aprendeu a viver. O consolo vinha de manter-se fiel a si mesmo sem jamais renunciar à própria verdade para se encaixar em uma sociedade que o desprezava. Eles eram os doentes, não ele.

 

Donzell foi, e continua sendo, um dos mais autênticos exemplos de fidelidade às próprias convicções e não há princípio maior do que a verdade interior. Mesmo em tenra idade, ele já sabia quem era. Reconhecia o próprio eu e jamais renunciaria a isso para agradar a quem quer que fosse.

 

A liberdade de ser, de ir e vir do jeito que acreditava, de falar, de se expressar, dançar, correr, pular, balançar, escalar, explorar as copas das árvores, livremente, imune ao julgamento, era impagável. Não valia a pena sacrificar o que havia construído apenas para manter alguns por perto.

 

Quem quisesse estar ao seu lado, que viesse, mas que o aceitasse exatamente como ele era.

 

Para não dizer que tudo era solidão, descobri, em minha busca pela verdade, que alguns poucos, vez ou outra, se achegavam. Aproximavam-se movidos por curiosidade ou, mais frequentemente, por interesse. Sua inteligência, aliada à generosidade, já havia ajudado muitos a conquistar um ponto ou outro.

 

Na hora do aperto, quando o interesse falava mais alto, as diferenças e a pressão social caíam por terra. Donzell era então procurado por uns aqui, outros ali, sempre ávidos por uma ajuda, um favor discreto. As aproximações tornavam-se mais frequentes em épocas de prova ou ao final do ciclo escolar.

 

E ele se divertia com isso. Era o seu momento de chacotear. Zombava da obtusidade dos que o rejeitavam, mas que agora vinham rasteiros em busca de socorro. A limitação cognitiva de alguns lhe servia de banquete. Com uma ironia afiada, Donzell se divertia até com o fato de que muitos não compreendiam suas piadas.

 

Seguro de si, imune à pressão social, vivendo fiel à própria verdade, Donzell era implacável no escárnio. Sobreviver e apontar incoerências, ou expor a mediocridade alheia, tornara-se sua vingança refinada. Viver apanhando lhe moldara uma personalidade sagaz, sarcástica e cortante como lâmina.

 

Aprendera a levar as pancadas da vida sem reclamar, mas também aprendera a revidar. Por onde passava, surgia uma nova agressão: diferente, reinventada, velada ou explícita. Era o desvio de quem atravessava a rua para não passar por ele; o olhar de julgamento; o comentário sussurrado, mas audível; as dúvidas lançadas sobre sua capacidade; o erro proposital no nome e no pronome; a impaciência. Era ser tratado como adulto mesmo sendo criança. E, depois, não ser visto sequer como adolescente, mas como pária.

 

Às vezes, sentia-se como um leproso, uma aberração enjaulada num circo de horrores. Os olhares o denunciavam, mas ninguém se aproximava para perguntar sobre sua vida, seus desejos, suas paixões, seus pequenos prazeres ou seus sonhos. Nada disso importava. Não o viam como ser humano, mas como coisa. Não era reconhecido como semelhante.

 

Pancadas demais. Espancado diariamente física, moral e simbolicamente.

Tantas surras. Tantas dores. Tudo isso o tornara reativo, hipersensível. Uma raiva constante se alojava no fundo do peito, sempre pronta a emergir de forma brusca e incontrolável. Um senso de justiça tão agudo que doía. E assim, o ciclo se fechava: ele era fruto da sociedade e a sociedade, ao reagir violentamente à sua reação, apenas reafirmava aquilo que o havia criado.

 

2

Quando tomei conhecimento sobre a vida de Donzell, esse indivíduo tão peculiar, tão moldado e marcado pela sociedade que o rodeava, imaginei que nada mais poderia me surpreender. Mas eu estava enganado. É aqui que começa a verdadeira história de superação.

 

O que lhes contarei agora foi retirado de um relato feito pelo próprio Donzell. Fascinado por sua trajetória, decidi ir até a cidade do interior em busca do testemunho real daquilo que ele havia vivido.

 

Quando ainda adolescente, Donzell, curioso e explorador por natureza, sempre em busca de novos caminhos, decidiu, certa tarde, tomar uma rota diferente no retorno da escola para casa. Era um dia de inverno de céu claro, sem nuvens. O caminho habitual era uma estrada de terra vermelha batida, mas, em um certo ponto, havia uma trilha discreta, desconhecida pelo nosso explorador. Naquele dia, Donzell decidiu tomar aquele caminho para saciar sua fome de descoberta.

 

A trilha era discreta, quase invisível, surgindo de repente no meio do caminho de volta para casa. Era preciso atenção para percebê-la. Donzell já a havia notado semanas antes, numa tarde em que fugia de um dia repleto de pancadas e insultos. Agora, ao reencontrar a trilha, não hesitou, lançou-se por ela num ímpeto de fúria silenciosa, movido por um rancor surdo contra o mundo e todos que nele habitavam.

 

De início, a trilha de terra batida, tal como a estrada, seguia sinuosa pelo campo de capim seco, que lhe chegava à cintura. Em determinado ponto, curvou-se bruscamente à direita e desaguou em um pequeno declive, quase um barranco erodido, no fundo do qual corria um córrego estreito. Donzell atravessou a água com cuidado, perguntando-se onde seria a nascente daquele fio cristalino. Nunca havia notado aquele riacho em parte alguma daquela região.

 

A surpresa o agradava: conhecia bem cada recanto daquele pedaço de cidade, e ali havia um segredo que escapara aos seus olhos até agora. Atravessou o córrego saltando de pedra em pedra, escolhendo as menos escorregadias. A mochila nas costas e os livros apertados nas mãos tornavam o percurso mais difícil, mas Donzell o aceitava como parte da aventura. Nada disso era obstáculo para sua obstinada curiosidade: queria descobrir onde aquela trilha o levaria.

 

Do outro lado, o caminho avançava por um campo de capim ainda mais alto; em alguns trechos, o engolia por completo. Apesar disso, a trilha permanecia firme, uma linha secreta cortando o mar de folhas.

 

Donzell seguiu, ora cantarolando, ora assobiando, à vontade no silêncio que sempre o acompanhara. A solidão já era sua velha companheira, e a descoberta de cada curva, de cada detalhe escondido, acendia-lhe uma excitação silenciosa.

 

Após alguns minutos, a paisagem mudou. A trilha conduziu-o à entrada de uma jovem floresta de eucaliptos. As árvores ainda eram esguias, frágeis, algumas pouco maiores que mudas, incapazes de formar aquele tipo de bosque denso e sombrio que se impõe à distância. Talvez por isso ele jamais tivesse notado sua existência.

 

Deve ser uma área de reflorestamento de alguma mineradora”, pensou, analisando os troncos pálidos que se estendiam ao longe. Na entrada da floresta de eucaliptos, Donzell parou. Hesitou por um instante, avaliando o risco de prosseguir. O céu ainda estava claro, mas o inverno encurtava os dias, e a qualquer momento o crepúsculo poderia cair de repente. Mesmo assim, ignorou o instinto de sobrevivência, tão aguçado depois de anos de esquivas e pancadas, e avançou. O paradoxo da sobrevivência: tão habituado a lutar, a cair e se reerguer, a transformar a dor em método, Donzell forjara uma resiliência a ferro e fogo. Dessa repetição brutal nascera uma autoconfiança quase instintiva diante do perigo. Ele aprendera a confiar no próprio corpo e na própria lucidez, a enfrentar o que viesse, inclusive o desconhecido. Era essa autoconfiança, construída na adversidade, que lhe concedia a coragem necessária para silenciar a ansiedade, ignorar os alertas do instinto e, ainda assim, avançar.

 

A trilha serpenteava entre os eucaliptos jovens, troncos pálidos e esguios que sussurravam ao menor sopro de vento. Andou alguns minutos, não o suficiente para cansar, mas o bastante para sentir o isolamento que cresce no peito quando se está longe de tudo. De repente, o cenário se abriu. À sua frente, estendia-se uma plantação de milho. Outra surpresa.

 

Um córrego, uma floresta de eucaliptos… e agora, um milharal, cujos caules verdes alcançavam-lhe os ombros. Donzell conseguia enxergar por entre as fileiras, mas apenas até certo ponto, onde o verde se perdia no horizonte. A trilha terminava ali, à beira daquele mar de folhas. Dentro do milharal, não havia caminho algum. Ao longe, quase na linha onde o verde encontrava o céu, Donzell percebeu uma estrutura vertical se destacando acima dos topos dos pés de milho. Algo pendia dela, imóvel, como se o vento não ousasse tocá-la.

 

A curiosidade, ardente e incontrolável, empurrou-o para dentro do milharal. Ali, tudo mudou. A atmosfera, antes acolhedora no riacho e refrescante e leve na floresta de eucaliptos, tornara-se pesada, sufocante, opressora. Era uma natureza diferente, que não acolhia, mas vigiava.

 

O vento sussurrava por entre os talos de milho, fazendo-os curvar em uma dança hipnótica, e cada estalo soava como uma palavra indecifrável. Donzell sentiu um arrepio percorrer lhe a espinha, mas seus pés não pararam. O mistério sugava-o para dentro de si. Os pés de milho se erguiam altos ao seu redor, folhas ásperas roçando seus braços como pequenas lâminas, enquanto o vento parecia sussurrar segredos ao campo.

 

Donzell avançou entre os talos, sentindo-se observado, como se cada haste fosse um olho atento. A estrutura à distância crescia diante dele até que, finalmente, pôde distinguir sua forma: uma cruz. Uma cruz que sustentava um espantalho. Continuou a caminhar, o coração batendo lento e pesado, até chegar ao pé da cruz.

 

Não era uma só. Eram três. Duas estavam vazias, silhuetas nuas contra o céu pálido. A do centro, porém, sustentava o espantalho.

 

O espantalho, muito bem preenchido com palha, quase parecia um corpo humano de tão bem confeccionado. A roupa esfarrapada, feita de tecido grosso — a trama lembrava-lhe saco de ráfia —, pendia pesada sob o peso do tempo e da chuva. Botões enormes e pretos costurados no rosto lhe serviam de olhos, e pareciam fitar quem parasse diante da cruz improvisada.

 

Os braços estendidos, fixados horizontalmente num madeiro gasto. As pernas unidas, uma ligeiramente sobreposta à outra. A cabeça, caída, inclinava-se para a direita com um cansaço trágico, como quem já não espera salvação. A boca era formada por uma linha grossa costurada onde parecia haver um sussurro congelado, um pedido sufocado que ninguém nunca quis escutar.

 

Ali, no meio da plantação, aquele espantalho emanava algo de sagrado e profano em sua presença. Não se sabia se ele afastava as aves ou atraía fantasmas. Uma figura crucificada entre o milho, condenada a vigiar sem descanso, espantando não apenas pássaros, mas também os próprios vivos. Não era apenas um boneco, era uma cruz encarnada em pano e palha, um Cristo do mato, costurado à mão por alguma fé esquecida ou por algum ódio antigo.

 

Donzell parou diante do espantalho crucificado. Olhou para as outras duas cruzes vazias e sentiu um arrepio. A cena evocava, de maneira grotesca, o próprio calvário. Uma representação às avessas, quase mórbida. Os ladrões soltos e o Cristo espantalho morto, preso, ainda purgando, em um looping sem fim, pelos pecados da humanidade.

 

O vento agitava o milharal, curvando os talos como uma multidão reverente diante do Cristo de palha. Atrás dele, a floresta jovem de eucaliptos; à frente, três cruzes solitárias e o mar de milho a perder de vista. “Não deveriam ser três espantalhos?”, pensou.

 

Ao redor das cruzes havia uma clareira de terra batida em um círculo perfeito, quase um altar construído a mãos humanas. Ali, na clareira não crescia mato, capim, nem milho, nada. Uma terra redonda, lisa e morta como um topo de um crânio.

 

Donzell adentrou a clareira, aproximando-se das estruturas verticais, examinando com atenção. As cruzes laterais exibiam sinais de abandono: pedaços de palha, tiras de tecido rasgado e cordas frouxas, desamarradas, pendiam como restos de um sacrifício antigo. Ali, um dia, outros corpos de palha haviam balançado ao vento e agora haviam desaparecido, deixando apenas o crucificado central, que parecia observá-lo com os olhos de botão, em um lamento silencioso.

 

Donzell permaneceu imóvel, encarando o Cristo-espantalho. Olhos de carne fitando olhos de botão. Uma sensação de ser perscrutado, vasculhado em cada centímetro de sua alma, o invadiu. O Cristo o olhava. O espantalho o observava. Julgava-o. Crucificado, feito de palha, vazio por dentro. Não ressuscitado. Sem vida, apenas julgamento. Doutrina seca, olhos costurados. O Cristo-espantalho vigiava, mas não salvava. Não amava, apenas julgava. Donzell sentia que estava diante de um Cristo domesticado: estático, sem amor, sem mistério, usado apenas para controlar e vigiar.

 

Demorou, mas em certo momento tomou consciência do tempo. O sol se punha no horizonte, tingindo o céu de laranja e vermelho, e a escuridão se insinuava pelos cantos da plantação. O vento mais forte percorria os caules, curvando-os a força, formando sons guturais e uníssonos. Com o passar do tempo, os caules se curvavam mais e mais. Alguns tocavam o solo. Outros quebravam e permaneciam ali, no chão, abandonados. Alguns caules tomados por uma corrente de vento divergente entravam em um redemoinho e histéricos balançavam para todos os lados.

 

Donzell olhou uma última vez para o espantalho. Ele também o encarava. E Donzell sentiu medo. Medo pela própria vida. Medo de ser espancado até a morte — pauladas na cabeça, socos, chutes, tapas. Medo de ter o coração arrancado. Seu coração acelerou. Desviou o olhar. E correu de volta para casa abandonando a loucura que acometia a plantação milho.

 

3

Donzell voltou para casa assustado. Um medo desproporcional se agarrou a ele como se fosse um sanguessuga. Sempre sentiu medo do externo, mas nunca daquela forma. Uma sensação constante de estar sendo vigiado, olhava ao redor procurando olhos, cabeças, vozes, mas nada via senão o nada.

 

Após atravessar a floresta de jovens eucaliptos, o sol se pôs por completo e uma lua crescente, tímida, surgia no céu. Emergido na escuridão, Donzell atravessou o riacho com dificuldade, analisando ao redor, aquela sensação constante de estar sendo vigiado, perseguido, por uma sombra. O Cristo-espantalho havia mesmo ficado para trás?

 

Os sons formados pelos caules de milhos ainda chegavam aos seus ouvidos muito nítidos. O vento começou a ficar mais forte e mais frio. As noites de inverno no interior não eram das mais agradáveis. Donzell apressou-se. Chegou à estrada principal. Um certo alívio o invadiu, mas não era tempo para descansar. Continuou caminhando desejando a segurança de sua casa.

 

Naquela noite, Donzell se esforçou para dormir. Acordou várias vezes. Por duas vezes desistiu de lutar e foi ler ou finalizar alguma atividade da escola. Já era tarde quando o sono chegou. Estava na escrivaninha e adormeceu. Acordou assustado às três da madrugada.

 

A escrivaninha ficava em frente à janela do quarto que dava para o quintal da casa. A casa de dois pavimentos, com o quarto no segundo, era uma casa típica de interior, sem muro, apenas uma cerca de arames e uma cancela que servia de portão e separava a casa dos cercados dos animais.

 

Ao se levantar para ir para a cama, pouco desnorteado, a cara amassada de ter apoiado na mesa, Donzell olhou pela janela e seu corpo paralisou. No quintal, próximo à cancela de madeira, o espantalho estava em pé olhando em direção à janela. Ali, no quarto o medo tomou conta do seu corpo.

 

Ele esfregou os olhos, aproximou a cabeça da janela para confirmar a visão. O espantalho continuava lá. A cabeça mexia de um lado para o outro, da direita para a esquerda, como um ponteiro de um relógio marcando os segundos. Tic-tac. Tic-tac. Os olhos de botão estavam com raiva e a costura da boca tinha as pontas voltadas para cima formando um sorriso. Essas alterações na face do espantalho demonstravam uma expressão maligna.

 

O medo fez Donzell andar para trás e correr para o quarto dos pais. Acordou o pai com um solavanco dizendo que alguém tinha invadido a propriedade. Naquela época, era comum que moradores do interior — especialmente os que viviam afastados do centro, próximos a plantações ou mineradoras e com poucos vizinhos — tivessem uma ou duas armas em casa para afastar vagabundos ou pessoas mal-intencionadas. Ali, a proteção do Estado revelava sua seletividade: blindava e protegia empresas e empresários, enquanto deixava o indivíduo à própria sorte. O pai de um pulo pegou a espingarda, a mãe pegou a outra arma, e juntos foram averiguar o que estava acontecendo. O filho, assustado, logo atrás no encalço dos pais.

 

Chegando na porta, o pai de Donzell abriu-a gritando que quem estivesse ali seria melhor sair. Saiu para fora e caminhou em direção a cancela. Olhou a redor. Não havia nada e nem ninguém ali. Tudo silencioso fora o som dos grilos. Donzell respirou fundo e teve que admitir que poderia ter sido um sonho. Os pais o acalmaram e após esse episódio, todos foram para a cama.

 

Donzell me confessou que a presença dos pais sempre lhe transmitia segurança e confiança. O fato de terem acreditado nele e ido averiguar lhe acalmou. Sabia que podia contar com eles, com sua família, independente do que acontecesse. A presença e suporte da família sempre fora algo que ele se apegava e usava como alicerce para continuar vivendo mesmo diante das tantas injúrias diárias.

 

Naquela noite, Donzell conseguiu dormir e não pensou mais no espantalho.

 

4

Na manhã seguinte, a caminho da escola, como em todos os dias, Donzell caminhava elaborando, em silêncio, estratégias mentais para escapar das discriminações. A escola nunca fora um lugar seguro; sempre lhe provocara ansiedade e aflição. Já se preparava para as piadas, os olhares enviesados, os comentários sussurrados como lâminas. Não se pode dizer que estava vacinado — ninguém se imuniza contra o preconceito e a discriminação. Ninguém nasce destinado a viver sob rejeição ou a suportar a injúria. Ainda mais quando ela se repete dia após dia.

 

Ao passar perto da entrada da trilha misteriosa, uma ventania se levantou de súbito, como se asas imensas batessem atrás de si, lançando o vento diretamente contra suas costas. De longe, o sussurro do milharal começou a soar, arrastado, quase como um chamado. Donzell olhou para trás e então viu. Bem no meio da estrada, a cerca de meio campo de futebol de distância, estava o espantalho. Parado. Braços soltos ao longo do corpo, a cabeça oscilando como na noite anterior. Tic-tac. Tic-tac. Vigiava cada gesto, cada pensamento.

 

O medo que o tomava agora era diferente. Era um medo íntimo, viscoso, o peso de uma culpa que não lhe pertencia, mas que sentia como se fosse sua. A culpa de existir como era. O medo de ter que enfrentar o mundo como se tivesse cometido um crime. Perseguido por aquele ser que não salvava, apenas julgava, punia, condenava. A consciência da onipresença do espantalho o apavorava. Ele estava em todo lugar, o tempo todo. O olho que tudo vê.

 

Nenhum pensamento, nenhum suspiro, nada escapava ao alcance daquele olhar costurado. A imobilidade do espantalho — estático, distante, mas presente — era uma exibição de poder. O fato de permanecer ali, sem avançar, sem falar, sem mover um único passo, apenas ampliava o desespero. O terror nascia do silêncio. E do olhar que nunca desviava.

 

Poderia fugir — mas para onde? Não importava a direção, ele o encontraria novamente. Seria preciso se acostumar com aquela presença constante em sua vida? Estaria enlouquecendo? Esquizofrenia? Hormônios? Alucinação? Donzell se questionava em desespero.

 

O medo era real, denso, palpável. Desceu-lhe pela garganta como um líquido quente e repulsivo — como engolir um remédio amargo que, de repente, explode dentro do corpo como um choque elétrico. Aquela sensação vinha dele. Do espantalho.

 

Donzell o encarava bloqueando o caminho de volta para casa. Queria correr para os braços dos pais, para o abrigo do seu quarto, para o cheiro conhecido da cozinha. Mas o caminho estava interditado. Teria de correr para o lado oposto, em direção à escola — fugir de um perseguidor para cair nos braços de outros. Trocar um sofrimento por outro.

Inspirou fundo. Engoliu o choro seco. E correu.

 

A mochila batia violentamente nas costas, os livros apertados contra o peito como um escudo. Correu, correu como se sua vida dependesse disso. E, talvez, dependesse.

 

5

O sinal da escola soou, marcando o fim de mais um dia exaustivo.

 

Na volta para casa, o medo de encontrar o espantalho na estrada quase o paralisou. Acostumara-se a fazer aquele caminho justamente porque ninguém o percorria. O trajeto mais utilizado pelos outros alunos, o caminho comum, era, para ele, uma verdadeira Via Crucis: um desfile contínuo de humilhação, preconceito e discriminação. Já aquele outro, solitário, vazio, de terra batida, oferecia-lhe algo raro, silêncio. Era sua fortaleza, seu refúgio, seu porto seguro. Ali, ao menos, não precisava se defender de olhares, palavras ou risos. Agora, porém, até aquele espaço começava a ser invadido. O espantalho surgia como uma presença indevida, uma ruptura no único território onde ainda podia existir em paz. Ainda assim, entre o espantalho e a sociedade, a escolha lhe parecia simples.

 

A caminhada, solitária, pesava como chumbo. A solidão não era apenas ausência de companhia, era um eco interno, uma pergunta martelando sem trégua: até que ponto conseguiria suportar tantas injúrias e perseguições? Perseguições de todos os tipos, de seres vivos e de entidades imaginárias. Aquele olhar que o acompanhava, não importava onde estivesse. A sensação constante de estar sendo observado, vigiado, avaliado, julgado e condenado. Uma presença invisível, mas esmagadora. Como se a qualquer momento alguém ou alguma coisa fosse arrancá-lo da estrada, apenas por existir.

 

Tentou agarrar-se a alguma razão que o reconduzisse à sanidade. A solidão, antes sua aliada, agora pesava nos ombros. Por que se tornara um fardo? Estaria, enfim, cedendo à perseguição? Seria o medo do Cristo-espantalho o suficiente para levá-lo à aceitação da norma social? Questionava-se: até que ponto era possível suportar? Até onde se pode ir antes de ceder?

 

Buscou, então, a lembrança da família. Os pais, com quem ainda morava, eram seu alicerce, ofereciam apoio incondicional em sua travessia, transição, para tornar-se quem verdadeiramente era. Lembrou dos irmãos, distantes fisicamente, mas sempre presentes em palavras e afeto, como faróis.

 

A família era seu núcleo duro, seu abrigo diante do mundo hostil. Isso deveria bastar, mas ali, diante do Cristo morto de palha, com olhos costurados e braços abertos em perpétua acusação, tudo isso parecia falhar.

 

Naufragava em um mar feito de julgamento.

 

Precisava vencer o medo. Já havia superado tantas provações, tantas injúrias lançadas sobre seu corpo e sua existência, que não seria agora, diante da sombra de um espantalho, que se deixaria paralisar. Respirou fundo, sentiu o peso do cansaço nos ombros, mas também o vigor que brotava de dentro, aquele que sempre o salvara nos momentos mais sombrios. Apertou o passo, como quem reafirma para si mesmo que tem um destino, um lugar de pertencimento. Andou com firmeza em direção à sua casa, ao aconchego dos pais, ao calor do núcleo que o reconhecia como ele era. Nada poderia detê-lo. Nada, absolutamente nada, teria o direito de diminuir sua vida, seu valor, sua verdade.

 

No caminho de volta, seus olhos se perderam por um instante no campo aberto que flanqueava a estrada. A luz do fim de tarde, dourada e alaranjada, tingia o céu com ares de fim e renascimento. E foi então que viu. Ao longe, onde antes havia apenas capim alto e horizonte, agora estavam lá: as três cruzes. Vazias. Mas deslocadas. Não estavam mais no milharal. Tinham mudado de lugar. Migrado. Como se, mesmo inanimadas, continuassem a persegui-lo. Por um segundo, o coração acelerou. Um calafrio lhe percorreu a espinha, e ele parou, perplexo. Seria possível que até as cruzes agora o seguissem? Que o espantalho, ou o que quer que ele representasse, houvesse conseguido mover símbolos, manipular paisagens, reconfigurar o espaço ao seu redor?

 

Parado, com os olhos fixos nas cruzes, Donzell sentiu a coragem crescer outra vez. Não a coragem impulsiva, desesperada, mas uma força calma e ancestral, fortalecida pelo amor que recebera ao longo de sua vida dos que, verdadeiramente, o amavam. Lembrou-se dos pais, do apoio incondicional em cada lágrima, em cada desafio enfrentado. Lembrou-se dos irmãos, ainda que distantes, sempre presentes em palavra, em gesto, em cuidado. Era isso que o sustentava. Era isso que dava sentido ao seu caminhar. Ignorou as cruzes. Ignorou o espantalho, seus olhos de botão, sua boca costurada, sua presença julgadora. Naquela tarde, enquanto o céu se despedia do dia, Donzell seguiu em frente. Pela primeira vez, a existência imaginária do espantalho já não lhe causava incômodo. Ele havia vencido. Não o espantalho, mas o medo de ser quem era.

 

6

Na noite do dia seguinte, jantou com os pais, despediu-se com o afeto habitual e recolheu-se ao quarto. Precisava finalizar algumas tarefas que deveriam ser entregues no dia seguinte, um exercício qualquer, talvez, mas com aquele peso que os compromissos ganham quando se vive sob constante vigilância do mundo.

 

Já era tarde quando foi para a cama. Sentia-se em paz. Nada parecia capaz de perturbá-lo, pois tinha aquilo de que mais precisava: o amor real, verdadeiro e idôneo que sua família lhe transmitia. Esse era seu maior tesouro e, também, o seu segredo mais íntimo.

 

Donzell me contou que se deitou em serenidade, mas acordou aflito. No meio da madrugada, despertou sem sono, tomado por uma ansiedade difusa, o coração acelerado. Supôs ter tido um pesadelo ou um sonho desconfortável, embora não conseguisse se lembrar de nada. Sentia a boca seca. Levantou-se, foi até a cozinha e pegou uma garrafa de água, que esvaziou quase de imediato.

 

Ao voltar para a cama, deitou-se com cuidado, ajeitando os lençóis em silêncio, numa tentativa de retomar o conforto. Seus olhos, porém, foram atraídos para a porta no canto direito do quarto. Um arrepio percorreu sua espinha. Donzell se sentou lentamente, o coração martelando no peito com uma força quase audível. Estava suando, sentia o suor escorrendo pela testa, pelas axilas, umedecendo os pelos recém-nascidos no peito. O corpo, que antes repousava em paz, agora estremecia em alerta.

 

Então ele ergueu o olhar.

 

O espantalho estava ali.

 

O Cristo de palha. De pé. No canto do quarto.

 

Observava-o em silêncio, uma presença sólida e absurda. O rosto, antes apenas feito de botões e costuras, agora estava pintado de branco, como uma máscara fúnebre de teatro. A boca costurada havia se rasgado em um sorriso torto, retorcido, que escorria sangue. Um riso assassino, congelado no tempo. Onde deveriam estar os olhos, havia apenas buracos negros, ocos, que pareciam sugar toda a luz do ambiente. Um vazio que encarava. Que julgava.

 

Na mão direita, espantosamente firme, segurava um livro.

 

Um livro fechado, grosso, velho, cuja capa Donzell não conseguia ler, mas que de alguma forma reconhecia. Era o livro do juízo. O livro que sentencia, que pesa as culpas, que absolve ou condena.

 

— Venha cá, Donzell — chamou o espantalho com uma voz rouca e serena. — Não vou te machucar. Tenho um livro para você. Um livro... e um sermão! Venha cá!

 

De súbito, lançou a cabeça para trás e deu uma gargalhada aguda, quase animalesca. O som cresceu como um enxame de morcegos em disparada, ecoando por todo o quarto, reverberando nas paredes como um grito antigo e enlouquecido. Donzell, tomado de pavor, levou ambas as mãos aos ouvidos, tentando inutilmente se proteger daquela investida sonora que parecia atravessar a alma.

 

— Venha cá, Donzell — repetiu o espantalho, agora mais calmo, quase doce. — Vamos conversar. Você precisa se libertar. Eu posso te ajudar. Eu posso te libertar. Você poderá voltar a ser o que era antes. Eu posso te curar...

 

Donzell tentou levantar-se, mas percebeu que estava paralisado. Seu corpo tremia por dentro, enquanto a cabeça girava de um lado para o outro, à procura de uma rota de fuga. A porta estava bloqueada. O espantalho permanecia ali, imóvel, mas presente como um poste de sentença — a encarnação do juízo.

 

Trêmulo e pálido, Donzell reuniu forças e se levantou, arrastando os pés até a escrivaninha e a estante de livros. Os olhos, fixos no espantalho, não piscavam. Com uma das mãos, tateou às cegas a prateleira até tocar um volume qualquer. Os dedos, gelados e trêmulos, mal conseguiam sustentar o peso do livro.

 

Então, num movimento desesperado, fechou os olhos e se virou bruscamente, começando a arremessar os livros um a um contra o espantalho. Não queria ver. Não queria sentir. Mas era como se uma mão invisível se escondesse sob seu queixo, erguendo sua cabeça à força, obrigando-o a encarar aquilo que mais temia. O terror era um altar e ele, o sacrifício.

 

Os livros bateram contra a parede, contra a porta, e caíram ao chão com estardalhaço.

 

A porta se escancarou de súbito, e uma voz gritou:

 

— Donzell! O que está acontecendo? Somos nós!

 

Seus pais estavam ali, na soleira do quarto, ofegantes, assustados. Donzell abriu os olhos. O espantalho havia desaparecido.

 

Sem forças, desabou no chão, soluçando. O corpo todo tremia. Estava exausto. Esgotado de lutar.

 

Os pais correram até ele e o envolveram num abraço. Os três choraram juntos — um choro espesso, silencioso, como quem carrega o peso de séculos nos ombros frágeis de um menino.

 

7

O que há de mais patológico do que um deus na cruz? Algo tão mórbido, único na história das religiões, que representa o conjunto de valores de toda uma crença. Uma tragédia anunciada.

 

O que há de mais patológico do que um deus na cruz?

 

Um ser que, segundo seus crentes, é onipotente, onisciente, criador de tudo — reduzido à imagem de um corpo exaurido, pregado num madeiro, sangrando por aqueles que o rejeitam. É mais do que símbolo de sacrifício: é a glorificação da dor, o culto à culpa, a doutrina da salvação pela humilhação. O Cristo crucificado, eterno, imóvel, em sofrimento é o retrato de uma fé que domesticou o desejo, na qual a força vital (o prazer, o orgulho, a ambição, a agressividade) passa a ser vista como moralmente suspeita, algo a ser reprimido, confessado e expiado; uma fé que transformou o corpo em prisão e fez da alegria uma heresia.

 

Há algo profundamente mórbido nesse ícone: não apenas pela violência explícita, mas por sua função psíquica. Ele nos diz: “Você nasceu em dívida.” O berço é culpa, o fôlego é pecado, a existência é crime. E a redenção? Vem por meio da dor. Não há alegria no princípio, apenas cruzes no horizonte.

 

Nenhuma outra religião consagrou tanto o sofrimento. Nenhum outro sistema de crença elevou tão alto a ideia de que ser bom é ser submisso, e que amar é obedecer. Esse Deus morre, não para libertar, mas para fundar uma religião da culpa e da vigilância. Ele é um cadáver sacramentado, um espantalho sagrado, um Cristo que nunca ressuscita de fato, pois continua pregado nas paredes das escolas, dos tribunais, das igrejas, dos corpos dissidentes.

 

O mais patológico não é o ato da crucificação, mas a escolha de eternizá-lo como emblema. Fazer da dor um dogma. Celebrar o martírio. Condicionar o amor à punição.

 

Essa imagem é a negação da vida e, talvez, por isso mesmo, tão poderosa em manter os vivos sob controle. Afinal, um Deus crucificado não reina: ele vigia. Não redime: acusa.

 

E então, o que é mais patológico do que um Deus na cruz?

 

Talvez... uma sociedade que se curva diante dele e crucifica tudo o que lhe escapa.

 

Era esse Cristo imóvel, pregado à madeira, que vigiava em silêncio. Não precisava falar. Seu poder residia justamente em fazer o homem falar consigo mesmo — criar tribunais internos, castigos invisíveis, culpas que ninguém impôs, mas que germinaram sozinhas no coração. A culpa autointrojetada: essa era a verdadeira maldição.

 

O Cristo morto não salva. Ele assombra. Governa pelo pavor e pela vergonha, transforma a liberdade em submissão. E Donzell, diante daquele espantalho crucificado, sentiu-se pequeno, despido, condenado por pecados que nem sabia ter cometido. Havia sido tocado, ou talvez amaldiçoado, pelo Cristo morto. O olho que tudo vê e tudo sabe, o olhar que se infiltra pelas frestas mais íntimas da consciência. Não era um olhar de amor, mas de julgamento. Um olho que não perdoa, que se alimenta do medo, que se fortalece na culpa.

 

Ainda mais indefensável é a tentativa, num mundo cada vez mais secularizado, de justificar a irracionalidade com argumentos que nada mais são do que expressões de uma fé envergonhada, disfarçada de razão.

 

Donzell não queria ter compaixão. A compaixão é própria dessa religião decadente. Ela se opõe aos afetos tônicos, àqueles que elevam a energia do sentimento de vida. A compaixão tem efeito depressivo. O indivíduo enfraquece ao compadecer-se. A dor, que por si só já abate a vida, torna-se ainda mais nociva quando compartilhada; o sofrimento se alastra como praga através da piedade. Em determinadas circunstâncias, isso pode conduzir a uma perda coletiva da vitalidade, uma anemia espiritual generalizada.

Donzell sabia disso, e por isso, não teria compaixão pelo Cristo-espantalho. Não alimentaria mais a fraqueza, a culpa, o pecado, a renúncia nem a humildade. Era preciso romper com tudo aquilo que nega a vida, que glorifica o sofrimento e perpetua a servidão moral. Era urgente destruir a grande mentira, o mal enraizado que sufoca a potência vital. Cada semente dessa doutrina, cada discípulo, deveria ser extirpado. No passado, bastaram doze para instaurar o mais devastador equívoco da história: o câncer espiritual da modernidade, que se alimenta da culpa e da alienação, e mantém a humanidade entorpecida na crença cega em um ser superior, que tudo vê, tudo comanda e tudo reprime.

 

Esse Cristo, agora espantalho, não tinha força, nem vontade, era vazio, ecoava apenas os dizeres dos seus criadores. Homens vis, sedentos de poder, que disfarçavam sua tirania sob o manto da fé. Donzell via isso com clareza. A compaixão, para ele, era uma doença e, como toda doença perigosa, precisava ser combatida com um remédio amargo, definitivo, purgativo.

 

E o que melhor purga do que o fogo?

 

Assim termina esta parte da história de Donzell: uma cruz solitária em chamas, com um espantalho crucificado ardendo em silêncio.

 

8

Donzell conta que, na manhã seguinte, acordou envergonhado pelo que acontecera na noite anterior. Dormira mais do que o habitual — talvez por exaustão, talvez como forma inconsciente de adiar o despertar para um mundo que ainda lhe parecia hostil. Quando desceu para tomar o café, foi surpreendido: à mesa, estava toda a família reunida. Os pais e os irmãos. Todos vieram, o mais rápido possível, para acolhê-lo naquele momento.

 

Abraços foram dados, lágrimas discretas escorreram. Ali, naquela cozinha simples, entre pão quente e afeto incondicional, Donzell sentiu-se visto, amado, fortalecido. Essa foi a derradeira razão para que decidisse, enfim, expurgar de vez o medo e o sofrimento que o espantalho lhe causava. Aquele terror antigo, alimentado por silêncio e julgamento, já não tinha mais espaço onde o amor havia fincado raízes profundas.

 

Assim que os irmãos se despediram, Donzell não hesitou. Juntou os materiais necessários com a precisão de quem sabe exatamente o que precisa ser feito. Partiu em direção ao milharal com um único objetivo: finalizar tudo com fogo.

 

Chegou ao campo e viu que o Cristo-espantalho continuava preso à cruz. Estava morto. Inerte. Aquele símbolo, já por demais carregado de delírio e opressão, ultrapassara todos os limites da sanidade. Um ser sem vida, mas ainda assim investido de um poder de domínio que já deveria ter perecido com a morte. Um poder que persistia apenas porque encontrava abrigo fértil na mente adoecida da humanidade, essa mesma humanidade que se deixa guiar por mentiras e alucinações disfarçadas de fé.

 

Diante do espantalho, com a tocha acesa na mão, Donzell sentiu-se livre. A liberdade não veio com estardalhaço, mas com aquele sutil e definitivo alívio que invade o corpo quando o sujeito, enfim, se apropria da própria vontade. A liberdade de escolher. De ser.

 

Naquele instante, ele não via apenas um caminho à sua frente, mas a possibilidade real de traçar seu próprio destino, de se opor à inércia das tradições, aos discursos domesticadores, à manipulação disfarçada de moral. O poder de escolha não abre apenas caminhos, abre abismos. E Donzell, ao encarar esse abismo, não recuou: tornou-se autor de si mesmo.

 

Sem hesitar, tocou a base da cruz com a chama. O fogo se alastrou de imediato, como se o Cristo de palha estivesse embebido em líquido inflamável. O vento soprou com violência e os pés de milho se curvaram em ondas desesperadas, como se a plantação inteira implorasse por misericórdia. O som que se formou — o roçar dos talos, o estalo das chamas, o uivo do vento — era como um coro de súplicas. Mas Donzell não retrocedeu. O prazer que o invadiu era um êxtase: o fogo purifica, o fogo liberta. Ali, diante da cruz em chamas, sentiu-se vingado, limpo, inteiro. Estava encerrando, enfim, a era de um Deus morto que jamais deveria ter se erguido sobre sua vida.

 

Tomado por uma certeza inabalável, jogou a tocha acesa no meio do milharal. O fogo, insuflado pelo vento, se espalhou como um bicho faminto. Toda a plantação foi tomada pelas chamas. Quando Donzell chegou à estrada de terra batida, ainda pôde ver, ao longe, a fumaça subindo ao céu, as labaredas dançando no horizonte.

 

Menos um Deus para se preocupar.


Jovem ateando fogo em espantalho em campo de milho ao pôr do sol, representando libertação, questionamento da fé e ruptura com estruturas de poder simbólico.

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Se você chegou até aqui, se curtiu a leitura desse conto de terror psicológico, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.

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