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A imaginação de Ícaro Inácio Senhoril

Desde tenra idade, Ícaro Inácio Senhoril almejara ser ator. Moldado por uma geração que ensinava a sonhar grande, mas raramente a começar pequeno — criado na era da visibilidade, do aplauso instantâneo e do brilho artificial das celebridades digitais —, não queria ser qualquer ator, mas um dos famosos, abastado, cercado por milhões de seguidores. Aprendera a se valorizar em demasia e estava convicto de que não merecia nada menos que o papel principal. Sua autoconfiança, que um dia lhe dera os culhões necessários para começar, tornara-se seu maior pecado. A linha tênue entre segurança e soberba era constantemente ultrapassada, e sua arrogância emergia devastadora, como um Godzilla em miniatura, destruindo as pontes que ele próprio precisava atravessar.


Os mais sensatos, cujo instinto de sobrevivência falava mais alto, afastavam-se. Depois de cada ataque de pelanca, apenas bajuladores e oportunistas permaneciam, e nem estes por muito tempo. O desejo pelo protagonismo era tão desmedido que qualquer papel com o mínimo traço de coadjuvantismo era sumariamente rejeitado. Nunca havia atuado uma única vez e já recusara o papel de Lancelot em uma montagem sobre o rei Arthur. Ser segundo era, para ele, pior que não ser.


Depois de pouco batalhar e muito pirraçar, nenhum papel principal conquistou. Abandonou, então, os anseios artísticos — não por humildade, mas por ressentimento. Tornou-se contador-auditor, mas os bancos lhe pareciam excessivamente capitalistas e neoliberais para sua humanidade empaticamente social. Depois, tornou-se vendedor, quase um caixeiro-viajante — um Samsa de Kafka, digamos, ainda que um pouco mais afortunado.


Afortunado aos olhos alheios, pois, do ponto de vista de Ícaro, sua vida ia de mal a pior. Achava-se inteligente demais, perspicaz demais, preparado demais para aceitar empregos tão ordinários. O pedestal em que se colocava era alto demais para qualquer ofício que lhe fosse oferecido. Um absurdo, pensava ele, que empresas rejeitassem uma mente tão inovadora, tão avant-garde, tão cheia de potencial! Que sofressem, pois, as consequências de negarem espaço ao alecrim dourado de sua geração (mal sabia ele que o campo estava repleto de alecrins, todos igualmente convencidos de sua singularidade).


Aos trinta, ainda estava desempregado, pois jamais permanecera mais de seis meses em qualquer empresa. Todas, segundo ele, eram ambientes insalubres, incapazes de reconhecer seu talento ou de se preocupar com o bem-estar do colaborador, especialmente quando esse colaborador se julgava acima da própria estrutura que o empregava.


Aos quarenta, ainda morava com os pais. Não por falta de alternativa, mas por incapacidade de abandonar o conforto que eles, o típico proletariado disciplinado dos anos cinquenta, lhe proporcionavam. O tempo passava, e ele jamais alcançava o patamar que, em sua cabeça, era direito adquirido. Nunca fora prodígio de coisa alguma, mas acreditava que isso era mera contingência histórica.


Depois dos cinquenta, com o corpo cansado e a mente mais lenta, resultado da ansiedade ociosa cultivada por décadas, e sem jamais ter se especializado em nada, pois nada sustentara por tempo suficiente, Ícaro já não poderia ocupar os cargos de excelência que imaginara para si. Ainda assim, mantinha-se obstinado. Acreditava que sua volta por cima estava sempre prestes a acontecer, como se o universo lhe devesse um ajuste tardio. Confundia inércia com maturação, espera com vocação, adiamento com promessa.


Aos sessenta, passou a descarregar a frustração nos pais, aqueles que, segundo ele, nunca lhe deram a educação e a atenção adequadas. Depois, o culpado tornou-se o sistema, esse fabricante de ilusões consumistas e expectativas inalcançáveis. Considerava-se infeliz por não saber impor limites às influências externas, aos amigos tóxicos que jamais confrontaram sua arrogância e aos familiares que preferiram a bajulação ao embate.


Aos setenta, o mundo continuava sendo o culpado por tudo.


Aos oitenta, a casa herdada dos pais tornara-se sua caverna. Sua mente, outrora considerada brilhante, transformara-se em seu maior algoz. Morreu isolado, sozinho e rabugento, mas com um sorriso nos lábios. Agora, imaginava, pisaria ruas de ouro e atravessaria mares de cristal; sua alma, tão injustiçada, finalmente encontraria o reconhecimento que a Terra lhe negara.


As expectativas ansiosas de sua geração nunca foram plenamente atendidas, mas muitos superaram o delírio e aprenderam sobre autorresponsabilidade. Sim, para os mais privilegiados, somos responsáveis por nossas vidas. Já os menos afortunados, que carregam as consequências de crimes centenários cometidos contra seus ascendentes, merecem outro texto, aqui não cabem.


Ícaro tornou-se sinônimo de delírio: aquele que vive em um mundo próprio, descolado da realidade. Ícaro, o cirandeiro. Ícaro, o homem que viveu de modo tão efêmero quanto as asas de cera sob o sol escaldante. Muitos Ícaros nasceram e morreram. Alguns conseguiram domar essa imaginação inebriante e aceitaram seu papel de Sísifo em um mundo desigual.

Sísifo: esse era o papel digno. Empurrar a pedra, suar, cansar, recomeçar. Encontrar na repetição a própria forma de lucidez. A vida é um subir e descer diário com problemas às costas, e a beleza se revela apenas quando aprendemos a ser Sísifos felizes. Não porque a tarefa seja leve, mas porque a aceitamos. A felicidade plena e perpétua é uma fábula.


Ícaro, contudo, jamais compreendeu que sua tragédia não era a de Sísifo, mas a de Tântalo.

Não lhe faltava força para empurrar a pedra; faltava-lhe humildade para tocar o chão. Viveu sempre com os frutos ao alcance dos olhos e a água roçando-lhe o queixo — papéis modestos, empregos medianos, oportunidades imperfeitas. Mas, toda vez que estendia a mão, algo recuava. Não porque o mundo lhe negasse, mas porque seu próprio desprezo afastava aquilo que poderia saciá-lo.


Tântalo sofre diante da abundância. Não por escassez, mas por incapacidade de aceitar o que está ao alcance. Ícaro fez do protagonismo absoluto sua fome eterna. Preferiu morrer sedento a beber do copo comum. Preferiu imaginar-se estrela a aprender o ofício.


Sísifo ao menos trabalha. Sísifo sua, cansa, aceita e recomeça. Há dignidade na pedra.


Tântalo apenas deseja.


Ícaro escolheu desejar.


E, ao escolher o desejo eterno, condenou-se à frustração perpétua, não por maldição divina, mas por soberba humana.


Ilustração vibrante em cores neon e tons de unicórnio retrata três figuras da mitologia grega: Ícaro voando com asas coloridas próximas ao sol, Sísifo empurrando uma pedra arco-íris montanha acima e Tântalo em águas iridescentes tentando alcançar frutos inalcançáveis — metáfora visual da ilusão, do esforço e do desejo eterno.

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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.

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1 comentário


Leandro Scott
há 4 horas

Muito bom!!!!

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