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Burca

Foto do escritor: Pedro Sucupira
Pedro Sucupira
17 de mai. de 2025
6 min de leitura

Atualizado: 6 de out.


Duas figuras cobertas por burcas pretas caminhando e sentadas em uma calçada urbana, com árvores e carros ao fundo. A cena transmite silêncio, introspecção e simbolismo cultural.

Yasin Mohammad, que nunca fora dado a paixões ordinárias, mantinha viva, em algum recanto da memória, a lembrança da primeira vez que tocara uma burca.

Na ocasião, estava ele confinado ao leito, vítima de uma gripe, enquanto sua família saía para assistir a uma ópera ocidental, devidamente aprovada pelo Talibã. Ficou em casa sob a tutela negligente de Aisha, a governanta, que, diga-se sem espanto, nunca se destacara pela competência maternal. Aisha preferia comandar outros empregados, talvez por ambição, talvez por preguiça, ou simplesmente por vocação para a tirania doméstica.

Ao despertar de um sono febril, Yasin encontrou-se só. Sem rumo e objetivo, caminhou, então, até se encontrar no quarto dos pais, onde repousavam sobre a cama diversas burcas, todas em tons sombrios, de tecidos variados, como se fossem silhuetas de uma procissão muda. Foi quando cometeu o que chamaria, anos mais tarde, de seu primeiro pecado estético: vestiu uma burca. Chamou por Aisha, certificou-se do silêncio e, em seguida, entregou-se ao desfile solitário.

Vestia, trocava, rodopiava. Dentro da burca, despiu-se por completo. O toque frio e sedoso do tecido na pele febril trouxe-lhe alívio. Diante do espelho, enxergar-se através daquela vestimenta despertou-lhe um sentimento único de prazer.

Na infância, a burca lhe causava medo. Por não conseguir ver os pés de quem a usava, ele as enxergava como espectros, o que lhe provocava calafrios. Na adolescência, perdera o medo e aprendera a respeitar as tradições, mas a peça continuava a despertar em sua mente os mais diversos questionamentos. Nunca compreendeu como a mãe, e todas as mulheres que conhecia, podiam enxergar o mundo por meio de uma estreita faixa que deixava expostos somente os olhos. Algumas, além disso, precisavam ver através de uma fina tela de tecido. E se a mulher fosse míope, conseguiria enxergar? Seria como viver como cega, mesmo possuindo a visão?

Hoje, já na juventude, aquilo era ainda menos lógico, pois embaralhava os seus sentidos, confrontava a razão e as convenções que fundamentavam toda a existência da família. Conhecedor da história, das tradições e dos símbolos, o jovem Yasin via na burca algo que escapava às explicações, não era apenas um marcador de status social. Havia nela uma elegância silenciosa, um mistério que seduzia, como se o tecido ocultasse mais do que um corpo.

As suas preferidas eram as de ocasião, feitas de seda preta com bordados dourados nas extremidades, que cintilavam sob a luz. Havia também as de musseline, adornadas com ramos de gilbardeira bordados em alto-relevo, tão refinadas que pareciam carregar, nos fios, os segredos de um mundo que se recusava a ser visto.

No seu vigésimo terceiro Ramadã, já homem feito, ao menos perante os olhos da lei e do pai, o ato clandestino já se tornara recorrente. Entre as obrigações familiares, os estudos religiosos e universitários, e as infindáveis lições de negócios com o pai, que via em tudo cifras e castigos, ele encontrava momentos de escapatória, de subversão discreta. Furtava, não sem perícia, uma ou duas burcas do vasto acervo materno e assim, no segredo do seu quarto, sob a luz da lua, se deleitava, imaginando cenários, ocasiões em que era apresentado e se apresentava trajado com uma burca.

A liberdade quase plena, porém, só se dava quando os pais partiam para Meca. Era então que Yasin aguardava, com uma ansiedade quase infantil, o momento em que toda a família acompanharia o irmão mais novo em sua primeira peregrinação. Sendo o primogênito, caberia a ele a administração da casa, cargo que exercia com o zelo de quem espera a primeira oportunidade para o desatino.

E assim sucedeu. Quando menos esperava, lá estavam Yasin e Aisha despedindo-se dos viajantes. Recebeu bênçãos, recomendações, olhares austeros. Beijou a mão direita do pai, a esquerda da mãe, e viu-se, enfim, livre.

Ao cair da noite, com os empregados recolhidos e tendo o silêncio como aliado, Yasin dirigiu-se ao quarto da mãe. Lá, escolheu a burca predileta, seda preta com bordados dourados, usada por ela no casamento. O perfume de tecido novo ainda pairava, como se o tempo não lhe tocasse. Nu, Yasin vestiu a burca, queria sentir o tecido frio e leve em toda a pele, uma segunda epiderme, uma carapaça de prazer.

Diante do espelho, erguia delicadamente as barras da burca e desfilava sobre as pontas dos pés. Observava-se demoradamente, um narciso velado. Girava o corpo, voltava-se de costas e, com a cabeça inclinada sobre o ombro, examinava o caimento do tecido sobre o corpo, fascinado pela forma como ele ocultava os traços masculinos. Deslizava as mãos sobre a seda, comprimindo-a contra o corpo num frenesi silencioso que lhe arrancava suspiros contidos. O mundo parecia suspender-se; o tempo perdia o compasso; e, como se naquele instante tocasse o ápice da criação, Yasin entregava-se por inteiro àquela liturgia secreta.

Foi então que percebeu, à porta, um empregado que o encarava. Parado, balde e vassoura em mãos, o jovem trazia no rosto o espanto e o medo. Quantos empregados o pai contratava! Era impossível distinguir os novos dos antigos. Ambos permaneceram imóveis — Yasin, de surpresa; o rapaz, de pavor.

Em seguida, o empregado deixou-se cair de joelhos.

— Perdão, senhora. Não era minha intenção — suplicou.

Encostou a testa no chão e levou as mãos acima da cabeça, unidas como em prece. Tremia descontroladamente. Os ombros sacudiam-se entre soluços contidos, enquanto as lágrimas escorriam e desapareciam no tapete.

O gesto de temor e submissão apanhou Yasin desprevenido. Debaixo da burca, permaneceu imóvel. Os olhos se arregalaram, a boca entreabriu-se sem que dela escapasse palavra alguma. O empregado continuava prostrado, chamando-o de senhora, e aquela única palavra parecia não terminar nunca. Senhora.

Ecoava-lhe nos ouvidos; instalava-se devagar na consciência.

Senhora? Eu?

Sentiu o coração acelerar. O susto começou a ceder lugar a outra coisa, mais quente, mais funda. Os cantos da boca estremeceram sob o véu. Sem perceber, endireitou a coluna, ergueu levemente o queixo e permaneceu olhando para aquele homem curvado diante de si. Naquele breve instante, o medo e a surpresa se metamorfoseavam em um prazer silencioso, em uma alegria solene.

Yasin aproximou-se do rapaz com a altivez que aprendera ao longo dos anos com as mulheres da casa, donas de seus silêncios e de suas manhas, tocou o rosto do jovem com a ponta dos dedos, num gesto que se pretendia delicado. Sentia, naquele momento, um misto de poder e vulnerabilidade: era senhora e, ao mesmo tempo, intrusa.

Sabia-se, naquela casa, o destino dos que desagradassem a figura paterna de Yasin. Mas o medo é uma força que se dobra facilmente à surpresa e o que surpreendeu Yasin foi a própria coragem, o ímpeto, que o fez levar a mão ao rosto do rapaz, secar-lhe as lágrimas e, num sussurro, ordená-lo ao silêncio:

— Tudo ficará bem. Acalme-se.

Yasin, agora dominado por essa energia nova conduziu o jovem ao abraço. E o rapaz aceitou. Respirou fundo, sentiu o toque leve nas costas, o afago circular, e, pouco a pouco, a tensão cedeu espaço a uma estranha quietude. Os dois, presos naquela dança silenciosa, eram prisioneiros de seus próprios papéis: um, escravo do medo; o outro, escravo do desejo, ainda que este último se escondesse sob o manto da autoridade.

A partir daquele dia, o quarto deixou de lhe bastar. Se um homem conhecera seu segredo e o mundo não desabara, por que continuar escondido entre quatro paredes? A ousadia chegou devagar, como chegam as febres e as convicções. Primeiro atravessou o corredor; depois o quintal; e por fim, alcançou a rua.

Vestido de seda, Yasin passeava pelo mercado e por outros recantos onde mulheres circulavam. O mundo visto pela estreita fenda de uma burca era outro, mais denso, mais íntimo. Havia ali, sob o véu, uma espécie de prazer existencial. Alegrava-se e, como todo ser que se aventura nos domínios do interdito, questionava-se: quantos outros, como ele, estariam ocultos sob véus? Quantos mistérios se escondiam em cada burca?

E entre uma saída e outra, enquanto caminhava, sonhava. Sonhou com desertos sem fim, onde as burcas flutuavam pelo ar como fantasmas, e onde ela, vestida e nua ao mesmo tempo, era rainha de um reino sem súditos. Ao longe, a voz do pai soava como uma sentença: “Os homens devem ser espelhos da honra.” Mas Yasin, em seu trono de seda, ria. Ria porque sabia: os espelhos também distorcem. Porque há prazeres que, uma vez conhecidos, não se abandonam. Apenas se escondem, como fantasmas atrás de véus.

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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.

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