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As Cruzes de Donzell

Foto do escritor: Pedro Sucupira
Pedro Sucupira
27 de mar.
10 min de leitura

Atualizado: 6 de out.


Rapaz com mochila diante de três cruzes de madeira em um milharal ao pôr do sol; um espantalho está preso à cruz central, sob um céu alaranjado e ameaçador.

Os passos de Donzell batiam na terra vermelha num ritmo que ele mesmo não controlava. A mochila golpeava as costas, os livros apertados contra o peito como armadura improvisada. Atrás dele, as vozes — três, talvez quatro — ainda chegavam, mas menores, engolidas pela distância e pelo capim alto que chicoteava seus braços ao passar.

— Pega ela!

— Aberração! — o grito rasgou o mato, áspero, carregado de um ódio que já não precisava de motivo.

Donzell baixou os olhos por um instante. Os cadarços começavam a se soltar, mas não parou.

Alongou as passadas, saltando sobre pedregulhos e tufos de capim como um cervo acuado. O ar queimava-lhe os pulmões. Arriscou um rápido olhar por cima do ombro e percebeu que abrira certa distância. Os rostos já se confundiam com a poeira vermelha levantada pela perseguição, mas os gritos continuavam próximos demais para permitir qualquer alívio. O medo era real, denso, palpável. Desceu-lhe pela garganta como um líquido quente e repulsivo. Vivia sob constante ansiedade elaborando, em silêncio, estratégias mentais para escapar das humilhações.

A escola nunca fora um lugar seguro. Sua grande inteligência e perspicácia não foram suficientes para lhe garantir aceitação. Era sempre o primeiro nas notas, o vencedor nas competições de conhecimento, mas, no mundo social, continuava sendo o último.

Tropeçou. A pedra surgiu do nada, e o tornozelo cedeu com um estalo seco. Donzell caiu de lado num barranco erodido que nunca havia notado — uma encosta curta, quase invisível no capim —, e deslizou até o fundo, onde corria um córrego estreito. Ficou um instante imóvel, ofegante. A palma da mão ardia. Olhou para cima. As vozes continuavam procurando.

— Onde aquele desgraçado se enfiou?

— Sumiu. Eu não tô vendo.

— Ai, estão me machucando... Socorro, socorro... — uma voz debochada imitou. — Eles não param de me perseguir...

Gargalhadas atravessaram o mato.

— Da próxima vez eu arrebento a cara daquela aberração.

— Vocês lembram quando começou a usar faixa pra esconder os peitos?

— Lembro. Todo mundo achou esquisito.

— E aquela professora defendendo... Como se aquilo fosse normal.

— Meu pai sempre falou pra eu ficar longe desse tipo de gente. Diz que pega.

— Pega o quê? Vai arrancar as bolas só de encostar nela? — outro respondeu, arrancando novas risadas.

— Não sei nem como teve coragem de voltar pra escola. Da outra vez a gente quase matou aquela coisa de tanto bater.

— Ué, não quer ser homem? Então apanha como homem.

Houve um instante de silêncio. Depois outra voz:

— A polícia foi lá em casa.

— E aí?

— Meu pai disse que eu nem tinha saído naquele dia.

Silêncio outra vez. Passos. Galhos se partindo. As vozes se afastaram aos poucos. Não tinham percebido a estreita trilha escondida entre o capim alto, uma linha secreta que só se encontrava caindo sobre ela.

Donzell permaneceu imóvel por alguns instantes, tempo suficiente para se convencer de que, enfim, estava sozinho. Só então se levantou, devagar, cuidando para que nenhum galho seco denunciasse sua presença. Baixou os olhos. A terra vermelha cobria-lhe as roupas por inteiro. Passou a mão pelos cabelos, sacudindo a poeira e retirando pedaços de capim; amarrou os sapatos, ignorou a dor no tornozelo e cruzou o riacho, saltando de pedra em pedra, escolhendo as menos escorregadias. Onde seria a nascente daquele fio cristalino?

A mochila nas costas e os livros apertados nas mãos tornavam o percurso mais difícil, mas Donzell o aceitava como parte de algo. As vozes foram perdendo corpo, tornando-se sussurro, depois silêncio.

Do outro lado do riacho, uma trilha de terra batida seguia por um campo de capim ainda mais alto, que em alguns trechos o engolia por completo. À vontade, agora no silêncio, Donzell começou a assobiar. A cada curva, uma excitação silenciosa. Conhecia bem cada recanto daquele pedaço de cidade, e ali havia um segredo que escapara aos seus olhos até agora.

A paisagem se abriu de repente.

Um milharal, cujos caules verdes o cobriam por completo. Donzell conseguia enxergar por entre as fileiras, mas apenas até certo ponto, onde o verde se perdia no horizonte. Dentro do milharal, não havia caminho algum.

Com esforço, pulou algumas vezes, tentando enxergar acima da plantação. Ao longe, quase na linha onde o verde encontrava o céu, Donzell percebeu uma estrutura vertical se destacando acima dos topos dos pés de milho. Algo pendia dela, imóvel.

A curiosidade, ardente e incontrolável, empurrou-o para dentro do milharal. Ali, tudo mudou. A atmosfera, antes refrescante e leve, tornara-se pesada, sufocante. Era uma natureza que não acolhia, mas vigiava.

Enquanto avançava por dentro do milharal, notou que ali o vento sussurrava por entre os talos de milho, fazendo-os curvar em uma dança hipnótica, e cada estalo soava como uma palavra indecifrável. Donzell sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha, mas seus pés não pararam. O mistério sugava-o para dentro de si.

Donzell avançou sentindo-se observado, como se cada haste fosse um olho atento. A estrutura à distância crescia diante dele até que, finalmente, pôde distinguir sua forma: uma cruz. Continuou a caminhar, o coração batendo lento e pesado.

Donzell parou. Havia uma clareira de terra batida em um círculo perfeito. Uma terra redonda, lisa e morta como o topo de um crânio. Ali, uma figura parada, os braços estendidos, fixados horizontalmente num madeiro gasto; as pernas unidas, uma ligeiramente sobreposta à outra; a cabeça, caída, inclinava-se para a direita com um cansaço trágico, como quem já não espera salvação.

Uma pessoa? Alguém pregado ali?

A boca era formada por uma linha grossa costurada. A roupa esfarrapada, feita de tecido grosso — a trama lembrava-lhe saco de ráfia —, pendia pesada. No tecido, marcas escuras e irregulares onde o pano cedia: rasgos que, numa certa luz, lembravam chagas. Botões enormes e pretos costurados no rosto lhe serviam de olhos, e pareciam fitar quem parasse diante da cruz improvisada.

Donzell notou que não era uma só. Eram três cruzes. Duas estavam vazias, silhuetas nuas contra o céu pálido. A do centro, porém, sustentava aquele espantalho, muito bem preenchido com palha. Não era apenas um boneco, era uma cruz encarnada em pano e palha, um Cristo do mato, costurado à mão por alguma fé esquecida.

Ali, no meio da plantação, não se sabia se ele afastava as aves ou atraía maus espíritos. Uma figura crucificada entre o milho, condenada a vigiar sem descanso, espantando não apenas pássaros, mas também os próprios vivos.

Assim que Donzell adentrou a clareira, aproximando-se das estruturas verticais, examinando com atenção, o vento começou a agitar o milharal, curvando os talos como uma multidão reverente. As cruzes laterais exibiam sinais de abandono: pedaços de palha, tiras de tecido rasgado e cordas frouxas, desamarradas, pendiam como restos de um sacrifício, deixando apenas o crucificado central, que parecia observá-lo com os olhos de botão em um lamento silencioso.

Quando tomou consciência da passagem do tempo, o sol se punha no horizonte, tingindo o céu de laranja e vermelho, e a escuridão se insinuava pelos cantos da plantação. O vento, agora mais forte, percorria os caules, curvando-os a força, formando sons guturais e uníssonos. Alguns tocavam o solo. Outros quebravam e permaneciam ali, no chão, abandonados. Alguns caules, tomados por uma corrente de vento divergente, entravam em um redemoinho e, histéricos, balançavam para todos os lados.

Donzell olhou uma última vez para o espantalho e sentiu medo. Um medo desproporcional se agarrou a ele como se fosse uma sanguessuga. Medo pela própria vida. Medo de ser espancado até a morte — pauladas na cabeça, socos, chutes, tapas. Medo de ter o coração arrancado. Seu coração acelerou. Desviou o olhar e correu.

***

Naquela noite, Donzell se esforçou para dormir. Acordou três vezes. Na última, desistiu de lutar e foi para a escrivaninha.

O Cristo-espantalho havia mesmo ficado para trás?

Algum instinto o fez olhar pela janela. No quintal, próximo à cancela de madeira, havia um vulto. Uma forma que foi ganhando contornos enquanto seus olhos se acostumavam com a escuridão. Donzell se aproximou do vidro, a testa quase encostando no frio.

O espantalho estava lá em pé, olhando em sua direção.

A cabeça se movia de um lado para o outro, como um ponteiro marcando os segundos. Tic-tac. Tic-tac. A boca costurada tinha as pontas voltadas para cima. Os olhos de botão não eram os mesmos que ele havia visto no milharal.

Andou para trás. Saiu correndo pelo corredor.

— Pai! Mãe, levanta!

O pai acordou com um solavanco. A mãe, antes mesmo de entender, já estava de pé. Donzell conseguiu dizer apenas que tinha visto alguém no quintal. O pai, de um pulo, alcançou a velha espingarda — uma companheira necessária para quem mora longe de tudo —, e a mãe pegou a outra. Foram juntos até a porta.

— Quem estiver aí, sai logo! — gritou o pai.

Saiu para o quintal. Caminhou até a cancela. Olhou ao redor.

Nada. O silêncio e os grilos.

A mãe afagou os ombros de Donzell, que ele aceitou sem resistência. Os pais o acalmaram — talvez um sonho, disseram, com a serenidade de quem acredita na experiência do filho, mesmo sem entendê-la por completo. Donzell respirou. Sabia que podia contar com eles. Sabia desde sempre.

Ao voltar para a cama, deitou-se com cuidado, ajeitando os lençóis em silêncio, numa tentativa de retomar o conforto. Depois de muito revirar, seus olhos foram atraídos para a porta no canto direito do quarto. Um arrepio percorreu sua espinha. Donzell se sentou lentamente, o coração martelando no peito com uma força quase audível. Estava suando, sentia o suor escorrendo pela testa, pelas axilas, umedecendo os pelos recém-nascidos no peito. O corpo, que antes repousava em paz, agora estremecia em alerta.

Ele, então, ergueu o olhar.

O espantalho estava ali.

O Cristo de palha. De pé. No canto do quarto.

Observava-o em silêncio, uma presença sólida e absurda. O rosto, antes apenas feito de botões e costuras, agora estava pintado de branco, como uma máscara fúnebre de teatro. A boca costurada havia se rasgado em um sorriso torto, retorcido, que escorria sangue. Um riso assassino, congelado no tempo. Onde deveriam estar os olhos, havia apenas buracos negros, ocos, que pareciam sugar toda a luz do ambiente. Um vazio que encarava. Que julgava.

Na mão direita, espantosamente firme, segurava um livro.

Um livro fechado, grosso, velho, cuja capa Donzell não conseguia ler, mas que de alguma forma reconhecia. Era o livro do juízo. O livro que sentencia, que pesa as culpas, que absolve ou condena.

— Venha cá, Donzell — chamou o espantalho com uma voz rouca e serena. — Não vou te machucar. Tenho um livro para você. Um livro... e um sermão! Venha cá!

De súbito, lançou a cabeça para trás e deu uma gargalhada aguda, quase animalesca. O som cresceu como um enxame de morcegos em disparada, ecoando por todo o quarto, reverberando nas paredes como um grito antigo e enlouquecido. Donzell, tomado de pavor, levou ambas as mãos aos ouvidos, tentando inutilmente se proteger daquela investida sonora que parecia atravessar a alma.

— Venha cá, Donzell — repetiu o espantalho, agora mais calmo, quase doce. — Vamos conversar. Você precisa se libertar. Eu posso te ajudar. Eu posso te libertar. Você poderá voltar a ser o que era antes. Eu posso te curar...

Donzell tentou levantar-se, mas percebeu que estava paralisado. Seu corpo tremia por dentro, enquanto a cabeça girava de um lado para o outro, à procura de uma rota de fuga. A porta estava bloqueada. O espantalho permanecia ali, imóvel, mas presente como um poste de sentença — a encarnação do juízo.

O medo que o tomava agora era diferente. Era um medo íntimo, viscoso, o peso de uma culpa que não lhe pertencia, mas que sentia como se fosse sua. A culpa de existir como era. O medo de ter que enfrentar o mundo como se tivesse cometido um crime. Perseguido por aquele ser que não salvava, apenas julgava, punia, condenava. A consciência da onipresença do espantalho o apavorava.

Nenhum pensamento, nenhum suspiro, nada escapava ao alcance daquele olhar costurado. A imobilidade do espantalho — estático, distante, mas presente — era uma exibição de poder. O fato de invadir seus pensamentos daquela forma apenas ampliava o desespero. O terror nascia do silêncio e do olhar que nunca desviava.

Poderia fugir — mas para onde? Não importava a direção, ele o encontraria novamente. Seria preciso se acostumar com aquela presença constante em sua vida? Estaria enlouquecendo?

As cruzes invadiam-lhe a mente como facadas na nuca. Os olhos de botão, os braços abertos, a cabeça tiquetaqueando, o sorriso costurado — tudo aquilo revolvia sua mente em turbilhões. Uma dor intensa espalhou-se pelo corpo. O peito ardia, o coração disparava. A paisagem tornou-se turva e começou a girar ao seu redor.

Trêmulo e pálido, Donzell reuniu forças e se levantou, arrastando os pés até a escrivaninha e a estante de livros. Os olhos, fixos no espantalho, não piscavam. Com uma das mãos, tateou às cegas a prateleira até tocar um volume qualquer. Os dedos, gelados e trêmulos, mal conseguiam sustentar o peso do livro.

Então, num movimento desesperado, fechou os olhos e se virou bruscamente, começando a arremessar os livros um a um contra o espantalho. Não queria ver. Não queria sentir. Mas era como se uma mão invisível se escondesse sob seu queixo, erguendo sua cabeça à força, obrigando-o a encarar aquilo que mais temia. O terror era um altar, e ele, o sacrifício.

Os livros bateram contra a parede, contra a porta, e caíram ao chão com estardalhaço.

A porta se escancarou.

— Donzell! Somos nós!

Os pais apareceram, na soleira do quarto, ofegantes. Donzell abriu os olhos. O espantalho havia desaparecido.

A respiração falhava; por mais que inspirasse, o ar nunca era suficiente. Caiu de joelhos, exausto de lutar, e rompeu em lágrimas.

Os pais correram. O envolveram num abraço — aquele abraço específico deles, que ele conhecia desde criança, quando os pesadelos eram menores e mais fáceis de nomear. Não fizeram perguntas. Ficaram ali, os três, no chão, entre os livros espalhados.

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As Cruzes de Donzell.

Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.

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