Vai Ficar Tudo Bem
Atualizado: 6 de out.

Roberto entrou no templo da Igreja Promessa Viva com uma alegria quase infantil. Acompanhado da esposa e dos filhos, atravessou uma das muitas portas distribuídas ao redor do edifício circular. Lá dentro, tudo parecia convergir para o centro. As arquibancadas envolviam o púlpito como um anfiteatro, enquanto o teto, alto e arredondado, lembrava um ninho iluminado por dezenas de pequenas estrelas artificiais. Dois telões gigantes, dispostos verticalmente, reproduziam cada movimento do altar, de modo que ninguém precisava procurá-lo: o olhar era conduzido até ele antes mesmo que a vontade pudesse escolher outro destino.
Era o quinto dia útil do mês. Também o dia de devolver a Deus os dez por cento do salário.
Roberto, a esposa e os filhos cumprimentavam os conhecidos enquanto caminhavam entre as fileiras. Como sempre, escolhiam os bancos mais próximos do púlpito. Roberto acreditava que a distância também era uma forma de devoção; quanto mais perto da Palavra, mais fundo ela penetraria na alma.
Havia dezesseis anos repetia aquele ritual. Nunca se permitira calcular quanto dinheiro teria acumulado se, em vez de depositá-lo no envelope do dízimo, o aplicasse numa simples caderneta de poupança. A ideia lhe surgia de vez em quando, mas era logo afastada como uma tentação. Afinal, não estava entregando o que era seu, mas devolvendo o que pertencia a Deus por direito.
— Pai, por que o senhor coloca tanto dinheiro nesse envelope? — perguntou Samuel, o caçula, repetindo uma dúvida que parecia renascer todos os meses.
Roberto sorriu, mas não respondeu.
As palavras de Malaquias 3:10 ecoaram em sua memória, familiares como uma oração decorada:
"Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma benção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes.”
Durante dezesseis anos, depositara o envelope com a mesma reverência de quem lança uma semente à terra. Não esperava riqueza imediata. Esperava o tempo de Deus. E, enquanto esse tempo não chegava, permanecia fiel, convencido de que, em algum lugar do futuro, as comportas do céu já começavam a se abrir.
A esposa e os filhos caminhavam um passo atrás de Roberto. Ninguém lhe perguntava onde se sentar. Ele escolhia, e os demais apenas o acompanhavam. Fazia anos que aquela coreografia se repetia sem desvios. Roberto decidia; os outros consentiam. Era assim que entendiam a ordem da família.
— Vamos ficar ali — disse, apontando para uma das primeiras fileiras.
O louvor já tomava o templo.
— Ressuscitou, ressuscitou... E Ele vive, vive, vive para sempre... Ressuscitou, ressuscitou... E Ele vive, vive, vive para sempre... Vamos celebrar! Ei! Vamos celebrar! Uou! Vamos celebrar! Ressuscitou o Senhor!
Samuel, o caçula, acompanhava a música com o corpo inteiro. Batia os pés no chão, balançava os braços, cantarolava antes mesmo de decorar a letra.
Roberto pousou a mão sobre seu ombro.
— Samuel, a música já acabou. Sente-se e comporte-se.
O menino obedeceu imediatamente. Sentou-se ao lado do pai, endireitou as costas e cruzou as mãos sobre as pernas, imitando a postura da congregação. Ao redor, centenas de pessoas faziam o mesmo, enquanto o último acorde se dissolvia no silêncio. Todos aguardavam a palavra do primeiro pregador.
Samuel observava um grupo de adolescentes fotografando-se diante do painel luminoso da igreja.
— Pai... por que agora pode tirar selfie aqui dentro? Antes não podia nem trazer celular para o culto.
A mãe apertou-lhe discretamente o braço.
— Samuel...
— Estou só perguntando.
Roberto respondeu sem desviar os olhos do púlpito.
— A igreja precisa acompanhar o seu tempo. O importante é que as pessoas conheçam Jesus.
Samuel assentiu, embora não parecesse convencido. Poucos metros adiante, passou por eles uma moça de calça jeans rasgada e cabelos tingidos de azul. Usava o crachá de voluntária. O menino tornou a perguntar:
— Mas a tia Lúcia não foi disciplinada porque pintou o cabelo de vermelho?
A mãe lançou-lhe um olhar severo.
— Chega de perguntas.
Roberto respirou fundo. Lembrava-se perfeitamente. Naquele tempo, até televisão era motivo de repreensão. Mulher de calça, brinco em homem, cinema, carnaval. Tudo era porta para o inferno. Agora havia cafeteria, livraria, praça de alimentação, espaço para coworking, conferência de empreendedores, noite dos solteiros, festival gospel, campeonato de videogame. Os tempos mudavam. Ou melhor, corrigiu-se silenciosamente, os métodos mudavam, mas Deus permanecia o mesmo. Precisava permanecer.
Enquanto aguardavam o início da pregação, a esposa inclinou-se discretamente em sua direção.
— Você viu que agora vão vender ingresso para a conferência de casais?
Roberto demorou alguns segundos antes de responder.
— É para cobrir os custos.
Ela fez um leve movimento de cabeça, como quem aceitava a explicação, embora não parecesse inteiramente convencida.
Samuel puxou novamente a camisa do pai.
— Pai...
— O que foi agora?
— Jesus também tinha telão?
Roberto sorriu sem graça.
— Na época dele não existia tecnologia.
— Mas ele precisava?
A mãe interrompeu antes que a pergunta encontrasse outro destino.
— Samuel, presta atenção no culto.
Quando se converteu, o pastor pregava de terno gasto sobre um pequeno tablado de madeira. Não havia luzes coloridas, fumaça, telões ou banda. Apenas um púlpito, um microfone chiando e uma Bíblia. Às vezes, enquanto observava o palco iluminado da Promessa Viva, a lembrança voltava. Durava pouco porque ele a expulsava quase imediatamente. Não era a igreja que havia mudado, era Deus quem abrira novas portas. Precisava acreditar nisso.
Quando o pastor Andrei subiu ao púlpito e tomou o microfone, um murmúrio percorreu o templo.
— Hoje não era o dia do pastor Elias? — perguntou Samuel.
Roberto e a esposa trocaram um olhar breve. Nenhum dos dois respondeu.
Desde que assumira a presidência da Igreja Promessa Viva, Andrei quase nunca ministrava a Palavra. Pastorear o rebanho era tarefa confiada aos homens que preparava para sucedê-lo. Ele aparecia apenas nas grandes ocasiões.
Roberto lembrou-se da última. Fazia mais de um ano. Naquela noite, Andrei subira ao mesmo púlpito para anunciar a criação do Banco da Promessa. Falara durante quase duas horas. Não sobre dinheiro, dizia ele, mas sobre fé. O banco seria apenas um instrumento. Uma ponte entre a escassez da terra e a abundância do céu. Depositar ali não significava investir; significava semear.
"Tudo o que é plantado com fé retorna multiplicado."
A frase espalhara-se pela igreja como uma nova parábola. E parecia verdadeira. Nas semanas seguintes começaram os testemunhos. O dono da padaria que ampliara o negócio. O casal que quitara as dívidas. O rapaz promovido no trabalho depois de entregar sua oferta de sacrifício. Histórias diferentes, todas conduzindo à mesma conclusão: Deus honrava quem primeiro O honrava.
Roberto acreditou e, como a grande maioria dos fiéis, ele também depositava sua fé em forma de investimentos. Afinal, ninguém percebia quando a fé deixava de ser confiança para se tornar cálculo. Aos poucos, ofertar já não era apenas um gesto de devoção, mas um investimento espiritual. Esperava-se retorno. Esperava-se multiplicação. E, sem que ninguém dissesse isso em voz alta, a esperança começou a render juros.
— Como muitos de vocês já devem saber, o pastor Elias não poderá conduzir o culto desta noite. — continuou Andrei. — Mas venho aqui para tranquilizar os irmãos. Elias sempre foi um servo exemplar do Senhor. A provação que enfrenta, arquitetada pelo inimigo e por um governo que tenta calar a Igreja, não nos destruirá. Deus exaltará o seu servo para honra e glória do Seu nome.
O templo explodiu em aplausos.
Na cadeira ao lado, Samuel ouviu um casal sussurrar:
O menino voltou-se para o pai. Havia em seu olhar a curiosidade de quem espera uma resposta simples para uma pergunta difícil. Encontrou apenas as sobrancelhas franzidas de Roberto.
— Quando Elias assumiu os cultos de terça-feira, jamais imaginávamos onde chegaríamos — prosseguiu Andrei. — Muito do que esta igreja conquistou devemos ao trabalho desse homem fiel. Por isso lhes peço: não deem ouvidos à mídia manipuladora, instrumento de Satanás, que tem espalhado mentiras sobre nosso irmão. Tudo isso faz parte de uma estratégia do inimigo para enfraquecer a obra de Deus.
Novos aplausos.
Roberto permaneceu imóvel. Sentia o olhar de Samuel sobre si. Sentia também o silêncio da esposa e do filho mais velho. Todos estavam ali porque ele os conduzira até aquela igreja. O envelope do dízimo começou a umedecer entre seus dedos. Sem perceber, abriu a Bíblia e o guardou entre as páginas. Depois apertou o livro, como um náufrago que encontra um pedaço de madeira em mar revolto.
A lembrança do Banco da Promessa emergiu de repente. Foi Elias quem, ao lado de Andrei, anunciara sua criação naquele mesmo púlpito.
As manchetes voltaram-lhe à memória como uma enxurrada: desvios de recursos, transferências sem origem conhecida, projetos financiados sem finalidade aparente, estruturas paralelas, lavagem de dinheiro, organizações financeiras ocultas... Palavras técnicas demais para que pudesse compreendê-las por inteiro, mas claras o suficiente para instalar uma dúvida. E a dúvida, quando encontra a fé, costuma fazer mais barulho do que qualquer certeza.
— Pai... o senhor está bem?
Roberto percebeu que estava transpirando.
— Preciso ir ao banheiro. Já volto.
Levantou-se, pediu licença enquanto atravessava a fileira de bancos e caminhou até o corredor.
O banheiro estava vazio. Apoiou as mãos sobre a bancada e encarou o próprio reflexo. Afrouxou a gravata e desabotoou o colarinho.
Era preciso ter fé. Deus continuava no controle.
"Mil cairão ao teu lado e dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido."
Repetia os versículos como quem tenta estancar uma hemorragia invisível.
Respirou fundo. Uma vez. Depois outra. Mais duas. Jogou água no rosto, na nuca, enxugou-se e saiu.
Assim que deixou o banheiro, encontrou três membros da igreja reunidos no corredor, falavam baixo. Quando o viram, calaram-se imediatamente. O silêncio pesou mais do que qualquer palavra.
— A paz do Senhor, irmãos.
— A paz do Senhor, Roberto — respondeu Carlos, forçando um sorriso.
Roberto olhou de um para o outro.
— Sobre o que conversavam?
Carlos soltou um suspiro curto.
— Você sabe... Está difícil fingir que nada está acontecendo.
— Confiem no Senhor de todo o coração e não se apoiem em seu próprio entendimento; reconheçam-no em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas. Provérbios 3:5-6 — recitou Roberto.
Os três se entreolharam. Ninguém respondeu. Roberto prosseguiu, como se o silêncio ainda pudesse ser vencido por outro versículo.
— Apeguemo-nos firmemente à esperança que professamos, sem vacilar, pois quem prometeu é fiel. Hebreus 10:23.
O corredor permaneceu mudo. Carlos baixou os olhos. Os outros evitaram encará-lo. Roberto percebeu que falara sozinho. Endireitou a gravata, esboçou um sorriso constrangido e fez um leve aceno com a cabeça.
— A paz do Senhor.
Sem esperar resposta, voltou para o templo.
Quando voltou ao templo, a banda já tocava. A esposa lhe lançou um olhar preocupado.
— Está melhor?
Roberto apenas assentiu. Sentou-se, apertou a Bíblia contra o peito e respirou fundo. Precisava esquecer as conversas do corredor. Precisava esquecer as manchetes. Precisava esquecer Elias.
O primeiro acorde ecoou pelo templo. Bastou um. Roberto fechou os olhos. Conhecia aquela sequência. O teclado entrava sozinho, depois as cordas, então as vozes, sempre nessa ordem, como uma oração aprendida pelo corpo. Aos poucos, a respiração desacelerou, o peito afrouxou. Talvez tivesse exagerado. Talvez tudo aquilo fosse realmente perseguição.
— Eu sei por que você veio hoje.
Roberto ergueu a cabeça. Parecia que o pastor falava apenas com ele.
— Alguns chegaram aqui com medo.
Roberto apertou a Bíblia.
— Outros chegaram aqui cheios de dúvidas.
Samuel olhou discretamente para o pai.
Andrei permanecia imóvel no centro do palco, observando, controlando. A cada palavra, o espaço parecia reorganizar-se ao seu redor. Não havia improviso. Tudo obedecia a uma lógica precisa. O som retornava no momento exato, as luzes se intensificavam quando necessário, o coro acompanhava, sustentava, amplificava. Aquilo não era espontâneo. Era conduzido. E, quanto mais se entregavam, mais profundo se tornava o efeito.
— Entregue — disse ele, erguendo levemente a mão.
A palavra caiu sobre o público como uma ordem.
— Entregue tudo. A dor. O medo. A dúvida. A sua vontade.
Fez uma pausa, curta, mas suficiente.
— Entregue a si mesmo.
Ao final daquela frase, um estalo seco atravessou o sistema de som. A música morreu. As luzes oscilaram. Um murmúrio percorreu a igreja.
Roberto abriu os olhos, arrebatado de volta à realidade.
No enorme telão atrás do púlpito surgiu uma imagem trêmula, desfocada, como se alguém tivesse conectado um equipamento às pressas. Ninguém compreendeu. Alguns olharam para a cabine de som. Outros imaginaram tratar-se de um problema técnico.
A imagem estabilizou.
Uma sala. Uma mesa. Dois homens.
— A fé é o ativo mais estável que existe.
Elias sorriu.
— Eles não investem dinheiro. Investem obediência.
Andrei olhava para o telão incrédulo. O sangue abandonava-lhe o rosto.
— O banco é só a estrutura — continuava sua própria voz na gravação. — O importante é a narrativa. Se eles acreditam que estão investindo no eterno, não questionam o presente.
— E os limites? — perguntava Elias.
Andrei sorriu.
— Não há limites quando o discurso é espiritual. Tudo pode ser justificado.
Roberto arregalou os olhos. Por um segundo, os olhos de Andrei encontraram os seus. Ambos pálidos.
Samuel segurou a mão do pai. O menino apertou-lhe os dedos com força.
— Calma, pai...
Roberto voltou lentamente o rosto para o filho.
Samuel sorriu daquele jeito simples que só as crianças conseguem sorrir quando ainda acreditam que todo medo pode ser vencido.
— Vai ficar tudo bem.
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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.
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