Traumas (God’s menu) – um conto sobre luto, dor e sobrevivência
- Pedro Sucupira
- 10 de jul. de 2024
- 13 min de leitura
Atualizado: 25 de mai.

Daniela morreu numa quinta-feira à noite. Foi sepultada no domingo.
Os traumas compõem o cardápio de alguma divindade caprichosa, ou sádica, se preferirem os termos fortes, cuja predileção parece inclinar-se ao sofrimento humano como fonte de entretenimento. Há os de todas as espécies, tamanhos e intensidades; refinados como iguarias de uma ceia macabra, servidos à la carte, com requinte peculiar. A mesa posta é de horrores, e nela se banqueteiam, impunes, deuses e homens.
— O cavalheiro deseja algo especial? Posso, com licença, sugerir as iguarias do dia. Como entrada, sirvo crianças anêmicas, de ventre distendido por ascite, herança de uma obstrução intestinal cortesmente cedida por vermes intestinais — Ascaris lumbricoides, se o nome lhe apetecer.
— Para o prato principal, recomendo uma seleção requintada de abusos sexuais, acompanhados de assédio moral bem temperado, violência doméstica no ponto e uma guarnição de abandono infantil, tudo disposto com primor.
— E, para sobremesa, se me permite a ousadia, uma dose de culpa autoinoculada, fruto de terapias corretivas — daquelas que curam o indesejado —, regada com calda morna de suicídio, em nome, dizem, da purificação da alma.
Não há compêndio mais saturado de desgraças que os chamados textos sagrados, páginas onde o sofrimento humano se torna espetáculo, e o flagelo, um exercício de devoção. Ali, o sadismo assume feições piedosas, e as penas infligidas aos homens são perpetradas por suas próprias mãos, temerosas de entidades invisíveis, porém insaciáveis.
Traumas. O que há de mais árduo não é narrá-los, mas coexistir com a certeza de que alguém, um outro, detém esse saber, esse sigilo que deveria permanecer sepulto. Tão íntimos são, que a mera lembrança de havê-los partilhado já me revolta o estômago, como se a alma, indiscreta, houvesse cometido uma traição. Não sei, com franqueza, se possuo coragem bastante nem para dizê-los nem para escrevê-los. Doem, é certo; causam sofrimento, e, em ocasiões, um deleite inquietante, quase voluptuoso, em tê-los.
Habitam as profundezas do espírito, e de lá, como espectros de um lago turvo, emergem vez ou outra. Vêm anunciar sua presença porque, a bem da verdade, jamais se vão. São sementes, quem sabe, de uma malevolência adormecida, que aguarda o instante oportuno para fincar raízes, crescer, e fazer de mim um solo fértil à árvore de frutos daninhos. Ou talvez, quem sabe, seja essa árvore, de cuja existência se diz no Gênesis, aquela que oferece o saber, que desnuda a verdade e dissipa o véu da ignorância e da hipocrisia.
Mas que seria de mim sem essas sementes insidiosas? Seria, talvez, outro e, suspeito, menos eu. Sou forjado por elas, em sua substância amarga encontrei o molde daquilo que sou. Áries, ascendente em escorpião, um binômio que dispensa eufemismos, trago em mim a centelha da autodestruição, acesa e atenta. Plutão, Lilith e Juno, todos na casa 1, transformam minha existência numa confluência de abismos. Sou, não sem certo orgulho mórbido, guardado por Cérbero, o cão de três cabeças, sentinela dos portões do meu ser. Cabeças armadas de dentes pontiagudos, prontas a dilacerar o incauto que ousar cruzar o limiar. Mas não se iluda: tal como um castelo que, por fora, ostenta ameias e torres austeras, por dentro abriga jardins de acalmia. No íntimo, onde reside o que verdadeiramente sou, florescem arbustos de memórias boas, árvores de gratidão, frutos doces de instantes que o tempo não apagou. Ali, sou manso. Ali, enfim, há paz.
Família. Palavra que se diz com facilidade, mas cujo conteúdo é feito de costuras, rasgos e remendos, disfuncional e imperfeita, como todas, ou ao menos como todas as que ousam ser reais. Cada qual com seus naufrágios e calmarias, seus traumas cuidadosamente herdados, seus abusos, por vezes velados, por vezes públicos. A minha era assim: mãe solteira de três filhos. Quatro, se considerarmos Daniela, que morreu cedo demais, tão cedo que mal chegou a existir. A morte dela foi um capricho do destino, desses que não pedem licença nem perdoam. Minha mãe, à época, cuidava da filha do meio, o braço engessado, e tentava, com o pouco que tinha, equilibrar os afetos e as dores. Lembro-me, porque certas promessas não se esquecem, de ter suplicado ao Deus cristão, esse mesmo que dizem compassivo, que salvasse Daniela. Prometi-lhe jamais ver televisão, esse prazer pueril, se ao menos o rosto dela voltasse intacto, sem aquelas manchas violáceas. Mas Deus — ou a ausência dele — não me concedeu a graça.
Talvez aquele Deus, o do cristianismo, tão afeito a holocaustos, exigisse sacrifícios de maior vulto, como nos tempos de Abraão, quando até filhos se punham no altar. Mas Daniela era filha... sim, filha de minha mãe. Teria ela, ainda que inconscientemente, ofertado Daniela em nosso nome, por nós outros, os remanescentes? Pergunta vã. Não sei. Ou, se souber, prefiro ignorar. Inclino-me a crer que não, que nada há de sagrado no padecimento dela, apenas a dor humana, crua e sem transcendência, que desfigurou minha mãe e, por tabela, a mim. Era eu, então com quatorze anos, quem deveria suportar a casa e o luto. Eu, que desejava chorar, mas me faltava licença.
Na segunda-feira seguinte ao sepultamento, e o tempo se marca assim, antes e depois dos sepultamentos, estávamos no quintal, minhas duas irmãs e eu, os sobreviventes, a brincar com uma alegria que mais parecia evasiva que genuína. Lá dentro, minha mãe lavava as roupas de Daniela, num gesto que, longe de ser doméstico, tinha algo de ritual, quase expiatório. Chorava. E eu, sem saber onde guardar os olhos, assistia àquela cena como quem contempla uma tragédia alheia. Mas não podia chorar. Não me cabia. Minha mãe precisava de mim, minhas irmãs também, minha família, essa entidade exigente, precisava que eu fosse firme. E firme fui. Firme como uma rocha. Como uma pedra.
E foi assim que cresci: um Pedro, pedra, por nome e por função, duro, impermeável, destemido. Ou pelo menos assim me exigiram, e assim me fiz. Depois da morte de Daniela, o mundo teria que mover céus e infernos para me abalar. Aqueles dias, a perda da irmã que se amava, o luto da mãe que se venerava, converteram-se na régua de toda tristeza. Desde então, quando algo me fere, recorro àquela medida: e nada, nada jamais se igualou. Nem em dor, nem em vazio. Nada foi capaz de me deter.
Tenho para mim que minha mãe perdeu o juízo. Não posso afirmar com certeza, pois esse tempo, um ano inteiro, jaz sepultado em algum canto remoto da mente, como se a memória, sábia ou covarde, houvesse decretado luto sobre si mesma. Não me empenho em exumá-la. Que essas lembranças, sejam elas quais forem, apodreçam no silêncio, alimentadas apenas pelo esquecimento, uma forma, talvez, de inanição voluntária.
A morte. Li certa vez que encarar a própria morte é como encarar o Sol: possível por um instante, insustentável por mais. Prolongar o olhar seria caminhar para a cegueira. Assim também com a morte: sabemos de sua existência, reconhecemos sua presença na esquina mais próxima, e com isso até nos beneficiamos, extraindo algum proveito do saber que findaremos. Contudo, não convém, e talvez nem seja salutar, contemplá-la por tempo prolongado. Esse excesso de luz nos entenebrece: gera tristezas de várias ordens, confusões de espírito, ansiedades sem nome. Aprende-se, com o tempo e certa resignação, o ponto de equilíbrio: viver à sombra da morte, mas não sob sua tirania; reconhecê-la sem a ela se submeter. E assim, entre um susto e outro, vamos tocando a vida, cientes de que termina.
Com a morte do outro, o jogo muda. Não é, como se poderia supor, algo mais simples, antes, é mais áspero. Perder um parente próximo, irmã, filho, mãe, pai, amigo, pouco importa a ordem, não se dá com suavidade, ainda que os dias se tornem suaves depois, por cansaço. Nossa própria morte, se a tememos, é também um alívio: quando chegar, já não estaremos para dela padecer. É um fim que consola pela ausência de dor futura. Mas a morte alheia permanece. O lugar, antes ocupado por quem partiu, é tomado por um vazio incômodo, que insiste, teimoso, em nos lembrar: não mais. Nunca mais. Viveremos com a ausência, que se instala como hóspede insolente, alimentando-se de nossas memórias e recordações, as poucas que resistirem ao tempo e à recusa.
Daniela. Era tão nova que mal principiara a ser; nova a ponto de não ter deixado sequer um rastro visível daquilo que se chama vida. Meses apenas, três, se a precisão importa, e nem por isso a ausência pesou menos. Não houve tempo para memórias, nem espaço para recordações; restou, contudo, uma dor desproporcional, como se a falta de lembrança exigisse, por compensação, um sofrimento maior. Refletir sobre isso, ou sofletir, se se permite o neologismo, é mergulhar numa espécie de abismo onde o esquecimento e a dor se entrelaçam. E o esquecimento, esse traidor necessário, não distingue entre o bem e o mal: apagou, com igual zelo, o que havia de angustiante e o pouco que talvez fosse doce.
Viver com uma dor que não encontra consolo em boas lembranças é tarefa árdua, quiçá insensata. Aos trinta e três anos, achei que poderia, enfim, encarar a morte com alguma saúde, conceito elástico, convenhamos. Aprender com ela, decerto; domá-la, jamais. Disseram-me certa vez que cada contato com a morte, seja própria, seja alheia, é uma revelação. Tomei isso como tarefa e comecei a contar, feito criança ansiosa por inventário: nove foram as ocasiões em que a morte bateu à minha porta, cada qual trazendo consigo sua lição — ou ruína.
1 — Meu avô. No caixão, um homem que outrora fora vigoroso; agora, um vulto de si mesmo. A procissão seguia sob o sol impiedoso do Vale do Jequitinhonha, e a terra vermelha, como sangue coagulado, manchava os pés dos que choravam. Mulheres, num coro entre o lamento e o êxtase, entoavam cânticos cristãos. A morte, ali, parecia tradição.
2 — Ayrton Senna. Ídolo nacional, morto em alta velocidade. Um acidente, dizem; tragédia para os que choraram — e foram muitos. Eu, espectador de tela, fui tomado por um pesar coletivo que não me pertencia, mas me alcançou.
3 — O vizinho. Adolescente. Morte súbita. Madrugada. Acordo, minha mãe sumira. Saí em busca dela, encontrei-a na casa ao lado. O corpo do rapaz, estendido sobre a cama, coberto por lençol que nada ocultava. Toquei-lhe a carótida — ainda morna. A primeira morte palpável, literal.
4 — O pai de um amigo. Idoso, dir-se-ia que a morte era esperada, quiçá desejada. No caixão, sua velhice parecia alívio, não tragédia. A morte, quando chega tardiamente, é recebida com menos resistência.
5 — O professor. Assassinato. Grito no corredor, corrida, o corpo caído. Homem de meia idade, olhos claros, mochila às costas, provas nas mãos, sangue em profusão. A faca de cabo azul, abandonada como um brinquedo sujo. Sua respiração cessava aos poucos, e os olhos — aqueles olhos tão vivos — opacaram. Senti-me desfalecer. Retirei-me.
6 — O primo. Acidente de moto. CTI. Uma semana de esperança, depois a ruína. Falência múltipla dos órgãos, falência múltipla da alegria. A família, em uníssono, soluçava. Ele era o mais amado, o mais correto, e morreu como tantos: cedo demais.
7 — Na estrada, a morte alheia. Engarrafamento, sirenes, o corpo lançado sobre a cerca. Tentei desviar os olhos, mas ele, o morto, encarava-me como se pedisse explicações. Chorei. Pedi que me tirassem dali.
8 — Outro primo. Assassinato. Trinta tiros nas costas. Engano, disseram. Engano? Era tão correto. O caixão exalava pólvora. Um olho estourado, e o outro fechado. Segurei minha tia para que não se atirasse na cova. Minhas pernas cederam, mas não chorei por fraqueza — chorei porque não havia outra coisa a fazer.
9 — Daniela. Aqui, o silêncio. A lembrança não me pertence por completo. Foram necessários oito anos para que minha mãe narrasse a cena: médicos, tentativas de ressuscitação, corpos agitados, aparelhos que apitavam. Eu, distante, imagino o que não vi, e o que imagino me dilacera mais do que o vivido. O estômago se revira, o coração aperta. Daniela, sempre Daniela.
Memórias. Da minha irmã, não há. Nenhuma imagem nítida, nenhum som preservado, nenhuma recordação que se imponha contra o esquecimento. Talvez eu devesse criá-las, não as memórias reais, mas outras, apócrifas, ainda assim legítimas. Inventar-lhe uma vida, um caráter, uma bravura precoce; fazê-la forte, guerreira, decidida, como se essas qualidades lhe coubessem desde o berço.
Dar-lhe existência onde só há ausência. Eternizá-la como personagem, pois, de outra forma, temo perdê-la por completo. Imortalizá-la em papel, já que duvido, com serena descrença, que haja algo depois da morte. Para mim, a vida é um breve facho de luz, um instante de claridade entre dois vastos e insondáveis vazios. E Daniela, tão pequena, tão fugidia, mal pôde se aquecer nesse raio efêmero.
Descrença. No inconsciente, deposito minha fé; em Deus, não. Declarar-me ateu ainda me custa, pois muitos, com aquele olhar condescendente dos que tudo sabem, tratam como uma fase, um capricho de juventude. Mas não, sei que não. Fui, por assim dizer, um devoto promíscuo: percorri Mórmons, Testemunhas de Jeová, Assembleias de Deus, Batistas, o catolicismo romano, e até as veredas místicas da Umbanda e do Candomblé. Dos atos proféticos pela salvação nacional às festas de Obaluaê; dos batismos protestantes à oferenda discreta à pomba-gira, nada me escapou. Provei de tudo. E, paradoxalmente, só no abandono do sobrenatural encontrei paz. Hoje, sem anjos, sem demônios, sem olhos oniscientes a me vigiar, respiro. Nenhum ancião barbudo me condena. No vazio me assentei. No vazio espiritual, enfim, habito.
E ali construí minha morada: uma casa em meio à floresta. Eu, sentado na varanda, contemplando o verde espesso e ouvindo o canto harmônico de pássaros diversos. Chove, e a temperatura cai, exigindo o abrigo de uma manta macia. O som da chuva a repicar nas folhas, a névoa leve no horizonte, uma xícara de chá, um livro estimado, e eu, recostado num recamier divã, enfim confortável. Esta é a minha visão do sobrenatural. Pois, num mundo onde a miséria campeia, a fome ceifa, a doença se perpetua, a guerra se alastra e a violência faz morada, o básico, o lar sereno, a refeição farta, a saúde firme, a presença dos que amamos, transforma-se em milagre. E os milagres, nestes tempos, são ordinários, porém inatingíveis.
Liberdade. Sou livre? Talvez. Do mundo exterior, sim, ao menos em aparência. Internamente, contudo, sou prisioneiro. Um cativo das próprias lembranças, que me espreitam como espectros, ou, se preferirem algo mais pitoresco, como um monstro lacustre, creio já ter usado essa imagem, mas o tema é insistente. Aquele, dizem, que habita o Lago Ness; visível a poucos, mas temido por muitos. Pois bem, meus pensamentos e o inconsciente que os pariu são mais concretos do que qualquer divindade. São tão reais que, de tão corpóreos, me presenteiam com gastrites, essas sim, inquestionáveis, diarreias abundantes e um tique nervoso que habita meu olho esquerdo com fidelidade canina. Meu inconsciente, unido em nocivo matrimônio com a mente, gerou um rebento: o trauma. Lindo menino, de feições grotescas, uma criatura que faria inveja ao Anticristo do Apocalipse.
Exorcizar certos fantasmas tornou-se imperativo. Acertar contas com o passado, saldar dívidas com a infância, libertar o futuro de tão pesada herança. É por isso que pretendo confessar-me a vocês, mesmo que, após o feito, tema a exposição, como quem, ao desnudar-se, teme o olhar do outro. Mas que importa? Estamos todos dispersos, cada qual em sua cidade, estado, ou refúgio remoto neste vasto território digital que chamam de internet. Contudo, e se um dia, por obra do acaso, cruzássemos os mesmos caminhos? Terei ânimo de sustentar o olhar, de saudar com sorriso honesto, ou curvarei os olhos aos próprios pés, temendo encontrar no vosso semblante o juízo? Temendo que no canto da boca repouse o desprezo e no toque do abraço, a recusa?
Coragem. Há de se ter. E eu? Não sei se a possuo na medida que a ocasião exige. O temor de me desnudar diante do mundo, ou de meia dúzia de estranhos, pesa-me mais do que confesso. O medo da zombaria, da caricatura, da humilhação pública, essa, tão conhecida, tão minha. A mesma que provei aos oito anos, quando a infância me traiu nas vísceras. Um acidente intestinal, chamemos assim. Aula interrompida, corredor atravessado, risos às costas, o pátio inteiro assistindo à travessia de um menino sujo, reduzido. Duas semanas recluso, não por doença, mas vergonha. E agora? Se conto, quantos dias levarei para encarar um rosto, mesmo virtual?
Vergonha é conhecida antiga. Calejou-me a ponto de transformar-se em repertório. Sou biblioteca de estórias, com "e", pois há quem prefira o sabor das grafias arcaicas. Vivências que, por tantas, concedem-me o direito de narrar. Sou, dizem, invertido. Não no modo lascivo, mas nos papéis. Fui homem quando menino, menino quando homem. Creio que o trauma adiante o calendário envelhece precocemente e, com sorte, rejuvenesce à medida que se dissolve. Mas ainda hesito. Tenho medo de dizer que, menino, molhava o leito. Medo de reconhecer que esse ato involuntário era cólera engarrafada. Raiva. Sim, raiva daquele que me tocava quando minha mãe, incauta, buscava o sustento. Raiva de não compreender, de não poder reagir.
E confessar isso? E ser alvo de piedade ou escárnio? Hoje, digo-me superado, se é que há superação no que marca em brasa. De tudo, restou-me o zelo pela justiça. Um zelo feroz. Ao ponto de, se fosse preciso, matar para defender os que não podem. Ironias, ou justiça poética. Ainda assim, o medo permanece. Medo de contar.
E há, por fim, o medo de sentir medo, esse que não se explica sem cair no riso, esse que se enrosca na garganta feito nó cego. Medo do ridículo, de tornar-se escárnio alheio. Entrar num recinto e, de súbito, ser traído pela própria mente, aquela que deveria ser aliada e, contudo, conspira:
“Todos te observam.”
“És feio.”
“Estás molhado? Mijado?”
“Há algo no rosto.”
“Que odor é este? Viria de ti? Ou, porventura, pisaste em excremento no caminho?”
E a sequência se repete: “Será? Será?” — o verbo transformado em espiral.
Traído por si, eis o cúmulo do grotesco. E o mais irônico: por vezes, ser ridículo é condição da existência. De que vale dobrar-se às amarras invisíveis da etiqueta, se há dentro de nós a ânsia de rompê-las? A liberdade, dizem, tem preço. Eu acrescento: tem coragem como moeda. Viver livre é arte que cobra seu tributo. E o clichê, esse ente incansável, retorna para nos lembrar do óbvio que tanto esquecemos.
Hoje, caminho com a expectativa de que o próximo ano me leve. Talvez o seguinte. Quem sabe encontre a morte estendendo-me os braços, convidando-me a valsar a dança dos libertos. Assim sigo: com expectativas ajustadas à minha realidade. Já não me irrito. Tomo para mim a responsabilidade, pois não há mais espantalhos a quem atribuir culpas. A cruz? É minha. O pranto? Não mais. Quem, em sã consciência, choraria sobre a própria cova? Há nisso um quê de demência, de tolice crassa. Cavei, e a cova, fiel, me acompanha. Sempre pronta, à espreita, esperando o tropeço fatal.
Só me resta cavar. Cavar fundo. O bastante para, ao cair, e cair se faz inevitável, não vislumbrar saída. Nem mesmo aquelas armadilhas mentais que, vez ou outra, acionam nosso instinto de sobrevivência. É preciso cavar até o ponto em que nem o instinto resista.
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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.
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