Traumas (God’s menu)
- Pedro Sucupira
- 10 de jul. de 2024
- 10 min de leitura
Atualizado: 14 de mai.

Daniela morreu numa quinta-feira. Foi sepultada no domingo.
Os traumas são o menu divino. Há de vários tipos e para todos os gostos. O menu de algum Deus sádico que adora e se alegra com o sofrimento de sua criação.
Se deleita com pratos à la carte peculiares. Uma santa ceia de sofrimentos humanos.
— O que deseja, senhor? Se me der licença, eu posso sugerir as especialidades da casa. Hoje temos como entrada crianças anêmicas e desnutridas, com ascite grave resultado de uma obstrução intestinal causada por Ascaris lumbricoides.
-— Como prato principal temos diferentes tipos de abuso sexual, e para acompanhar indico uma boa dose de assédio moral, com violência doméstica, e abandono infantil.
— Para sobremesa, quem sabe, um pouco de culpa autointrojetada por um intenso processo de "cura gay", regado com uma calda deliciosa de suicídio praticado em nome da libertação da alma.
Não há texto mais repleto de sofrimentos do que os textos sagrados. Um sadismo generalizado, camuflado de adoração, praticado por seres humanos contra seres humanos por medo de seres invisíveis.
Traumas. O difícil não é falar sobre eles, mas sim viver sabendo que alguém, além de você, sabe sobre eles. São tão íntimos que só de pensar que contei para alguém meu estômago já embrulha. Sinceramente, não sei se tenho coragem suficiente para falar nem mesmo escrever sobre isso. É dolorido, sofrido e muitas vezes excitante pensar sobre. Algo que fica lá no fundo da mente, da alma, e que emerge de tempos em tempos.
Vem à tona para te lembrar que lá ele está, como um monstro do lago que somente você sabe da existência. Um monstro que faz questão de jamais ser esquecido.
Uma semente, talvez, de maldade, que está à espreita esperando o momento certo para germinar, expandir suas raízes e se fixar; transformar-se em uma árvore frondosa com seus frutos envenenados prontos para a outros contaminar. Também poderia ser uma árvore do bem, do conhecimento, aquela que traz todos à luz da verdade, tirando-os da escuridão da ignorância e da hipocrisia.
Mas o que seria de mim se não fossem essas pequenas sementes malignas? Eu não seria o que sou hoje.
Áries, ascendente em Escorpião; um temperamento que se alimenta da própria ruína. Plutão na casa 1. Lilith na casa 1. Juno na casa 1. À porta, o próprio Cérbero vigiando os portões da casa. Três cabeças gigantes com dentes afiados à espera de carne. Nada entra sem ser julgado. Nada sai sem deixar sangue.
Mas essa é a superfície; a primeira leitura. Por dentro, porém — nesse espaço que ainda ouso chamar de casa — sou outro. Há um jardim. Existem as árvores boas. Árvores boas, sim, mas plantadas sobre um solo que conhece a decomposição. Arbustos floridos que guardam lembranças; algumas ainda vivas, outras já em estado de fermentação. E árvores frutíferas, pesadas, excessivas, oferecendo uma doçura quase obscena: memórias de felicidade, de gratidão, de família, maduras demais, prestes a apodrecer nas próprias mãos.
Família. Disfuncional e imperfeita; mas qual, não é? Cada uma com suas histórias e revezes. Com seus traumas e abusos. Com seus pesadelos e sonhos.
Famílias reais como a minha, uma mãe solo de três filhos. Éramos quatro, mas Daniela morreu, muito pequenininha. Uma morte inesperada para uma mãe cuja filha do meio estava com o braço quebrado.
Não esperávamos. Lembro que prometi a Deus, aquele do cristianismo, que se Daniela voltasse bem, com o rosto normal, sem aquelas manchas roxas, eu nunca mais assistiria televisão. Mas não foi o suficiente.
Talvez Deus, aquele do cristianismo, precisasse de sacrifícios maiores, mais robustos, tal como um filho.
Mas Daniela era filha?! Filha de minha mãe. Estaria minha mãe sacrificando Daniela por nós três?
Não sei.
Acredito que não. O sofrimento da pobre coitada foi tão intenso, tão grande, que eu, com apenas 14 anos de idade, tive que segurar as pontas. Eu queria chorar, mas não podia.
Lembro que no dia após o enterro, logo de manhã, estavam minhas duas irmãs e eu, os três que sobraram, brincando no quintal enquanto minha mãe lavava as roupas de Daniela. Minha mãe chorava e eu assistindo aquela cena tive que segurar as lágrimas. Minha mãe, minhas irmãs, minha família, precisavam de mim. Firme e forte como uma rocha. Como uma pedra.
E foi assim que eu cresci: um Pedro tal qual uma pedra, duro, impassível, corajoso, rigoroso, forte e destemido. Depois da morte de Daniela, o mundo teria que se esforçar muito para me abalar. Todo aquele período, a perda de uma irmã muito amada, o sofrimento de uma mãe muito amada, transformaram-se em meu referencial de tristeza. Desde então, se algo ruim me acontecesse, eu logo utilizava a tristeza daquela perda como régua. Até hoje nada se comparou com aquela tristeza.
Nada se comparou com aquele vazio. E nada foi capaz de me parar.
Acredito que minha mãe enlouqueceu, mas eu não lembro. Um ano inteiro de memórias escondidas bem fundo no inconsciente. Memórias que não faço questão de resgatar. Que morram de inanição e esquecimento.
Morte. Uma vez li que encarar a nossa própria morte é como olhar para o Sol. Conseguimos vê-lo, porém não conseguimos manter esse olhar, pois do contrário ficaríamos cegos. Olhamos para a nossa própria morte, tomamos consciência da nossa própria inexistência, sabemos que lá está ela em alguma esquina nos esperando. E tiramos proveito disso, coisas boas do saber de que iremos morrer. Contudo, não é prudente, nem saudável, para nossas mentes tão limitadas, encararmos a morte por tempo demais. Nos deixa tristes, depressivos, confusos, ansiosos e tantos outros sentimentos que podem se aflorar na presença constante da consciência de finitude. Devemos alcançar um patamar em que aprendemos o equilíbrio sabendo da existência do nosso fim e aprendendo com ele.
Diferente de nossa própria morte, encarar a morte do outro pode não ser tão fácil e traumático. Perder um parente próximo, uma irmã, um filho, um pai, uma mãe, um tio, um amigo, para a morte, não são suaves. A nossa própria morte nós podemos temer. Mas sabemos que não sofreremos com ela. Quando deixarmos de existir, não estaremos aqui para sofrer. Nossa própria inexistência é o nosso maior conforto. Com os próximos não é o mesmo. Eles se vão e a dor da inexistência permanece. O lugar dentro de nós que antes era dedicado a eles é substituído pela dor em saber que eles não existem mais. Que nunca mais os veremos neste mundo, apenas em memórias e recordações.
Daniela. Era tão nova; nem um pequeno vestígio de vida ela pôde construir; nem recordações suficientes tivemos tempo de edificar; não deixou memórias que a eternizassem. Tudo isso, quando me vem à mente, me faz sofletir — ato de refletir carregado de sofrimento. Apesar do pouco tempo que ela viveu, o lugar dentro de mim que ela ocupou foi maior do que o que qualquer um já tenha ocupado. E quando ela se foi, parece que tudo foi preenchido com dor, mas uma dor que nunca poderia ser aliviada pelas memórias e recordações, que de tão poucas facilmente caíram no esquecimento, suplantadas pelo sofrimento e pela dor daquele momento. O mecanismo de defesa chamado esquecimento que nós humanos recorremos inconscientemente em momentos de trauma foi como uma faca de dois gumes, esqueci o que era ruim, mas também o que era bom.
Viver com uma dor sem algo bom para contrabalancear não é uma tarefa fácil. Hoje, com meus trinta e três anos, tomei a coragem para encarar a morte de forma saudável. Aprender com ela.
Outra vez li que todas as vezes que nos deparamos com alguma experiência de morte, seja pessoal ou de outrem, chamamos isso de momento de revelação.
Sabendo disso, comecei a forçar minha mente a relembrar de todas as possíveis revelações que eu tive na vida: avô, dentro do caixão, procissão debaixo do sol, terra vermelha sob os pés, mulheres chorosas cantando uma música cristã; piloto brasileiro famoso, acidente de carro, muitas pessoas aos prantos; vizinho, morte súbita, madrugada, acordo e não vejo minha mãe, saio para rua à sua procura, ela está na casa da vizinha, entro, vejo o corpo do adolescente estirado na cama, coberto por um lençol, com os dedos médio e indicador toco a carótida, ainda está morno; pai de um amigo, idoso, muito velho, no caixão; professor, assassinado, escuto um grito, um corredor, saio para fora da sala de aula correndo, me deparo com um homem de meia idade, calvo, olhos claros, caído de lado, mochila nas costas, provas na mão, muito sangue, a faca de cabo azul escuro, caída ao seu lado, o assassino fugiu, a respiração do professor vai diminuindo, diminuindo, o brilho dos olhos vai sumindo, sumindo, se tornaram opacos, morreu, sinto uma tontura, quase desmaio, me afasto; primo, acidente de moto, foi parar no CTI, uma semana estável, depois degringolou, morreu, falência múltipla de órgãos, minha tia aos prantos, minha família aos prantos, todos aos prantos, ele era muito amado, muito querido; morte na estrada, passando na via expressa, tudo engarrafado, um acidente, alguém foi atropelado, não queria ver, mas impossível não ver, um homem estirado em cima de uma cerca na beira da estrada, olhava diretamente para mim, comecei a chorar, pedi para sair dali; primo, assassinado, 30 tiros nas costas, mataram por engano, foi cedo, caixão cheirando a pólvora, olhos fechados, segurei minha tia enquanto o caixão era abaixado, minhas pernas bambearam, chorei muito; Daniela. Aqui eu pensei em narrar os fatos daquela noite, mas ainda não consigo. Somente depois de oito anos que minha mãe conseguiu me contar o que ocorreu no hospital. Médicos tentando fazer ressuscitação cardíaca. Toda vez que imagino a cena meu estômago revira e meu coração acelera e aperta.
Memórias. De minha irmã não existem. Talvez eu deveria criá-las?! Quem sabe transformá-la em uma personagem para que a lembrança dela forte, guerreira e decidida permaneça sempre comigo. Eternizá-la em forma de livro, pois a vida após a morte não creio que exista.
Acredito que nossa vida, do nascimento à morte, é como um facho de luz entre dois grandes vazios. Descrença. No inconsciente eu acredito. Em Deus, não.
Expor que sou ateu ainda é difícil, pois muitos julgam como se fosse apenas uma fase, mas no fundo eu sei que não. Sou religiosamente promíscuo. Mórmons, Testemunhas de Jeová, Assembleia de Deus, Batista, Católica, Umbanda e Candomblé. Dos atos proféticos em prol da libertação da nação até festas de Obaluaê. De batismos protestantes até entrega de oferendas à pomba-gira. De tudo eu vi e experimentei, mas somente agora me sinto em paz. Somente agora, em um mundo onde não há sobrenatural, onde não há anjos nem demônios, que me sinto em paz. Aquele olho que tudo vê não existe. Não há divino nenhum para me julgar ou condenar. No vazio me encontrei. No vazio espiritual, eu me sinto em casa.
Imaginem uma casa construída em meio a uma floresta. Você sentado na varanda, olhando para aquele verde intenso e escutando os sons harmônicos de pássaros. Está chovendo e a temperatura baixa a ponto de você precisar de uma manta fofinha. O som da chuva batendo nas folhas de forma intermitente. Uma leve névoa no horizonte. Uma xícara de café na temperatura de seu gosto, um livro do seu agrado e você sentado em um recamier superconfortável. Essa é minha visão do sobrenatural. Em um mundo onde a miséria reina, milhares sofrem com a fome e doenças curáveis, guerras para tudo quanto é lado, ansiedade generalizada, violências e abusos diários, o básico, o lar calmo, a casa própria, a vida tranquila, a presença da comida e da saúde, e a proximidade dos que amamos, acabam se tornando sobrenatural.
Liberdade. Sou livre? Do externo sim. Preso somente pelas amarras do meu inconsciente que vez ou outra ressurge como uma aparição. Como um monstro do lago. Meus pensamentos e meu inconsciente são mais reais que todos os deuses. Até gastrite esses danados já me causaram. Diarreia, então, nem se fale. E o tique nervoso no olho esquerdo. O inconsciente casado com a mente que deram à luz ao trauma psicológico. Que filho lindo. Uma besta pior que o anticristo do apocalipse cristão.
Preciso exorcizar certos traumas. Acertos de conta com o passado para poder seguir com o futuro de forma tranquila e sábia. É por isso que vou contar para vocês, mesmo que depois eu viva na insegurança de que alguém sabe da verdade. Mas e daí? Vocês moram longe, em uma parte remota deste país continental chamado internet. Mas e se um dia nos encontrarmos por acaso? Terei coragem de olhar olho no olho e cumprimentar com um sorriso, ou ficarei encarando meus pés com medo de identificar o julgamento no olhar, o desprezo no canto da boca e o desgosto no abraço não apertado?
Coragem. Eu não sei se tenho coragem para contar. O medo da exposição é grande. O medo de ser ridicularizado, tal como quando expus para minha mãe e irmãs sobre minha sexualidade. Tal como quando tive uma diarreia dentro da sala de aula e tive que voltar para casa todo sujo. Atravessar o pátio da escola com todos rindo. Fiquei duas semanas sem ir à escola por causa da vergonha.
De vergonha eu entendo. Já sou calejado. Tão calejado que hoje o que mais tenho são repertórios para minhas estórias. Já passei por tanto que escrevo com propriedade. Sou todo invertido. Adulto quando criança, criança enquanto adulto. Os traumas que nos tornam adultos muito cedo e, à medida que os superamos, nos rejuvenescemos.
Contudo, ainda tenho medo de contar o que me incomoda. Tenho medo de falar que quando criança eu mijava na cama. Medo de falar que quando criança mija na cama é sinal de raiva — oh! e como eu tinha raiva. Raiva daquele que abusava de mim enquanto minha mãe ia trabalhar. Tenho medo de lhe contar isso e ser ridicularizado. Hoje já superei? Se é que é possível superar abusos. Cresci com um forte senso de justiça. Tão intenso que eu mataria para proteger os fracos. Ironias da vida. Mas continuo com medo de contar.
E o medo de sentir medo. Que engraçado, difícil de ser falado, escrito, exposto, desenhado. O medo de ser ridículo e ridicularizado. Entrar em um ambiente e ser traído pela mente: "Estão todos olhando para você." "Você é feio." "Tem algo no seu rosto." "Que cheiro é esse? Será que sou eu? "Será? Será? Será."
Traído pela mente. As vezes ser ridículo faz parte da existência. Por que se prender às amarras sociais invisíveis se eu posso ser livre? A liberdade tem um preço. É preciso ter coragem para ser livre e viver com liberdade. O clichê mais uma vez fazendo o seu papel de trazer à tona o óbvio que sempre nos esquecemos.
Hoje, eu vivo na expectativa de que ano que vem será minha morte. Talvez no próximo eu encontre-a de braços abertos me esperando para dançar. A dança dos libertos. E é assim que eu vivo. Expectativas alinhadas com minha realidade. Hoje, eu não mais me irrito. Eu assumo a responsabilidade; não tenho mais ninguém para culpar. A cruz é minha.
Eu não choro mais. Não se chora sobre a cova que você próprio cavou. Isso é loucura; imbecilidade; obtusidade. Cavei uma cova que não consigo tapar, que me segue pronta para me aparar quando eu cair.
O que posso fazer é cavar. Fundo o suficiente para quando eu cair de vez não ter como escapar em um daqueles lapsos mentais de sobrevivência.
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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.
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