O Quadro
Atualizado: 6 de out.

Quando Carol anunciou que se dedicaria à pintura, ninguém em casa se espantou. Minha irmã sempre foi dessas criaturas de calma suspeita: séria, metódica e perigosamente criativa, como se passasse a vida inteira reprimindo pequenos terremotos internos. À primeira vista, oferece ao mundo o semblante circunspecto de quem se ocupa com enigmas insondáveis ou cálculos metafísicos; contudo, basta que se sinta à vontade, que a sala esteja propícia, e sua alma, até então recolhida, se desdobra, fala e ri.
Desde criança, revelava um talento invulgar para as artes manuais, e sua mente, esse labirinto tão intrincado, concebia ideias que, não raro, escapavam à compreensão dos mortais comuns. Criativa ao ponto do desconcerto, era capaz de suscitar espanto e desconfiança nas mesmas proporções.
Houve uma ocasião em que, fascinada por Da Vinci, decidiu enveredar-se pela marcenaria. Sua ambição era construir, com as próprias mãos, uma maquete. Percorria a casa em andanças meditativas, falando sozinha como um monge que recebe revelações:
— Se há cinco séculos Da Vinci conseguiu se destacar, imagine eu, agora, com tanta tecnologia à mão.
Voltava à leitura e ao projeto, absorta como quem busca decifrar o universo. E, de fato, ao cabo de dias de trabalho silencioso, surgia a maquete. Ocupava um volume que, dada a escala, não passava despercebido. Visitantes, atraídos pela curiosidade, detinham-se ante a obra e julgavam-na digna de comentário. A regra era invariável: elogio seguido de crítica; ambos não solicitados, ambos tolerados. Um dizia: “Linda! Essa menina nasceu para a construção civil, mas talvez faltasse um toque de modernidade, uns cantos arredondados, como nas casas daquele arquiteto famoso.” Outro: “Você tem talento, Carol, mas se fosse menor e feita em cedro ficaria perfeita.” Aqueles comentários, que só existiam para existir, eram recebidos com polida indiferença.
No domingo seguinte, dia de encontro em família, ocasião propícia para o desfile de críticas mascaradas de afeição. Após nova rodada de comentários sobre a maquete, Carol ausentou-se da mesa em silêncio. Alguns minutos bastaram para que um odor forte de madeira queimada invadisse a casa. O alarme foi geral. Corremos até o fundo da casa e a encontramos ali, diante de uma fogueira improvisada. A maquete ardia em chamas. Antes que alguém pudesse se indignar, ela virou-se com placidez:
— Pronto. Agora, sim, está perfeita. Agradeço a todos pelas contribuições. — E retornou à mesa, como se nada tivesse acontecido.
Não muito tempo depois, a vocação para a arquitetura e o design de interiores levou-a a reconfigurar a nossa casa inteira. Assumia todos os papéis: projetista, desenhista, paisagista, executora, e até mesmo técnica em desenho, disciplina que dominou em poucos dias. Redispôs os móveis obedecendo os princípios orientais que, segundo ela, promoviam harmonia. A horta, antes negligenciada, ganhou contornos artísticos com suculentas e orquídeas remanejadas. Foi uma semana de barulho e de súplicas por licença. Nenhum cômodo escapou à sua intervenção.
Mamãe e papai, como de costume, preferiram não interferir. Não por indiferença, mas por convicção. A única fronteira imposta era a da sobrevivência: intervenções que ameaçassem a vida eram vetadas. O resto, liberado. Afinal, diziam, o que é a educação senão a permissão para que os filhos se expressem criativamente? Papai, especialmente, nutria essa crença com fervor quase doutrinário. Desde que me entendo por gente, chegava-lhe mensalmente uma revista de psicopedagogia, dessas que prometem revoluções no ensino. E como o conteúdo lhe agradava, papai lia e relia todas religiosamente. Atribuo a isso sua singular habilidade em “educar”. Certa vez, deparei-me com um artigo desses, intitulado: “Como o sistema assassina a criatividade das crianças e como evitar o crime.” O verbo “assassinar” saltava das páginas. Nunca esqueci.
Quando enfim a redecoração terminou, recebemos a visita do vizinho, velho conhecido dos nossos pais. Ele, que se vangloriava de memória fotográfica e senso estético refinado, percorreu cada cômodo ora elogiando, ora criticando numa ladainha sem fim. Carol, paciente, acompanhava-o como anfitriã exausta. À noite, após tantas voltas e falas, ela recolheu-se à varanda e deixou-se balançar na rede. O rosto inexpressivo denunciava que trabalhava, por dentro, suas emoções e ideias.
Encerrada a fase de designer de interiores, Carol lançou-se às artes da pintura com a devoção de uma convertida. Durante quatro semanas, o antigo quarto de hóspedes metamorfoseou-se num ateliê onde ela se internava, qual monja em retiro espiritual, emergindo apenas nos horários das refeições, com os cabelos presos num coque apressado, as mãos tingidas de cores indecifráveis e uma expressão solene de missão cumprida. Não nos foi dado acompanhar o processo, o que, como era de se esperar, fez crescer a curiosidade, sentimento que, em nossa casa, raramente encontrava consolo.
A única alma suficientemente destemida para tentar arrancar-lhe alguma informação era mamãe, cuja coragem levava-a a interpelar a artista nos raros momentos de descompressão:
— O que fazes aí, minha filha?
— Pinto um quadro — respondeu, sem tirar os olhos do prato.
— E o que será? Uma paisagem, talvez? — arriscou mamãe, em tom conciliador.
— Uma obra de arte que há de lhes provocar sensações jamais vividas, emoções maravilhosamente inexplicáveis... e uma pitada de terror.
Seguiu-se um silêncio glacial.
— Mas, afinal, do que se trata? — insistiu mamãe, já arrependida.
— Vocês testemunharão em breve — concluiu Carol, com uma calma que, por si só, já era ameaça.
Esquecêramos, com a pressa dos dias comuns, da aventura de Carol pelo mundo das artes plásticas. Até que um episódio inusitado nos restituiu a lembrança.
Certa manhã, papai, acometido de uma inquietação que atribuiu à carência cultural, decidiu que devíamos ir ao teatro. Visitou-nos, um a um, em nossos domínios, e apresentou o convite como uma proclamação real: eloquente, nostálgico e um tanto carente. Mamãe e eu acatamos, sem delongas, mas Carol declinou com polidez meticulosa e a promessa de redenção futura. Foi a primeira vez que saímos deixando um de nós para trás.
— Ela pediu para ficar — disse papai, a voz tingida de mágoa mal contida.
— Só me faltava essa. E qual foi a desculpa? — quis saber mamãe, já inquieta.
— Alegou ter sido assaltada pela inspiração e que não se deve desperdiçar presentes tão raros.
Era Carol em estado puro. Respeitá-la era mandamento tácito.
O teatro ficava a vinte minutos a pé. Assistimos a uma comédia, rimos, aplaudimos, e regressamos sob o esplendor do pôr do sol, satisfeitos e leves, ignorantes do que nos aguardava.
Ao cruzar o umbral da casa, paramos. Havia qualquer coisa no ar que nos reteve antes mesmo que soubéssemos o quê. Então o vimos. O quadro.
Pendurado na maior parede da sala, dominava o ambiente com uma presença que transcendia a arte. Era impossível ignorá-lo, qualquer tentativa soaria blasfema. Mesmo oculto num canto escuro, ele teria se imposto, como divindade entre mortais. Aproximamo-nos, trêmulos, como quem caminha em direção ao sagrado.
Imenso, quase tocava o teto e, por pouco, não roçava o chão. A forma como chegou até ali permanece, até hoje, envolta em mistério. Naquele instante, tal questão era irrelevante. Toda a nossa atividade cerebral convergia para a contemplação daquela obra que, em sua perfeição, tanto para o bem quanto para o mal, exigia nossa rendição. Nem mesmo a Trindade, creio, haveria de se manter impassível diante de tamanha majestade.
Ficamos ali, absortos, enquanto o tempo, esse tirano, perdia seus contornos. Minutos ou horas; que diferença faz? O sangue me subiu à cabeça como torrente, aquecendo-me o rosto em chamas, enquanto mãos e pés gelavam, distantes do fluxo vital. Sentei-me, sob pena de cair. A mente fervilhava; sentia-me além-do-homem, um novo ser, um Zaratustra em estado de teofania. Um salto evolutivo em carne e osso.
Despertei, não sei quanto tempo depois, do torpor e busquei os meus. Mamãe, estática, chorava lágrimas translúcidas que a luz dourada do crepúsculo transformava em diamantes. Papai, em silêncio reverente, sentara-se numa poltrona, antes arrastada sabe-se lá como para diante do quadro, sorrindo como um bem-aventurado. Carol, entretanto, não estava. Mas sua ausência, nesse instante, era mera nota de rodapé. O quadro era o tudo.
A voz dela, ao surgir, rompeu o feitiço.
— E então, o que acharam? — perguntou, como quem indaga sobre a previsão do tempo.
Viramo-nos em uníssono, incrédulos. A indiferença dela nos feriu. Como podia ela, a autora, mostrar-se tão alheia ao êxtase que nos possuíra? Houve, confesso, um surto de raiva, mas logo compreendemos: Carol era imune à sua própria criação. Talvez, esta fosse a sina do artista verdadeiro: não cair sob o jugo da própria obra.
Mamãe, como que tomada por fervor profético, foi a primeira a romper o silêncio:
— Excelso e magnífico. Não há nada, nada, minha filha, que se iguale a esta preciosidade. Bendito seja o fruto de tua criação, único e eterno. Que teus feitos sejam proclamados entre todas as nações da Terra.
Aproximou-se, e a abraçou. Seguimos, eu e papai, como fiéis em romaria. Aquilo era mais que gratidão: era reverência; e Carol, no centro, recebia nosso abraço, nossa adoração com a mesma serenidade de quem vive um dia comum.
Os dias foram passando e não posso dizer que nos acostumamos à presença do quadro. Antes, travávamos uma batalha interior: era necessário deixá-lo de lado, esquecer, ainda que por instantes, sua existência esmagadora, para que a vida seguisse. Com esforço, e não sem protestos por parte de minha irmã, logramos algum sucesso. A rotina, à sua maneira falha, retomou um contorno minimamente aceitável, até que começaram as visitas.
Num domingo qualquer, daqueles batizados por efemérides familiares, convidaram-se alguns parentes para o almoço. Passamos mais tempo vigiando o quadro — vigilância quase sacerdotal — do que comendo ou conversando. Nenhuma crítica, nenhum senão, nenhum suspiro de discordância: apenas louvores, não raro dirigidos ao próprio quadro, como se este, mais que pintura, fosse ente vivo.
A influência da obra variava conforme a alma de quem a fitava.
Tia Ana, cuja fama de cética e racional precedia os passos, sentou-se junto ao quadro, uma xícara de café nas mãos, e dali brotou um monólogo que se estendeu por horas. Desde então, passou a frequentar-nos diariamente: chegava, instalava-se ao lado da pintura e se derramava em palavras, lágrimas, risos, um espetáculo que, estranhamente, a curou de sua melancolia. Após insistência de mamãe e visível melhora no prognóstico, reduziu as visitas. Tio Bento, por outro lado, nunca mais foi visto. Divorciado e sem filhos pequenos, converteu-se em nômade digital. Mês passado, Bangkok; ontem, Estocolmo. Mariana, prima de segundo grau, divorciou-se e casou-se com José Eurípedes, o vizinho, paixão antiga que, até então, resistia à concretude. Elaine, a melhor amiga de Carol, abandonou a medicina e rumou para estudar aquacultura, paixão recente e inexplicável. O antigo proprietário da casa, velho conhecido, visitou-nos certa tarde e mal suportou a visão do quadro. Saiu apressado, e dois dias depois, suicidou-se. Assim foi. Todos os que cruzaram com a obra foram transfigurados: uns para o bem, outros rumo à loucura ou à morte.
Nós, residentes da casa, tampouco escapamos incólumes. Mamãe e papai tornaram-se amorosos ao ponto da pieguice. Pediram demissão dos empregos e abriram negócios próprios: ela, uma padaria; ele, uma escola de idiomas. Eu, estudante dedicado, à caça de bolsa para um curso preparatório de diplomacia, abandonei tudo e tornei-me escritor; está aqui o fruto.
E Carol? Ela observava o alvoroço entre risos e blasfêmias, rindo dos bons desfechos, praguejando os trágicos, como de costume. Um dia, bateu à porta do meu quarto com ar de confissão.
— Posso entrar, irmão? Muito ocupado?
Eu estava à escrivaninha. Virei-me e a encarei.
— O que lhe aflige, irmã?
Ela jogou-se sobre a cama com um suspiro, os olhos voltados ao teto.
— Às vezes, o sentimento de culpa me aperta e não me deixa dormir. O medo do que está por vir me sufoca. Penso em destruir o quadro.
Senti, naquele instante, uma pontada no peito, tão aguda quanto inexplicável. Meu ímpeto foi gritar: “Mulher, perdeste o juízo? Atentas contra o mais precioso dos bens que já habitou este mundo?”, mas contive-me. O quadro não me pertencia. Restava-me ouvir, consolar e, se possível, ser apoio.
— Por que pensas assim, irmã? Aceitaste com prazer o bem que te trouxe, mas recusas o mal? São inseparáveis. Onde há luz, haverá sombra.
— Tenho ciência disso. Bem e mal. Mas pergunto: não seria possível esconder para sempre um dos lados da moeda? Extirpar um dos irmãos? Descartar a unha, poupar a carne?
— Mas e se a carne não sobreviver sem a unha? E esconder é destruir?
— Compreendo. Meu dilema é retórico. O difícil é aceitar a existência de ambos.
— Reconhecer não é agir. O bem e o mal existem no universo, mas é tua escolha sobre qual se debruçar. A tua obra é única e magnífica. Tu a sonhaste e a materializaste, agora, o efeito que provoca nas pessoas não é mais teu. As escolhas são delas. Teu quadro é como a pólvora, o avião, o dinheiro e a Bíblia: uns usam para o bem, outros para o mal.
— Obrigada, irmão.
Levantou-se e saiu.
Com o correr dos dias — ou semanas, pois já não distinguíamos o tempo com precisão e, francamente, perdêramos o interesse —, a notícia do quadro espalhou-se feito heresia em tempo de fé frágil. A princípio, um ou outro curioso batia à nossa porta, sempre com a polidez que apenas os desconhecidos se permitem. Depois, vieram aos pares, em trios, e então em pequenos grupos, como se estivéssemos às vésperas de algum evento sagrado. Quatro visitas por semana ainda eram gerenciáveis, um incômodo palatável, como um leve ruído de fundo em noite insone. Mas logo as visitas se tornaram contínuas, quase litúrgicas, e o incômodo evoluiu para verdadeira invasão. A questão impôs-se à mesa do café da manhã: permitiríamos que o lar fosse usurpado pela multidão?
— Não me agrada abrir as portas de nossa casa a estranhos — declarou papai, em seu tom de juiz fatigado, que desejava, acima de tudo, o sossego perdido.
— Creio que todos compartilhamos de teus sentimentos, papai. Mas tens alguma solução, ou preferes apenas manifestar tua contrariedade? — indagou Carol, com aquele timbre que mesclava deferência e desafio, uma arte que poucos dominam.
Foi então que mamãe, sempre pragmática e de espírito mais terreno, lançou sua proposta com a segurança de quem já ponderara todas as consequências:
— Vamos monetizar. Visitas pagas, com direito a guia. Quem sabe até camisetas, chaveiros, e, por que não, réplicas em miniatura?
— E transformar nosso lar em museu? — objetou Carol, com olhos que mesclavam indignação e incredulidade.
— Estamos mais para Meca do que Louvre — arrisquei, com aquele humor nervoso que serve de escudo diante do absurdo.
— Oxi! Peregrinações já se fazem por muito menos. Por que, então, algo tão magnífico, de beleza rara e execução irrepreensível, não há de merecer igual reverência?
Aquela fala, ao mesmo tempo solene e risível, encerrou o debate. A decisão foi unânime, ainda que relutante. No dia seguinte, lançamos mãos à obra, e o que era lar começou a metamorfosear-se em santuário — ou galeria, como preferíamos chamá-lo, para disfarçar o tom sacro.
A construção se daria nos fundos da casa, discreta, mas não modesta. Carol, como era previsível, abandonou sem remorso a pintura que estava em curso e, como quem muda de pele, reassumiu o papel de engenheira-arquiteta-projetista, comandando o novo projeto com a habitual obsessão. Nós, rebaixados à condição de ajudantes, executávamos suas ordens com a resignação de devotos. E assim, transformamos o ordinário em culto. E o culto, como todos os cultos, em negócio.
Em sete dias, tudo estava pronto. A galeria erguia-se nos fundos do quintal como uma espécie de templo profano, consagrado a uma divindade de pincel e tela. Sua estrutura, toda de madeira, possuía um formato retangular austero, porém solene, com pé-direito alto, o bastante para criar nos visitantes a sensação de pequenez reverente. Antes de se adentrar aquele espaço, havia um trecho de terra batida onde repousava, solitária, uma pia circular de bronze. Nela, cada visitante deveria lavar as mãos, num gesto que mesclava o asseio ao rito, como se a limpeza pudesse, por acaso, apaziguar o espírito.
Não havia porta. Em seu lugar, como sentinelas imóveis, erguiam-se cinco colunas quadradas, douradas, esculpidas com relevos retangulares, dispostas paralelamente, espaçadas o bastante para permitir a travessia de um corpo. Logo após as colunas, uma cortina de linho vermelho, espessa e grave, tombava até o chão, ocultando os mistérios do interior e conferindo à entrada uma aura de segredo e sacralidade.
Transposta a cortina, havia dois ambientes. O primeiro, uma antessala. À direita, uma mesa estreita, retangular, onde comidas cuidadosamente dispostas aguardavam olhos famintos e bocas silentes. À esquerda, sete luminárias de chão dispostas ao longo da parede, vertendo luz âmbar, morna, quase uterina. No centro, um incensário mantido sempre aceso por Carol, exalando um aroma indefinível, misto de resina, terra e memória. Ao atravessar aquele ambiente, o visitante encontrava outra cortina, também vermelha, com detalhes dourados na barra, ladeada por duas colunas idênticas às da entrada. Atrás dela repousava o quadro.
O quadro estava posicionado no centro da sala, sobre um cavalete dourado. Holofotes instalados no teto e no chão incidiam sobre a tela, conferindo-lhe uma luminosidade quase sobrenatural. Logo atrás do quadro, como um convite ou uma escapatória, havia a porta de saída.
Carol não havia criado apenas uma galeria. Criara uma experiência, uma via-sacra estética, uma travessia sensorial, que logo atraiu murmurinhos, depois rumores, e finalmente devoção. O quadro transformou-se no que profetizáramos, um objeto de peregrinação. E as multidões vieram. Vieram como se guiadas por alguma bússola invisível, atravessando oceanos e fronteiras, indiferentes ao valor cobrado — que aumentamos, é verdade, numa tentativa vã de conter o fluxo. Em vão. O valor subia, mas os fiéis também.
Nossa vida, transformada da água para o vinho, parecia ter-se tornado um banquete perpétuo; e que vinho, aliás, oneroso e azedo. No princípio, a novidade nos embriagava. Depois, o peso da rotina e a tirania da expectativa nos exauriram. Quando já não suportávamos mais, prontos a abdicar de tudo e mudar de casa, a salvação veio do improvável.
Uma curadora de um dos maiores museus, em visita casual, ofereceu uma residência artística a Carol. E ela, para nosso alívio, aceitou de pronto, guiada por nossos olhos súplices e talvez também pelo cansaço que lhe tomava os ossos.
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