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O Coletivo

Foto do escritor: Pedro Sucupira
Pedro Sucupira
3 de jun. de 2025
9 min de leitura

Atualizado: 6 de out.

 

Imagem em formato paisagem mostrando um cenário sombrio e desolado: um canteiro de obras abandonado com estruturas metálicas enferrujadas, pedaços de concreto quebrado e uma atmosfera enevoada. Ao fundo, sombras humanas vagas sugerem figuras que se movem silenciosamente, reforçando o clima de tensão e mistério. A composição transmite a sensação de abandono, opressão e inquietude, refletindo os elementos psicológicos e sociais do conto "O Coletivo".

Em Funilândia, André e Antônio estavam sentados no meio-fio, em frente à obra da construtora Lemann, onde trabalhavam como pedreiros. Almoçavam em silêncio, apoiando as marmitas de alumínio sobre as pernas. A comida, aquecida num pequeno fogareiro improvisado com uma lata e álcool, ainda soltava um vapor tímido que se misturava ao calor do meio-dia. Ao redor, o barulho dos marteletes, das betoneiras e das serras nunca cessava por completo. Era um ruído constante, entranhado na rotina daqueles homens.

André demorou alguns segundos encarando o arroz antes de levar a primeira colherada à boca. Mastigou devagar. Parecia mais cansado do que faminto.

— Estou tão cansado, Antônio.

Antônio continuou comendo. Só depois limpou a boca com as costas da mão e assentiu lentamente.

— É, meu caro, eu te entendo. Também me sinto assim.

André suspirou. Passou a colher pelo fundo da marmita, como quem procurava alguma coisa que já sabia não encontrar.

— Trabalho desde os sete anos e, hoje, com quase cinquenta, nunca parei. O trabalho só aumentou... e o dinheiro só encolheu. Sou um dos melhores pedreiros desta cidade; já levantei parede em todas as casas ricas destas bandas. E, depois de tanto erguer o luxo dos outros, o que me resta? Continuar carregando saco até os setenta, pra depois me aposentar com um salário-mínimo?

Antônio ficou alguns instantes em silêncio. Apoiou os cotovelos sobre os joelhos antes de responder, com a resignação de quem mastigava não apenas arroz com feijão, mas também a própria esperança.

— Mesmo sendo mais novo, sei que vida melhor não vem. Ontem, depois de vinte anos de batente, comprei meu primeiro celular. Um barato. Foi uma das poucas alegrias que tive desde que saí de casa. Agora vejo vídeo, consigo conversar com os parentes e minha mãezinha, lá no interior.

André sorriu de lado, mas o sorriso morreu antes de chegar aos olhos.

— Esta vida é ingrata demais. Nunca estudei. Achava que, aos cinquenta, estaria livre, que ia estudar, fazer aquele curso pra velho tirar diploma, igual minha mulher fez.

Antônio abaixou a cabeça e remexeu distraidamente a comida.

— Difícil entender este mundo. Mamãe ainda lava roupa no ribeirão e faz xixi na fossa, mas o que priorizaram foi a tal da internet. Dizem que foi o Seu Silvio Abravanel, aquele fazendeiro, que trouxe antena e telefone pra modernizar a lavoura. Minha irmã disse que até as vacas têm chip agora. Se uma se perde naquela imensidão, logo acham.

Parou para mastigar, engoliu devagar, como se também precisasse engolir o nó que lhe fechava a garganta.

— Sempre sonhei em dar vida boa pra minha mãe e meus irmãos. Mas nada mudou. A vida segue... e é cada um por si — disse Antônio.

André limpou a testa com o antebraço, respirou fundo e olhou para o amigo.

— É, Antônio, a necessidade ensina a lebre a correr. Seus irmãos vão se dar bem. Fique em paz. Suas atitudes são seu maior legado.

Fez uma pausa. Levou outra colherada à boca.

— Minha avó contava pra gente umas histórias da família Abravanel. Ela foi ama de leite dos filhos do Seu Silvio. Chegou a amamentar as filhas do patrão.

André mastigou lentamente antes de continuar.

— Esses dias fui a uma reunião do sindicato e, desde então, tô pensativo. Lá, um senhor preto, já bem curvado de velho, mostrou um vídeo sobre essa tal de desigualdade social.

André parou outra vez. Encostou a colher na borda da marmita e ficou alguns segundos olhando para a obra diante deles.

— Pelo que entendi, essa história de que trabalhando duro a gente melhora de vida é ilusão. Mentira criada pelos ricos pra manter a engrenagem girando. Você sabia que a fome mundial, que tanto tentam combater, foi invenção deles mesmos? Esse velho disse que a Inglaterra criou a fome pra forçar o povo a trabalhar porque, se todo mundo tiver comida... quem vai querer bater ponto?

Antônio ergueu a cabeça de repente.

— Como assim, André? Me conta mais disso. Também tô cansado de carregar tijolo pra rico e não sair do lugar.

André apoiou a marmita no chão, entre os pés.

— Então, Antônio... eles dizem que, se a gente se esforçar, um dia vai ser igual a eles. Dizem que começaram do nada, romantizam tudo... mas é mentira. Lembrei do Seu Silvio. Dizem que ele era camelô antes de ser fazendeiro, que venceu na vida. Mas ninguém fica tão rico só com suor. Já trabalhei muito mais do que ele, e não tenho nem um por cento do que ele tem.

Passou a mão pela barba por fazer.

— A verdade é que ele sempre teve ajuda. Minha avó dizia que os pais dele vieram do estrangeiro, comerciantes da Turquia, judeus. E você sabe como esses judeus se ajudam. Igualzinho àquele povo da maçonaria. Tem rede, tem apoio. Ele teve tudo. Tudo que a gente não teve.

Antônio largou a marmita no chão. O alumínio bateu no concreto com um som seco. Os olhos se arregalaram, como os de alguém que enxergava, pela primeira vez, um mundo diferente daquele em que sempre acreditara.

— Será que isso é verdade, André?

No fundo, sabia que sim. A própria vida parecia responder antes do amigo.

André olhou ao redor. Alguns operários ainda comiam em silêncio. Outros fumavam. Ninguém parecia prestar atenção neles.

— Eu acredito que sim, Antônio. Olha pra gente.

Apontou para o prédio de treze andares que se erguia logo atrás deles, quase concluído.

— Alguém trabalha mais do que nós? E, mesmo assim, não temos nada. Alguns ali até passam fome. Lembra do João, que tivemos que ajudar com cesta básica? Do Fernando, coitado, que se atirou da ponte porque não aguentava mais ver os filhos chorando de fome? Da Dona Germina, que morreu porque não tinha dinheiro pra comprar o remédio da diabetes? Mulher valente. Já foi até servente de pedreiro. Aceitava tudo, sem medo.

A voz começou a perder a firmeza.

— E o pior: nunca conheci um rico que trabalhasse mais do que nós. Eu tô ficando revoltado. Doente da cabeça com essa injustiça. Ver gente nossa morrendo pra eles viverem no luxo... e não saber o que fazer com isso tudo me dá enjoo.

O silêncio caiu entre os dois. Ao longe, um martelete voltou a funcionar, rompendo o breve intervalo da obra.

André inclinou a cabeça para trás e ficou olhando o céu branco de sol, levou a mão direita ao peito, apertando-o com força, respirou duas vezes, sem conseguir encher completamente os pulmões.

As lágrimas começaram a escorrer sem que ele tentasse escondê-las.

— É uma tristeza misturada com revolta. Às vezes me falta o ar, me sinto sufocado. Eu não quero mais trabalhar pra essa gente rica.

Fez outra pausa. A voz saiu mais baixa, quase um desabafo.

— Como disse o preto velho no sindicato... a gente precisa acabar com esse padrão.

As mãos calejadas, os músculos quase esqueléticos e a pele preta ressecada por anos de exposição à poeira e ao cimento corroboravam a realidade vivida. No corpo carregavam as marcas da injustiça e da desigualdade. Viver na miséria era alimentar-se de esperança. Mas para tudo havia um limite. A esperança individual morrera há décadas. Agora, com o último suspiro, era hora de entregar-se à esperança coletiva.

***

Nos dias que se seguiram, André não apareceu para o serviço. Os companheiros, acostumados com sua pontualidade quase litúrgica, estranharam o silêncio. Antônio, inquieto, reuniu alguns dos rapazes da obra e foram até a casa do amigo. A cena que encontraram não se apagaria de suas retinas até o fim de seus dias: uma lona preta cobrindo o portão, cadeiras enfileiradas no quintal, coroas de flores com fitas douradas e, ao fundo, o caixão. O velório já estava em curso.

André se jogara da ponte.

No bolso da camisa manchada de concreto e suor seco, encontraram a carta. Sem envelope, dobrada em quatro. Uma caligrafia trêmula, mas decidida, como se o punho soubesse que era o último ato antes do abismo. As palavras, desde então, ecoam, eternamente, pelas ruas de Funilândia:

Trabalhar é ilusão. Meritocracia é ilusão. Somente os ricos ficam mais ricos. Prefiro morrer a continuar ajudando essa gente rica a enriquecer. Precisamos romper com esse padrão. Convido todos à revolução. Convido todos a fazerem o mesmo. Sei que minha morte não será em vão. Assinado: André Freire. 20 de novembro de 2022.

A carta se espalhou feito fogo em palha seca. Foi lida na praça, reproduzida em panfletos, recitada em rodas de conversa nas padarias, nos pontos de ônibus, nos canteiros de obra, nas fábricas, nas salas de aula das poucas escolas que ainda funcionavam. Era lida em voz alta, em tom grave, com olhos marejados, como quem recita uma oração profana; um novo evangelho, escrito em cal entre as rachaduras da cidade.

***

A manhã de 27 de novembro chegou como todas as manhãs de novembro em Funilândia: sol ainda brando, ar seco, o barulho distante de ônibus que por muito mais tempo não pararia naquela região.

Antônio chegou antes de todos à portaria da obra. Não para trabalhar — sabia que ninguém trabalharia. Ficou do outro lado da rua com a mochila no ombro, dentro dela os documentos que o tabelião assinara na sexta-feira: a tutela provisória dos dois filhos de Dona Germina. Ela morrera sem dinheiro para o remédio do diabetes. Os meninos, sete e nove anos, estavam dormindo na casa do vizinho naquela manhã.

João foi o primeiro que Antônio reconheceu. Quarenta e dois anos, pedreiro, pele escura, mãos que haviam erguido três prédios naquele quarteirão. Na semana em que havia quebrado o braço e ficado sem trabalhar, os colegas fizeram vaquinha e encheram a cesta básica da família. João passou sem olhar para Antônio, mas desacelerou, um segundo, antes de dobrar a esquina.

Maria, a cozinheira do barracão, veio com o avental ainda amarrado na cintura, como se saísse do fogão. Oito anos preparando o almoço daquela turma: sabia que Bento não comia pimenta, que Waldir gostava do arroz temperado, e que nas sextas-feiras todos queriam mais feijão porque o final de semana era incerto. Cruzou o portão sem hesitar.

Bento tinha sessenta e quatro anos e faltava dois meses para aposentar. Era o único cálculo que ainda lhe importava — marcava os dias na parede do alojamento, um risco por semana. Passou devagar, as costas arqueadas de décadas de obra, a cabeça erguida.

Waldir, vinte e oito anos, do Rio Grande do Norte, mandava trezentos reais para a mãe em Mossoró todo mês sem falta. Carregava na carteira uma foto dela que certa vez havia caído no canteiro, e ele havia se abaixado para pegar com uma rapidez que Antônio jamais esqueceu. Passou olhando o horizonte.

Foram cinquenta e três. Nenhum carregava faixa. Nenhum discursou. Andaram pelo mesmo trajeto de sempre — da obra à ponte — só que sem capacete e em silêncio. Não deixaram cartas. Não avisaram às famílias. Foram cinquenta e três corpos, um atrás do outro, saltando em silêncio, como se o silêncio fosse a única linguagem possível diante da injustiça.

Antônio permaneceu onde estava, viu-os dobrar a esquina, um a um, até que o último desapareceu.

Às onze da manhã, o fiscal do sindicato ligou. Antônio não atendeu. Ficou sentado no mesmo meio-fio onde ele e André costumavam comer a marmita, olhando para o prédio de treze andares que jamais seria concluído. Depois de um tempo que não soube contar, levantou-se. Os meninos de Dona Germina precisavam de almoço.

***

Antônio levou alguns segundos para compreender o silêncio que se espalhara pela cidade. Não havia o ronco dos caminhões da Lemann, nem o girar incessante das betoneiras. Nenhum grupo de homens caminhava em direção ao canteiro de obras. O dia parecia ter despertado incompleto.

Sentado à mesa da sala, observava Miguel e Samuel, os filhos de Dona Germina, brincando no quintal.

— Miguel! Samuel! Venham. Está na hora de se arrumar para a escola.

— Estamos indo, pai! — respondeu Miguel.

Antônio sorriu de leve. Ainda não se acostumara àquela palavra.

Ligou o rádio.

A voz do locutor surgiu grave, contida, como se procurasse um tom capaz de acomodar o tamanho da notícia.

— Aproximadamente cem mil funcionários das empresas Lemann abandonaram seus postos de trabalho. Todos deixaram uma mesma carta. As autoridades ainda investigam a dimensão do movimento e seus desdobramentos...

Antônio permaneceu imóvel.

Funilândia aprendera uma verdade que nenhum comunicado empresarial seria capaz de desfazer: homens isolados levantam andaimes; homens unidos tornam-se muralhas. Agora era o mundo que parecia aprender a mesma lição.

A transmissão prosseguiu.

— Foi encontrado morto, na noite passada, em seu apartamento em Nova Iorque, o empresário Augusto Lemann. As primeiras informações indicam que a morte ocorreu poucas horas após a decretação da falência do grupo.

Antônio abaixou lentamente o volume do rádio.

— Em Funilândia, onde o movimento teve início, cooperativas organizadas pelos próprios trabalhadores seguem em expansão. Com a paralisação das empresas Lemann, essas cooperativas assumiram parte das obras da região. Os primeiros levantamentos apontam aumento da produção e melhora na distribuição da renda. Especialistas, que inicialmente previam o colapso da experiência, revisam agora suas projeções...

Lá fora, Miguel e Samuel já voltavam com as mochilas nas costas.

Miguel aproximou-se devagar.

— Pai... amanhã você vai trabalhar?

Antônio observou as próprias mãos. Havia calos. Havia cimento preso nas unhas.

Sorriu pela primeira vez em muito tempo.

— Vou.

— Onde?

Antônio olhou para o horizonte, onde a cidade começava a despertar.

— Ainda não sei.

E, pela primeira vez, isso não lhe pareceu um problema.

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O Coletivo

Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.

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