Ifeoma

O galo cantou antes que o mundo se lembrasse de existir.
Eu já estava acordada. Desde a infância aprendi que o corpo não precisa da luz para saber que é hora; aprende sozinho, no fundo dos ossos, uma contagem que nunca erra. A palha debaixo de mim rangia a cada respiração. No escuro da senzala, ouvia o sono dos outros: o ronco pesado de Benedito, o gemido baixo que Mariana soltava sem acordar, como quem chora em silêncio dentro do sonho. Não me aproximei. Aprendi também isso.
Levantei-me devagar para não fazer barulho. O chão de terra batida estava frio nos pés descalços, um frio que subia pela sola e se espalhava pelas pernas como uma advertência. Peguei a saia, o pano branco que usava na cabeça, a camisa de algodão cru que minha mãe me deixara e que ainda tinha o cheiro dela, embora já houvesse anos. Cheirava à fumaça do fogão de lenha, ao azeite de dendê, a alguma coisa que não tinha nome, mas que era ela.
O nome dela era Ifeoma.
Aqui, nesta fazenda, a chamavam de Inácia.
A fazenda Quilombas e Quilombos acordava antes de qualquer cidade. Os galos, os cachorros, os cavalos nos estábulos, os bugios lá no fundo da mata, tudo se movia ao mesmo tempo, como se a vida toda dependesse de chegar antes da luz. Atravessei o terreiro com a cabeça baixa, pisando com cuidado nas pedras irregulares. O céu ainda era escuro, mas tinha mudado de cor: um azul que nunca vi pintado em nenhum lugar, mais fundo que o azul comum, como o fundo de um poço. As estrelas sumiam devagar, uma a uma, sem que ninguém as visse partir.
Na cozinha, Esméria já estava.
Nunca entendi como ela chegava antes de mim. Esméria era velha, mais velha que qualquer pessoa que eu conhecesse, e havia nela uma qualidade de pedra antiga: firme, desgastada por tudo, sem queixa. O fogo já estava alto quando entrei. O cheiro de café me atingiu como uma mão espalmada: forte, quente, errado ali naquele frio da madrugada, mas bem-vindo.
— Água pra banheira — disse ela, sem me olhar.
Não era uma ordem. Era como se ela dissesse o sol nasce, ou a chuva molha. Uma lei da natureza.
Peguei o primeiro balde e fui ao poço.
A banheira de cobre ficava no quarto de banho do Capitão, um pequeno cômodo dos fundos da casa grande que cheirava a cânfora e a couro velho. Eram sete baldes. Sete viagens do poço à casa, atravessando o corredor de pedra, subindo os três degraus que separavam a área de serviço do resto. Em cada viagem o corpo aprendia o caminho de novo: o peso distribuído, os ombros levantados, os pés firmes no chão úmido.
No sétimo balde, o Capitão acordou.
Escutei os passos pesados no assoalho de madeira, o ranger familiar que eu conhecia como se fosse minha própria respiração. Fiquei imóvel à porta do quarto de banho. Ele entrou sem me olhar primeiro. Nunca me olhava primeiro. Ficou de costas, esticando os braços, espreguiçando com aquele som que os homens grandes fazem ao acordar, como animais se acomodando. Depois se virou.
— Ana — disse ele.
Era tudo. Só o nome. Como se ao pronunciá-lo garantisse que eu ainda estava ali, que o mundo estava em ordem.
— Sim, senhor — respondi.
Então ele estendeu a mão e tocou minha anca.
Não foi agressivo. Nunca era. Era um gesto distraído, quase mecânico, como quem toca a parede para se equilibrar, como quem afaga um animal de estimação sem parar o pensamento. A mão passou, pesada e morna, e eu fiquei quieta, olhos no chão, enquanto ele ia até a banheira e testava a temperatura da água com as costas da mão.
— Está boa — disse.
Saí do quarto. No corredor, encostei as costas na parede fria e fiquei assim por um momento, os olhos fechados. Em algum lugar da casa, uma das crianças chorava. Lá fora, o galo cantou de novo.
Ifeoma, pensei. Ifeoma, Ifeoma, Ifeoma.
Era o jeito que eu tinha de não desaparecer.
O Capitão José Aristídides Carvalho e Andrade se considerava um homem progressista. Dizia isso com frequência — no café da manhã, nas visitas, nas conversas com o padre que aparecia uma vez por mês e ficava vermelho de tanto vinho e concordância. Sou um homem progressista, dizia o Capitão, apertando a faca no lombo do queijo curado, e é por isso que esta fazenda funciona como funciona. Ninguém contestava. Dona Perpétua olhava para a xícara. Os seis filhos legítimos olhavam para os pratos. Eu ficava de pé junto à credência, jarra na mão, e olhava para a janela — um pedaço de céu acima da copa das mangueiras, já azul de verdade, o azul que eu conhecia.
Naquela manhã, enquanto eu servia o café, ele falou de Darwin.
— Darwin, minha gente — disse o Capitão, derrubando duas colheres de açúcar na xícara —, Darwin nos ensinou que há uma ordem nas coisas. Uma força da natureza que organiza o mundo. E o que sou eu, afinal, senão um instrumento dessa ordem?
Eugênio, o mais velho dos filhos, não levantou os olhos do pão. Ele conhecia aquela expressão do pai. Nós todos conhecíamos.
— Cinquenta e quatro por cento — continuou o Capitão, agora com o ar de quem anuncia uma descoberta —, cinquenta e quatro por cento dos habitantes desta fazenda são negros. E vivem bem, minha gente. Vivem bem porque alguém os governa com justiça. — Fez uma pausa. Bebeu um gole de café. — Não sejamos hipócritas: sem governo, o que acontece? Quilombo dos Palmares. Caos. Desordem. Sangue. E Zumbi, pobre Zumbi, onde foi parar?
Servi mais café à Dona Perpétua.
Minha mão não tremeu. Aprendi isso também.
O que o Capitão não sabia — o que nenhum homem daquela espécie sabia, porque a ignorância era parte do privilégio, era a fundação sobre a qual tudo o mais se construía — era que Antônio Velho, o homem mais velho dos estábulos, sabia o nome de Zumbi dos Palmares antes que eu nascesse.
Sabia também o nome de Luísa Mahin e o de Luís Gama, que havia sido vendido pelo próprio pai e se tornado advogado e poeta e espinho na carne de quem julgava que a carne dos outros lhe pertencia. Sabia esses nomes do jeito que se sabe uma oração — de cor, no escuro, em silêncio, sem que ninguém mandasse ou permitisse.
Nós éramos a maioria, dizia Antônio Velho, às vezes, quando a noite fechava e o Capitão estava na casa grande com seus vinhos e suas visitas. Dizia baixinho, sem drama, com a voz de quem constata um fato tão antigo que já não assusta. Cinquenta e quatro por cento, dizia, e ria baixinho, para si mesmo, como quem guarda dentro do peito a última cena de uma peça que os outros ainda não assistiram.
Naquela manhã, de pé junto à credência com a jarra de café na mão, enquanto o Capitão explicava Darwin e a ordem natural das coisas, eu pensei em Antônio Velho.
Pensei em Ifeoma.
E servi mais café ao Capitão, porque era manhã, e porque era o que se fazia, e porque cinquenta e quatro por cento ainda não era o suficiente — ainda não era, mas o dia estava começando, e o dia era longo, e nos dias longos muita coisa pode mudar de lugar sem que ninguém perceba, até que seja tarde demais.
Naquela manhã, enquanto eu servia o café, o Capitão falou de Lamarck.
— Jean-Baptiste Lamarck, meus filhos — disse o Capitão, derrubando duas colheres de açúcar na xícara —, Lamarck nos ensinou que a necessidade modifica os vivos. Um órgão cresce, outro atrofia. A natureza não pergunta se isso é belo ou justo; apenas exige adaptação. Digam-me, então: se este mundo me obrigou a ser o que sou, onde termina a minha culpa e começa a culpa dele?
O Capitão pousou a mão sobre o ombro de Eugênio, num gesto de intimidade estudada.
— Setenta e cinco por cento — disse, sorrindo como quem acabara de resolver um velho problema da humanidade. — Setenta e cinco por cento dos habitantes desta fazenda são negros. E vivem bem. Não porque o mundo tenha sido generoso com eles, mas porque alguém assumiu a responsabilidade de guiá-los. A natureza produz desigualdades; eu apenas impeço que elas se transformem em abandono.
Naquela manhã, de pé junto à credência com a jarra de café na mão, enquanto o Capitão exaltava Lamarck e a própria generosidade, eu olhava pela janela. No terreiro, a multidão de pretos já estava desperta. Uns roçavam a terra. Outros carregavam sacos, baldes, lenha. Alguns enxugavam o suor antes mesmo que o sol terminasse de nascer.
Ifeoma, pensei. Ifeoma, Ifeoma, Ifeoma.
Era o jeito que eu tinha de suportar os dias.
E servi mais café ao Capitão, porque era manhã, e porque era o que se fazia, e porque setenta e cinco por cento ainda não era o suficiente — ainda não era, mas o dia estava começando, e o dia era longo, e os dias longos têm o estranho hábito de deslocar o mundo sem que ninguém perceba. Quando se dão conta, tudo já mudou de lugar.
Naquela manhã, o galo não cantou.
Quando entrei na cozinha, só havia eu.
Água para banheira, pensei.
Ifeoma, pensei. Ifeoma, Ifeoma, Ifeoma.
Já não repetia seu nome para suportar. Repetia para não recuar.
Naquela manhã, de pé junto à cama com a faca na mão, enquanto o Capitão dormia, eu olhava pela janela e lá embaixo a multidão de pretos atravessava o terreiro. Não carregavam mais enxadas. Carregavam Dona Perpétua, Eugênio e os demais filhos do Capitão em direção ao cadafalso.
Porque era manhã.
Porque era o que agora se fazia.
Porque oitenta e cinco por cento, afinal, bastavam.
************************************************************************************
Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.
Se este texto te interessou, aqui no blog você encontra outros escritos meus, entre resenhas, contos, reflexões e poemas.
No Instagram, você me encontra como @pedrosucupiraa.
No Skoob, como Pedro Sucupira, onde compartilho os livros que li, estou lendo e pretendo ler.
E no Lattes, é possível acessar minha produção acadêmica, incluindo artigos científicos, capítulos e livros publicados.
Se quiser conversar, trocar ideias, críticas, sugestões ou experiências, sinta-se à vontade para me escrever: pdrohfs@gmail.com.



Comentários