Farol de Neblina

O farol de neblina não ligava. A névoa estava tão densa que parar no acostamento seria um risco muito grande. Apesar da estrada vazia, não dava para arriscar. Quando menos se esperava, surgia algum carro que não respeitava a velocidade adequada. Nessas horas, ele se atinha à legislação — o medo de acidente falava mais alto.
No banco do passageiro, ela continuava com a cara emburrada. Ambos em silêncio. Não era preciso olhar para o lado para confirmar — ele já a conhecia de cor e salteado.
— Mais uma vez você deixa tudo para última hora e acabou não fazendo o que devia ter feito — disse ela, o ressentimento exalando por todos os poros.
— Está bem, eu já entendi. Não precisa ficar debochando, bem agora — respondeu ele, irritado.
— Imagina o quanto deve ser difícil para você levar o carro pra manutenção, fazer o check-up. Você é muito ocupado.
— Desculpa, Suzanna, mais uma vez. Eu devia ter te escutado. Nunca imaginei que teria neblina no auge do verão, neste trecho da estrada — Ela sempre vencia nesse tipo de argumento.
— Por que você me chamou de Suzanna? Já chegou nesse ponto de irritabilidade, Pedro? — ela retrucou, ainda mais ressentida. — Não estou exigindo que você preveja tudo o que pode acontecer, mas que seja minimamente precavido de vez em quando. Não custava nada você ter levado o carro pra revisão na semana passada.
— Por favor, não começa agora. Essa atitude não vai ajudar em nada. Eu já entendi o seu ponto e você tem razão. Me desculpa por eu ser quem eu sou.
— Para com isso. Como sempre, você está querendo inverter a situação — ela disse, pegando o celular que estava no porta-luvas. — E você só tomou a vacina porque sua mãe insistiu. Você nunca leva em consideração o que eu penso, as minhas vontades. Você nunca se preocupa comigo genuinamente. Você faz tudo por todo mundo, mas quando eu peço algo, você faz questão de ignorar. Não consigo compreender como podemos estar juntos há tanto tempo, sendo que você nem faz questão de me conhecer de verdade. Sempre ignorando os meus pedidos e me deixando de escanteio. Quem me dera você me ouvisse como ouve seus amigos e a sua mãe. Você não faz ideia de como isso me deixa mal, me faz sentir como se eu fosse um peso morto na sua vida
Ele acelerou até passar 10 km acima da velocidade máxima permitida.
— Pedro, você está muito rápido. Desacelera, por favor.
Ele acelerou mais 10 km.
— Pedro, você está me deixando com medo.
Ele acelerou mais um pouco.
— Pedro, o que você está pensando em fazer, nos matar?
Ele acelerou mais.
Já a ponto de gritar, ela disse: — Pedro, eu estou grávida.
Ele desacelerou até a velocidade a máxima permitida.
— O quê? Como assim grávida?
— Sim. Descobri semana passada. Pensei em te contar na viagem, fazer uma surpresa.
— Isso é impossível. Faz séculos que não transamos. Como esse filho pode ser meu?
— Hã? Você está falando sério? Não acredito que seja capaz de fazer uma insinuação dessas.
Ele voltou a acelerar.
— Pedro, você não pode dirigir nessa velocidade com essa neblina. O farol de neblina está quebrado. Olhe para a estrada. Eu não consigo enxergar um metro à frente do carro.
Ele manteve a velocidade.
— Vou exigir um teste de paternidade. Aquela viagem de “trabalho” que você fez... — Soltou a mão direita do volante para fazer o sinal de aspas com os dedos. — pode muito bem ter rendido isso.
— Pedro, dirija com as duas mãos, por favor. Você sabe o quanto eu odeio quando faz isso. — Ela respira fundo e ajeita o cinto.
Ele acelerou mais dez quilômetros por hora.
— Pedro, por favor. Eu já cansei de dizer o quanto esse tipo de acusação me machuca. Nós transamos como qualquer casal que está junto há décadas. O que você queria? Que toda semana eu estivesse de lingerie nova, te esperando quando você voltasse dos seus "jogos de futebol"? — retrucou, repetindo o gesto das aspas, ainda com o celular na mão.
Ele desacelerou.
— Eu também já te expliquei o quanto preciso do meu espaço. Ficar o tempo todo juntos pode nos sufocar. Foi isso que a minha terapeuta disse.
— Você está falando daquela terapeuta que eu peguei te mandando foto dos peitos?
Silêncio.
Ele desacelerou mais um pouco.
Silêncio.
— Você anda mexendo no meu celular, Suzanna?
Então acelerou mais vinte quilômetros por hora.
— Pedro, eu desisto. Mais uma vez você está invertendo a situação. Joga a responsabilidade para cima de mim porque é incapaz de assumir a sua. Você continua sendo aquele filhinho da mamãe mimado que eu conheci no colégio.
— Suzanna, eu nunca respondi àquela vadia. No primeiro sinal de que ela começou a dar em cima de mim, troquei de psicóloga. Jamais faria isso com você.
— Ai... — ela levou a mão à barriga e fechou os olhos por um instante. —Senti uma pontada.
Nesse momento, o farol de neblina piscou e voltou a apagar. Pedro olhou para o painel.
— Olha... o farol. Deve ser mau contato.
O feixe de luz atravessou a névoa por alguns segundos, revelando apenas uma estrada que continuava indecifrável.
— Você já pensou em algum nome? Prefere menino ou menina?
Ela respirou fundo antes de responder.
— Resolveu assumir o filho agora? Ai... essa dor está aumentando.
Pedro afundou o pé no acelerador. O velocímetro ultrapassou quarenta quilômetros acima do limite permitido.
— Pedro... minha barriga...
Ele permaneceu em silêncio.
Suzanna ergueu o celular.
— Estou gravando tudo. Tudo o que você está fazendo comigo.
O carro continuou ganhando velocidade.
As lágrimas começaram a descer pelo rosto dela.
— Pedro... por favor... minha barriga está doendo muito.
Ele apertou ainda mais o volante.
— Você é uma vadia. Esse filho não é meu.
Suzanna levou as duas mãos à barriga, respirando com dificuldade.
— É uma menina... Eu queria chamá-la de Lívia... em homenagem à sua avó.
— Uma menina?
O silêncio durou apenas um segundo.
— Então tenho ainda mais certeza de que não é minha. Eu jamais teria uma filha.
A dor fez Suzanna se curvar sobre o banco.
— Pedro... para o carro... por favor...
Quanto mais Suzanna se curvava sobre o próprio corpo, mais ele acelerava. Os insultos continuavam, acompanhados por gestos grandiloquentes da mão direita, enquanto a esquerda permanecia no volante. Não percebeu quando começou a invadir a pista contrária.
Um farol surgiu de repente em meio à neblina.
Pedro segurou o volante com as duas mãos e jogou o carro para a direita. No movimento brusco, Suzanna foi arremessada contra a porta. A cabeça bateu contra a janela.
Pedro desacelerou e retomou a própria pista, agora dentro dos limites de velocidade.
— Pedro... o que você fez...?
Suzanna endireitou o corpo, gemendo de dor. O suor escorria pelas têmporas. Levou uma das mãos à cabeça e, quando a afastou, viu-a coberta de sangue. Suzanna baixou os olhos para a própria barriga. Um grito de desespero escapou de sua garganta.
— Ai, meu Deus...
Pedro olhou para a mão dela. Os olhos estavam arregalados, tomados pelo medo e pelo arrependimento.
— O que foi que eu fiz?
Como se respondesse àquela pergunta, o farol de neblina acendeu.
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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.
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