Deus Está no Controle

— Por que tinha de ser justamente uma igreja, José? — disse Maria, em voz baixa, sem tirar os olhos do campanário.
O sol batia de lado no muro quando eles chegaram ao matagal. Era aquela hora da tarde em que a luz deixa de iluminar e começa a pesar — dourada demais, espessa demais, carregada de um calor que não pertencia apenas ao ar mas também à terra, às pedras, às folhas ressecadas que farfalhavam sem vento. A igreja se erguia a uns cem metros dali, mais larga do que alta, com as paredes de reboco descascando em manchas irregulares que, de longe, lembravam uma pele adoentada. O campanário ainda estava de pé. O sino havia desaparecido, deixando apenas o vão aberto, um quadrado escuro contra o céu branco de calor.
Estavam agachados no mato alto, ombro a ombro, respirando o cheiro de terra seca e de alguma coisa mais doce e mais podre que vinha de mais longe. O fuzil de José estava encostado ao ombro. Maria mantinha a pistola no cinto, três dedos acima do quadril direito.
— Maria, não começa. É uma das construções mais próximas do acampamento.
Ela franziu a testa.
— E quase todas as igrejas estavam intactas — José continuou. — Talvez porque ninguém esperasse encontrar nada nelas. Achei que era nossa melhor chance.
Maria permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Sempre tive medo de igrejas.
Olhou para cima, para o campanário.
— Mesmo antes de tudo isso.
Fez uma pausa.
— Nunca consegui entrar numa sem sentir que estava atravessando um mausoléu.
— Um mausoléu? — José franziu o rosto, confuso.
— Como se ali fossem enterradas pessoas que ainda respiravam.
José não respondeu imediatamente. Continuou de olho na fachada da igreja, examinando as janelas uma a uma: vidros intactos na maioria, a grade de ferro de uma delas vergada para fora. Em algum momento alguém havia tentado sair por ali.
— Antes do pôr do sol estaremos de volta — disse ele, por fim.
Retomaram o caminho pelo matagal em silêncio, curvados, pisando devagar. Maria ia atrás. Controlava a respiração — inspirava pelo nariz, soltava pela boca, três contagens para cada — o jeito que havia aprendido nas primeiras semanas do acampamento, quando ainda acordava no meio da noite engasgando-se com o próprio choro. O hábito ficou. Não o choro, mas a respiração.
Crac.
Maria baixou os olhos. Uma lata de cerveja amassada, quase invisível entre as folhas. José parou imediatamente. Virou a cabeça devagar e levou um dedo aos lábios.
Silêncio.
Nenhum movimento. Nenhum som que não fosse deles próprios — o bater dos corações, que nos momentos errados se tornava a coisa mais audível do mundo.
— Desculpa — murmurou ela — encolhendo os ombros.
Ele esperou mais alguns segundos antes de voltar a andar, e quando falou foi quase sem mover os lábios.
— Hoje, o som denuncia mais do que qualquer pegada.
Maria assentiu. Olhou para a lata. Perguntou-se quem havia bebido aquela cerveja ali, naquele mato, naquele tempo que parecia agora tão longe que quase não parecia real. Uma festa, talvez. Um casal que havia escapado de alguma celebração. Ou simplesmente alguém que queria um momento só seu, longe de todo o resto.
O resto veio de qualquer jeito.
— Mesmo assim... acho que não vamos encontrar nada.
— Também pode ser.
— E o que uma igreja teria de útil para o acampamento?
José ergueu os olhos para uma das janelas.
— Comida, talvez. Facas. Ferramentas. Alguns utensílios. A igreja onde meus pais iam tinha cozinha industrial, depósito... até uma enfermaria bem equipada.
Pararam diante de uma janela lateral. Sem combinar, os dois se ergueram apenas o suficiente para espiar.
O interior da igreja estava suspenso numa estranha imobilidade. Os bancos de madeira — dezenas deles, em fileiras que se estendiam da entrada até o altar — estavam desalinhados, alguns tombados, outros empurrados para os cantos como mobília esquecida. Diante da porta principal, uma pilha de bancos havia sido erguida às pressas, formando uma barricada improvisada.
O altar, porém, permanecia intacto.
O púlpito de mármore branco ainda se erguia no centro, coberto por uma camada fina de pó que a luz dourada da tarde, ao atravessar as janelas, tornava visível no ar, suspensa. Atrás dele, o grande crucifixo continuava preso à parede. Cristo mantinha a cabeça inclinada para a direita. Havia, naquela expressão, algo que Maria nunca havia conseguido nomear — não era dor, não era paz. Era uma coisa anterior a qualquer um dos dois. Resignação, talvez. Ou simplesmente o olhar de quem sabe e optou por não dizer.
Havia também uma faixa pendurada transversalmente sobre o altar, parcialmente rasgada, as letras vermelhas sobre o tecido branco: DEUS ESTÁ NO CONTROLE. Metade da faixa havia despencado e pendia torta, de modo que as palavras visíveis agora eram apenas as últimas: NO CONTROLE.
José tornou a se abaixar.
— Está vendo? Vazia. Quase tudo no lugar.
Maria ficou um segundo mais olhando para o interior. A pilha de bancos era alta demais e torta demais para ter sido construída com calma, pensou.
— Bem diferente daquele supermercado — disse ela, por fim.
José soltou um riso curto, sem humor.
— Estou começando a desejar que essas saídas fossem trimestrais — disse ela.
— Uma por mês já é mais do que consigo suportar.
Nenhum dos dois voltou a falar. Retomaram o caminho pelo matagal, devagar, flanqueando a parede, como se cada passo precisasse pedir licença ao silêncio. Pararam diante de uma porta lateral, estreita e de madeira escurecida pelo tempo. Ainda agachado, José envolveu a maçaneta com a mão. Girou-a devagar. Os ombros dele relaxaram quando a porta cedeu sem resistência.
— As dobradiças ainda estão lubrificadas — com uma surpresa que Maria percebeu ser também um alívio.
Ela passou os dedos pela madeira gasta.
— Faz sentido. Meu irmão era coroinha. Uma das tarefas dele era essa: lubrificar as dobradiças, apertar um parafuso, trocar uma fechadura. A igreja sempre tinha alguém cuidando dessas pequenas coisas. — Pensou no irmão e em como ele chegava em casa nas tardes de sábado cheirando a cera e a incenso, um cheiro que ela nunca conseguiu separar da palavra obrigação.
— Engraçado. O mundo acabou, mas algumas portas continuam abrindo como se esperassem a missa de domingo.
Maria não respondeu. Fitava a fresta escura que se abria diante deles. Havia ali um cheiro que ela não havia sentido lá fora, uma mistura de cera e poeira, e algo que em outras circunstâncias chamaria de sagrado, mas havia embaixo de tudo isso outra coisa: orgânica, úmida, como folhas decompostas no fundo de um jardim fechado. O cheiro não era forte, mas persistente.
Um arrepio percorreu a nuca de Maria. Ela se virou de repente e não viu nada. Conferiu se a arma permanecia no lugar bem apertada. Apenas o mato imóvel, ondulando ao sabor de um vento que ela não sentia.
— Vamos — disse ela. — Entra.
José hesitou um instante. Maria então apoiou as mãos nas costas dele, ao lado do fuzil, e o empurrou de leve. Ele atravessou a porta; ela entrou logo atrás, fechando-a com cuidado para que a madeira não fizesse o menor ruído.
Deram de cara com os fundos do altar, exatamente atrás do púlpito de mármore branco, sob a sombra do Cristo crucificado.
Os dois permaneceram imóveis por alguns segundos, deixando os olhos se ajustarem à penumbra. A luz entrava filtrada pelos vitrais laterais — vidros coloridos representando cenas —, tingindo o chão de pedra com manchas de azul, ocre e vermelho, que se moviam lentamente à medida que o sol mudava de posição lá fora. Era quase belo. O tipo de coisa que, em outras circunstâncias, teria algo de solene.
— Nossa — murmurou Maria. — Eu tinha me esquecido do tamanho dessas igrejas.
Percorreu a nave com os olhos: as fileiras de bancos, as pilastras de concreto pintadas de branco, os painéis nas paredes com versículos em letras douradas. No teto, um ventilador industrial parado. Fios elétricos que não iam a lugar nenhum. E lá no fundo, a barricada de bancos diante da porta principal — vista de dentro era ainda mais perturbadora.
— Por fora, parecem modestas — disse ela. — Mas basta entrar para perceber que foram construídas para engolir quem chega.
José não ouvia. Já examinava o espaço com o olhar metódico que desenvolvera nos meses do acampamento — procurando saídas, calculando distâncias, identificando sombras que não deveriam estar ali. Espreguiçou os ombros, movimentou o pescoço, e os dois se separaram em silêncio: ela tomou o lado direito da nave, entre os bancos; ele, o lado esquerdo, em direção a uma porta entreaberta que devia dar à sacristia.
Maria caminhou devagar entre as fileiras. Os bancos de madeira estavam frios sob os dedos. Havia uma Bíblia aberta num dos assentos — as páginas onduladas pela umidade, partes do texto ilegível. Em outro banco, um terço de plástico verde. Num terceiro, dobrado com um cuidado que destoava da desordem geral ao redor, uma camiseta infantil cor-de-rosa.
Parou.
No banco seguinte, havia mais roupas. Não estavam espalhadas. Uma pilha que exalava ordem, como roupas recém-saídas da máquina de lavar, esperando para serem guardadas no armário. Eram camisas de adulto, de tecido resistente, e Maria precisou de um momento para entender o que estava vendo. As camisas eram de tecido camuflado — o padrão militar de verde e marrom que ela associava a certas lojas de artigos esportivos e a certo tipo de homens que ela havia aprendido, ainda cedo, a identificar e a evitar.
Pegou a primeira camisa e a abriu.
Nas costas, em letras brancas sobre o camuflado: EXÉRCITO DE CRISTO.
No lado esquerdo do peito, bordado em amarelo: IRMÃO PAULO.
Devolveu a camisa à pilha com cuidado, exatamente como havia encontrado. O coração batia um pouco mais rápido, mas ela dominou a respiração: pelo nariz, pela boca, três contagens. A pilha estava quente. Não o calor residual da tarde — quente de um jeito diferente, o calor de superfícies que há pouco tempo abrigava um corpo.
Do outro lado da nave, José havia encontrado a sacristia.
A sala era pequena e cheirava a madeira úmida e a papel velho. Havia um armário de aço cujas portas estavam abertas: dentro, fileiras de paramentos litúrgicos empoeirados, toalhas de altar, um castiçal de latão. No canto, uma caixa de papelão com mantimentos — arroz, feijão, algumas latas enferrujadas. Rações de emergência, o tipo de coisa que igrejas costumavam guardar para ações sociais. José anotou mentalmente: voltar aqui antes de sair.
Havia também, sobre uma mesa de madeira escura, uma coleção de objetos que não pertenciam àquele lugar: carteiras, celulares com a tela estilhaçada, um par de óculos, uma sandália de criança. As carteiras estavam abertas e vazias.
José ficou olhando para a mesa por mais tempo do que pretendia.
Havia na disposição dos objetos algo que o incomodava — não era caos, não era acidente. Alguém havia coletado essas coisas, havia separado o que era preciso do que não era, havia deixado o resto organizado sobre a mesa.
Foi então que ouviu o som.
Era um som que ele conhecia muito bem. Era o som dos pés — não o andar normal de uma pessoa, com o peso distribuído e o propósito no passo, mas o arrastar de alguém que havia esquecido para que serviam os pés, que os usava apenas porque não sabia mais o que fazer com eles. Um som baixo, pesado, uniforme.
Saiu da sacristia.
O confessionário ficava encostado à parede direita da nave, aos fundos — uma caixa de madeira escura, com as duas portas fechadas, do tipo que na arquitetura das igrejas antigas servia simultaneamente para o pecado e para o perdão. A porta da esquerda abriu devagar.
Maria recuou três passos antes de perceber que recuava.
A criatura que saiu de dentro vestia a camisa camuflada — EXÉRCITO DE CRISTO, IRMÃO MARCOS. Aparentava ser um homem de meia-idade, antes de ser infectado — agora era difícil calcular qualquer coisa a partir da aparência deles. Movia-se com a lentidão característica, a cabeça levemente inclinada para o lado, os braços pesando ao longo do corpo. O rosto já apodrecera o suficiente para tornar difícil reconhecer qualquer traço humano. Um dos olhos reduzira-se a uma massa disforme, e a pele se rompia em diversos pontos, desprendendo-se da carne e revelando tecidos escurecidos pela putrefação.
O que perturbava Maria não era a velocidade nem a violência iminente. Era a camisa, o fato de que a camisa estava bem abotoada, bem passada, como se houvesse, naquele ser que havia deixado de ser uma pessoa, um último resíduo de algum hábito — ou de alguma instrução — que não havia sido completamente apagado.
— José — disse ela, sem levantar a voz.
Ele já estava ao lado dela.
Outros começaram a sair das sombras. Da segunda porta do confessionário, das fileiras do fundo, dos espaços entre os bancos tombados. Todos vestindo a mesma camisa. IRMÃ RUTH. IRMÃO ELIAS. IRMÃO FABIANO. IRMÃ CONCEIÇÃO. EXÉRCICO DE CRISTO. Moviam-se com aquela uniformidade que, às vezes, nas piores noites, Maria pensava que era a coisa mais aterrorizante de tudo.
Caminhavam com os braços estendidos, emitindo sons guturais e desarticulados. Vagavam sem rumo aparente, como corpos esvaziados da própria vontade, movidos apenas por instinto. De longe, lembravam uma congregação reunida à espera de um chamado.
O chamado veio do púlpito. Ou de trás dele.
Ali havia um homem mais velho, de terno escuro, sem sinais de decomposição. Diante da luz âmbar, a pele aparentava normalidade — conservada demais para um morto. Estava de pé atrás do mármore branco, exatamente onde o púlpito o colocava, e foi o último a começar a se mover. Como se tivesse esperado pelos outros.
— Porão — disse José.
— Onde?
— Sacristia. Há uma escada.
Não correram. Ainda não. Corrida fazia barulho, e barulho atraía mais do que olhos. Recuaram de costas, José com o fuzil apontado para o grupo que avançava, Maria de olho na lateral direita onde mais um havia surgido entre as pilastras.
Os vitrais tingiam tudo de vermelho e azul e amarelo, quando, de repente, um som gutural, agudo, veio do púlpito. Por um segundo — um único segundo que ela sabia que não iria esquecer — a cena pareceu familiar demais. Os mortos vestidos com camisa camuflada começaram a avançar em direção ao altar.
Então os dois correram.
A escada era de concreto e descia em ângulo íngreme, sem corrimão, os degraus irregulares e úmidos. José desceu primeiro, a mão espalmada na parede fria. Maria veio logo atrás, puxou a porta acima de si e a fechou. Não havia ferrolho. Havia um gancho de metal enferrujado que ela prendeu no olhal com os dedos tremendo.
Escuridão quase total.
José acendeu a lanterna pequena que carregava no cinto — o feixe de luz varreu o espaço: paredes de concreto, o chão ainda de concreto, caixas empilhadas, uma escrivaninha velha, tubulações nas paredes. Uma sala de serviço, o tipo de lugar que existe em todas as grandes igrejas e que ninguém visita a menos que haja um cano estourado ou um disjuntor queimado. O feixe se moveu mais devagar.
E então encontrou os dois.
Estavam encostados à parede do fundo. Um menino e uma menina — adolescentes, quinze anos talvez, talvez menos. Sentados no chão com as costas no concreto, os joelhos dobrados. Havia correntes presas nos tornozelos de cada um e ancoradas na parede por argolas que alguém havia fixado com parafusos grossos, do tipo que se usa em construção pesada. O serviço havia sido feito com capricho.
A menina estava grávida.
O ventre arredondado sob a blusa branca, os ombros caídos para a frente com o peso de algo que não era apenas físico. Ela olhou para o feixe de luz sem desviar os olhos, sem piscar, como quem há muito havia se acostumado à escuridão e não temia mais a claridade porque havia aprendido que a claridade também podia ser uma espécie de armadilha.
O menino olhou para José. Depois para Maria. Depois para a porta acima da escada, de onde vinha agora o som dos passos.
Nenhum dos quatro disse nada.
A lanterna projetava a sombra deles na parede — quatro sombras grandes e deformadas que não combinavam entre si. Os passos acima continuavam. O gancho de metal começou a ranger sob a pressão.
Maria olhou para as correntes.
Depois olhou para a menina.
A menina encontrou o seu olhar e não desviou.
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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.
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