A Praça Abandonada
Atualizado: 6 de out.
— O que dizer dos jovens de hoje? Aliás, todos são jovens comparados a ela. Todos, sem exceção. Até a pessoa mais velha do mundo ainda seria considerada uma criança diante dela. Ela já estava aqui muito antes de tudo o que a cerca surgir — antes do nome, antes da palavra falada ou escrita. Após todas as mudanças, permanece: um respiro verde sufocado pela selva de concreto. Hoje, no quadro Show de Horrores, contarei a história da Praça Abandonada — ou seria amaldiçoada? Fique conosco para conhecer os atos horrendos que aconteceram neste local.
Transeuntes passavam, diminuíam o passo e voltavam o rosto para o apresentador. Alguns permaneciam por instantes, tomados pela curiosidade; outros, apressados, apenas lançavam um olhar breve antes de seguir caminho, franzindo a testa como quem tenta compreender uma cena fora de contexto.
— Transmitimos agora de um lugar que exala terror. Como podem ver, trata-se de uma praça pequena — disse o apresentador, apontando com o dedo para onde a câmera devia focar. — No centro, temos esta árvore que, segundo nossa produção, é uma Handroanthus impetiginosus, com mais de quarenta anos — acrescentou, olhando para a copa seca, com poucos fiapos de folhas prestes a cair e flores arroxeadas efêmeras. — De acordo com nossas fontes, este grande ipê-roxo foi plantado em homenagem à filha de uma moradora da região, falecida em um acidente.
O olhar do apresentador escapou da copa das árvores e encontrou as janelas do prédio em frente à praça. Havia moradores observando-o, imóveis, debruçados sobre os parapeitos. Por um instante, sentiu-se ridículo. Baixou os olhos e retomou a leitura num ritmo apressado. As palavras, que já sabia de cor, começaram a se atropelar umas às outras, como se terminar aquele discurso fosse, de repente, mais importante do que dizê-lo.
— Ao redor, há diferentes tipos de vegetação rasteira, como esta Tradescantia zebrina, que já tomou conta de grande parte do terreno. E ali — apontou para um declive suave que levava a uma rua — cresce a conhecida Arachis repens, comum nesta cidade.
Involuntariamente, voltou a olhar para as janelas.
— Tentamos contato com outros moradores, mas a região não é das mais habitadas. — Na janela mais próxima, um homem observava a gravação com a testa franzida e uma expressão de dúvida. — Em torno da praça há um prédio de quatro andares, com apenas alguns moradores — disse, forçando um tom de suspense enquanto apontava para as janelas.
Fred, o câmera, acompanhava com a visão periférica o movimento nas janelas do edifício. Procurava enquadrar um trecho vazio da fachada, desviando a lente sempre que surgia algum morador.
— Do outro lado, há um paredão que dá para uma casa também abandonada. O bairro esvaziou após os desaparecimentos inexplicáveis. Até a polícia arquivou os casos. Os que restaram vivem aqui por falta de opção.
Sem se dar conta, o apresentador abaixou o tom de voz e lançou um olhar de esguelha para os moradores do prédio, que continuavam ali, imóveis, acompanhando cada palavra.
— Vimos alguns idosos durante o dia, além de moradores do prédio, que se recusaram a conversar conosco. Apenas observam. — Fred focou em uma senhora de roupão à janela. Assim que percebeu a câmera apontada para si, ela ergueu o dedo médio, fez um muxoxo, fechou as cortinas com um puxão e desapareceu.
— E um detalhe que o mapa não mostra, caro espectador: esta praça encerra uma rua sem saída. Para chegar aqui, percorrem-se quase quinhentos metros de asfalto que o bairro parece ter esquecido. Um lugar no fundo de um beco. Quem vem até aqui, sabe por que vem — sinalizou ao cinegrafista para cortar. — Fred, só mais uma ou duas falas e vamos embora. Este lugar me dá arrepios.
— Talvez seja esse o objetivo do seu canal: causar arrepios nos espectadores — respondeu Fred, com ironia, saindo de trás da câmera portátil.
Marlon Abude, o apresentador, já não conseguia disfarçar o cansaço, a irritação e o nervosismo. Foram horas de viagem até aquele bairro infame, dito mal-assombrado. Há quase um ano que vivia de explorar tragédias gravando sobre assassinatos, assombrações e massacres. De tudo o que tentou, aquilo foi o único tema que funcionou.
Mas o lugar não colaborava. Esperava encontrar uma praça impregnada por uma atmosfera densa, sufocante, mas encontrou apenas uma praça.
Ajeitou o blazer alugado.
— Deixa de ser idiota e liga essa câmera logo.
Fred ajeitava a câmera quando perceberam o movimento aumentar. Transeuntes cruzavam a praça enquanto, mais ao fundo, homens e mulheres empurravam carrinhos de supermercado carregados de papelões, cobertores e colchonetes. Aos poucos, as barracas improvisadas começaram a ocupar o espaço, como se nada de extraordinário jamais tivesse acontecido ali.
— Quais segredos esta praça esconde? Por que tantos desaparecimentos e mortes inexplicáveis? O que se oculta sob este chão? — disse, batendo o pé e esmagando a vegetação rasteira. — Vocês aí de casa ficarão aterrorizados com os acontecimentos macabros desta praça. A segunda parte da história será divulgada em outro vídeo, se — e somente se — este atingir um milhão de visualizações e duzentas mil curtidas. Não se esqueçam de se inscrever no canal. É nessa que eu vou. Corta!
— Vamos, Fred. Já deu por hoje. Este vento frio está acabando com meus lábios. Depois gravamos a continuação em qualquer outra praça. — Fred desligou a câmera, ajeitou os shorts largos, arrumou o boné, acendeu um cigarro e começou a descer o declive rumo ao carro.
Ambos seguiram em direção à rua sem saída, onde o carro, recém-comprado com os modestos frutos da monetização do canal, os aguardava. Era preciso manobrar e percorrer quase quinhentos metros até alcançar à rua principal, que cortava o bairro.
Marlon descia de forma desajeitada, levantando as pernas mais do que o necessário, como se pisasse em lama imaginária. Esmagava a vegetação rasteira sem qualquer respeito, ignorando os ladrilhos com desenhos de flores. Enquanto descia, falava para si mesmo.
— Aquele texto inicial foi genial. Vai prender qualquer um que assistir ao vídeo. É nos primeiros segundos que se conquista o público. Pena que a autora não quis me ceder o texto de bom grado... Um pequeno roubo por uma causa maior. Duvido que aquela professora veja meu canal.
Lançando um olhar de soslaio ao cinegrafista, Marlon disse.
— Chegando em casa, Fred, você edita o vídeo, e amanhã à noite ele vai ao ar. Vai ser um sucesso.
— Espera aí — Fred parou abruptamente. — Você me contratou pra dirigir e filmar, não pra editar vídeo. Edição é outro preço.
— Como assim? Me disseram que você fazia tudo por um preço só. Vocês, freelancers, são um bando de mercenários! Vão me levar à falência.
Fred já estava cansado. Já filmara para muitos, mas poucos eram tão falsos e exploradores quanto Marlon.
— Calma, moço, a gente combina depois — disse Marlon, usando aquele tom conciliador que usava com garçons e motoristas de aplicativo. Sabia ludibriar. Sabia comprar tempo. Seu vídeo sairia pontualmente — disso tinha certeza. Já se via com 100 mil inscritos e a cobiçada placa de prata nas mãos. Quem sabe até o fim do mês?
Na rua sem saída, próxima à praça, havia apenas um poste com uma lâmpada pálida, amarela, que tremeluzia como vela ao vento. Ao descerem o leve declive em direção ao carro, a lâmpada piscou. Uma vez. Duas. Na terceira, resistiu por um instante antes de se apagar por completo.
Os dois pararam ao mesmo tempo, sem combinar. Nenhum dos dois falou. Fred segurava a câmera contra o peito. Marlon olhava para o poste como se esperasse que a luz voltasse por conta própria.
Não voltou.
Em algum lugar atrás deles, na direção da praça, um galho quebrou. O estalo foi seco.
— Era só o que me faltava! Preso nesse lugar apavorante, no escuro. — Começou a apalpar os bolsos como quem procura uma tábua de salvação. — Fred, você viu meu celular?
Fred caminhava à frente, câmera debaixo do braço, tentando acender um cigarro de palha.
— Ô, caçador de fantasma... não vi nada. Deve ter caído perto daquela árvore enquanto você fazia seu teatrinho pra assustar criancinha. — Riu pelo nariz. — "Olhem só quantos desaparecidos... a praça mal-assombrada... não esqueçam de deixar o like."
— Idiota... — Marlon nem se deu ao trabalho de retrucar. Sabia a fraude que era. — Liga para mim. Vamos ver onde ele caiu.
Fred pegou o celular e discou. Um brilho tênue surgiu entre as folhas caídas que rodeavam a árvore.
— Caramba, olha onde está. Vai manobrando o carro enquanto eu pego — disse Marlon, visivelmente abatido. Ser chamado de fraude ainda o abalava. O que seria dele sem a mesada dos pais? Sem o colchão invisível de privilégios? Perseguido por esses pensamentos, subiu o declive de volta à árvore. O esforço foi maior do que imaginava. Na descida, não lembrava de o terreno ser tão íngreme. Por dentro do blazer, o calor era insuportável, mas não ousava tirá-lo. O aluguel fora caro. Qualquer dano, qualquer mancha, significava prejuízo.
No meio do caminho, parou para recuperar o fôlego. Olhou ao redor. Algo havia mudado. Tudo estava imóvel. As folhas, antes agitadas, estavam paradas. O ar, espesso. Olhou para trás. O carro, com os faróis acesos, e Fred dentro. Mas nada se movia.
Um arrepio subiu-lhe pela espinha, do cóccix à nuca. Olhou para a árvore e notou que atrás do tronco, apenas metade visível, um olho arregalado, pupila dilatada, rodeado por cabelos desgrenhados. A mente tentou racionalizar — uma sombra? Um galho? Um truque da luz? Forçou-se a acreditar que era apenas uma folha enroscada no tronco.
Respirou fundo; endireitou os joelhos. O medo persistia e a taquicardia avançava. Por favor, não agora. Não uma crise. Mas precisava do celular. Era sua vida, sua identidade, seu sustento.
Marlon agachou-se, tateou o chão entre as folhas. Tudo estava úmido. Precisou se ajoelhar e começou a apalpar debaixo das folhas. Enfim, o celular — alívio. A arritmia cessou por um instante.
Então, ouviu: folhas se movendo. Olhou para a árvore e lá estava ele. O rosto. Mais próximo. Olhos esbugalhados, unhas longas agarradas ao tronco. A criatura não se mexia, apenas observava.
Um grito tímido escapou de sua boca, recuou e caiu. Rolou alguns metros por entre a vegetação. Os pés ficaram enroscados em cipós. De bruços, o celular seguro firma na mão, desvencilhou-se dos cipós com raiva — Que merda de planta! — Ergueu-se como pôde, como alguém emergindo do fundo d’água, sufocado.
Mal endireitou o corpo, diante de si, outra criatura, mesmas características, de cócoras. Sorria com dentes podres. Um riso que misturava escárnio e asco.
Marlon gritou deliberado, jogou o corpo para trás e tentou se soltar. Mas suas pernas estavam presas. Cipós, mãos? Já não sabia. Estava cercado. Vultos surgiam de todas as direções. Criaturas encurvadas, sujas, com olhos arregalados. Uma carregava pedras, outra cavava buracos. Todos convergiam.
O terror atingiu o ápice. A mente desligou. Marlon desmaiou.
Marlon despertou com um tapa forte no rosto.
— Você tá bem? — perguntou Fred, curvado sobre ele.
Marlon ainda estava no chão, sujo, encharcado de suor e terra, a vegetação rasteira colada à pele. Os olhos arregalados, confusos, procuravam desesperadamente pelas criaturas, pelas mãos.
— O que... aconteceu? — balbuciou, ofegante, tentando se erguer.
— Eu é que pergunto. Você tava demorando demais. Saí do carro pra ver onde tava e te encontrei aqui, agachado, calças arriadas... cagando. Olha pra você, tá todo sujo de merda. Voltei pro carro, não acreditei no que vi. Esperei por meia hora e nada. Quando voltei, te achei aqui, dormindo, como se nada tivesse acontecido. E agora, vai levantar ou quer passar a noite aqui fedendo?
Fred, fazendo careta, estendeu a mão. Marlon, ainda atordoado, aceitou. Levantou-se cambaleando, tentando entender o que havia acontecido. Já havia enfrentado crises de ansiedade antes, mas nunca uma assim.
Fred ligou o motor. Os faróis cortaram a penumbra. Marlon, exausto, aliviado por estar protegido pelo interior do veículo, pegou o celular. Notificações. Seguidores. Nenhuma mensagem pessoal. O vazio da tela refletia o vazio das suas relações.
Passou um tempo no celular quando percebeu que o carro não se movia. Virou-se para Fred, pronto para protestar, mas o viu caído, braços largados, a cabeça tombada para a lateral, encostada na porta. O cinto ainda afivelado.
— Fred? — chamou, a voz tremendo.
Nada.
Cutucou-lhe o ombro. A cabeça de Fred tombou com o toque, revelando um rosto... sem olhos. A boca escancarada num sorriso horrendo, sem dentes. Marlon gritou. Tentou abrir a porta, mas antes que o fizesse, viu pelo retrovisor... eles estavam vindo. Centenas de seres curvados, desgrenhados, olhos arregalados, arrastando-se em direção ao carro. Lentos, mas certos, como formigas famintas.
A porta do motorista se abriu com violência. Mãos sujas, com unhas imensas, invadiram o carro puxando Fred para fora. Marlon viu, apavorado, o corpo ser arrastado até a praça, desaparecendo sob a massa de criaturas encardidas.
Sentiu mãos em seu corpo agarrando; puxando. Lutou, tentou se soltar, gritou até a garganta doer. O medo, o cansaço, a sede, a náusea, o fedor... tudo o paralisava.
Sentiu o corpo sendo erguido, arrastado, carregado de volta à praça como um troféu. Enquanto estava suspenso sendo carregado por aquelas mãos, olhou para as janelas. Vultos nas sombras, seres observando. Não se escondiam mais. E também não se manifestavam.
— Socorro! Por favor! Me ajudem! — gritou, debatendo-se.
Apenas silêncio.
Em determinado momento, a cabeça para baixo, viu Fred... vivo, dentro do carro, dando partida. Como? O que...?
— Fred?! Não! Socorro! Não me deixa aqui!
Ignorado.
Continuou a se debater cada vez com mais força. Mais uma vez. Outra vez com mais violência. Forçou os braços, torceu o corpo, até conseguir se soltar. Caiu de lado no chão com um baque seco e sentiu uma das costelas estalar. Ignorou a dor. Levantou-se num salto, agarrou-se ao tronco da grande árvore e começou a escalá-la. O celular permanecia firmemente preso à mão. Subia como jamais subira. Como se toda a sua vida dependesse de alcançar o alto.
Chegou ao galho mais alto, o ponto mais alto que já alcançara na vida, e olhou para baixo: centenas de criaturas — olhos arregalados emitiam sons guturais, incompreensíveis, enquanto as mãos erguidas tentavam alcançá-lo.
Marlon olhou para o horizonte. A lua emergia atrás dos prédios, iluminando a praça em tons pálidos. O medo transformou-se em êxtase. A dor, em euforia. A ansiedade, em alívio.
— Eu sou Marlon Abude! — bradou, peito estufado, braços abertos. — Eu não sou uma fraude!
Nas janelas, as sombras aplaudiam. Os rostos à mostra.
— Isso! Você consegue! Você é amado! Pule! Enfrente seus medos!
Lá embaixo, os seres aguardavam. Braços estendidos. Olhos sedentos.
Envolveu-se em cipós e pulou.
***
Choveu a noite toda. A terra estava úmida. As plantas vivas, vistosas, animadas pela água rica em nitrogênio. Gotas de água pendiam das folhas, refletindo a luz do sol como cristais. A brisa balançava os galhos da árvore, produzindo um som doce, sereno.
Transeuntes atravessavam a praça — a caminho do trabalho, da escola, da vida. Alguns paravam, olhavam e, levando a mão à boca, emitiam sons de surpresa.
No galho mais alto, um corpo pendurado — um homem, enforcado. Na mão direita segurava um celular. O corpo balançava suavemente com o vento.
Abaixo, duas policiais colhiam relatos de moradores de rua.
— Tentamos impedir. Ele estava louco, parecia drogado. Gritava, socava o ar, se debatia. Conseguimos segurar ele um tempo, mas se soltou. Subiu na árvore com uma agilidade de atleta. Depois, pulou. Deu pra ouvir o estalo...
— Vocês moram aqui? — perguntou uma das policiais.
— Vivemos aqui. Acampamos nessa praça toda noite — respondeu um deles.
— Esse não é aquele apresentador das histórias de terror? — murmurou a outra.
— Nunca ouvi falar — respondeu, desinteressada.
Do outro lado da praça, discreto como erva-daninha, um jovem havia se instalado antes mesmo da polícia chegar. Tripé, ring light, microfone lapela. Ajustou o enquadramento com método: o corpo ao fundo, desfocado o suficiente para passar pela plataforma, o cordão policial como moldura perfeita, a luz da manhã favorável.
Endireitou o cabelo. Verificou o áudio. Ergueu o indicador — um, dois, três.
— O que dizer de uma morte como essa? Aliás, toda morte é nova comparada à que estou prestes a revelar. Todo caso é inédito para quem ainda não ouviu falar. Hoje, no quadro Realidade Macabra, contarei para vocês o que aconteceu aqui — disse, com um sorriso calibrado, sem tirar os olhos da lente. — Não esqueçam de curtir, comentar e se inscrever.

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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.
Se este texto te interessou, aqui no blog você encontra outros escritos meus, entre resenhas, contos, reflexões e poemas.
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