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A aranha-mãe em um acaso é sempre um destino que se ignora

Nunca imaginei em uma de minhas caminhadas por trilhas conhecidas, em meio a florestas e reservas, encontrar um fauno. Ali estava ele, colhendo frutos, acredito que pitangas, enquanto eu caminhava a uns 500 metros de distância. Parei, pois a cena me surpreendeu, mas não medrosamente. Senti-me estranho, humano demais perto daquela criatura metade humana e metade bode com chifres retorcidos para trás e pernas caprinas.


Fauno musculoso de chifres curvos colhendo pitangas vermelhas em uma floresta densa ao entardecer, próximo à entrada escura de uma caverna coberta por teias gigantes, em atmosfera de fantasia sombria e horror cósmico.

Eu fiquei totalmente paralisado — vi-me em uma encruzilhada mental —, pois não sabia o que decidir: continuar e arriscar um encontro com aquele ser ou recuar e guardar aquela pequena memória como algo pessoal, unicamente meu, que jamais seria compartilhado com o mundo.

Decidi continuar rumo ao desconhecido seguindo aquela trilha que já havia realizado por diversas vezes. Atuei, fingi desconhecimento, assumindo a minha melhor cara de surpresa, ou apatia — não sei — mas continuei. Pensei que se passasse por ele como se passa por uma pessoa conhecida na rua, mas que não queremos contato, aquele olhar enviesado, afastado, que foge do olhar do outro para evitar o contato e desse olhar uma possível conversa. Foi assim que decidi agir.

O primeiro passo após a decisão desencadeou uma sequência de movimentos caóticos. Pisei em falso na lama ­­— a trilha estava molhando devido a chuva — escorreguei, mochila e galhos para vários lados, pernas para o ar, soltei um gritinho de surpresa e dor, pois senti um medo de ter torcido o tornozelo. Olhei para o ar e me deparei com o fauno de braço estendido, uma das mãos sendo me oferecida para levantar-se. Na outra mão, ele ainda carregava as pitangas. Deduzi que as pitangas eram importantes.

E eram.

O Fauno, cujo nome, confesso, me escapa — não por esquecimento comum, mas por uma combinação infeliz entre um idioma que me era alheio e a dislexia que, nessas ocasiões, insiste em me trair — falou-me das pitangas com uma gravidade que não condizia com a leveza do fruto.

Colhia-as para a aranha-mãe.

A expressão, dita assim, sem preparação, produziu em mim um efeito curioso; não estranheza imediata, mas uma aceitação tardia, como se algo em mim já aguardasse por aquela explicação.

— E quem seria — arrisquei — essa aranha-mãe?

Ele não hesitou. Disse tratar-se de uma aranha que habitava uma caverna — o que, à primeira vista, não justificava o título, então insisti.

— E por que mãe?

Foi então que sua resposta deixou de pertencer ao mundo das coisas nomeáveis.

Segundo ele — e aqui faço a ressalva necessária, pois não posso garantir se compreendi ou apenas projetei —, aquela criatura não era apenas uma aranha, mas o princípio. De sua fiandeira nasciam não fios, mas estruturas: galáxias, mundos, as ideias que temos deles e até o destino era tecido pela aranha-mãe.

No seu cefalotórax — disse ele, apontando vagamente para sua barriga, como quem descreve algo que não se vê por inteiro — concentrava-se uma força anterior a qualquer narrativa. Algo que, se eu fosse homem de ciência, chamaria de origem; se fosse homem de fé, talvez de criação; mas, sendo apenas o que sou, limitei-me a ouvir.

Falou ainda dos oito olhos. Cada qual, segundo ele, responsável por uma das oito partes do universo. Havia também as patas, quatro pares, que, de algum modo, sustentavam aquilo que ele chamou de “equilíbrio das coisas”.

Disse isso com a naturalidade de quem comenta o clima. Falava pausadamente, em frases curtas, seguidas por silêncios calculados que criavam ao seu redor uma aura de mistério e sabedoria antiga. Eram pausas que atraíam minha atenção, pouco a pouco, para seus lábios carnudos, proeminentes, avermelhados, movendo-se com uma sensualidade indiferente, embora profundamente controlada e deliberada.

Confesso que aquela conversa despertou em mim uma curiosidade que eu julgava já domesticada pelo tempo. Não era pouca coisa.

A certa altura da vida, a curiosidade deixa de ser impulso e passa a ser lembrança. Eu, homem de meia-idade — desses que já experimentaram o suficiente para suspeitar de tudo e se entusiasmar com pouco —, vivia sob o regime silencioso do cansaço. Não um cansaço físico, que se resolve com repouso, mas outro, mais sutil: o de quem já viu demais para se surpreender com facilidade e de menos para se satisfazer.

O mundo, aliás, colaborava. Tão ligado, tão acessível, tão imediatamente disponível, hiperconectado, que nada mais parecia digno de busca. Tudo se oferecia antes mesmo de ser desejado e nada verdadeiramente se impunha como necessário.

Ainda assim havia em mim uma disposição residual para o imprevisto. Uma espécie de teimosia da alma, que se recusava a aceitar que tudo já estivesse dado. E foi essa disposição que me colocou, mais uma vez, à beira de uma nova aventura.

— Posso conhecê-la? — perguntei.

Não houve resposta imediata. O Fauno manteve-se imóvel por um instante. Seus olhos pousaram sobre mim com uma atenção que não era exatamente avaliativa, mas tampouco neutra.

— Conhecer… — repetiu ele, como se experimentasse a palavra antes de devolvê-la — não é bem o termo.

Fez então um gesto vago, como quem afasta uma ideia imperfeita.

— Alguns chegam até ela — continuou —, mas isso não significa que a conheçam.

Houve mais uma pausa.

— E, ainda assim, não se chega sem antes passar por uma pequena… correção.

Não gostei da palavra.

— Um teste? — arrisquei, tentando compreender o que ele dizia.

O Fauno esboçou algo que poderia ser um sorriso, não fosse a ausência de qualquer traço humano que me permitisse afirmá-lo com segurança.

Havia, contudo, nele uma beleza difícil de admitir. Seus traços, embora dissonantes, compunham uma harmonia própria, como se obedecessem a uma lógica anterior à nossa ideia de forma. Os chifres, longe de deformá-lo, conferiam-lhe uma espécie de nobreza arcaica; o corpo, ao mesmo tempo bruto e preciso, sugeria uma força que não precisava provar-se.

Os músculos, definidos com uma nitidez quase escultórica, sustentavam um tronco proeminente; os braços, firmes, pareciam feitos não para o gesto, mas para a permanência. Havia ainda os dentes excessivamente brancos, de uma pureza quase artificial e os caninos, discretamente mais alongados do que seria confortável admitir, insinuando uma ferocidade que não se anunciava, mas tampouco se ocultava. As íris, cor de mel, sombreadas por uma aura âmbar, aprofundavam o encontro e denunciavam a ancestralidade daquele ser. Os cabelos cacheados, longos, de um castanho sedoso, amarrados em um coque deliberadamente desarrumado, com mechas caindo até os ombros que dançavam ao farfalhar do vento como se animados por vontade própria.

Era belo, muito belo, e talvez fosse justamente isso o mais perturbador — Como, até então, passara-me despercebido todo aquele esplendor, aquela volúpia estonteante?

Pois não havia naquela beleza convite algum, apenas a constatação de que o mundo, fora de nós, não precisa da nossa medida para existir.

— Se isso lhe tranquiliza — disse o Fauno sorrindo.

Silêncio novamente.

— Não é uma questão de mérito — acrescentou, por fim —, mas de adequação. Nem tudo suporta ser visto. Nem todos suportam ver.

E então, com a mesma naturalidade com que colhia as pitangas, concluiu:

— É preciso saber se você não se desfaz antes.

Aceitei o desafio. A curiosidade disfarçada de virtude conduziu-me antes mesmo que eu pudesse alegar qualquer prudência. A ideia de conhecer a aranha-mãe, esse princípio que tudo engendra, bastava, por si só, para justificar o gesto, mas não seria honesto parar por aí. Havia também o Fauno — e aqui hesito, não por falta de palavras, mas por excesso delas — pois sua presença operava em mim de modo menos nobre. Sua beleza — ah, sua beleza — me convidava. Seu corpo se impunha de forma estonteante. Havia nele uma promessa vaga, quase indecente, que não se formulava em termos claros, mas se insinuava no modo como ele se movia, na cadência discreta de seus gestos, na voz que, mesmo neutra, parecia sempre à beira de significar outra coisa.

Não me convidou diretamente e ao não fazê-lo, deixou-me livre para supor; e poucas coisas são mais eficazes do que aquilo que imaginamos por conta própria. Convenci-me, então, de que avançava por interesse intelectual.

Caminhamos pela trilha até o pé de pitanga, onde viramos à direita, adentrando a mata densa. Ali, o Fauno guiou-me por entre árvores e arbustos, até a entrada de uma caverna.

À entrada da caverna havia uma pequena clareira, onde folhas secas se acumulavam no centro, formando algo que lembrava — com certa intenção — uma cama improvisada.

— Pronto, chegamos — disse o Fauno.

Mal terminou a frase, voltou-se para mim com uma rapidez inesperada. Seus braços firmes, seguros, envolveram minha cintura, e seu corpo colou-se ao meu como se aquele gesto já estivesse decidido muito antes de ser executado. Seus lábios encontraram os meus com uma intensidade que dispensava qualquer hesitação.

Se havia em mim algum resquício de prudência, dissolveu-se ali, naquele contato. Entreguei-me como quem finalmente cede a algo que já vinha sendo lentamente construído.

Seu toque desceu pelo meu corpo com uma familiaridade que me desconcertava. Havia força, mas também precisão; desejo, mas sem pressa. Cada gesto parecia menos um avanço e mais uma confirmação.

Ele começou a beijar o meu pescoço, a tirar a minha camisa, as mãos sempre apertando, apalpando a minha bunda. Joguei os meus braços por cima do seu pescoço, retribuindo cada um dos toques, quando senti algo crescendo entre nós. O pênis do Fauno estava totalmente ereto. Onde ele guardava aquele enorme membro, eu não sabia, mas lá estava ele: grosso, rígido como uma pedra, pulsante e molhado.

O Fauno me virou de costas, abaixou as minhas calças, ajoelhou-se e começou a lamber o meu cu. Com movimentos circulares e verticais, sua língua se movia por toda aquela parte do meu corpo: beijos, lambidas e pequenas mordidas nas nádegas, no períneo, no saco e também no meu pau.

Eu estava totalmente entregue ao desejo, totalmente serviente aos movimentos do Fauno. Ele se levantou e começou a introduzir seu enorme membro dentro de mim. De início, eu gritei. Ele me abraçou, cochichou no meu ouvido que tudo ficaria bem, que eu poderia confiar; bastava relaxar. À medida que ele falava, sob o som de sua voz, eu relaxava, e ele penetrava mais e mais fundo. Quando me dei conta, ele já estava inteiramente dentro de mim, em movimentos de vai e vem frenéticos; sentia minhas pernas bambearem, perdendo as forças de tanto prazer. Ao mesmo tempo que ele me penetrava, sua língua corria pelo meu pescoço, beijava minha nuca e minhas costas. Suas mãos ora seguravam minha cintura, ora estavam envolvidas em meu pescoço, meus braços. Seu corpo forte me sustentava todo o tempo.

Não sei em que momento o cansaço venceu.

Talvez tenha sido no auge, talvez logo depois — quando o corpo, satisfeito ou enganado, cede à gravidade como quem entrega as armas. Lembro-me apenas de ter sido conduzido até o leito improvisado de folhas secas, o cheiro terroso subindo lento, e o calor ainda pulsando em mim como um eco.

Depois, nada. Tudo escuridão.

Houve sonhos, fios que se entrelaçavam, formas que se desfaziam antes de se completar. Algo me envolvia, mas não saberia dizer se era abraço ou aprisionamento.

Acordei como quem emerge de uma profundidade espessa. Meu corpo pesado, minha cabeça turva, meus sentidos atrasados em relação ao mundo. Quando dei conta de mim, estava mergulhado na escuridão da caverna. Tentei mover os braços, mas não consegui.

Foi então que compreendi — primeiro pelo tato, depois pelo olhar — que estava envolto em algo denso e aderente, que me aprisionava com uma precisão quase delicada. Fios envoltos em camadas que revelavam uma arquitetura meticulosa, digna de reconhecimento.

E, diante de mim, ela — a aranha-mãe.

Eu reconheci os olhos antes da forma inteira. Oito olhos negros, alinhados em duas fileiras na parte frontal da carapaça. Havia neles uma atenção absoluta, desprovida de pressa. As quelíceras — aqueles apêndices em forma de presas, usados para perfurar, inocular veneno e imobilizar a presa — estavam cravadas na região do meu abdômen. Naquele instante, retraíam-se lentamente, como a agulha de uma injeção recém-aplicada.

Os pedipalpos moveram-se com uma rapidez calculada, envolvendo-me, sem violência, com uma destreza serena e uma certeza de quem já possui aquilo que toca.

Não gritei, pois já compreendia o cenário.

Foi então que ouvi a voz do Fauno ao fundo, doce, firme e indiferente, como quem comenta algo já esperado:

— Mais um traído pelo desejo.

Uma breve pausa.

— Como é fácil, hoje em dia.

Quis procurá-lo com os olhos, mas não consegui; minha cabeça já estava completamente imóvel. Os fios apertaram-se levemente, o suficiente para impedir qualquer movimento; e também qualquer dúvida.

E, pela primeira vez desde o início, compreendi.

Não o Fauno.

Nem a aranha-mãe.

Mas a trama.



Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.

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