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Devoradora de homens

Atualizado: há 7 horas

O governador, Marcelo, subiu ao palanque com uma determinação pouco convincente. Sabíamos, pressentíamos, que ele se contrariaria ao sustentar aquele novo discurso pró-mineração.

 

Fora eleito sob a bandeira do nacionalismo, da defesa das águas e dos recursos naturais. Denunciara, com veemência quase moral, a cumplicidade dos ex-governadores com as mineradoras, bem como a ausência de consulta às comunidades afetadas. E eis que, apenas seis meses após as eleições, ali estava ele: eleito, investido de autoridade, mas já convertido. O discurso era outro. Não apenas diferente, mas totalmente inverso. Retomava, como se lhe fosse próprio, o programa de seus antecessores, nos mesmos termos, nas mesmas condições.

 

Agora, falava-se em progresso.

 

E aqui, no município de Araçuaí, declamavam que não há progresso, nem sequer desenvolvimento, sem mineração.

 

Como candidato, Marcelo percorreu o Vale do Jequitinhonha prometendo barrar o projeto da Barragem do Fundão, da empresa norte-americana Newmont Co. Dizia, com a segurança dos que ainda não governam, que a exploração destruiria três córregos, três veias discretas, mas vitais, desta terra.

 

Como governador, no entanto, decretou:

 

— A Barragem do Fundão vai, sim ou sim.

 

Poucos meses depois de assumir, ordenou uma repressão que ainda hoje me parece irreal, sangrenta, metódica, exemplar. Centenas de feridos. Dezenas de mortos. Entre eles, meu filho, Raul, que tinha dezesseis anos.

 

A revolta veio pouco depois da posse. A notícia de que nossas terras seriam desapropriadas para dar lugar às minas espalhou-se como um sussurro primeiro, depois como um chamado.

 

Reunimo-nos. Cartazes, faixas, palavras escritas às pressas, e pouco mais de duzentas pessoas marcharam até a margem do córrego, nossa principal fonte de sustento. É do rio que vem tudo: nossa comida, nossos ritos, nossa memória. Foi às suas margens do Córrego do Narciso que nossos ancestrais chegaram, há centenas de anos, fugidos da escravidão. Aqui se esconderam. Aqui permaneceram. Fundaram uma comunidade sustentada por algo simples e, por isso mesmo, raro: o respeito à vida e à liberdade.

 

A comunidade cresceu. Tornou-se refúgio, ponto de fuga para outros que, como os primeiros, chegavam marcados pela violência e pela urgência de permanecer vivos. Resistimos por séculos. Fomos uma das poucas comunidades quilombolas que atravessaram intactas o período escravocrata, sustentadas menos pelo acaso do que pela obstinação em desaparecer quando era preciso e reaparecer quando já não havia escolha.

 

Somos descendentes de guerreiros. E, como guerreiros, mais uma vez fomos lutar por nossa terra.

 

Marchávamos em uníssono. Mãos erguidas, punhos cerrados. Entoávamos cantos de guerra. À frente, os mais velhos, firmes, imponentes, sem medo, os verdadeiros os senhores daquela terra.

 

Estávamos ali com palavras. Com cantos. Nossos líderes se mantinham abertos ao diálogo. Acreditávamos, ou fingíamos acreditar, que, no século XXI, a violência seria exceção. Vivíamos, diziam, em tempos de paz. Homens livres. Conscientes. Racionais.

 

Ledo engano.

 

Ninguém nos ouviu. Ninguém quis ouvir.

 

A mineração já não era um projeto, era um destino. Não se discutia, não se enfrentava. Aprendêramos isso com outros quilombos, com comunidades indígenas: nas últimas décadas, ela não chega, ela se instala. E permanece.

 

Era uma força sem rosto, mas não sem apetite. Um monstro que avançava devorando tudo: a terra, a memória, a gente.

 

A mineração tornara-se, enfim, a grande devoradora de homens. Diante desse monstro onipresente, restava-nos apenas dialogar, falar baixo, negociar o inevitável, mendigar migalhas ante o que já nos havia tomado quase tudo.

 

O dinheiro da mineração era onipresente. Espalhava-se como raiz, subterrâneo e invisível, mas sustentando tudo o que se via. Estava em toda parte: na indústria, nas escolas, nos corredores mais altos da política, no executivo, no legislativo, no judiciário. Nada lhe escapava.

 

Desde os anos 1990, a América Latina parecia ter regressado a um tempo antigo, quase colonial. Já não se falava em nações, mas em territórios, terras abertas, disponíveis, submetidas aos interesses das grandes corporações e dos novos tigres econômicos.

 

Em aliança silenciosa com esses poderes, e em convergência decisiva com os capitais que controlam os meios de comunicação, instituiu-se um novo oficialismo: o da mineração.

 

Não era mais um setor. Era um princípio.

 

A mineração deixou de ser atividade para tornar-se política de Estado e, mais que isso, uma espécie de ordem tácita, incontestável. Contava com tudo: incentivos fiscais, facilidades ambientais, crédito, proteção jurídica e, quando necessário, o braço armado.

 

Atividade de longo prazo, diziam. Alto risco, repetiam. Exigia estabilidade, continuidade, proteção contra o humor instável dos eleitores e contra as flutuações ideológicas. Era preciso garantir, sempre garantir.

 

E quem ousaria se opor?

 

Se, ao fim, tudo parecia vir dela.

 

Assim afirmavam os líderes. Assim repetiam.

 

Sem mineração, não haveria metais. Sem metais, não haveria progresso. Sem progresso, insinuavam, não haveria vida possível.

 

Quem éramos nós para confrontar aquele monstro?

 

Os velhos caminhavam à frente. Era um gesto deliberado: não queríamos guerra. Prezávamos pela vida, pelo diálogo, ou pelo menos pela possibilidade dele. Mas nada disso adiantou.

 

Fomos recebidos pelo batalhão da polícia do Estado. O governador, que antes caminhava entre nós, agora se ocultava em seu gabinete, protegido por paredes e ternos caros.

 

O sargento ordenou que recuássemos. Pedimos para falar com o governador. Ou com qualquer representante.

 

Ele repetiu a ordem. O pelotão avançou. Vieram para dispersar.

 

Entregamos um documento. Nele, estavam nossas poucas reivindicações. Queríamos falar. Contar nossas histórias, nossas dores, nossas conquistas. Explicar o que aquele córrego significava para nós e para tudo ao redor.

 

Não pedíamos muito. Mas nem isso nos foi concedido.

 

Fomos ignorados.

 

Um dos velhos, já exausto de tanta humilhação, avançou um passo. Apontou o dedo para o sargento e amaldiçoou:

 

— A Terra há de te devorar. Tu vens com arma de fogo; nós vamos com a força que a Terra nos dá. Esta terra é nossa.

 

E, ao dizer isso, bateu o pé no chão.

 

— Nossa. E há de devorar todos aqueles que ousarem profaná-la.

 

O sargento, ao que parecia, era novo no posto. Recém-condecorado, trazia no corpo a rigidez dos que ainda precisam provar autoridade. Não admitia afronta. Não ali. Não diante de todos.

 

Deu a ordem. O pelotão avançou.

 

Vieram com empurrões, spray de pimenta, gás lacrimogêneo, balas de borracha e, depois, fogo real. Violência demais para o que éramos: uma comunidade. Homens e mulheres. Crianças. Velhos. Jovens. Gente.

 

Houve gritaria. Depois, sangue. Gritos: “por favor, parem”. “Nos rendemos.” “Só queríamos conversar.”

 

Por um instante, pareceu que havíamos regressado ao tempo da fundação do quilombo, quando sobreviver era uma questão de força, matar ou morrer. Mas já não sabíamos mais como lutar. Havíamos desaprendido.

 

Vivíamos sob a ilusão de uma paz que nunca existiu. Uma trégua falsa, concedida enquanto nos tornávamos dóceis.

 

Enquanto nós esquecíamos a guerra, o Estado a aperfeiçoava. Acreditávamos que a violência pertencia ao passado. Mas ela estava ali. No presente. Em nós.

 

Fumaça. Gás. Ardor nos olhos. Lágrimas que não distinguiam dor de pavor. Sangue. Muito sangue. A visão turva. Os gritos de dor, de desespero, de perda.

 

A polícia só cessou quando todos os meus estavam no chão, mãos sobre a cabeça. Como bandidos. Bandidos por querer falar. Por querer dialogar. Por desejar o mínimo.

 

Do jeito que chegaram, foram embora. Ninguém foi preso. Não havia cela que comportasse todos os que desejavam levar, e talvez nem fosse esse o objetivo. Deixaram os mortos, os feridos para que nós cuidássemos. Ninguém veio nos acudir.

 

Coube a nós recompor o que restava, recuperar o fôlego e algum vestígio de sanidade, juntar os cacos, alinhar os corpos, carregar os feridos. Eles chegam, matam e partem. Filhos obedientes de um mesmo monstro. E nós permanecemos, expostos, habitando a devastação que deixaram para trás. A terra arrasada já não era paisagem, era morada.

 

Juntamos os cacos, porque nada mais havia a fazer. Já não havia orgulho a ferir. A carne estava aberta, sensível, quase sem pele, como se tivéssemos sido castigados à luz do dia, submetidos a uma espécie de inquisição moderna.

 

A comunidade mergulhou em silêncio total por quinze dias. Um silêncio espesso, pesado, como se qualquer palavra pudesse romper o pouco que ainda se mantinha de pé. E, no entanto, as perguntas não cessavam. O que éramos? Quem éramos? A vida valia tão pouco assim? Não éramos humanos? E, se éramos, que espécie de humanidade era essa que se deixava tratar daquela forma? Dizíamos ser quilombolas, descendentes de gente forjada a ferro e fogo. Mas ali estávamos, irreconhecíveis, quebrados.

 

O palanque foi erguido à entrada da área onde se abriria uma das mais de dez minas que substituiriam o que antes fora a comunidade quilombola Córrego do Narciso. Era grande, magnífico, imponente, não apenas para receber autoridades, mas para intimidar. Havia, em sua estrutura, uma demonstração silenciosa de poder: a mineração não precisava apenas explorar, precisava também se exibir.

 

A primeira mina já ganhava forma. Caminhões, perfuratrizes, escavadeiras hidráulicas, pás carregadeiras, tratores de esteira, motoniveladoras, sistemas de britagem. Tudo já estava ali, como se a terra tivesse sido reprogramada para outro fim. E era precisamente ali que enterráramos os mortos da revolta.

 

Nem os mortos seriam poupados.

 

Sob aquele solo repousavam dezenas de corpos, e ainda assim a terra seria aberta, revirada, consumida. A mineração não distinguia entre o que vive e o que foi, tudo lhe servia. Havia, naquele gesto, algo além da exploração: uma fome. A fome do capital.

 

O evento fora concebido como privado. Um espetáculo calculado, dirigido às câmeras, à mídia, à construção de uma imagem. O governador ali não falaria para nós, mas para o mundo. Era preciso mostrar-se como patrono do progresso, homem de decisão, figura capaz de conduzir o país. Ali ele construiria a imagem necessária para se lançar como candidato a presidência.

 

Mas nós fomos. Mesmo não convidados, não esperados, comparecemos.

 

Fomos ver de perto o nosso algoz. Ouvi-lo. Testemunhar mais um crime, agora não contra os vivos, mas contra os mortos.

 

Estávamos todos ali. O aparato policial era maior desta vez. Mais homens, mais armas, mais cautela. Não queriam outra “revolta”. Estavam preparados para algo pior.

 

O governador suava. Não sei se pelo calor ou pelo peso da encenação. Iniciou o discurso sem nos encarar. Evitava os olhos da multidão.

 

Quando começou a falar, fê-lo de um só fôlego, apressado, quase trôpego, como quem deseja apenas cumprir o papel e sair dali o mais rápido possível.

 

Despejou, como um vômito, um tapa em nossas caras, as seguintes palavras:

 

“Superemos esses debates infantis. Sejamos sensatos. Tenhamos uma visão histórica. Que país no mundo proibiu a mineração? Tivemos de fazer uma pausa para organizar o setor, mas agora é hora de avançar. Precisamos de uma nova lei, procedimentos claros para concessões e, então, de forma decidida, irreversível, com total legitimidade, iniciar o desenvolvimento dessa atividade mineira responsável, que pode ser uma das bases do futuro do país.

 

Sejamos sensatos. Não podemos ser mais papistas que o papa. Aqui, o problema não é ser contra ou a favor da mineração. Isso já está superado. É sim à mineração. Sim à mineração responsável, ambientalmente, socialmente, economicamente.

 

Peço mobilização. Houve um momento em que parecia que todo o país estava contra a mineração, como se duzentos anarquistas pudessem impedir o desenvolvimento de uma nação inteira. Não podemos permitir que meia dúzia de radicais coloque o país de joelhos.

 

A mineração é indispensável. Não apenas nos exemplos óbvios, carros, celulares, mas em tudo, até nos medicamentos. É ilusório aceitar que pessoas vivam na pobreza sobre terras ricas em recursos que podem ser explorados de forma sustentável para o bem-estar coletivo.

 

Dizem que a mineração é um setor parasita, que nada produz. Isso está longe da verdade. Ela dinamiza a economia, gera empregos, atrai investimentos, impulsiona exportações. Mais do que isso: financia programas sociais.

 

Nunca fui antimineração. O projeto do nosso governo é claro: uma mineração responsável, onde populações locais e atividades tradicionais possam coexistir. Mas há grupos que se opõem a isso, grupos violentos, que não querem o progresso do país e que espalham ideias atrasadas. Esses grupos serão enfrentados.

 

Compatriotas, sabemos da importância do investimento minerário para o crescimento com inclusão. E sabemos também que esse crescimento deve ocorrer com transparência, respeito e confiança.

 

O Vale do Jequitinhonha é uma das regiões mais ricas em recursos minerais do país e, ao mesmo tempo, uma das mais pobres, com altos índices de desnutrição infantil. Essa realidade precisa mudar. Nosso governo já destinou milhões para investimentos em energia, infraestrutura, moradia, saneamento, educação, saúde e agricultura.

 

Estamos inaugurando uma nova fase. Uma fase de progresso, de desenvolvimento, de novos horizontes.

 

Que comecem os trabalhos.”

 

O discurso começou tímido, quase acanhado, como se ainda buscasse apoio em si mesmo. Havia hesitação na voz, um cuidado excessivo nas palavras. Mas, à medida que avançava, algo nele se alterava. Ganhava corpo. Tornava-se agressivo.

 

Já não falava. Atacava. A voz subia, os gestos se tornavam bruscos, e o rosto, pouco a pouco, se avermelhava. Cuspia enquanto berrava, tomado por uma urgência que já não parecia ensaiada. Era a própria face da ganância.

 

Falava como quem luta pela própria sobrevivência. E talvez lutasse mesmo. Porque, se não entregasse aos que o sustentavam o retorno esperado, sua queda seria certa. Tão descartável quanto nós.

 

Ao final do discurso, o silêncio se impôs. Não houve aplausos. Ninguém se manifestou. Nem mesmo os homens da comitiva. Um silêncio pesado, sepulcral.

 

Sabíamos que aquelas palavras não se sustentavam.

 

Progresso para quê? Para quem?

 

Fala-se em desenvolvimento desde sempre, como se fosse promessa e destino. E, no entanto, ele nunca chega inteiro. Nunca se cumpre. Evoluímos, dizem, mas a fome permanece, a miséria persiste, a vida segue desigual.

 

Então, quem avança? Quem se beneficia desse movimento que destrói enquanto promete construir, que exaure enquanto anuncia futuro?

 

O que ali se revelava não era progresso, mas outra coisa. Um mecanismo antigo, apenas mais refinado. Um desenvolvimento que distribui abundância a poucos e reserva aos demais o peso da escassez.

 

Nós, os moradores, os verdadeiros donos daquela terra, começamos a nos afastar. Não por medo, mas por saber. A Terra haveria de cobrar o que lhe era devido. Ela não abandona os seus.

 

A Terra tinha duas faces. A que acolhe, que nutre, que sustenta a vida em silêncio. E a outra que desperta quando ferida. Como uma leoa, tornava-se devoradora. Não esquecia. Não perdoava. Reclamaria para si aqueles que haviam sido arrancados, mortos em nome de um progresso que nunca nos pertenceu.

 

Ali, nossa terra já não era terra. Tornara-se cálculo. Reserva de valor. Córrego do Narciso deixava de ser lugar para tornar-se ativo. E nós, que ali vivíamos, passávamos a existir apenas como entrave, como algo a ser removido, negociado ou administrado.

 

A vida, por onde a mineração passava, era obrigada a se rearranjar. Mudavam-se os ritmos, os costumes, as formas de existir. A água deixava de ser livre. O território, antes contínuo, fragmentava-se. Vinham os deslocamentos forçados, a precarização do que nos sustentava, a exposição desigual ao risco. Aos poucos, deixávamos de viver ali para apenas resistir.

 

A primeira escavadeira ligou os motores.

 

No alto do palanque, o governador e sua comitiva permaneciam imóveis, sustentando aquela imponência já um pouco vazia. Ao redor, a polícia mantinha o cerco, vigilante, como cães à espera de comando.

 

Havia algo no ar. Uma inquietação surda, difícil de nomear.

 

Estávamos inquietos. Com medo. E não éramos os únicos. Mesmo entre os homens do projeto, entre os que financiavam e celebravam aquela empreitada, havia um desconforto que não se disfarçava por completo. Como se, no fundo, todos soubessem.

 

A Terra cobra. A Terra não silencia. E, quando sangra, arrasta consigo tudo o que sobre ela se ergue.

 

Veio o sinal. A escavadeira avançou.

 

A plateia, formada quase inteiramente por nós, moradores, recuou. Mantivemo-nos à distância, como quem observa um ritual que não lhe pertence mais. A uns quinhentos metros, assistíamos ao espetáculo do “progresso”. Um circo montado para as câmeras, para os noticiários, para os olhos de fora.

 

Havia celulares erguidos, câmeras apontadas, vozes narrando em tempo real. Influenciadores, jornalistas, enviados especiais. Tudo registrado. Tudo convertido em imagem. Era preciso mostrar. Era preciso celebrar.

 

A escavadeira continuou. A pá desceu, rompeu a superfície, voltou a subir. Repetiu o gesto. Uma, duas, três vezes. A terra cedia sem resistência aparente. Por alguns minutos, nada. Então, parou. Um ruído estranho. Um hesitar da máquina.

 

No palanque, o governador se inclinou, inquieto, trocando palavras rápidas com os assessores. Algo não saíra como previsto.

 

O operador desceu. Aproximou-se do buraco com não mais que dois metros de profundidade. Curvou-se para olhar melhor.

 

E então recuou, devagar, como quem reconhece algo que não deveria estar ali.

 

Da Terra brotava sangue.

 

Não era água, e essa certeza veio antes mesmo de qualquer palavra, como uma percepção antiga que o corpo reconhece antes da razão. Era sangue, espesso, vermelho, vivo, exalando um odor denso, profundo, como se tivesse permanecido séculos retidos sob a superfície, aguardando apenas o momento de emergir.

 

O sangue começou a subir lentamente, quase com pudor, mas logo ganhou força, jorrando de dentro da terra, enquanto o buraco se alargava por dentro, cedendo não como um colapso, mas como um despertar.

 

O chão, antes firme, agora tremia sob os pés, não de fragilidade, mas de movimento.

 

A mistura de sangue e terra formava uma lama espessa, viscosa, que prendia, puxava, engolia, avançando em silêncio, mas com uma rapidez impossível de acompanhar, tomando tudo ao redor sem distinção. As máquinas, pesadas, imponentes, foram as primeiras a desaparecer, afundando lentamente como se jamais tivessem pertencido à superfície. Em seguida os homens, que tropeçavam, gritavam, tentavam correr, mas já não havia para onde, pois a própria terra os segurava, e quanto mais lutavam, mais eram puxados para dentro dela.

 

O buraco crescia, expandia-se, avançava sob o palanque, que começou a ceder com um rangido prolongado, inclinar-se. Corpos se chocavam, escorregavam, desapareciam aos poucos naquela lama viva. Já não era possível distinguir o que era carne e o que era chão.

 

E então, no interior desse movimento, algo mais se revelou. Não apenas terra e sangue. Algo que se movia dentro dele.

 

Em meio a lama de sangue formas de vida começaram a se remexer. Primeiro de forma quase imperceptível, como um tremor interno, depois com violência crescente, até que romperam a superfície: vermes, enormes, desmedidos, com corpos espessos e irregulares, cobertos por uma textura que lembrava escamas, sem olhos, apenas um orifício central, circular, armado de dentes, abrindo-se e fechando-se como uma boca.

 

Os vermes da terra avançaram sem hesitação. Os vermes humanos recuaram, tomados pelo desespero. Nos olhos deles ainda havia um resto de súplica, um pedido tardio por trégua, por diálogo. Mas, diante daquelas bocas abertas, armadas de dentes, compreenderam. Ali não havia diálogo. Restava-lhes apenas a morte. E, antes dela, a dor.

 

Não havia fuga, não havia direção, apenas o encontro absoluto entre o humano e o que o sustentava, até que tudo se confundisse em um único fluxo indistinto: o sangue da terra e o sangue dos homens já sem separação possível.

 

Os vermes da Terra enrolavam-se, enroscavam-se nos corpos dos homens como se os reconhecessem, apertando, esmagando, rasgando sem qualquer hesitação, enquanto as bocas circulares se abriam para morder, arrancar, devorar. O sangue da terra já não se distinguia do sangue humano, tudo se misturava numa mesma matéria espessa e viva.

 

Os seres que brotavam do solo avançaram sobre o palanque e rapidamente tomaram toda a estrutura, espalhando-se por cada superfície, por cada corpo que ainda tentava resistir.

 

O desespero no rosto do governador era inegável. O medo, antes contido, agora se expunha cru, irreparável, à medida que os vermes se enrolavam em suas pernas, prendendo-o, puxando-o para baixo. Ele ainda tentou se soltar, mas já não havia força suficiente. Os vermes subiram, alcançaram seus braços, e começaram a devorá-los com uma violência metódica, quase ritualística, prolongando a dor para além do suportável.

 

Era a Terra reclamando os seus. A Terra, enfim, vingando os seus.

 

Os policiais, que antes avançavam, agora recuavam, disparavam, gritavam, depois apenas gritavam, até que o medo os consumisse por inteiro. Ali, onde antes havia comando, restava súplica. Mas não havia ninguém para ouvir, porque naquele espaço já não existia linguagem, apenas retorno, lento, inevitável, total.

 

As mortes não vieram rápidas; arrastaram-se, prolongaram-se, como se o tempo tivesse sido estendido para que cada instante fosse plenamente vivido, até que os gritos, sobrepostos, contínuos, perdessem forma, se dissolvessem, e, aos poucos, cedessem lugar ao silêncio.

 

E o silêncio voltou.

 

Quando tudo cessou, não restava nada. Nenhuma estrutura, nenhum corpo, nenhum vestígio. A terra fechou-se sobre si mesma, lisa, inteira, como se jamais tivesse sido aberta, como se tudo aquilo não passasse de algo que sempre esteve ali, à espera de ser lembrado.


Cena fantástica com criaturas gigantes semelhantes a vermes devorando pessoas em meio a um cenário de destruição e sangue, evocando caos, violência e horror.

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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.

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