Devoradora de homens
Atualizado: 6 de out.
Marcelo, o governador, subiu ao palanque com uma determinação pouco convincente.
A estrutura foi erguida à entrada da área onde se abriria uma das mais de dez minas que substituiriam o que antes fora a comunidade quilombola de Córrego do Narciso. Era grande, magnífica, imponente, não apenas para receber autoridades, mas para intimidar. Havia, em sua construção, uma demonstração silenciosa de poder: a mineração não precisava apenas explorar, precisava também se exibir.
O governador suava. Não sei se pelo calor ou pelo peso da encenação. Iniciou o discurso sem nos encarar. Evitava os olhos da multidão.
Quando começou a falar, fê-lo de um só fôlego, apressado, quase trôpego, como quem deseja apenas cumprir o papel e sair dali o mais rápido possível.
Sabíamos, antes mesmo que abrisse a boca, o que viria. Seis meses de mandato e já estava convertido.
“Superemos esses debates infantis. Sejamos sensatos. Tenhamos uma visão histórica. Que país no mundo proibiu a mineração? Tivemos de fazer uma pausa para organizar o setor, mas agora é hora de avançar. Precisamos de uma nova lei, procedimentos claros para concessões e...”
Enquanto falava-se em progresso, a comunidade vivia mergulhada em silêncio. Um silêncio espesso, pesado, como se qualquer palavra pudesse romper o pouco que ainda se mantinha de pé. E, no entanto, as perguntas não cessavam.
O que éramos?
Quem éramos?
A vida valia tão pouco assim?
Não éramos humanos?
E, se éramos, que espécie de humanidade era essa que se deixava tratar daquela forma?
Dizíamos ser quilombolas, descendentes de gente forjada a ferro e fogo. Mas ali estávamos, irreconhecíveis, quebrados.
A primeira mina já ganhava forma. Caminhões, perfuratrizes, escavadeiras hidráulicas, pás carregadeiras, tratores de esteira, motoniveladoras, sistemas de britagem. Tudo já estava ali, como se a terra tivesse sido reprogramada para outro fim. E era precisamente ali que enterráramos os mortos da revolta.
“...é ilusório aceitar que pessoas vivam na pobreza sobre terras ricas em recursos que podem ser explorados de forma sustentável para o bem-estar coletivo.”
Nem os mortos seriam poupados.
Sob aquele solo repousavam dezenas de corpos, e ainda assim a terra seria aberta, revirada, consumida. A mineração não distinguia entre o que vive e o que foi, tudo lhe servia.
Marcelo continuava a esbravejar. Cada frase parecia arrancada das entranhas. A jugular pulsava descontrolada, o rosto ardia num vermelho febril, e a boca escancarada lançava saliva em todas as direções, como se as palavras já não lhe bastassem. Os braços, antes imóveis, agora se abriam num gesto desesperado, como um Cristo abandonado, implorando aos céus por uma intervenção.
“Sejamos sensatos. Não podemos ser mais papistas que o papa. Aqui, o problema não é ser contra ou a favor da mineração. Isso já está superado. É sim à mineração...”
À frente do palco, um mar de policiais erguia-se como um exército de barro: imóveis, silenciosos, disciplinados. A mão esquerda pendia junto ao corpo; a direita repousava sobre o coldre, à espera de uma ordem que justificasse o movimento.
“Dizem que a mineração é um setor parasita, que nada produz. Isso está longe da verdade. Ela dinamiza a economia, gera empregos, atrai investimentos...”
Em meio aos gritos que o governador repetia sem cessar:
“A Barragem do Fundão vai, sim ou sim.”
Ainda sentia o cheiro da pólvora. Os hematomas nos braços, nas pernas e nos lombos latejavam. Olhei ao redor. José, dona Marilda, seu Augusto e tantos outros traziam faixas e curativos na cabeça. Parecíamos uma procissão de mortos-vivos.
Naquele dia, o sargento responsável pelo comando era novo no posto. Recém-condecorado, carregava no corpo a rigidez dos que ainda precisam provar autoridade. Não admitia afrontas. Diante dos nossos cartazes, das faixas improvisadas e de pouco mais de duzentas pessoas, deu a ordem.
O pelotão avançou.
O estrondo dos coturnos contra o chão era ensurdecedor. Permanecemos imóveis por alguns segundos, convencidos de que aquilo fazia parte de uma encenação, uma demonstração de força que terminaria antes de nos alcançar. Mas não terminou.
Se antes caminhávamos lentamente em direção aos policiais, agora recuávamos como cães acuados. Amontoávamo-nos, pisando uns nos outros. Os cartazes foram baixando, um a um. Ao meu redor, via apenas olhos arregalados. O medo transformava-se em pânico à medida que o pelotão fechava uma meia-lua ao nosso redor. Lembro-me de apertar a mão de Raul com tanta força que ele reclamou. Eu mal conseguia me mover.
Vieram os primeiros empurrões, e o grupo inteiro cedeu ao desespero. O cheiro do spray de pimenta invadiu minhas narinas. Os olhos arderam imediatamente. Já não conseguia enxergar. Quando dei por mim, Raul não estava mais ao meu lado. No tumulto, desapareceu entre os corpos. Logo a fumaça do gás lacrimogêneo cobriu tudo como um manto espesso, apagando rostos, vozes e direções.
Vieram os gritos.
— Parem!
— Nós nos rendemos!
— Só queríamos conversar!
Eu gritava apenas um nome.
— Raul! Raul, meu filho! Onde você está?
Meus olhos eram duas brasas inundadas de lágrimas. Respirar tornou-se um esforço. Atirei-me ao chão e comecei a engatinhar à procura de Raul.
As balas de borracha já cortavam o ar em todas as direções. Senti um impacto na panturrilha, outro no pé. A mistura de fumaça, gás e poeira tornava impossível distinguir qualquer coisa. Passei a mão onde doía, como quem procura um ferrão, e senti o sangue escorrer entre os dedos. Os policiais, agora fechando completamente o cerco, ajoelharam-se para atirar.
Então veio o fogo real.
O estampido de um tiro talvez seja o som mais desesperador que um ser humano possa ouvir. Houve apenas um disparo.
Um único.
E, por um instante, o silêncio.
Violência demais para o que éramos: uma comunidade. Homens, mulheres, crianças, velhos. Gente.
Naquele instante, pareceu que havíamos regressado ao tempo da fundação do quilombo, quando sobreviver era uma questão de matar ou morrer. Mas já não sabíamos lutar. Havíamos desaprendido.
Vivíamos sob a ilusão de uma paz que jamais existira. Uma trégua precária, concedida enquanto nos tornávamos dóceis. Enquanto esquecíamos a guerra, o Estado a aperfeiçoava. Acreditávamos que a violência pertencia ao passado. Ela nunca partira.
Todos se abaixaram instintivamente. Mãos sobre a cabeça. Como criminosos. Criminosos por querer falar. Por querer dialogar. Por desejar o mínimo.
Forcei os olhos ardendo numa tentativa desesperada de encontrar Raul. Então o vi.
Meu menino jazia estendido na terra vermelha, imóvel, diante de uma fileira de coturnos negros.
Corri. Tomei-o nos braços. E ali chorei, gritei, amaldiçoei o mundo inteiro até desmaiar.
“Compatriotas, sabemos da importância do investimento minerário para o crescimento com inclusão. E sabemos também que esse crescimento deve ocorrer com transparência, respeito e confiança.”
A voz esganiçada do governador, cada vez mais fina à medida que se desfazia no microfone, arrancou-me das lembranças. Estar ali era reviver Raul. Eu permanecia de pé por ele. Naquele instante, o desejo de justiça era maior do que qualquer outra coisa. Nossas almas choravam, clamavam e rezavam em silêncio.
A primeira escavadeira ligou os motores.
No alto do palanque, o governador e sua comitiva permaneciam imóveis, sustentando aquela imponência já um pouco vazia. Ao redor, a polícia mantinha o cerco, vigilante, como cães à espera de comando.
Havia uma inquietação no ar. Estávamos com medo. E não éramos os únicos. Mesmo entre os homens do projeto, entre os que financiavam e celebravam aquela empreitada, havia um desconforto que não se disfarçava por completo.
“...estamos inaugurando uma nova fase. Uma fase de progresso, de desenvolvimento, de novos horizontes. Que comecem os trabalhos.”
A escavadeira avançou.
A plateia, formada quase inteiramente por nós, moradores, recuou. Mantivemo-nos à distância, como quem observa um ritual que não lhe pertence mais. Assistíamos ao espetáculo do progresso — um circo montado para as câmeras.
A escavadeira continuou. A pá desceu, rompeu a superfície, voltou a subir. Repetiu o gesto. Uma, duas, três vezes. A terra cedia sem resistência aparente. Por alguns minutos, nada. Então, parou. Um ruído estranho. Um hesitar da máquina.
No palanque, o governador se inclinou, inquieto, trocando palavras rápidas com os assessores. Algo não saíra como previsto.
O operador desceu. Aproximou-se do buraco com não mais que dois metros de profundidade. Curvou-se para olhar melhor.
E então recuou, devagar, como quem reconhece algo que não deveria estar ali.
Da Terra brotava sangue.

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Devoradora de Homens
Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.
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