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Uma visita de Lúcifer

Escritor pensativo em seu escritório à noite, de pé ao lado da escrivaninha com máquina de escrever e papéis, observando a chuva cair pela janela iluminada pela cidade ao fundo, em atmosfera introspectiva e melancólica.

Parte I - A Carta

Senhor Dionísio,

Permita-me a ousadia de tomar-lhe o tempo com este relato que, embora pareça absurdo à razão dos homens, exige ser narrado. O que experimentei, mais do que uma simples epifania ou delírio místico, foi uma teofania. Sim, ouso grafar o termo com todas as letras: um encontro com Deus. Ou, ao menos, com algo que se apresenta como tal. Não me cabe, por ora, precisar-lhe a natureza da entidade. Limito-me à tarefa ingrata de transmitir o inefável.

Peço-lhe, desde já, paciência com o estilo narrativo que adotei, em terceira pessoa, com tom analítico e voz distanciada. Dirão os menos avisados que se trata de um artifício vaidoso ou, talvez, de covardia narrativa. Mas asseguro-lhe, caro Dionísio, que é antes um mecanismo de defesa. Pois reviver o ocorrido sem a armadura da linguagem me custaria a sanidade. O horror da experiência ainda ressoa em minha carne, e cada frase que escrevo é, ao mesmo tempo, uma expiação e um risco.

Sim, arrisco-me. Pois ao narrar os fatos, desvelo algo que não sei se deve ser dito. E se clamo a você e a ninguém mais como testemunha, é porque pressinto, em seu espírito, certa elasticidade filosófica, uma tolerância para com os abismos que se abrem sob os pés dos que ousam pensar.

A presença que me visitou — e aqui hesito em chamar de anjo, demônio ou qualquer outra palavra saturada de mitologias vencidas — fundiu-se a mim de modo tão íntimo que já não sei onde terminava minha consciência e começava a d’Ele. Foi mais do que um encontro: foi uma possessão consentida, ou talvez uma simbiose imposta. E, desde então, uma sombra recobre minha lucidez, como se eu próprio houvesse sido reescrito por uma pena estrangeira.

É estranho pensar que certas verdades, quando reveladas, não iluminam, mas obscurecem. Essa foi a dádiva e o castigo que recebi. E agora, como um escriba febril, estou fadado a registrar o que me foi soprado. Escrevo, portanto, como quem sangra. Mas sangro letras, não por martírio, e sim por missão.

Sei que tais palavras soam como delírio de um ególatra ou como preâmbulo de um romance mal construído; e talvez sejam ambas as coisas. O tempo julgará. Por ora, peço apenas que leia até o fim. Pois por mais impossível que pareça, por mais herético que lhe soe, o que aqui deixo registrado poderá alterar, de maneira irreversível, o destino da espécie que insiste em se dizer humana.

Assinado,Abelardo

Parte II - A Feira

Era um sábado com disfarce dominical, desses em que o tempo se alonga em bocejos e a alma, esquecida de suas obrigações terrenas, ousa desejar a eternidade. O escritor, Abelardo, decidiu, não sem relutância, romper com sua clausura voluntária e aventurar-se até a feira. Era um gesto mundano, sim, mas investido de certa solenidade para aqueles que, como ele, viam o mundo como material narrativo, e não como cenário funcional.

O céu, por sua vez, compunha sua própria alegoria: nuvens espessas, desleixadas, tingidas de um cinza sacro, como se houvessem sido retiradas do afresco de alguma catedral ortodoxa decadente. Entre elas, os raios solares penetravam com timidez de penitente, traçando arabescos de luz sobre o chão ainda úmido da madrugada. Tudo ali cheirava a presságio, inclusive as cebolas.

Abelardo, como todo homem moderno que se julga livre, sofria de uma escravidão refinada: a produtividade. A caminhada de quase uma hora até a feira não lhe doía nas pernas, mas na consciência; uma hora improdutiva, um escândalo moral. Em tempos de culto ao desempenho, o ócio havia se tornado blasfêmia. Era preciso justificar o passeio, como quem justifica um adultério espiritual.

Ao menos escutarei um podcast sobre produtividade”, pensou, tentando apaziguar o juiz invisível que habita toda mente bem disciplinada. Munido de seus fones de ouvido, algumas sacolas retornáveis e uma culpa leve, mas persistente, Abelardo partiu.

A cada passo, porém, o peso do remorso cedia lugar a uma euforia ancestral, a alegria da inércia rompida. O ar matutino, impregnado de hortelã, fritura e promessas de renovação, invadia-lhe os pulmões como quem invade uma fortaleza em ruínas. Caminhar era, afinal, o último reduto da liberdade: um gesto quase insurrecional num mundo que nos quer sentados, digitando, rendendo.

Logo, Abelardo retirou os fones. Já não precisava da voz metálica de um coach de criatividade: os sons da feira eram mais autênticos.

— Lá vem Abelardo, o escritor! – anunciou Assis, dono da barraca de pastéis, com aquele tom de escárnio carinhoso que só os homens simples sabem manejar.

— Espero que não derrube nada dessa vez. O que tem de tamanho, tem de desajeitado – retrucou Ariano, sempre ácido, o rei das verduras e das opiniões não solicitadas.

— Parem com isso, seus velhos ranzinzas! Quando for famoso, quero ver quem vai reclamar – defendeu-o dona Cecília, da barraca de café, senhora de olhos vivos e língua mais ainda.

— E como você sabe que ele vai ser famoso, Cecília? Já leu alguma coisa que ele escreveu? – insistiu Assis, entre um pastel e outro.

— Deixa de ser ignorante, homem. Eu lá tenho idade pra ler o que essa juventude escreve? Mas minha avó dizia: “Um bom escritor se conhece pela fala. Escute-o articular as orações, e saberá se nasceu com a pena no sangue.”

— Se fosse assim, político seria gênio literário. Aquela gente fala que é uma beleza – resmungou Ariano, entre as alfaces.

— Aquilo é simulação. Palhaçada retórica. Eu falo de prosa sincera, dois-a-dois, sem script nem maquiagem – rebateu Cecília, nostálgica. – Vovó Clarice era das boas. Deixou tanta coisa escrita que até hoje não sei quem era personagem e quem era parente.

Abelardo chegou à barraca, justo no momento em que seu nome ressoava como um encantamento.

— Clarice é uma das minhas preferidas, dona Cecília. Já li tudo o que deixou. Pena que se foi cedo. Hoje estaria escrevendo sobre a guerra, a Ucrânia, o cheiro de pólvora das democracias ocidentais. Quem sabe, até um conto sobre o fim do império do dólar...

— Estão ouvindo, seus tontos? – exclamou Cecília, apontando para Abelardo como quem descobre um santo disfarçado de cliente. – Esse menino tem gosto.

— E quando é que vamos ler alguma coisa tua, Abelardo? – perguntou Ariano, usando o nome de batismo como quem puxa as rédeas de um cavalo arisco.

— Talvez depois do Dia dos Mortos, seu Ariano – respondeu o escritor, com um sorriso fatigado, como se cada palavra fosse um tijolo erguido com esforço.

— Por que tanta demora, rapaz? Com essa cabeça aí, é só juntar tudo e dar forma – opinou Assis, apontando para a própria têmpora com a autoridade de um mecânico de ideias.

— O problema, senhores, é que o excesso de leitura não garante a originalidade – murmurou Abelardo, quase para si. – O imperativo de ser autêntico, de não repetir ninguém, de não trair a própria essência... tudo isso me paralisa. Às vezes escrevo e, ao reler, parece que sou um ventríloquo de mortos ilustres.

— Mas quem define o que é original, meu filho? Não é você mesmo? – interveio Cecília, com sua sabedoria secular de quem já viveu mais páginas do que leu.

Antes que a paz reinasse, Ariano ergueu sua voz de trovão, pois todo feirante que se preze tem também um filósofo reprimido: – Nessa sociedade doente de performance, onde tudo já foi dito, feito e postado, o novo é uma ilusão vendida a conta-gotas. Originalidade, hoje, é só um plágio bem-disfarçado.

— Não o escute, Abelardo – sussurrou Cecília. – Continue. O leitor certo chega mesmo que só depois que você partir. As pedras do caminho que tropecem sozinhas.

Abelardo silenciou por instantes. Encarou Cecília, depois Ariano, por fim Assis. Sorriu com a humildade dos vencidos que ainda insistem:

— Escreverei até o fim. Mas toda história se cansa. Esta, que me persegue, começa a pedir silêncio. Talvez esteja perto do ponto final.

E, com isso, retomou suas compras, ladeado por palavras de incentivo, ditas com o mesmo fervor com que se benze a testa de um condenado.

Parte III - A Visita

O feriado de Finados amanheceu com um silêncio cerimonial. Abelardo, o escritor, ergueu-se mais cedo que o habitual, movido não por disciplina, mas por uma urgência sutil, um tipo de ansiedade que não pertence aos neuróticos, mas aos que pressentem a chegada do extraordinário.

Preparou seu café com esmero, ritual que fazia questão de preservar como ato sagrado. O pó fora comprado na barraca de Cecília, e ele o coava como se invocasse espíritos. A cozinha, austera e organizada, exalava o aroma quente que lembrava infância. A xícara em mãos, Abelardo subiu ao mezanino, onde residia seu altar: uma escrivaninha envelhecida de onde pretendia, naquele dia, extrair um final digno para sua obra. E, se os deuses fossem generosos, talvez um novo início.

O projeto, iniciado meses antes, já conhecera inúmeros desfechos, todos descartados por insuficiência. Nenhum final era suficiente. O escritor almejava a mais rara das alquimias: um fim simples e revolucionário, leve como brisa e denso como chumbo. Algo que, ao ser lido, deixasse o leitor mudo e, se possível, trêmulo. Sabia que seu desejo era uma espécie de blasfêmia contra a estética moderna, acostumada ao banal disfarçado de provocação. Ainda assim, insistia.

Para Abelardo, escrever era guerra. Cada frase, uma trincheira; cada adjetivo, uma armadilha. As palavras, inimigas íntimas, ora o traíam, ora o exaltavam. Sentimentalismo e cinismo dançavam em seu texto como irmãos siameses. O equilíbrio era precário, e é de se admirar que ainda não tivesse enlouquecido.

Vivendo em um loft modesto, Abelardo distribuía sua vida entre o térreo — cozinha e sala — e o mezanino, onde morava a alma. A cama ficava diante de estantes abarrotadas de livros e presentes; a escrivaninha, em frente à janela; o banheiro, ao lado. Uma arquitetura pensada para a solidão produtiva. A luz ambiente, a luminária antiga, presente de sua avó, o tapete que herdara de um amigo que fora morar no exterior, a poltrona de couro verde-musgo que comprara com os ganhos do último livro. Tudo muito aconchegante e convidativo para a escrita.

Passou o dia inteiro digitando, parando apenas para evacuar ou ingerir alguma substância — café, taurina ou culpa. O teclado rangia como o esqueleto de uma máquina ancestral. A caneta, quando usada, riscava o papel com a violência de um bisturi. A cada linha, Abelardo oferecia um pedaço de si à deusa da literatura. Às vezes, em vão.

O crepúsculo, seu momento preferido, chegou com o charme habitual. As ruas sussurravam adeuses, o céu se desbotava em vermelho e cinza, e o ar parecia conter mais oxigênio e menos esperança. Abelardo, como de costume, entrou em transe. Era agora ou nunca. Ou terminava a obra, ou terminava o escritor.

E foi nesse limiar, quando a meia-noite se preparava para declarar sua soberania sobre os vivos, que a ruptura aconteceu.

Uma ventania brutal explodiu contra a janela. Os papéis voaram como almas desordenadas em fuga do juízo final. O barulho era de fim de mundo: uivos do vento, trovões rasgando o céu, e uma chuva tão espessa que parecia cuspida por alguma boca cósmica enraivecida.

Assustado, Abelardo levantou-se. A janela aberta era uma boca escancarada para o caos. Lá fora, as árvores contorciam-se como penitentes em êxtase. Roupas voavam em redemoinhos, tampas de bueiros flutuavam como oferendas rejeitadas pelos deuses.

Foi então que o viu.

Do outro lado da rua, imóvel sob a tempestade, uma figura o encarava. Sob um sobretudo escuro, encharcado e imóvel, um chapéu de aba larga cobria o rosto, mas Abelardo — e aqui reside o absurdo — sabia exatamente como era aquele rosto, embora não o enxergasse. Não se sabe explicar como se conhece aquilo que não se vê, mas ele sabia. Como se o rosto daquele estranho estivesse impresso em sua memória desde antes do seu nascimento. Como se a figura fosse um arquétipo, ou pior, um espelho.

A criatura atravessou a rua lentamente. Não desviava o olhar. O tempo ao redor parecia curvar-se. Cada passo era uma sentença. Abelardo, paralisado, apenas assistia. O mundo havia se reduzido àquela travessia. Nada mais existia. Nem história, nem pátria, nem passado. Apenas ele e o outro.

Quando a batida na porta soou — três toques, cada um mais grave que o anterior —, Abelardo sentiu o corpo gelar. O suor escorreu-lhe pelas têmporas como lágrimas de desespero. O coração tamborilava com fúria insana. O estômago embrulhou-se como um novelo de cobras. A mente, no entanto, como convém aos escritores, entrou em dissociação, passou a narrar o momento como se ele fosse ficção.

"Alguém está à porta. Um visitante. Um presságio."

Ele queria correr, mas não conseguia; queria gritar, mas a voz fugira; então, algo se quebrou dentro dele. Uma última proteção, um resíduo de racionalidade e, como quem se entrega ao inevitável, desceu as escadas. Cada degrau parecia mais profundo que o anterior. Ao alcançar a porta, já não era o mesmo. Era outro. Ou talvez fosse ele pela primeira vez.

Abriu.

Ali estava o homem de barro; mas não barro qualquer. Não o barro dos profetas. Era o barro pré-existencial, anterior a Adão, anterior ao tempo. Um barro escuro, denso, quase metálico, como se houvesse sido formado sob pressão tectônica e lamentos esquecidos.

O estranho não disse palavra, mas sua presença era uma fala completa. Era como se o tempo, envergonhado, tivesse se retirado. Abelardo não sabia se deveria convidá-lo a entrar ou ajoelhar-se. Nenhuma das opções parecia suficiente.

Ele não era apenas um visitante.

Ele era a Visita.

Parte IV - O Início

Estar diante de uma obra de arte milenar é uma experiência que transcende os sentidos. Não se trata apenas de ver ou compreender; trata-se de ser visto, atravessado, desnudado. As pinceladas ancestrais, o mármore polido por mãos já convertidas em pó, os sulcos do tempo impressos na matéria como cicatrizes de um mundo que já não existe; tudo isso se impõe como uma presença viva. E ali, no confronto entre a eternidade e o instante, o espectador compreende sua verdadeira condição: a de um cadáver provisório diante de uma eternidade impassível.

A obra, soberana, o encara. E ele, o espectador, compreende, por fim, que jamais poderá absorvê-la. É como tentar engarrafar um trovão ou colecionar auroras. A obra permanecerá, e ele fenecerá. O saber contido nela o ignora, o transborda, o humilha. E então, como um verme que retorna à terra de onde veio, como um cão que volta ao próprio vômito, ele se curva. Não por reverência, mas por desespero. Implora. Suplica por migalhas do banquete que não lhe pertence.

“Dai-me ao menos um fragmento da vossa lucidez!”, gritaria, se o orgulho não o impedisse.

Esse era Abelardo.

Ajoelhado não em corpo, mas em espírito, diante da figura que adentrara seu mundo, não pela porta, mas pela rachadura ontológica que separa o humano do indizível. O visitante o fitava com olhos de cores desiguais, írises heterocromáticas que não apenas observavam, mas julgavam com amor e empatia. Um azul abissal, um âmbar incandescente. Juntos, revelavam-lhe não apenas o que era, mas tudo aquilo que jamais seria.

As írises de Lúcifer — pois embora o nome ainda não tivesse sido pronunciado, Abelardo já o reconhecia — não apenas viam: elas iluminavam e queimavam.

Toda a erudição que Abelardo acumulou ao longo da vida — os tratados filosóficos rabiscados com lápis, os ensaios morais sublinhados com régua, as horas infindas de debates em cafés de nicho — tudo isso lhe pareceu, de súbito, um castelo de cartas diante de um sopro cósmico. Uma máscara frágil, de papel reciclado, diante do fogo.

Toda a generosidade ostentada nos trabalhos voluntários, toda a postura de bom moço letrado, de intelectual limpo e socialmente engajado, foi devorada em silêncio pela presença daquele ser que, com um só olhar, varria o verniz moral e expunha o osso nu da vaidade humana.

E foi assim que ele compreendeu: sua alma estava nua. E era feia.

A vergonha, não a de atos, mas a vergonha essencial, aquela que antecede o pecado, tomou-lhe a espinha e a garganta. E ele caiu em si; ou caiu para fora de si, não saberia dizer.

Foi quando o visitante quebrou o silêncio. Sua voz não ecoava nos ouvidos, mas dentro dos ossos, como se falasse diretamente ao cálcio.

— Boa noite, Abelardo, o escritor.

O tom era educado, quase afável. Mas havia uma nota sutil de ironia que arrepiava mais que uma ameaça. Uma ironia tão leve, tão bem-posicionada, que poderia ser confundida com gentileza. Mas Abelardo sabia, como todo homem sabe quando está diante de um superior ontológico, que aquilo era zombaria. Discreta, refinada, mas zombaria.

Abelardo engoliu em seco. A saliva estava espessa, como se tivesse sido destilada em séculos de silêncio.

O ser inclinou levemente a cabeça, como quem cumprimenta um velho conhecido que não via desde antes do tempo.

— Posso entrar?

Abelardo hesitou por um instante. Seu corpo dizia não, sua alma, sim. E sua vaidade... ah, sua vaidade estava em festa. Ser visitado por aquele que ultrapassava os nomes, que alguns chamavam de Diabo, outros de Anjo Caído, e os mais cultos, de conceito nietzschiano encarnado, de o além-do-homem, era, afinal, um privilégio. Quem mais teria o infortúnio glorioso de receber o Demônio, o Pai da mentira, a Estrela da Manhã, o Príncipe das Trevas, o Senhor do Abismo como convidado?

E então, em nome da curiosidade, do medo, e principalmente da soberba, ele deu um passo para o lado e disse:

— A casa é sua.

O Visitante sorriu — e, naquele sorriso, Abelardo não viu dentes, mas engrenagens. Era o sorriso de quem já leu todos os livros antes que fossem escritos; a face escancarada de quem veio antes da queda; de quem conhecia a existência de cada ser humano, de cada pensamento, antes mesmo que fosse cogitado.

Parte V – A Invenção do Divino

A chuva e o vendaval continuavam lá fora batendo nas janelas e balançando as telhas.

Abelardo e o ser ainda permaneciam na sala, no centro do tapete estilo persa vermelho, encarando um ao outro. Os olhos, o da direita azul quase pálido e o da esquerda de um verde oliva âmbar, arregalados encaravam Abelardo, o escritor, de baixo para cima. O sorriso largo do ser era convidativo e criava espaço para a confiança. O rosto possuía uma estrutura bem peculiar com os ossos sob as maçãs do rosto e da mandíbula proeminentes, uma mescla entre o viril, o delicado e o angelical.

— Sim, pode entrar – Abelardo disse. – Fique à vontade. Você deve estar enxarcado. Posso tirar o seu casaco?

Com a ajuda do escritor, o ser tirou o casaco e o chapéu.

Os cabelos dourados cacheados pareciam ter luz própria. Com um espanto divino, Abelardo reparava o corpo que se revelava a sua frente.

Um ser albino, de músculos fortes e bem definidos que não usava vestimenta e não expressava vergonha nenhuma por isso. Parecia natural ou proposital tal ato.

O feminino e o masculino se expressavam naquele corpo de forma bela e harmônica. No seu âmago, Abelardo sentiu toda a paz e humildade que aquele corpo transmitia. Um corpo não binário, intersexual, que carregava toda a harmonia, glória e paz que os crentes tão apregoavam.

— Já que meu anfitrião perdeu as palavras, eu mesmo farei as honras de apresentação – disse o ser dando um passo para frente. – Eu sou Lúcifer, a estrela da manhã, filho da alvorada, o mais belo dos belos, o líder da grande rebelião. Você, meu querido escritor, tão cheio de sabedoria e conhecimento, não reconheces um nobre quando avista um?

“Fui criado nos céus a imagem e semelhança de nosso Senhor. Subi mais alto que todos, alcancei a graça do Todo Poderoso, mas meu orgulho me traiu. Fui atirado nas profundezas do abismo onde o meu reino fundei. A Terra me foi dada e hoje compõe os meus domínios. Aqui, no reino mortal, neste mundo humano, eu governo e tudo me é permitido. Tentei me assemelhar a Deus, mas hoje reconheço o meu lugar e minha humildade me traz a consciência necessária para eu saber até onde posso ir. E por isso, hoje, venho aqui, meu filho tão querido, admirado por mim, e lhe ofereço o que quiser. Me diga, o que tu queres? Me peça e, em troca de tua alma, tudo lhe concederei.”

O espanto no rosto do escritor induziu em Lúcifer uma gargalhada alta e sincera.

— Me desculpe, Abelardo. Não poderia perder a piada. A primeira parte é verdadeira, eu sou Lúcifer, porém a segunda é para apenas fazer jus ao pânico cristão clichê. Vender a alma para diabo, ganhar fama e milhões, essas coisas, que nós dois bem sabemos não é real. Apesar, claro, de eu ser real.

Lúcifer terminou sua curta caminhada ao redor do tapete e para em frente à Abelardo. Somente assim a mente do nosso escritor se dá conta da piada e esboça um sorriso singelo e nada espalhafatoso. A piada se mostra verdadeiramente cômica, mas o espanto diante da situação, ter como visita Lúcifer, ainda perturba Abelardo. O escritor sempre fora um ateu convicto e poderia até continuar sendo depois dessa noite, mas a presença de Lúcifer naquele momento era verdadeira demais e impossível de se questionar. Teria Abelardo perdido todo o seu poder de argumentação das crenças e do sobrenatural?

O que lhe restava era contemplar e era isso que o fazia sem pudor e receio. Ele sabia que Lúcifer o convidava à contemplação e à admiração. Sabia que Lúcifer queria olhares e perguntas. A vontade de um mestre tão sublime em compartilhar todo o seu conhecimento era palpável no ar.

Abelardo olhava para Lúcifer de cima a baixo captando toda harmonia entre o feminino e masculino presentes naquele corpo e, como um turista que tenta apreender em sua mente todos os detalhes de uma paisagem natural, o escritor se entregava ao trabalho de memorizar todos os fenótipos clichês de um querubim renascentista que se desenvolveu prematuramente. 

— Pelo visto eu terei que retomar nossa conversa novamente – disse Lúcifer. – Meu caro escritor continua em transe. Mas não se perturbe, logo você se habitua à minha presença. Esse deslumbramento é comum às almas humildes. Somente as arrogantes e prepotentes que me desprezam de início. Que Alexandre Magno e Xerxes que o digam – continuou Lúcifer. – Eu vim porque fui convocado.

Depois de alguns minutos em silêncio, Abelardo responde: – Não lembro de ter lhe chamado. Até segundos atrás sua existência por mim era desacreditada.

— Pois que a partir de agora espero que o senhor possa dar crédito à minha existência e aos meus feitos – Lúcifer, rápido como uma cobra, respondeu. – Não foi uma convocação do consciente, deliberada, mas sim do inconsciente. Uma alma sedenta por conhecimento, por autoconhecimento, que busca a evolução, o aprendizado, a autossuperação e a ascensão espiritual automaticamente aparece no meu radar e no momento mais adequado eu lhe faço uma visita.

Lúcifer começou a andar a passos vagarosos, uma das mãos atrás das costas, como se fosse fazer uma mesura, e a outra gesticulando para o ar com movimentos grandes e vistosos. Avaliando o quarto-casa-escritório disse:

— Não importa o tamanho da cela, o importante é a falsa sensação de liberdade – pausou, corpo ereto, olhos arregalados encarando Abelardo e continuou: – Entediado estava eu em meu reino ilusório de devaneios e decidi dar uma volta pela Terra. Decidido estava em provar os servos de Deus, mas a experiência com Jó me viera a mente de forma humilhante e por isso resolvi mudar minha abordagem e assim meu percurso. Vi-me ponderando ‘Por que não abordar àqueles que realmente mereçam o que há de melhor nesta terra e proporcioná-los os prazeres e benfeitorias que esses merecem por mérito?’

            Acostumando-se à presença de Lúcifer e retomando a capacidade crítica de questionamento, Abelardo perguntou: — Aliás, o que provaria que você realmente é Lúcifer? Já que à sua raça é permitido a mentira, você poderia ser um daqueles demônios subordinados de uma casta insignificante.

            — A comprovação de quem eu realmente sou virá após a minha partida quando você receber o que lhe darei; portanto, confio na sua ousadia para fazer um pedido a altura do meu poder, pois só assim você acreditará que eu sou quem digo ser.

            — Interessante. Apenas um problema que persiste: eu não consigo pensar em nada. Nada me falta. Estou satisfeito e grato material, social e psicologicamente.

            Lúcifer olha para todos os cantos do ateliê avaliando tudo o que compõe aquele espaço, contorna o escritor avaliando suas vestimentas simples e conclui:

            — Impossível. Olhe para você, ao seu redor, sua carreira, sua casa e você me diz que não precisa de nada? Impossível. Você é ambicioso. Por que você escreve? Não sonha em ser um escritor famoso, abastardo e bem-sucedido?

            — Se bem que nunca pensei por esse lado. Eu escrevo porque gosto, pelo prazer que a escrita me proporciona. Escrever é a forma que encontrei de expressar minha criatividade, de aplicar tudo aquilo que tenho absorvido e acumulado em minha mente ao longo da vida. Brincar com as palavras é minha diversão. Com meus livros e textos eu me sinto rico e quando me vejo através dos olhos de amigos e familiares me torno a pessoa mais bem sucedida que existe. Então concluo de que nada preciso.

            — Estou vendo que com você terei que ser mais persuasivo. Em que você acredita? Qual sua crença maior?

            — Acredito na humanidade, na capacidade dos seres humanos serem éticos e morais sem a necessidade de deuses e seus antagonistas. Acredito que os seres humanos com sua racionalidade são superiores à natureza e por isso responsáveis por essa. Acredito na ciência, na busca constante pelo conhecimento e entendimento universal e na expressão artística. Acredito que com o uso da razão e do exercício da empatia e tolerância é possível progredirmos na construção de uma sociedade melhor.

            — Poupe-me do romantismo. Sempre tive preguiça desses hippies.

            — Mas eu não sou hippie. O movimento hippie tinha como funda...

            — Eu sei o que foi o movimento hippie. Não preciso de aulas de sociologia agora.

            — Então por que você me chamou de hippie?

            — Eu não te chamei de hippie. Foi apenas um modo de falar. Uma analogia da qual me arrependo agora.

            — Repito. Eu não sou hippie. Quer saber o que eu sou?

            — Não, muito obrigado. Passo.

            — Desistiu de conversar?

            — Apenas me diga o que você deseja que eu realizarei.

            — Durante nossa conversa fiquei pensando sobre isso e cheguei a uma conclusão. Meu pedido é que você destruísse Deus ou seja lá o que for que exista de supremo.

            — Isso não consigo, peça outra coisa.

            — Você disse qualquer coisa.

            — Menos isso — disse Lúcifer, fazendo um gesto de desdém com a mão, enquanto dava uma volta em torno de si mesmo, avaliando a casa do escritor.

            — Por quê?

            — Porque não tem como eu destruir algo que não existe.

            — Você está me dizendo que Deus não existe?

            — Isso mesmo.

            — Me explica isso.

            — Fácil. Deus é uma ideia que eu ajudei a criar. Eu lancei a semente que se desenvolveu, cresceu, floresceu e tomou as proporções gigantescas que hoje tem. O pontapé inicial foi meu; o restante, deixei por conta da criatividade humana. E devo admitir: quando se trata de fabricar deuses e mitos, vocês sempre vencem. Nem eu ousaria tanto —. Lúcifer continuou com naturalidade quase indulgente: — Aquilo que chamam de Deus nada mais é do que o reflexo ampliado do próprio homem. Não criam o divino; projetam-se nele. Transferem para o céu aquilo que não suportam sustentar em si. A bondade que não praticam, a justiça que não realizam, o amor que não conseguem manter, tudo é deslocado, purificado e elevado à categoria de absoluto. E então, o que era humano torna-se sagrado; e o que era criação passa a ser adorado como criador. Uma inversão elegante, não acha? Vocês se esvaziam para inflar aquilo que inventaram. Quanto mais pobres de si mesmos, mais ricos tornam seus deuses. Deus não cria o homem à sua imagem; o homem cria Deus à sua imagem; e, no processo, ajoelha-se diante da própria essência alienada, sem reconhecer nela o próprio rosto. Eu apenas sugeri a direção. O resto foi obra de vocês e, confesso, uma obra admirável.

            — Mas como é possível você existir e Deus não existir? Nesse momento pensei que sua existência estava atrelada à de Deus. Forças antagônicas. Tipo calor e frio. Bem e mal. Certo e errado.

            — Deus não existe e uma coisa não é dependente da outra. O mesmo vale para mim.

            — Compreendo.

O escritor ficou interessado na conversa. Lúcifer andava em círculos enquanto falava. A nudez desse suscitava em Abelardo autoquestionamentos sobre o celibato.

O escritor continuou:

            — Então se Deus não existe, tudo é possível. Você passa a ser o ser mais poderoso que existe. Você se torna Deus.

            — Pode-se dizer que sim, mas eu nunca serei mais poderoso do que o que vocês humanos criaram. Com a minha ajuda vocês criaram o maior bem de vocês, a ideia de Deus, e eu fui rebaixado a um demônio oportunista que tem por objetivo infernizar a vida de todos os crentes. A maldade, antes atribuída ao livre arbítrio da humanidade, me foi dada por suas autoridades em metafísica, mas se vocês soubessem que nada disso sou eu quem faço. Tudo é resultado de suas próprias ações, fruto da sua própria ganância, hipocrisia, ego, vaidade e medo. O inferno ganhou grande popularidade na idade média e se tornou o principal causador do medo. Criaram reinos imaginários, céu e inferno, e me colocaram como imperador do último. Todos temem o inferno. A conta é fácil, se eu governo o que lhes causa terror, eu serei o principal alvo de todo o seu ódio. Todos esses séculos eu tenho contemplado as ações da humanidade e poderia dizer que não há ser mais perverso, ignóbil, hediondo e repugnante que o ser humano. Nem mesmo eu tive a criatividade e capacidade de ser tão perverso. Os seus atos de maldades superam e muito em grandeza e número tudo que já fiz em toda a minha existência.

            — Céu e inferno inexistem?

            — Na verdade, céu e inferno são apenas mundos em uma realidade paralela. A teoria do multiverso, etc... Não quero discorrer sobre isso neste momento. Não é para isso que estou aqui. Em um futuro não tão distante vocês compreenderão.

            O escritor a todo o momento encarava Lúcifer e sua nudez. Ponderando cada palavra dita.

            — Então para que os humanos precisam de Deus? – perguntou o escritor. 

— Ninguém precisa de Deus. Vocês humanos são autogovernáveis. Capazes da criação e de conquistarem o que quiserem. Deus (ideia) é aquele que tudo pode, ser onipotente, ao passo que nós podemos escolher o que quisermos ser. Assim podemos escolher ser sem Deus, mas a grande parcela da humanidade escolhe ser com Deus, atrelada e dependente a um ser superior. Uma criança que não quer alcançar a maioridade, o esclarecimento, que precisa de um tutor para lhe governar. É aí que chegamos ao ponto crucial da liberdade. É livre todo aquele indivíduo que decide por alcançar o esclarecimento pleno. Poucos se colocam nessa jornada em busca do esclarecimento, mas pouquíssimos que realmente alcançam. Eu sou um deles e é isso o que eu lhe ofereço nesse momento: entendimento, maioridade, autogovernança. Podemos escolher dentre infinitas possibilidades de existência e essa escolha nos causa angústia pois existe a possibilidade do erro. Só saberemos sobre o futuro quando ele se tornar presente. Por isso, o que é mais cômodo, experimentar o máximo de possibilidades que a finitude humana permitir ou permanecer naquela existência que se mostrar mais fácil de ser suportada? Se embrenhar pela seara de experimentação de diferentes existências exige resiliência, pois a cada escolha a angústia se intensifica ao ponto do sufocamento.

— Então por que permanecemos andando em círculos, tentando resolver os mesmos problemas século após século?

— Simples. Tudo se resume a falta de um sentimento: autorresponsabilidade. Nenhum mantra, oração, reza, promessa ou voto são mais poderosos que a frase eu sou o culpado. Você, Abelardo, meu escritor, busca a liberdade plena ou permanecer existindo neste mundo, campo de carnificina onde entes ansiosos e atormentados vivem devorando-se uns aos outros, onde a capacidade de sofrer aumenta na proporção da inteligência? O homem vive como um animal preso em um limbo constante entre a dor por querer se satisfazer e o tédio momentâneo ao realizar brevemente, por um instante somente, aquilo que pretendia.

— Mas como escapar da dor e do tédio?

— Somente através da superação do plano fenomênico da representação, o mundo da vontade, e alcançar o conhecimento da verdadeira realidade sem a priores e a posteriores.

Parte VI – A Forma das Sombras

Durante toda a conversa, Lúcifer deslizava suavemente pelo ateliê como quem percorre um museu de artefatos sagrados. Seus olhos não se demoravam por distração, mas por reconhecimento. Tocava os livros com a ponta dos dedos, como se lhes soprasse uma benção ou maldição silenciosa. Fitava os blocos de notas como quem lê oráculos, e sorria levemente diante dos post-its colados à grande janela, um vitral moderno de ideias em gestação. Ali, naquele cômodo imerso em papéis, rabiscos, silêncio e ego, havia mais do que um escritor: havia uma alma que se achava pronta para compreender o indizível. E era exatamente isso que o visitante viera testar.

Abelardo, que até então se dividia entre o espanto e a contemplação, interrompeu o percurso silencioso de seu hóspede com uma pergunta que lhe escapou da garganta sem permissão:

— Qual é a sua forma verdadeira?

Lúcifer interrompeu a inspeção de um pequeno caderno de capa de couro e virou-se com um brilho indecifrável nos olhos:

— Minha forma verdadeira é a que estou no momento presente.

— Perdão, mas… não compreendi. Você diz que esta... esta forma que vejo agora é a sua verdadeira?

— Sim. E amanhã terei outra. E depois de amanhã, talvez nenhuma. Minha forma é o agora. Assim como as nuvens não escolhem um contorno e o mar não repete uma onda, eu sou o que o tempo exige que eu seja.

— Está dizendo… que eu também sou assim?

— Sim, Abelardo. Você também é assim. Mas diferente de mim, você se ilude. Você se aprisiona em identidades e se apega a narrativas. Você acredita ser “você” quando tem barba, quando escreve livros, quando caminha pela feira e é chamado de “escritor” por feirantes. Mas me diga, qual é sua forma verdadeira? É a da infância? A do primeiro beijo? A do dia em que escreveu sua melhor crônica? Ou a do dia em que pensou em desistir de tudo?

— Talvez todas elas…

— Exato. Todas elas são verdadeiras, e nenhuma delas é definitiva. O homem é o único animal que morre várias vezes antes de morrer de fato.

Abelardo calou-se, olhando para as próprias mãos. Mãos calejadas não pelo trabalho braçal, mas pela repetição do gesto intelectual. Mãos que carregavam, embora não admitisse, heranças invisíveis.

— Quer dizer que posso me transformar em qualquer coisa?

Lúcifer sorriu, girando sobre os calcanhares com um leve meneio de cabeça, como um dançarino no fim de um espetáculo. Um rodopio com força suficiente para fazer todos os membros do corpo — os genitais masculinos, os seios femininos — se balançarem como ondas. Depois, respondeu:

— Pode. Todos podem. A diferença é que eu domino o tempo da metamorfose. Enquanto vocês humanos são submetidos à erosão do tempo, eu o modelo. Vocês se transformam por cansaço, por conveniência ou por medo. Eu me transformo por vontade. Essa, Abelardo, é a diferença entre liberdade e sobrevivência.

E como quem decifra um enigma, Lúcifer concluiu com tranquilidade:

— E é exatamente por isso que estou assim agora, nesta forma. Esta — disse ele, abrindo os braços como quem se oferece em sacrifício — é a que mais te atrai.

O rosto de Abelardo enrubesceu. Ele sabia que diante de um ser que habita os interstícios do real e do simbólico, nada poderia ser ocultado. Pensamentos, fetiches, ideologias, ressentimentos, tudo ali era translúcido.

Lúcifer, sem esperar por confissões, prosseguiu:

— Já que estamos entre verdades, comecemos pelo básico. Se eu tivesse aparecido diante de ti em um corpo negro, por mais belo e bem esculpido que fosse, você teria aberto a porta? Sinceramente?

O silêncio que se instalou foi brutal.

— Admita, Abelardo. Seu desconstrutivismo é de papel. Sua suposta evolução é uma performance bem decorada. Você se encanta por narrativas anticoloniais, lê Fanon, cita Lélia Gonzalez nos seus textos, mas no fundo… no fundo você carrega a hesitação genética de quem herdou uma mão marcada pela escravidão. Você é um homem ocidental, educado por livros brancos, escrevendo em português europeu, morando em um país fundado por estupros e pactos de silêncio. Não há ofensa aqui, apenas constatação.

Abelardo abaixou os olhos, hesitou por um instante, os olhos ainda presos àquela forma que desafiava qualquer categoria segura. Não havia ofensa, de fato. Havia verdade. E ela era fria. Havia ali algo que o inquietava mais do que a própria presença: uma familiaridade desconfortável, como se estivesse diante de uma imagem que lhe fora ensinada a negar.

— Por acaso acreditavas que minha forma original era a de um aristocrata europeu? Um cavaleiro loiro, de olhos azuis, cercado por harpas e auréolas? Poupe-me. Essa caricatura é de vocês; um autoelogio travestido de teologia. Minha forma primeira, meu caro, é preta. Retinta como a noite antes do tempo. Escura como os primeiros corpos que ousaram olhar para o céu e perguntar: “por quê?”.

Abelardo não respondeu. Não havia resposta possível, apenas um silêncio que começava a pesar.

— Foram vocês que corromperam a negritude. Afogaram-na em sangue, reduziram-na a mercadoria, pisaram-na até que esquecesse o próprio nome. Embriagaram-na em sangue e a lançaram à margem, como se fosse subumana. Depois, com a desfaçatez dos covardes, chamaram isso de ciência. Ergueram um racismo dito científico, cunharam teorias, medições, crânios, tabelas, todo um aparato ridículo para dar verniz racional ao que sempre foi apenas medo. Medo do que não controlavam. Medo do que não eram. Marginalizaram a cor original, a pele primeira, a origem.

A voz de Lúcifer não se elevava, mas cada palavra parecia ocupar mais espaço do que devia.

— E então, como sempre, projetaram. Criaram monstros e precisaram que eles tivessem cor. Precisaram que o mal tivesse pele, que o pecado tivesse origem, que a inferioridade tivesse rosto. Não para explicar o mundo, mas para justificar o que já haviam decidido fazer com ele. A escravidão não nasceu em mim, nem em qualquer inferno. Foi invenção de vocês. Vocês que não suportam ser escravos de si mesmos, das próprias ideias, da própria ignorância, da própria mediocridade e, por isso, escolhem acorrentar outros. Não por necessidade. Por alívio.

Lúcifer agora estava próximo demais.

— Eu, essa ruptura ontológica da existência, nunca precisei diminuir ninguém para existir acima. Não precisei inventar hierarquias para me sentir inteiro. Vocês, ao contrário, só conseguem se erguer ajoelhando alguém. Só conseguem se afirmar negando. Só conseguem existir criando degraus e empurrando outros para baixo deles. E ainda assim têm a ousadia de falar em superioridade. Vocês não são superiores. Nunca foram. Apenas foram mais eficientes na arte de justificar a própria crueldade.

O silêncio que se seguiu não era ausência de som. Era outra coisa — mais densa, mais incômoda.

Abelardo engoliu em seco, sentiu um tremor que não vinha da tempestade, mas do chão da própria consciência. Pela primeira vez desde que o Visitante chegara, não sabia se queria continuar ouvindo.

O quarto-casa-escritório, até então seu templo de controle, se tornara altar de desnudamentos. E ali, sob os olhos de um visitante que era ao mesmo tempo profeta, sátira e espelho, não havia mais onde esconder-se.

Lúcifer calou-se. E o silêncio que se seguiu não era vazio. Era sentença.

Parte VII – O Pecado contra o Espírito

— Você, Lúcifer, seria, portanto, o único ser totalmente livre?

— Não o único, mas sim, sou um dos raros que alcançaram a liberdade plena.

— Mas o que é, afinal, essa liberdade?

— Liberdade, Abelardo, é a capacidade de um ser determinar seu próprio destino sem interferência alheia. Não se trata de escolher entre maçãs e laranjas, mas de tornar-se a árvore inteira.

— Espera... Você não é o único? Existem outros Lúciferes por aí?

Essa foi a primeira vez que Abelardo demonstrou algo além da serenidade pretensamente estoica, um espasmo de espanto, quase infantil, como o de quem descobre que o mundo é maior que o mapa. A ideia de outros seres de liberdade incondicional o perturbou mais do que o corpo nu de seu interlocutor.

— Isso mesmo, meu querido Abelardo — respondeu Lúcifer, com voz que parecia sair tanto da garganta quanto das paredes do quarto.

— Como assim? Esses outros seres... Já foram humanos? Homens e mulheres de carne e osso?

— A tua pergunta já se responde. Sim, já foram como tu: carne fatigada, osso poroso, pensamento repetido. Mas hoje são matéria transmorfa, moldável ao desejo, completamente subjugada pela mente. — E aqui Lúcifer tocou a têmpora de Abelardo com o indicador — Tudo está aqui, meu caro. A mente. A grande meretriz. A imperatriz da ilusão. A Babilônia encarnada. A torre que sobe sem alicerce. Tudo que precisas aprender a dominar... está entre tuas orelhas.

— O mundo gira em torno da matéria — Lúcifer continuou —, do acúmulo, das emoções baratas que se vendem como virtudes. Criam a ilusão de que tudo pode ser restaurado, reconstruído, redimido. O meio ambiente, por exemplo... acreditas mesmo que ele voltará a ser o que era antes da chegada dos humanos?

— É a esperança a que nos agarramos. Mães e pais torcem para que o mundo se recomponha, para que seus filhos tenham chão onde plantar o futuro... — respondeu Abelardo, já com a voz embargada, a certeza rarefeita.

Lúcifer sorriu. Era um sorriso que não pedia permissão: espalhava-se pelo ambiente como um perfume proibido. De olhos semicerrados, moveu-se ao redor do escritor, rebolando com a elegância dos que sabem o valor da própria nudez. Era o prazer que passeava. Era o erotismo elevado à liturgia. Ele rodeava Abelardo como fera que não quer devorar, mas converter.

— Então, meu querido Abelardo — disse —, essa esperança é mais uma das tantas ilusões que foram embutidas à força na tua consciência. Nada retorna ao que foi. As coisas expandem, murcham, se transmutam, mas jamais regressam. O mundo não será salvo, e tampouco tu serás o mesmo após esta noite. Nem eu sei que forma terei ao sair daqui, mas uma coisa é certa: terei a liberdade de escolher.

Com um movimento repentino, Lúcifer envolveu Abelardo pelas costas. Um abraço que era cárcere e refúgio. As vestes do escritor foram rasgadas com brutal delicadeza. Mãos frias tocaram a pele quente, dedos de mármore deslizavam como línguas de serpente sobre o corpo adormecido do desejo. Abelardo já não raciocinava. Desde a primeira palavra soubera que seria dominado.

Apesar de maior em estatura, Abelardo cedeu como criança no colo da própria perdição. O corpo reagia com espasmos e rubores. As pernas vacilavam. A respiração encurtava. Os nervos gritavam pelo toque que vinha e vinha e não cessava. Tudo era vertigem.

Antes que se entregasse por completo, uma última frase lhe escapou:

— Lúcifer... meu querido Lúcifer... o que devo fazer para alcançar a liberdade plena?

— Simples, meu doce Abelardo. Basta entregar-se. Desfaze-te do ego. Deixa-o murchar como flor esquecida em cemitério e eu te guiarei.

E assim se fez. O escritor desabou. O prazer era um oceano de lava, a dor dissolvia-se no gozo, o tempo deixou de ter minutos e virou eternidade líquida. Lúcifer não o possuía, despertava-lhe. O que começou como um jogo de retórica culminava na mais física das heresias. A carne, por fim, vencera o espírito. E o espírito, vencido, agradecia.

— Já que desejas me ouvir mais — disse Lúcifer, com a voz embargada de prazer e poder —, ficarias impaciente se soubesses para onde te conduzo...

— E para onde? — balbuciou o escritor, ainda ofegante.

— Para a verdadeira felicidade. Aquela que teu coração vislumbra em sonhos, mas que não podes contemplar porque teus olhos se desviam para as aparências.

— Suplico-te — disse Abelardo —, mostra-me o que é essa felicidade.

— Com prazer — respondeu Lúcifer, sempre irônico, sempre pedagógico. — Mas antes, falemos da falsa. Os mortais, esses tolos adoráveis, confiam sua alegria ao que muda. Isso é a sorte: o vento que gira o moinho ou o afunda. Se depositas tua paz no acaso, navegarás ao sabor das marés. Por isso, ouve: desconfia da sorte, entrega-te ao plano, à razão, ao momento. A sorte te fará príncipe num dia e no outro, mendigo. Mas a razão... ah, a razão é um trono fixado na rocha.

Enquanto cavalgavam, corpos unidos, entregues a um movimento que já não distinguia quem conduzia quem, tornavam-se inseparáveis; um só gesto, um só impulso. Foi então que Lúcifer disse:

— Tu, meu querido escritor, deixaste teu barco ao sabor do vento, e agora reclamas da direção. Mas já é hora de beber um remédio doce, que te preparará para os amargos que virão. A reflexão, Abelardo, é esse remédio. Um bálsamo que cura mesmo à beira da morte.

A voz, à semelhança dos corpos entrelaçados, deslizava quente e contínua, infiltrando-se por dentro, penetrando com um toque prolongado; como se já fosse dele, profundo; como se sempre tivesse sido, antes mesmo de se fazer som.

— Toda criação, meu bom escritor, é manifestação da substância que chamais de Deus... embora Deus, como criador, não passe da sombra daquilo que vós mesmos projetastes a partir de vossas carências. Não percebes? Deus é o homem, não em essência, mas em origem. Foi gestado por vossas faltas, moldado por vossos anseios, elevado por vossa incapacidade de sustentar em si aquilo que julgais divino. Aquilo que venerais como absoluto nada mais é do que a vossa própria imagem, expandida, purificada e colocada à distância segura da adoração.

Houve um breve silêncio, como se o próprio ar hesitasse em continuar. Antes do ápice, antes da conclusão.

— “Anarchos”, como diziam os antigos. Sem princípio. Sem fim. Apenas meio.

As amarras se soltaram. Fluídos demasiadamente humanos escorreram como rios que correm para o mar. E Abelardo, nu, em corpo e em convicções, já não via em Lúcifer uma entidade. Via um espelho. Um espelho que, enfim, lhe devolvia aquilo que fora por toda a vida, mas que jamais tivera coragem de nomear.

Parte VIII — A Hermenêutica do Abismo

O quarto permanecia em penumbra, como se a luz temesse desvelar em demasia os contornos daquele diálogo. Após o êxtase da entrega, Abelardo, coberto por um lençol encardido de humanidade, olhava fixamente para o teto, como quem contempla a própria finitude impressa na estampa rude do forro de madeira. Lúcifer, deitado ao seu lado, exalava um aroma entre o jasmim e o enxofre, como se o paraíso e o inferno disputassem, naquele instante, a posse do quarto.

— Diga-me, Abelardo — sussurrou Lúcifer, com voz untuosa —, o que compreendes por verdade?

O escritor hesitou. Seus lábios tremeram com a indecisão dos que aprenderam demais e desaprenderam o essencial.

— Verdade... — murmurou — talvez seja aquilo que resta quando todas as mentiras foram abandonadas.

Lúcifer sorriu. Não zombeteiro, mas com a piedade que se reserva aos que ainda estão na primeira infância da razão.

— Uma resposta digna de um catecismo ilustrado — replicou. — Digo-te que a verdade, essa ninfa que tanto seduz os homens, não passa de uma ficção bem contada, renovada a cada interpretação. A verdade não é absoluta, nem definitiva. Ela é conquista filológica, suor do pensamento, filho bastardo da hermenêutica.

— Hermenêutica? — perguntou Abelardo, franzindo o cenho.

— Sim, meu bom escritor. A arte de abrir os textos como se fossem corpos, de dissecar cada palavra até que o sangue do sentido escorra. A filosofia aspira a uma verdade que o mundo não deseja. A filosofia perturba. Ela é a pedra no sapato da certeza. A hermenêutica, por sua vez, é a lâmina que separa a carne do verbo.

Lúcifer se ergueu do tapete com a leveza de uma pluma e caminhou nu até a estante, os pés não faziam ruído, como se não pisasse o chão. Retirou um livro antigo e o abriu sobre o colo de Abelardo.

— Aqui — apontou — está a chave. Pedro Abelardo, teu homônimo, não buscava ensinar a verdade, mas propor o verossímil. Ele compreendia que sem razão crítica a Bíblia é um espelho dado a um cego. Vocês humanos criaram um Deus inalcançável, mas não vos destes conta de que ele é reflexo do vosso medo, não da vossa essência.

— E a linguagem? — arriscou Abelardo, ainda deitado, como um sábio envergonhado. — Seria ela a ponte para a verdade?

— Não uma ponte, mas um abismo, meu caro. A linguagem é um sistema de signos, uma convenção para ocultar o indizível. Você a idolatra como a chave da realidade, mas ela é a máscara. É como tentar segurar o vento com uma taça de prata. A linguagem é o que vos resta diante do silêncio do ser. Todo signo está no lugar de outro, e o que se quer nomear sempre escapa. Você escreve, Abelardo, porque nunca alcança. O escritor é o sórdido sacerdócio do fracasso semântico.

Abelardo sentou-se. Um tremor lhe percorreu a espinha. O prazer recém vivido agora parecia irrelevante frente ao abismo que se abria diante do seu pensamento.

— Mas então, se nada pode ser dito com exatidão... por que escrever? Por que buscar? Por que filosofar?

— Porque o desespero também é um motor, meu caro. A linguagem não é para revelar a verdade, mas para construí-la. Deus é linguagem. O Diabo é linguagem. E tu, pobre escritor, não passas de uma língua encarnada em busca de sentido.

Abelardo se levantou, cambaleante. Lúcifer observava-o como um escultor a admirar a argila prestes a ganhar forma.

— E o corpo? — perguntou Abelardo. — Em tudo isso, o que é do corpo?

— O corpo é teu último oráculo — respondeu Lúcifer, agora mais grave. — Toda tua busca pelo transcendente passa por ele; o corpo pode conduzir ao divino, mas cuidado: ele também conduz ao delírio. É no corpo que o desejo arde e a palavra falha.

— E se tudo é delírio, por que resistimos? Por que a história segue, apesar de tudo?

Lúcifer se aproximou e segurou o rosto de Abelardo entre as mãos.

— Porque mesmo a ilusão possui um valor. Para exaltar os artistas e os pensadores, os heróis foram rejeitados. Vocês não precisam de santidade, mas de consciência. Não de paraísos celestes, mas de uma Terra compreendida. O progresso, se existir, é luta contra a ignorância, contra o esquecimento. É persistir mesmo sabendo que a verdade é um espelho partido.

E então calaram-se. O silêncio entre eles era denso, quase tátil. Era o silêncio de quem soube demais. O silêncio de um escritor que agora sabia que escrever não era um ato de vaidade, mas de sobrevivência.

Naquela noite, Abelardo conheceu a hermenêutica do abismo. E jamais voltou a escrever da mesma maneira.

Parte IX - O Riso de Deus e o Eco do Abismo

Abelardo repousava sentado ainda ofegante, nu, enquanto Lúcifer, como quem contempla a moldura final de uma obra-prima, girava lentamente entre os cacos do que restava da antiga identidade do escritor. O tapete persa, antes palco de contemplativa solenidade, tornara-se agora altar sacrificial de uma alma dilacerada pela carne e pela ideia. A chuva cessara. Dentro do ateliê, um silêncio denso, quase viscoso, cobria as palavras não ditas. Era o momento propício. A hora em que o diálogo com o abismo começa.

— Abelardo, escuta-me com atenção. Tudo o que já discutimos foi apenas preâmbulo, prelúdio. Tu queres saber o que é a liberdade plena? Pois bem, para isso precisará compreender o que é a verdade. Mas cuidado, não aquela verdade que os padres e os cientistas tentam vender embaladas em dogmas e algoritmos. Refiro-me àquela que não cessa de sangrar, de escapar por entre os dedos.

Abelardo estremeceu, recobrando os sentidos como quem retorna de um sonho onde Deus morre sorrindo.

— A verdade, meu caro, não é uma posição fixada, é um processo em que não há fim senão retorno: Deus retorna a si mesmo, e os homens, se deificam, isto é, resolvem-se no todo divino. A defificação é o destino oculto da humanidade. Fazer-se Deus, eis o gesto derradeiro do homem que ousa.

Lúcifer senta-se no chão, pernas cruzadas como um mestre oriental.

— Porém, para que a deificação aconteça, é necessário primeiro escavar os entulhos da história. Pedro Abelardo já sabia disso: a verdade não está no dogma, mas na razão. A Bíblia sem razão é como um espelho dado a um cego. Compreende?

Abelardo assentiu com um movimento vago. As palavras vinham como trovões secos em seu peito.

— A hermenêutica é nossa espada. É preciso purificar as palavras, não para encontrar um sentido único, mas para abrir o leque dos sentidos possíveis. Não existe verdade, mas sim claridão. E mesmo esta é incerta.

Levantando-se com a leveza de um vulto, Lúcifer dirige-se à estante de livros.

— Alguns pensadores, por exemplo, não acreditavam em anjos, mas compreendiam os demônios. O homem, diziam eles, faz sua história, mas não como quer. Há sempre o peso dos mortos sobre os ombros dos vivos. E mais: não é a consciência que determina o ser, mas o ser social que determina a consciência. A história é, portanto, uma forja. Cada gesto teu é moldado por uma condição histórica que te precede.

— Mas então — interrompeu Abelardo, com voz grave — seremos sempre escravos das condições materiais? Nunca livres?

Lúcifer sorriu com a ternura de quem já assassinou todas as esperanças.

— Não necessariamente. Vejas tu, Nietzsche zombou disso. Chamou a história de um teatro onde Deus tropeça sobre seus próprios cacos. A história, segundo ele, é a perambulação de um Deus que, de tanto caminhar, esqueceu-se de quem era. Tornou-se história, mas às avessas. Eis por que a redenção não está no futuro, mas no eterno retorno do presente. O único instante.

Abelardo silencia. Por um momento, tudo pareceu um delírio demasiado humano.

— O anjo da história não voa para o futuro, mas de costas. — prossegue Lúcifer, agudo como um relâmpago — Ele contempla os escombros. Cada ruína, uma promessa não cumprida. Cada progresso, um silêncio imposto aos que tombaram. E é esse silêncio que precisamos romper.

Um estalo. Lúcifer estala os dedos e a luz do abajur pisca. O rosto de Abelardo parece envelhecido.

— Se queres ser livre, comece assumindo tua culpa. A autorresponsabilidade é o único nome da liberdade. Tudo o que vier é mentira.

Abelardo ergue-se, cambaleante.

— E a morte? Como aceitá-la? Como amar esse fim que tudo devora?

— Ama-a com a consciência de que o tempo é o único bem verdadeiramente irrecuperável. A morte não é ameaça, mas advertência; um chicote que desperta a carne adormecida. Cada instante perdido não retorna; apenas se acumula naquilo que deixaste de ser. Não se lamenta o destino: cumpre-se. Simplicidade, serenidade, resistência.

Abelardo, em prantos, ajoelha-se.

— E o que farei com tudo isso, Lúcifer? Que farei com essa consciência nova e desesperadora?

O anjo caído, agora de pé sobre o tapete, parece imenso, como um obelisco contra o mundo.

— Tu escreverás. Mas não mais para agradar os mortos. Nem para massagear teu ego. Escreverás com sangue, com vergonha, com verdade. Será teu castigo e tua salvação. Pois, no fim, todo escritor que ousa conhecer a verdade escreve contra si mesmo.

No abajur, a luz apagou.

No mundo, um novo abismo se abriu.

Parte X – A Anatomia da Liberdade: entre desejo e razão

Lúcifer, deitado de bruços, fitava a penumbra com um olhar lânguido e lívido. Seus olhos heterocrômicos pulsavam com uma luz interna e, ao mesmo tempo em que fulguravam como duas estrelas em crise, traduziam uma paz ameaçadora, o repouso anterior ao abismo. Abelardo, por sua vez, vestia apenas a vergonha. Estava calado, sentado sobre os próprios joelhos como quem aguarda penitência. O corpo ainda trêmulo, o espírito, mais ainda.

— Já sei o que perguntas — disse Lúcifer, com voz de veludo e lâmina. — Desejas saber se, enfim, és livre. Se essa entrega, esse gozo, esse êxtase que te arrebatou foi, de fato, um ato de liberdade ou apenas mais uma dança do desejo encarnado em tua carne moralista.

Abelardo hesitou. Tentou revirar os próprios pensamentos como quem folheia um livro molhado — as páginas colavam-se entre si, e a razão escorregava entre os dedos.

— A liberdade… — sussurrou — ...seria, então, isso? Fazer o que se quer? Entregar-se ao prazer? Afastar-se do sofrimento?

Lúcifer riu. Um riso triste, quase compassivo.

— O desejo é o primeiro nome da servidão — respondeu. — Quando desejas algo, não és tu que age, mas o desejo que age em ti. Quando sofres por não realizar o desejo, chamamos isso de dor. Quando o realizas, chamas de prazer. Em ambos, és apenas um escravo.

— E qual seria a alternativa? A apatia?

— A razão. Ou, para ser mais justo com os gregos, a ataraxia. Vês, meu caro, os estóicos sabiam: viver é morrer lentamente. Mas morrer com dignidade é um privilégio dos que se libertam das paixões. O sábio não teme a morte porque não se apega. Ele não deseja. Ele compreende.

Abelardo pigarreou. Queria resistir, mas o argumento era sedutor demais.

— Mas e o prazer? — indagou. — Ele não é também uma forma de liberdade?

— Apenas quando é racionalmente escolhido. O epicurista, por exemplo, não busca o prazer desenfreado, mas aquele que não traz dor consigo. A liberdade reside no domínio do desejo, não na sua saciedade. Libertar-se é compreender que não é livre aquele que segue todo impulso, mas aquele que sabe dizer ‘não’ ao que não convém à sua alma.

Lúcifer então se ergueu, nu e absoluto, e caminhou até a escrivaninha de Abelardo. Passou os dedos pelas margens dos livros.

— Um velho uma vez disse que ser livre é obedecer a uma lei que tu mesmo criaste. Quando ages conforme a razão, quando te tornas legislador de ti mesmo, aí sim, há liberdade. Tu és, simultaneamente, senhor e súdito de tua razão.

Abelardo se levantou. Havia algo novo em sua postura, uma rigidez reverente, como a de um monge que acaba de receber um ensinamento vital.

— Mas e a vontade coletiva? E o consenso? Não seríamos, também, responsáveis por construir, juntos, o que é bom para todos? — indagou.

— O consenso dos homens é apenas a maquiagem do medo. Os pactos sociais existem para apaziguar os fracos. Mas há algo de nobre nisso, reconheço. A liberdade consensual é a mais segura, porém não a mais verdadeira. Ela é utilitária, não autêntica.

— E se eu quiser ser livre, mas também justo?

— Então morrerás tentando, Abelardo. Pois a justiça não se dá sem renúncia, e a liberdade não se alcança sem dor.

Um silêncio cerimonioso caiu entre os dois. Pela janela, a noite parecia suspensa no tempo. Nenhuma estrela brilhava. Somente a névoa espessa dos que buscam compreender o infinito com a mente finita.

— Então — disse Abelardo, quase sem fôlego —, a liberdade é como um horizonte. Persegue-se, mas nunca se toca.

— Sim — respondeu Lúcifer. — E é justamente por isso que ela é divina.

E dizendo isso, Lúcifer tocou novamente a têmpora de Abelardo com delicadeza e mistério. E por um segundo, talvez menos, o escritor vislumbrou algo que jamais ousaria descrever. Pois há coisas que, se escritas, poderiam libertar... ou condenar para sempre.

Parte XI – O que resta quando tudo se entrega

O escritor flutuava. Sentia-se erguido por braços invisíveis, braços fortes como colunas gregas, porém suaves como o ventre de uma virgem mitológica. Seu corpo era conduzido por mãos que não doíam, mas curavam, não apertavam, mas sustentavam. Estava nu, entregue, submerso em um torpor beatífico que beirava o êxtase místico.

“Estou protegido?”, perguntava-se, a consciência retornando como um sussurro. “Será que é aqui que começa o processo de libertação? Será este o limiar da verdadeira liberdade? Quem é Lúcifer afinal, esse corpo pequeno e imenso, esse olhar que envolve, esse toque que dissolve o eu?”

Abelardo quis erguer a cabeça, contemplar o rosto de seu redentor ou algoz, mas uma força anterior ao tempo, silenciosa como a própria origem do universo, mantinha-lhe o pescoço imóvel. Tudo ao redor era fumaça e luz, como se tivesse adentrado o útero do cosmo ou o vórtice entre os mundos. Um líquido branco e espesso escorria de sua boca, mãos e entre as pernas, como os resíduos de uma oferenda que não se sabe se foi aceita.

E foi então que a sombra surgiu.

Deslizava entre a fumaça com a leveza de uma promessa e o peso de um fim. Era maior do que sua cabeça podia conceber, e ainda assim parecia caber inteira dentro de seus olhos. Aproximava-se com fúria silenciosa. Tudo o que Abelardo viu antes do apagamento foi uma boca; uma boca monstruosa, de dentes longos e irregulares, como os de uma criatura esquecida por Deus e venerada pelos antigos. E então, o escuro.

Parte XII – O fim

“Nas noites de frio é melhor nem nascer. Nas de calor, se escolhe, é matar ou morrer...”

A canção invadia seus ouvidos como uma profecia. Abelardo despertou, recostado sobre sua escrivaninha. Os fones ainda firmes, enterrados como pregos em sua carne. A luz do monitor piscava e a tempestade ainda batia contra a janela. Olhou em volta. Livros, canetas, a xícara vazia, o cheiro de café requentado. Tudo estava onde deveria estar. Ou quase.

— Foi um sonho? — murmurou, esfregando os olhos.

Mas havia algo no ar. Um silêncio espesso, como se o mundo aguardasse algo. Como se a realidade estivesse suspensa à espera de sua decisão.

Levantou-se, foi até a cozinha. Abriu a garrafa, bebeu um gole direto do bico como um sobrevivente que encontra água em deserto imaginado. O gosto era o mesmo de sempre, mas o sabor... o sabor parecia outro.

De volta ao ofício, sentiu o chamado do corpo, uma necessidade urgente e fisiológica, banal como qualquer desejo humano. Caminhou até o banheiro com passos inseguros, como se pisasse sobre um novo mundo.

Sentado no vaso, sentiu o alívio da urina quente escapando como um fluxo de consciência primitivo. Mas havia algo estranho. O jato amarelo parecia não ter fim. Um fluxo incessante, interminável, como se todo o líquido do universo estivesse sendo expelido por ele.

Ao terminar, ao ajustar as calças, notou. O ralo do box.

Estava ligeiramente fora do lugar.

E dele escorria um filete de líquido branco e espesso, serpentinizando-se lentamente pelo rejunte das pedras, como esperma que jamais deveria ter sido derramado ali.

Abelardo estremeceu. Tocou a têmpora. Ela ardia.

Epílogo – O Espelho e o Abismo

Dizem que todo homem, ao olhar tempo suficiente para o abismo, é olhado de volta. Mas poucos percebem que o abismo, ao fitá-los, os molda. E foi isso que aconteceu com Abelardo; não num gesto súbito, não em um estrondo visível, mas como uma erosão imperceptível da alma. Um dissolver-se. Um tornar-se outro.

Desde aquela noite, Abelardo nunca mais foi o mesmo. Ou talvez nunca tenha sido o que acreditava ser. A experiência com Lúcifer — ou o sonho, ou o delírio, ou o desvelamento — havia destituído sua vontade de certeza. Tudo lhe parecia possível, e, portanto, tudo lhe parecia falso. Compreendera, enfim, que a liberdade plena não era uma conquista gloriosa, mas um fardo trágico. Ser livre era ser condenado à escolha eterna entre infinitas máscaras, sem jamais repousar em um rosto definitivo.

A grande ilusão, aquela que sustenta os homens em pé diante do espelho todas as manhãs, é a crença num "eu" contínuo. Um eu fixo, que permanece o mesmo apesar dos dias, das dores e dos desastres. Abelardo, agora, via-se fragmentado: cada memória, cada desejo, cada palavra escrita era a encenação de uma identidade provisória; como um ator que já não sabe mais qual peça está encenando, mas não pode sair do palco.

Compreendera, enfim, o que Nietzsche sussurrava por entre os gritos de Zaratustra: não há essência, só criação. E a liberdade não é o direito de ser quem se é, mas a maldição de ter de inventar-se, a cada instante, sabendo que a própria invenção é transitória.

Lúcifer, aquele que porta a luz, não veio trazer perdição. Trouxe apenas o espelho. Um espelho polido com precisão filosófica, capaz de refletir não apenas o rosto do homem, mas o oco onde ele julga habitar.

E ao olhar-se ali, Abelardo viu o que todos os homens veem, se tiverem coragem: nada. Um nada que precisa ser preenchido, moldado, entalhado; um projeto interminável, como a escultura de um deus sem nome.

Abelardo escreveria, ainda, muitos outros livros. Todos diferentes. Todos falsos. E todos, à sua maneira, verdadeiros. Passou a viver com leveza, mas não com paz. Com lucidez, mas não com conforto. Porque há verdades que não libertam apenas acordam.

E, ao final de cada noite, antes de dormir, fitava o ralo do banheiro com uma ponta de temor e reverência. Pois sabia que ali, talvez, no escoar do que não pode ser dito, repousava o único portal para a verdadeira transfiguração.

Liberdade, enfim, era isso: saber-se devorável e seguir escrevendo mesmo assim.


Conto Uma Visita de Lúcifer.


Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.

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