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Terminal 344

“Nem tudo que acorda volta.”— Anônimo, rabiscado no espelho de um asilo psiquiátrico desativado

Homem cansado e mulher idosa sentados em banco de rodoviária vazia durante a madrugada, com relógio digital marcando 1:34 e -4°C ao fundo, enquanto uma figura sombria de cabelos longos surge atrás deles, criando atmosfera de suspense e terror.

No terminal 344 da rodoviária havia apenas um banco de três lugares. Uma senhora, ou algo semelhante, ocupava dois deles. O da esquerda, para o próprio corpo, frágil e encurvado pelo tempo; o do centro, tomado por uma mala grande, sem rodinhas, de um laranja desbotado, que invadia parte do terceiro assento com a indiferença de quem já se acostumou a não ceder espaço.

Estevão apressou o passo rumo ao lado direito do banco, o único fragmento de descanso disponível. Estava exausto, como se os ossos estivessem prestes a desistir de sustentá-lo. O dia fora longo, repleto de reuniões que só serviram para reforçar a inutilidade de seu esforço. Precisava sentar-se, reduzir a tensão dos ombros, silenciar a mente, evitar que a frustração transbordasse pelos olhos. Não queria chegar em casa com o rosto deformado pela derrota, de novo.

O ônibus partiria à 1h45 da madrugada. Um horário desumano, escolhido por uma empresa obscura que, como tantas outras, tratava o passageiro como gado silencioso. Estevão estava acompanhado apenas pelo arrependimento, pesado, viscoso, grudando-se nos pensamentos como mofo em uma parede úmida. Jurou para si mesmo que nunca mais faria uma viagem bate-volta de negócios no inverno. O retorno, naquela noite gelada, seria mais penoso do que as horas desperdiçadas entre negativas, olhares vazios e mãos que não se estendiam. Restavam ainda catorze horas de estrada, buracos, solavancos, um banheiro de cheiro indecifrável e poltronas que pareciam ter conhecido a última dignidade nos anos 90. Mas não havia alternativa. Era o que cabia no orçamento ou no que restava dele.

Estevão viajara à capital com a esperança de encontrar um patrocinador para seu novo filme. Mas esperança, em tempos de cólera, inflação e rumores de guerra, era quase uma superstição. E a proposta, convenhamos, beirava o delírio: um filme sobre os benefícios da autogestão social, uma crítica direta e cruel ao sistema econômico que apodrecia tudo o que tocava. O mesmo sistema que alimentava os bolsos dos que poderiam financiá-lo. Pedir dinheiro ao algoz para produzir o libelo do enforcado: insensato, mas não inédito.

Ele sabia. Sabia da impossibilidade, da ingenuidade, do fracasso quase certo. Ainda assim, havia tentado. Assumia a culpa por sua própria excitação, essa força misteriosa que o movia mesmo quando tudo ao redor cheirava a fim. Sua esposa chamava aquilo de “esperança doentia”. Talvez fosse. Mas era também o que o mantinha vivo. Depois de vinte anos de carreira, Estevão ainda se deixava tomar pela febre do começo. A cada novo projeto, era como se estreasse de novo a adrenalina da ideia, o suor da criação, o abismo diante do inédito. Essa ilusão recorrente era, ao mesmo tempo, sua maldição e seu milagre.

E naquela noite, dentro daquele terminal esquecido por Deus e pelos investimentos públicos, sentia-se mais iniciante do que nunca. Mais frágil. Mais próximo de algo que ainda não tinha nome, mas já roçava seus calcanhares com garras frias.

A noite estava fria. Um frio cortante, sujo, que parecia brotar do concreto e subir pelas entranhas. Na extremidade do terminal, um grande relógio digital retangular, preto, parecendo um picolé eletrônico à beira do colapso, exibia números vermelhos pulsantes, como os olhos de um animal noturno. Revezava entre marcar as horas e a temperatura. No momento, -4 °C. Frio demais para aquela época do ano. Mas Estevão já não se surpreendia com anomalias. O mundo estava se desfazendo em capítulos — mudanças climáticas, catástrofes ambientais, cidades afundando, florestas virando poeira. Já esperava encontrar um deserto na Amazônia no próximo ano. “Bom tema para um roteiro”, pensou. “Será que vou lembrar disso?” Procurar o caderno de ideias agora, com os dedos endurecidos e o cérebro encolhido pelo gelo? Sem chance.

— Licença. Boa noite. A senhora poderia puxar a mala um pouco para o lado, por favor?

A mulher continuava imóvel. Usava um gorro felpudo de lã que também era laranja e um cachecol da mesma cor. Ao lado, a enorme mala também laranja. Tudo nela parecia ser feito da mesma matéria: uma massa disforme, opaca, imóvel. Estevão notou que ela usava máscara. Algo comum em tempos de frio, sobretudo entre idosos, crianças e pessoas paranoicas. Desde a pandemia de 2020, que colheu milhares de vidas e deixou outras tantas corroídas pela ansiedade, o mundo aprendeu a cobrir o rosto diante de qualquer ameaça invisível. Estevão não julgava. Era ele próprio um desses hipocondríacos funcionais: evitava aglomerações, cumprimentava com o cotovelo, mantinha distância nos elevadores e, no inverno, restringia o convívio social ao mínimo necessário. A máscara, além de tudo, mantinha o nariz aquecido, um luxo naquela noite com sensação térmica de -10 °C.

O frio parecia concentrar-se no terminal, como se aquele ponto exato funcionasse como funil do vento. Estevão sentiu a espinha enrijecer. Quis se encostar. Qualquer proteção era bem-vinda. A mala da mulher, grande e macia como um travesseiro de hotel barato, poderia servir de amparo. Estava cansado demais para se importar com a proximidade. O concreto e o metal do banco lhe roubavam calor como se desejassem devorá-lo.

— Boa noite, senhora. Será que pode puxar sua mala um pouco? Só um espacinho...

A mulher permaneceu inerte. Sentada, ombros curvados, cabeça baixa como se olhasse para o colo. Estevão hesitou. Talvez estivesse dormindo. Ou desmaiada. Ou apenas alheia. Pelo horário, deduziu que ela aguardava o mesmo ônibus. Ainda era cedo, e o terminal estava quase vazio. A maior parte das luzes já havia sido apagada, restando apenas aquela iluminação esverdeada, trêmula, que fazia tudo parecer mais frio do que era.

Um arrepio subiu-lhe pela nuca. Não de frio, mas de uma sensação antiga, infantil, irracional. Algo estava... deslocado. Mas ele preferiu não nomear.

Decidiu que se sentaria, mas antes precisaria mover a mala um pouco para a esquerda, apenas o suficiente para libertar um fragmento do assento da direita. Hesitou. E se ela acordasse de súbito? E se pensasse estar sendo assaltada? O susto, a tensão, o frio... um infarto não seria improvável. Estevão congelou. Não poderia correr esse risco. Estava exausto, sim, mas ainda lúcido. Melhor seria anunciar sua presença com antecedência, fazer barulho, dar sinais, tornar-se previsível aos olhos da velha — se é que ela ainda o tinha.

Decidiu então dar uma volta pela plataforma do Terminal 344, arrastando sua mala de rodinhas de forma intencionalmente ruidosa. O som plástico das rodinhas trêmulas no concreto ecoava pelo espaço oco, gerando um ruído desconfortável, quase animal.

Para reforçar o efeito, começou a assobiar. “I Want to Break Free”, do Queen. Sua música preferida. Não apenas uma canção, mas um grito de guerra. Sempre que precisava de coragem, a evocava. Foi com ela que abandonou a vida previsível de contador para lançar-se no abismo do cinema e do teatro. Aquela melodia era, para ele, sinônimo de decisão, de liberdade, de escolha. "I've fallen in love... I've fallen in love for the first time..."

A lembrança o aqueceu por dentro, ainda que de forma breve. Pensar naquele salto, tão ousado, tão desafiador, lhe trazia certo consolo. Nenhum outro momento da vida havia sido tão aterrador quanto aquele. E por isso mesmo, tornara-se sua âncora: sempre que enfrentava uma situação difícil, resgatava aquele instante. Era como se dissesse a si mesmo: “Se suportei aquilo, posso suportar qualquer coisa.”

E, até então, funcionava. Até aquela noite no Terminal 344.

Estevão continuava caminhando ao longo da plataforma, assobiando e cantando sem o menor constrangimento em relação ao barulho que as rodinhas da mala faziam, um som áspero, metálico, que agora parecia até confortável por preencher o vazio quase total da rodoviária.

Em algum momento da caminhada, esqueceu-se do propósito inicial, anunciar sua presença à senhora laranja. Os passos diminuíram. A mente, antes anestesiada pelo cansaço, começou a observar. O ambiente merecia atenção.

A rodoviária era pequena demais para uma capital. Apenas quatro plataformas, dispostas paralelamente, separadas por ruas de paralelepípedo, caminho por onde os ônibus deveriam circular. Essas ruas desembocavam numa grande curva ao fundo, conduzindo os veículos até a saída. O sistema era simples, funcional, espartano. Mas havia algo ali... estranho.

Cada plataforma era cercada por uma grade metálica que alcançava a altura da cintura de uma pessoa de altura mediana. As plataformas, apesar da estrutura contida, pareciam alocar uma lógica própria, cada uma com quatro terminais, numerados de forma aleatória, quase provocativa.

A dele, na quarta plataforma, era o primeiro da fileira: Terminal 344. À sua esquerda, os terminais 23, 1048 e, por fim, 851. Nenhuma sequência. Nenhuma lógica.

Mas foi ao olhar para a plataforma 3 que um incômodo mais sutil se instalou. Os terminais ali pareciam ecoar um mesmo ruído mudo: todos os números eram variações do zero. 00. 000. 0000.

Estevão leu uma, duas vezes, tentando encontrar um sentido. Nada. Apenas repetições. Como se alguém tivesse digitado zeros ao acaso, sem nenhuma preocupação com sentido ou padrão. Talvez fosse falha no sistema. Ou desleixo. Mas ali, naquela noite fria e quieta, parecia deliberado.

Cada terminal possuía seu próprio banco de três lugares. Todos estavam vazios. Todos, exceto o Terminal 344. Onde ele e a senhora de acessórios laranjas compartilhavam, ainda que silenciosamente, um mesmo espaço.

A quarta plataforma era a mais interna. Ali ficavam os banheiros, as lanchonetes e algumas portas de lojas, todas fechadas, com exceção dos banheiros.

Estevão parou diante de uma placa fixada no alto da parede. Horário de funcionamento: das 06:00 às 22:00. De segunda a segunda. Olhou para o relógio digital, ao longe, ainda pulsando em vermelho: 12:45. Estavam, portanto, em horário morto. Fora do expediente. Fora do mundo.

E então, pela primeira vez, sentiu algo mais fundo que o frio. No fim das plataformas, além da grande curva que conduzia os ônibus para a saída, havia um terreno vasto coberto de mato alto. Quatro postes com refletores de LED branca estavam posicionados como sentinelas, iluminando parcialmente aquela vegetação. O restante do terreno mergulhava numa escuridão sem bordas, como se o mundo acabasse ali.

O matagal, esquecido, crescia sem ordem. Plantas com mais de um metro de altura se balançavam sob a força do vento. Apesar do frio brutal, os caules permaneciam verdes, vivos, como se aquele pedaço da cidade obedecesse a outra estação, ou a outro tipo de lógica. O som do vento cortando os capins emitia um ruído constante, ondulante, semelhante ao mar. Um ruído branco hipnótico, que trazia um conforto estranho diante do frio metálico que cobria tudo.

Estevão parou no limiar da rodoviária, a aproximadamente dois metros da grade que delimitava e separava a plataforma do matagal. Imóvel, olhando. O mato se movia como uma cabeleira viva, verde e longa, ondulando de um lado para o outro ao comando do vento.

Um mar que não era água. Por um tempo que não soube medir, ele permaneceu em transe, hipnotizado pela dança das folhas. Quando finalmente voltou a si, percebeu que havia perdido a noção do tempo. Olhou para seu terminal: a mulher seguia lá, imóvel, na mesma posição, como se congelada.

Antes de retornar ao banco, lançou um último olhar para o terreno. Um adeus àquele mar de tranquilidade.

E então viu. No limite entre a claridade dos refletores e a escuridão absoluta, havia alguém. Entre os capins, uma mulher o observava, do mesmo modo que ele observava o mato. Uma figura parada, silenciosa, quase engolida pela vegetação, exceto pela cabeça. Uma cabeça flutuando sobre o mato, sem corpo visível. Os olhos, fixos. Sem piscar.

Um arrepio subiu pela espinha de Estevão como um fio de gelo até alcançar o crânio. Um medo ancestral, involuntário, enraizado na biologia da sobrevivência. Tentou racionalizar. Estava cansado, tenso, sugestionável. Era apenas sua mente. Era o frio. Era a solidão.

Para comprovar sua hipótese, caminhou até a grade que separava a rodoviária do terreno. Debruçou-se, esticou o corpo o máximo que pôde, forçando os olhos para enxergar entre a sombra e a luz. Mas ela continuava lá. A mulher. Parada. Encarando-o.No meio do mato, o corpo oculto pelas folhas. A cabeça parada como uma pedra. Os olhos abertos, imóveis.

Estevão congelou. Como um animal acuado que espera que o predador o esqueça. Quando finalmente conseguiu se mover, afastou-se da grade. Precisava sair dali. Precisava descansar.

Retomou a caminhada em direção ao Terminal 344, mas o mundo havia mudado. A leveza se dissolvera. A música não voltava. Nem assobio. Nem letra. Nada.A sensação de ser observado o acompanhava como um vulto grudado nas costas.

A ansiedade se apoderou dele. Olhava em todas as direções, repetidamente. O frio aumentava. O ar parecia mais denso. Queria chegar logo ao banco. Queria se sentar. Queria fingir que nada daquilo estava acontecendo.

Retomou a caminhada de volta ao banco, mais rápido do que gostaria de admitir. Mas não deu nem cinco passos quando, à metade do caminho, algo o paralisou.

Atrás de uma das pilastras, metade de um rosto. Um olho apenas, grande, arregalado, imóvel, o observava. Cabelos pretos e longos, colados ao rosto por uma oleosidade suja, emolduravam a pele pálida como cera.

O coração de Estevão disparou. Um martelar surdo dentro da caixa torácica.

— Quem está aí? — perguntou, a voz falhando no final. O corpo, mais uma vez, em posição de defesa.

Nenhuma resposta. O olho permanecia ali. Fixo. Sem piscar. A vigília de algo que não precisava piscar. O medo retornou com mais força. Arrepios tomaram seu corpo inteiro, não do frio, mas do instinto. Algo estava errado. Fundamentalmente errado.

O banco estava logo adiante. Não havia outro caminho. Reuniu coragem e decidiu correr. Um... dois... três...

Disparou com a mala rangendo atrás, as rodinhas tropeçando nos desníveis do chão. Ao passar pela pilastra, lançou um olhar apressado para o “vigia” e então viu. Um boneco de papelão daqueles usados em propagandas. Um rosto humano, tamanho real, colado à estrutura como se zombasse da sua sensibilidade. Estevão parou. Respirou. Tocou o papelão. Riu. Uma risada alta, nervosa. Uma risada de quem tenta impedir a loucura de se aproximar demais. Balançou o boneco, como se pedisse desculpas por sua covardia. Olhou ao redor, ainda na esperança de encontrar uma câmera, uma pegadinha, qualquer coisa que justificasse a sequência absurda. Nada. Suspirou.

Caminhou de volta ao banco do Terminal 344. Sentou-se. Respirou fundo. Fechou os olhos. Tentou voltar para dentro. Mas agora, o medo se impunha ao frio e os dois formavam uma couraça anestésica, espessa, que envolvia todo o seu corpo. Ele estava presente, mas não sentia mais o corpo com nitidez.

A sensação de ser observado continuava. Vinha em ondas, como o vento que atravessava a plataforma. Um vento que parecia nascer do terreno escuro atrás da curva.

O som do mato tornou-se hipnótico. Não era mais só um ruído branco. Era... algo além. Batidas leves, como passos. Estalos de folhas sendo pisadas. Eram decibéis impossíveis para simples folhas roçando umas nas outras.

Mas Estevão não percebeu. Seu foco agora era o medo. O frio. E a tentativa falha de manter o controle. Queria se acalmar. Precisava. Mas quando desejamos a calma... ela se esconde. Como um animal ferido. Ou pior, como um animal à espreita.

Estevão tentou manter os olhos fechados. Respirar fundo. Contar até dez. Lembrar de sua terapeuta dizendo que a mente cria fantasmas quando o corpo está em alerta. Lembrar da infância, da primeira vez que dormiu sozinho no escuro e sentia que havia algo debaixo da cama. Ou da segunda vez, quando sentia que alguém no canto escuro do quarto o observava. Tentou. Mas o som do mato se tornara ensurdecedor.

Não era mais um ruído de folhas. Era um sussurro arrastado, como se alguém caminhasse lentamente por entre os talos, raspando os pés no chão de terra. O som se aproximava. E o vento agora vinha em pulsos, como uma respiração. Longa. Compassada. Quase humana.

Estevão abriu os olhos.

O relógio digital, ao fundo, agora marcava 01:32. Faltavam 13 minutos para o ônibus. Olhou para o lado. A senhora ainda estava lá ou ao menos, ainda havia alguém sentado ali. Mesma mala laranja. Mesmo gorro felpudo. Mas algo havia mudado. Demorou um instante para perceber.

O cachecol, antes enrolado no pescoço, agora estava caído sobre o colo, como se tivesse sido cuidadosamente retirado. A cabeça, antes inclinada para frente, como se apoiada sobre o próprio peito, agora estava mais ereta. E o pior: o corpo estava totalmente voltado na direção de Stephen.

Ele engoliu em seco.

Não queria olhar para o rosto. Algo dentro dele suplicava: não olhe. Fique parado. Espere o ônibus. Respire. Mas a curiosidade é a pior das maldições humanas.

Ele olhou.

Os olhos estavam abertos. Não era o tipo de abertura de quem acorda, mas de quem nunca piscou. Olhos opacos, sem brilho, sem reflexo, como vidro velho, miravam diretamente para ele. A boca da velha laranja estava escancarada. Um buraco completamente preto. Sem dentes. Sem língua.

Estevão se ergueu instintivamente. Um impulso que não controlou. O banco rangeu sob seu peso. E então ela moveu os dedos. Lentamente. Como se estivesse reanimando os ossos. Um estalar seco acompanhou o gesto. Como madeira sendo forçada.

Estevão recuou um passo. Depois outro. Não conseguia pensar. Só sentia o frio aumentar, como se cada célula do seu corpo estivesse sendo mergulhada em gelo.

A senhora laranja, como se respondesse a esse pensamento, começou a sorrir. A boca começou a se movimentar lentamente para forçar um sorriso. Um sorriso quebrado, torto, forçado que parecia ter sido aprendido por tentativa e erro.

Estevão não sabia há quanto tempo estava de pé. A velha, ou o que quer que fosse, não se movia mais. Ainda sorria. O vento cessara. O som do mato, também. O mundo inteiro parecia suspenso.

Então, como se obedecesse a um comando mudo, ela começou a se levantar. Sem pressa. O corpo rangendo como madeira antiga.

Estevão não esperou mais. Virou-se para correr. Correr pelas plataformas. Imaginou-se pulando as grades. A mesma iluminação pálida. Os mesmos bancos vazios. A mesma propaganda de papelão com olhos que pareciam seguir seus movimentos. Imaginou que tudo estaria igual. Terrivelmente igual.

Porém não esperava que iria se deparar com a mulher do matagal. Logo atrás dele ela estava, próxima demais. Os olhos opacos, arregalados, sem qualquer sinal de vida. A boca sem dentes formando um buraco sem luz. Os lábios ressecados, esticados em um sorriso estranhamento forçado e torto.

Por um instante, Estevão não se moveu. O corpo travado, como se ainda tentasse compreender o que via. Não havia som. Nem vento. Nem o ruído do mato. Apenas aquelas duas presenças, imóveis e absolutas, e ele ocupando o espaço entre elas.

Era como se tivesse sido capturado por uma fissura do tempo. À sua frente, a mulher do matagal, jovem apenas na forma, carregando uma vida ainda não vivida, mas já corrompida por algo anterior à própria existência. Atrás, a velha vestida de laranja, curvada, gasta, como um resto de tempo que se recusa a desaparecer. Entre ambas, Estevão não era mais homem, mas intervalo — um ponto suspenso entre o que começa e o que termina, entre o que nasce deformado e o que apodrece sem fim. Duas faces de uma mesma continuidade, dois extremos que se dobravam sobre si, e ele ali, comprimido, como se o tempo, incapaz de avançar, tivesse decidido fechá-lo dentro de si.

Então veio o impulso. Virou-se e correu.

Passou pelos banheiros, pelas lojas fechadas, pelo relógio tentando se agarrar a qualquer sinal de normalidade, como se o mundo ainda obedecesse a alguma lógica. Mas, ao virar o corredor, percebeu que não havia mais distância suficiente entre ele e aquilo que o perseguia. A mulher do matagal não corria. Não precisava. Estava sempre atrás dele. O espaço parecia se repetir. As plataformas não levavam a lugar algum. Os bancos, as luzes, as grades, tudo retornava, ligeiramente deslocado, como se o terminal estivesse dobrado sobre si mesmo. Estevão corria, mas não avançava. O ar começou a falhar. Os pulmões não enchiam completamente. O peito travava a cada tentativa de respiração mais profunda. O coração, antes disparado, agora batia pesado, irregular, como se também estivesse sendo comprimido. Ele tentou gritar, mas não saiu nenhum som.

Foi então que percebeu. As pernas ainda se moviam, ou pareciam se mover, mas o corpo já não respondia como antes. Havia um atraso, uma resistência invisível, como se algo o segurasse por dentro. As mulheres atrás dele continuavam sorrindo, sempre na mesma distância, sempre próximas demais. Estevão tentou acelerar; não conseguiu. Tentou virar o corpo; não conseguiu. Tentou fechar os olhos, mas nem isso lhe foi concedido.

E, nesse instante, algo se deslocou. Não no espaço, mas dentro dele. A corrida cessou, não porque ele parou, mas porque nunca houve movimento. O terminal não desapareceu, apenas perdeu consistência, como uma imagem mal ajustada sobre outra. As luzes, os bancos, o matagal, a mulher, tudo permanecia, mas agora como sobreposição.

Ele estava sentado no banco. No Terminal 344. O corpo imóvel, os olhos abertos, e a senhora laranja diante dele, muito perto, perto demais. As mãos dela estavam sobre seus ombros, sacudindo-o lentamente, com insistência. A voz chegou abafada, como se atravessasse água.

— Moço… acorda…

Ele tentou responder. Nada. Tentou mover os dedos. Nada. Tentou respirar fundo, mas o peito não se abriu. A compreensão veio com clareza brutal. Era paralisia do sono. O corpo desperto, a mente acordada, e nenhum comando possível. Uma consciência presa dentro da própria carne.

O desespero cresceu rápido, absoluto. Ele queria acordar, queria gritar, queria fugir, mas tudo o que havia era aquela imobilidade total. E, diante dele, a senhora sorria. Agora mais amplo, mais estável, como se finalmente tivesse aprendido a forma correta daquele gesto.

— Já passou… — disse ela, inclinando levemente a cabeça. — Às vezes demora mesmo…

Estevão tentou se convencer de que aquilo era apenas parte do fenômeno, uma alucinação, um resíduo do medo. Mas então percebeu o cheiro. Terra úmida. Mato. Frio. E, ao fundo, o mesmo som, constante, ondulante, como o vento atravessando o capim, ou algo caminhando entre eles.

A senhora aproximou o rosto, devagar, até ficar próxima demais.

— É só não resistir… — sussurrou.

E, naquele instante, Estevão já não sabia se estava acordando ou se, dentro daquele corpo imóvel, jamais tivera despertado de fato.


Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.

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