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Taturanas

Foto do escritor: Pedro Sucupira
Pedro Sucupira
12 de jul. de 2024
8 min de leitura

Atualizado: 6 de out.


Lagarta Lonomia obliqua, conhecida como taturana, com corpo escuro e espinhos verdes urticantes, rastejando sobre superfície preta — inseto venenoso típico da América do Sul.

Estava em uma cabana de madeira, aconchegante e calorosa, semelhante àqueles chalés de montanha onde trabalhadores se refugiam aos fins de semana, cercando-se de neve e silêncio. Debruçado no parapeito de uma das janelas, envolto em roupas invernais, observava o que se passava do lado de fora. Não havia árvores ou variações no relevo; tudo era plano, absolutamente homogêneo e coberto por neve. Para onde se estendia aquele terreno, não era dado saber, pois uma névoa branca acinzentada pairava no horizonte.

Mas não era a vastidão branca o que mais me intrigava, e sim as criaturas. Altas como girafas, de pele áspera e cor de musgo, curvadas como cabos de guarda-chuva, caminhavam em passos lentos pelo terreno gelado. Suas vértebras se sobressaiam de tal maneira que pareciam prestes a rasgar a pele, já esticada. Andavam como sentinelas descompassadas, seguidas por caudas bifurcadas e volumosas. Farejavam o ar com seus focinhos desmesurados, olhos arregalados e sem esclera, sem íris, apenas uma pupila amarela inteiramente dilatada. A respiração quente condensava-se no ar frio em grandes lufadas, tornando-as chaminés ambulantes.

Sair da cabana seria, ao mesmo tempo, improvável e desnecessário. Ali estava seguro, era meu refúgio. A comida era inesgotável; as poltronas, sempre limpas; a água do banho, perpetuamente quente. Roupas confortáveis, recentemente lavadas e com perfume de amaciante. Diversão havia em excesso. Era meu lugar ideal. Ali, eu era feliz, pois nada podia me ferir. Do lado de fora, o mundo consciente, frio, com seus monstros. Dentro, o subconsciente.

Permaneci ali por alguns instantes, como se ainda houvesse algo a ser compreendido naquela fronteira entre o dentro e o fora. Mas o corpo, mais prático que a mente, exigiu retorno. Afastei-me da contemplação do externo, ainda com aquela sensação turva colada ao pensamento, e fui ao banheiro.

No banho, usufruindo os últimos minutos daquela água quente e redentora, a água de uma criança sem boletos e abusos, reparei no ralo. Algo se movia sob os pequenos orifícios. Curioso, abaixei-me, ajoelhei-me e, como numa flexão, aproximei o rosto. Então, um susto. O corpo reagiu. Escorreguei, caí, bati o rosto no piso. Lá estava ela: uma taturana, corpo verde-musgo e o dorso coberto por milhares de pelinhos verde-fluorescentes. O contraste criava uma ilusão de movimento. Caído, a água batendo nas costas, eu me arrepiava observando aquela criatura lutar contra a corrente.

Sempre temi taturanas, todas elas. Esse medo era o meu mascote, uma parte da psique exclusivamente dedicada a ele. Vivia alerta, desviava, fugia. Enfrentá-las? Nunca. Minhas emoções, como ainda hoje, eram irracionais. Não pensei em fechar o ralo, nem em desligar o chuveiro, muito menos em me enxugar. A ideia de uma taturana presa à toalha era intolerável. A única saída era fugir.

Saí do banheiro às pressas, ainda molhado, nu, deixando um rastro de água pelo chão. O ar fora do vapor pareceu mais frio, mais duro, como se me devolvesse abruptamente a um outro plano. Atravessei o corredor sem olhar para trás, mas a sensação de que algo me acompanhava persistia, grudada à pele, indistinta.

Quando cheguei à sala, lá estava ele, agachado.

O que ele faz aqui?

Um medo misturado a um prazer confuso percorreu minha espinha. Havia naquela presença sorrateira gestos que, embora nunca nomeados, carregavam algo de indevido, nascidos de uma intimidade proibida. Perto dele, havia uma sensação perturbadora de existência, como se, por um instante, eu deixasse de ser invisível. Seus toques, ainda que estranhos, eram tudo menos ausência, ocupavam um espaço que ninguém mais preenchia. Não ter plena consciência do que era fazia parte do funcionamento.

— Olha, venha ver. — Sem se virar, acenou para que eu me aproximasse.

No chão, havia uma folha de papel. No centro dela, uma taturana. Com um isqueiro, ele ateava fogo nas bordas. Quando as chamas a alcançaram, ela se contorceu, enroscou-se sobre si mesma, até tornar-se um círculo chamuscado.

Ainda nu, com a água do corpo quase seca, agachei ao lado dele e abracei-me por um instante. Ao toque de suas mãos, meu corpo se contraiu sozinho. Com o tempo, aprende-se a não resistir, a não perguntar, a não reagir. Mesmo quando havia dor, ela se dissolvia em algo indistinto, incapaz de se fixar como lembrança clara. Restava apenas um eco, guardado em algum lugar fundo demais para ser alcançado. Ele me abraçou e juntos assistimos àquela morte por fogo.

Desde o primeiro momento ele se tornou figura presente. O que antes acontecia de vez em quando transformou-se em hábito. Queimar taturanas tornou-se nosso ritual silencioso, um segredo que existia apenas entre nós dois.

Sem perceber comecei a esperá-lo. Não propriamente por ele, mas pelas taturanas. Aos poucos, elas deixaram de aparecer apenas nos cantos da casa e surgiam nos lugares menos esperados. Ou talvez sempre tenham estado ali, e fossem os meus olhos que haviam aprendido a procurá-las.

Um dia, durante o jantar, vi uma delas imóvel na borda da pia. Interrompi a mastigação. Ficamos os dois parados, ela sobre o granito frio, eu com o garfo suspenso no ar. Depois de um tempo — quanto, não saberia dizer — começou a andar devagar, contornou a torneira e desapareceu por trás do azulejo. No meio de qualquer tarefa, alguma coisa me fazia erguer a cabeça e percorrer as paredes com os olhos. Não era exatamente um pensamento, mas parecia uma lembrança sem imagem, um pressentimento que pousava sobre o peito e logo se dissolvia, deixando apenas a sensação de que eu havia me esquecido de alguma coisa importante. Às vezes o braço esquerdo coçava. Eu, por medo, não olhava.

Numa tarde, a luz atravessava a janela da sala e desenhava um retângulo claro sobre o piso. Foi ali que a vi, maior do que as outras, o corpo verde, quase fluorescente, ondulava lentamente enquanto atravessava a parede em direção ao batente da porta. Os pelos estremeciam a cada movimento, como se respirassem.

Fiquei imóvel. Ela avançou alguns centímetros, arqueou o corpo e permaneceu parada, suspensa entre a claridade e a sombra. Também não me movi. Só quando desapareceu por trás da guarnição da porta consegui respirar outra vez.

De onde estava, escutei seus passos e sua voz me chamando. Parado no batente da porta, sua sombra era maior que seu corpo, exigiu que queimássemos mais uma. “Das grandes”, disse, com um sorriso torto que me gelou a espinha. Mas, desta vez, eu teria de acender. Ele queria que eu queimasse. Que eu fosse, enfim, cúmplice por completo. A ordem era clara e irrecusável.

Senti o estômago revirar. A pele do rosto ficou fria, úmida. Ansiedade e calafrios me percorreram como uma corrente de agulhas finas, e os dedos, estes traidores, já não respondiam. Cada mínimo movimento da taturana produzia em mim um tremor, um espasmo involuntário. Aquele ser grotesco e viscoso se arrastava com a lentidão de um presságio, e eu sabia, sabia que não havia saída. A tarefa exigia confiança, destreza e um coração insensível e eu era um poço de hesitação. Titubeei. Falhei. E falharia de novo, se me fosse permitido.

Sem alterar o tom, os movimentos calculados, ele empurrava a nova criatura para o centro da folha com a frieza de um carrasco, como quem guia um condenado à fogueira. Eu recuava, tropeçava nas próprias pernas, como um animal acuado. Tentava, em vão, desaparecer. Mais tentativas. Mais fracassos. Então, ele sugeriu álcool.

O cheiro adentrou minhas narinas como um soco. Áspero, invasivo, pareceu incendiar o interior da cabeça. Eu quase cedi ao impulso de fugir, de gritar. Mas não. Eu confiava nele. Não por escolha, mas por medo.

Obedeci. Como se guiado por mãos invisíveis, aproximei o isqueiro. O fogo, faminto, se alastrou num segundo. As chamas engoliram a folha, lamberam os contornos, e por fim alcançaram a taturana. Ela se retorceu numa espiral enlouquecida, e antes que eu pudesse reagir, saltou direto sobre minha perna.

A dor veio como um trovão silencioso, aguda, lancinante, rasgou a carne e se espalhou pelas entranhas. Eu quis gritar, mas apenas um gemido abafado escapou.

— Silêncio!

Tentei me livrar. Em desespero, me sacudia, como se isso bastasse. A taturana, cruel, rastejava sobre minha coxa, deixando um rastro viscoso, uma linha avermelhada e gosmenta que parecia pulsar. Sacudi as pernas, bati com a mão. Outro erro. Uma dor nova, mais profunda, mais vil, percorreu meu braço e atingiu a base da nuca com a intensidade de uma facada.

A realidade se dissolvia. Os sons se tornaram abafados, a visão turva, como se eu afundasse em um lago lodoso. Senti-me um objeto, um farrapo, entregue a forças que não compreendia e, quando o corpo já não suportava mais, o mundo apagou. Desmaiei.

Despertei como alguém que emerge de um afogamento. Os olhos, colados por crostas espessas de remela endurecida, resistiam a se abrir. O esforço de separá-los foi uma tortura breve, mas suficiente para trazer a consciência do corpo: ardia em febre. Sentia, com precisão, o sangue pulsando em direção às regiões feridas.

Tentei permanecer na cama, mas o peso da ansiedade somado ao medo era insuportável. Tentei descer, apoiei o pé direito no chão, e ele fraquejou como um galho seco. Um jorro de dor, de dentro para fora, percorreu a perna como uma fisgada. Apoiei-me na parede e avancei, mancando, sem saber por que, para onde, ou mesmo se valia a pena ir. O instinto guiava os passos.

A penumbra dominava a cabana, e dela apenas filtrava-se a luz mortiça de um dia cinzento, neve e névoa. As sombras tomavam os cantos, e tudo parecia pulsar, como se a casa respirasse.

Foi nesse instante que notei: as paredes... as paredes ondulavam. Tentei focar a visão. E à medida que meus olhos se ajustavam, a verdade se desenhava, horrenda, irreversível.

A cabana por dentro estava viva.

Milhões de taturanas rastejavam com seus corpos verde-musgo, pelos fluorescentes vibrando. Enroscavam-se umas nas outras, numa dança macabra, um frenesi. As paredes pulsavam por causa delas. O teto... o teto parecia prestes a desabar sob o peso daqueles corpos nojentos, viscosos, implacáveis.

No centro da sala, sobre o chão, formava-se uma massa disforme, pulsante, quase viva. Um monte fervilhante de taturanas que se engalfinhavam em luta violenta, frenética, emitindo ruídos agudos, um grunhido lancinante, que penetrava nos ouvidos como hienas ao redor de carniça, cegas de fome, de raiva, de ódio.

Diante daquela cena, meu estômago se revoltou. Um jato de vômito amargo, ácido, de um amarelo esverdeado irrompeu sem aviso e caiu direto sobre aquela massa fervente. As taturanas se dispersaram, ainda que por instantes, e ali, entre elas, jazia... o corpo dele.

Eu paralisei. Nem fuga, nem ataque. Apenas o terror absoluto. Os músculos, antes tensos, se tornaram de chumbo. Os olhos não se mexiam, a boca entreaberta. Nada. Eu estava encurralado. Não havia escapatória. Uma morte lenta, em dor dilacerante, enquanto aqueles corpos rastejantes me absorveriam como haviam feito com ele.

Ali, diante daquela cena de horror, algo em mim cedeu, uma espécie de deslocamento lento, como se o sentido das coisas tivesse se desajustado por dentro.

Demorei a entender.

A compreensão veio, como se algo, por muito tempo contido, finalmente encontrasse passagem, uma sensação que se impunha antes das palavras. Sempre temi as taturanas. Sempre repugnei seus corpos. Sempre herdei esse medo, de onde, não saberia dizer. Talvez de outros, antes de mim, que também aprenderam a recuar diante do que não compreendiam.

Mas ali, pela primeira vez, algo se invertia. Elas também tinham medo e, por um instante raro, esse medo era comum. Não fui eu o alvo. Nunca fui. Estive sempre ao lado errado da história, olhando de fora, confundindo defesa com ameaça.

O medo, sem encontrar onde se sustentar, dissolveu-se. No lugar dele, uma estranha tranquilidade.

O monstro estava morto. As taturanas seguiam ali.

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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.

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