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Pesadelos e Paisagens Noturnas II — O lado mais humano e sombrio de Stephen King

Atualizado: 22 de mai.

Originalmente publicado como um único volume nos Estados Unidos, Pesadelos e Paisagens Noturnas chegou ao Brasil dividido em dois. A explicação para isso? Simples, e tão previsível quanto um susto bem colocado em um filme de terror: money, money, money. A velha estratégia editorial de lucrar dobrado às custas da curiosidade dos fãs. Mas com Stephen King, a verdade é que pagamos, e pagamos contentes.

Capa do livro Pesadelos e Paisagens Noturnas II, de Stephen King, com tons escuros e tipografia marcante, evocando o clima sombrio e psicológico da coletânea.

Pesadelos e Paisagens Noturnas II apresenta um King um pouco diferente daquele que os leitores de O Iluminado ou It: A Coisa esperam encontrar. Embora ainda haja suspense, estranheza e um toque de terror, muitos contos aqui exploram uma faceta mais pessoal, íntima e até melancólica do autor. É um King mais reflexivo, menos preocupado em provocar calafrios e mais interessado em tocar aquilo que é humano, frágil, cotidiano, e, por isso mesmo, assustador.

Já na introdução, o autor entrega ao leitor um fragmento comovente da própria vida, revelando a função quase terapêutica da literatura:

“O que é bem escrito, as boas histórias, são o precursor da imaginação e, creio eu, a finalidade da imaginação é nos proporcionar consolo e proteção em situações e passagens da vida que, de outro modo, seriam insuportáveis. É claro que só posso falar por minha própria experiência, mas, para mim, a imaginação que tantas vezes me manteve acordado de pavor quando criança me fez, como adulto, vencer alguns encontros terríveis de dura realidade alucinante.”

Ler isso foi como ler a mim mesmo. É nesse ponto que o leitor e o autor se encontram, naquele espaço invisível onde a ficção deixa de ser fuga e se torna abrigo.

Avaliar um livro de contos, como sempre, é tarefa ingrata. Haverá inevitavelmente aqueles que nos arrebatam e aqueles que passam sem grandes ecos. Mas uma coisa é inegável: todos os contos de King são tecnicamente impecáveis. Seja pela construção da tensão, seja pela forma como ele manipula as expectativas do leitor, seja pela habilidade em transformar o banal em perturbador.

Em Pesadelos e Paisagens Noturnas II, há contos de tirar o fôlego. Alguns me deixaram com o coração na garganta do início ao fim:

·       Desculpe, Número Certo — claustrofóbico e desesperador.

·       Crouch End — um mergulho lovecraftiano em uma Londres sinistra.

·       Estação Chuvosa — grotesco e visceral no melhor estilo King.

Outros seguem um caminho mais contido, quase sutil, mas ainda assim magnéticos:

·       O Caso do Doutor

·       A Casa da Rua Maple

·       As Pessoas das Dez Horas

·       A Quinta Quarta Parte

Esses operam mais no campo da estranheza e do desconforto do que do susto. São contos que sussurram, em vez de gritar. E isso, muitas vezes, é ainda mais eficiente.

Do outro lado, Meu Cavalinho Bonito e Abaixe a Cabeça não me conquistaram com a mesma força. Talvez pela temática, talvez pela execução. Mas nem por isso são dispensáveis. Mesmo os contos menos impactantes de King guardam um certo brilho, como os pesadelos que a gente não entende direito, mas que continuam voltando à memória dias depois.

O que Pesadelos e Paisagens Noturnas II oferece, no fim das contas, é um passeio por múltiplas atmosferas. É como se King dissesse: “Olhe, eu também sei escrever assim. E assim. E também assim.” E ele sabe. A coletânea é prova disso.

Se a intenção era mostrar outras facetas de sua escrita e nos levar a experimentar sentimentos variados, tensão, empatia, estranheza, até melancolia, então missão cumprida. E cumprida com louvor.

Aos fãs, resta torcer para que mais dessas paisagens noturnas sejam publicadas em breve. Porque, quando é King que guia, mesmo o caminho mais sombrio vale a pena.

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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.

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