O Olho Mais Azul — A infância negra sob o olhar cortante de Toni Morrison
- Pedro Sucupira
- 18 de fev de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 22 de mai
O Olho Mais Azul é um daqueles livros que te atravessam por completo. Após a leitura, tudo o que se deseja é que mais pessoas leiam, sintam, se transformem também. É o tipo de obra que dá vontade de partilhar, de conversar sobre, de deixar reverberar. Quando terminei a leitura, corri a procurar amigos que já tivessem lido, ansioso para discutir cada detalhe, cada dor, cada camada. E não tive dúvidas: entrou para minha lista de favoritos, e com um espaço de honra.

Publicado em 1970, mas escrito entre 1965 e 1969, O Olho Mais Azul foi o romance de estreia de Toni Morrison, a primeira escritora negra a ser laureada com o Prêmio Nobel de Literatura. A história se passa na década de 1940, nos Estados Unidos, mas o que salta aos olhos é sua força atemporal. Poderia perfeitamente se passar em 2021, ou em qualquer outro ano, infelizmente. A brutalidade que atravessa os corpos e subjetividades negras descritas por Morrison não pertence apenas a um tempo histórico: é um sistema que persiste, que se recicla, que ainda nos molda.
A protagonista, Pecola Breedlove, é uma menina negra, pobre, invisibilizada. Negligenciada, agredida, abusada. Sofre nas mãos dos adultos, inclusive dos próprios pais, e também nas mãos de outras crianças. Tudo nela é visto como defeito: a pele muito escura, o cabelo muito crespo, o corpo que cresce sem proteção. Em um mundo que idolatra a brancura, Pecola é ensinada, desde cedo, a odiar sua própria imagem. Seu maior desejo, e mais devastador, é ter olhos azuis, como os das mulheres brancas. Ela acredita que, se os tiver, tudo mudará: o olhar dos outros, o próprio espelho, talvez até o destino.
Este é, sem exageros, um dos romances mais tristes que já li. A história de Pecola não permite distrações. A dor aqui não é pano de fundo, é o próprio tecido da narrativa. E, ainda assim, Morrison nos oferece muito mais do que tristeza. Sua escrita nos obriga a ultrapassar a pena e nos convoca à reflexão crítica. A princípio, é fácil sentir compaixão por Pecola. Mas, à medida que a leitura avança, o livro nos empurra para questões mais complexas: por que temos pena? O que alimenta esse sistema? Quem lucra com essa destruição?
Ler O Olho Mais Azul é também um mergulho incômodo em temas que seguem sendo urgentes: os padrões de beleza eurocêntricos, o racismo estrutural, o papel social da mulher negra, e a desumanização que paira sobre todos esses eixos. O lugar que a mulher negra ocupa na sociedade, como Morrison nos mostra, é o mais vulnerável de todos, o mais exposto, o mais castigado, o mais esquecido.
Mas seria um equívoco pensar este livro apenas como uma denúncia social. Ele é também, e com igual força, uma obra de altíssima qualidade estética. A forma como Morrison constrói seus personagens é assombrosa. Em poucas linhas, ela nos revela a história de cada um, suas dores, seus contextos, seus porquês. Nenhuma figura aparece por acaso. Cada personagem é um mundo, e Morrison nos abre a porta de todos eles com maestria.
A escrita de Morrison é clara, direta, mas profundamente lírica. Em momento algum a leitura se arrasta. Cada parágrafo ocupa o lugar exato. Há um rigor narrativo e emocional que transforma cada página em algo essencial. Nada sobra, nada falta. Tudo pulsa.
O Olho Mais Azul é, ao mesmo tempo, um romance de formação, um grito de dor e uma oração quebrada. É uma leitura rápida, mas que permanece. Um livro que entra manso, mas termina deixando feridas. E, como toda obra verdadeira, nos transforma, não só pelo que diz, mas pelo que nos obriga a encarar em nós mesmos e no mundo em que vivemos.
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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.
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