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O Gato

Foto do escritor: Pedro Sucupira
Pedro Sucupira
9 de ago. de 2023
5 min de leitura

Atualizado: 6 de out.


Filhote de gato cinza tigrado olhando para cima com expressão curiosa, sentado em uma superfície felpuda marrom — representa ternura e empatia no conto "O Gato".

Naquela cidade, os invernos eram claros e secos, com uma luminosidade impiedosa que denunciava o pó e os telhados gastos. Era o tipo de luz que não deixava nada esconder — a ferrugem nas calhas, as fachadas descascadas, os fios cruzados no alto com a desordem específica das cidades que cresceram sem ser planejadas. O frio do dia era suportável, às vezes até agradável, como são algumas dores leves, que nos fazem lembrar que estamos vivos. Já o frio da noite era de outra ordem: esse não se contentava em entrar pelas frestas, não; tomava posse do corpo, dos ossos, e desafiava até aqueles que tinham, por sorte ou acaso, onde se abrigar.

O menino percorria diariamente o trajeto de ida e volta da escola com uma disposição invejável. A bicicleta era seu cavalo de guerra — o guidão segurado com as duas mãos abertas, os dedos levemente curvados, como alguém que aprendeu sozinho que não se deve apertar demais o que você não quer perder. O suor, embora presente, era um tributo menor e, ao que parece, ignorável, diante da sensação de liberdade. Contudo, era inverno, e como todas as estações, essa também trazia consigo seus terrores. Havia o espectro da gripe, a ameaça constante de uma pneumonia. O menino, precavido, mantinha-se hidratado e fiel às vitaminas, como um soldado ao seu protocolo. Aprendera isso sozinho, por tentativa e erro, da mesma forma que aprendera quase tudo: sem que ninguém estivesse lá para ensinar. Afinal, não desejava o mesmo fim da família, cuja ausência o tornara, para dizer pouco, cauteloso em demasia.

No caminho de retorno da escola, aproximava-se da longa ponte e já calculava, como era de seu costume, os semáforos, faixas, placas, e os pedestres que transitavam tanto sobre quanto sob a ponte — esse hábito de medir tudo antes de atravessar, que lhe dava uma sensação de terra firme —, quando algo, um fragmento de acaso, desviou-lhe o olhar. No extremo oposto da travessia, ao pé do barranco, à beira do rio — esse mesmo rio que já não corria com a força de outrora —, repousava uma caixa. E dentro dela, com a resignação dos que nada podem, um filhote de gato.

Ainda em movimento, o menino desviou o olhar como quem não vê. Era um gesto praticado. Havia aprendido cedo que certas coisas, se você olha, ficam; e o que fica, exige algo de volta. Logo tratou de recompor o foco, que é uma virtude e um instinto de sobrevivência. A travessia continuou como se nada houvesse ocorrido, como se a tal caixa fosse apenas mais um detalhe no cenário urbano, um eucalipto entre tantos em uma área de reflorestamento qualquer. Seus pensamentos, regimentados como soldados em desfile, marchavam apenas entre dois objetivos: alcançar o quarto e cumprir o dever de casa.

Mas, como nem tudo na vida se submete à vontade, quando chegou ao outro lado da ponte, ouviu — ou julgou ouvir — um som que, se dependesse dele, jamais teria escutado. Um miado. Não desses miados corriqueiros, preguiçosos, de gato satisfeito. Não. Era um miado agudo, trêmulo, desesperado — o clamor de uma pequena criatura que, perdida e doente, invocava socorro, suplicava por proteção, lamentava o sumiço dos seus. O som chegou antes que o menino pudesse se preparar. Havia algo naquele timbre que ele reconhecia sem saber de onde: a precisão de quem grita sem acreditar que vai ser ouvido, mas grita assim mesmo.

A mente, até então disciplinada em seu itinerário de desejos imediatos, fora subitamente desviada de seu rumo habitual. Não se tratava, diga-se, de um desvio qualquer, desses que a razão logo corrige com um aceno de desprezo; era um desvio impregnado de um som. Um miado. Um lamento insistente, agudo, quase humano, como se a própria miséria reclamasse por atenção.

Num impulso que nem mesmo sua prudência conseguiu deter, o menino largou a bicicleta no chão e correu até o parapeito da ponte. O ferro estava frio — mais frio que o ar. A vista era a mesma — a caixa, o filhote —, mas agora outros detalhes se impunham com uma clareza desconcertante. A caixa era de papelão grosso, desses usados para embalar eletrodomésticos; ainda havia setas impressas nas laterais e a palavra CUIDADO em letras desbotadas. As bordas inferiores, encharcadas pela umidade do barranco, escureciam já na cor da terra, como se o papelão estivesse sendo devolvido ao que um dia foi. O filhote, branco com manchas acinzentadas, girava em círculos dentro da prisão de papel, os olhos desmesurados de pavor, a voz rouca de tanto clamar. Tinha talvez seis semanas. Pequeno demais para estar sozinho.

Tudo aquilo, por razões que nem o próprio menino saberia explicar, suspendeu o mundo. Não se lembrava da bicicleta, do quarto, da lição de casa — sequer de si. O tempo, que costuma ser senhor de todas as decisões, parecia agora ter feito uma pausa, permitindo-lhe observar aquela cena com a fixidez de quem contempla um quadro. E havia algo naquele quadro que o imobilizava de um modo diferente do habitual. Não era pena — ou não era só pena. Era o reconhecimento de algo sem nome, um pensamento que começou a se formar e que ele interrompeu antes que terminasse. A caixa. O filhote dentro da caixa. O filhote que girava e miava e não compreendia por que o mundo havia ficado tão silencioso em volta dele. Durante aqueles instantes, que não se poderiam medir por relógios, houve apenas a caixa e o filhote. E mais nada.

O que se passou em seguida foi quase uma reação instintiva — e, como todas as reações desse tipo, logo veio acompanhada do remorso. O menino recuou dois passos. A bicicleta? Ainda ali. A mochila? Zíperes intactos. A estrada? Livre. O peito, que até então ardia numa arritmia silenciosa, retomava o compasso usual. A realidade, como uma velha conhecida, voltava ao seu posto, chamando-o à razão e à cautela. Ele verificou as mãos. Estavam frias, mas firmes.

Voltou à bicicleta com rapidez, não sem antes lançar mais um olhar à caixa e ao miado, que agora lhe pareciam distantes, quase irreais, como um sonho do qual se desperta sem saber se o viveu ou apenas temeu. Atravessou a ponte com passos firmes e, durante o restante do trajeto, esforçou-se para ajustar o pensamento, que teimava em retornar à beira do rio. Pensou nas possíveis consequências de uma decisão jamais tomada. Pensou no que significaria chegar a casa com um gato, e no que significaria não chegar.

O miado parou antes que ele esperasse. Ou talvez nunca tivesse parado — talvez fosse ele que havia parado de ouvir, que é uma coisa diferente.

E, sem confessar a ninguém, sabia que não fora por indiferença que partira, mas por algo mais fundo — um medo de tornar-se vulnerável. Um medo de abrir a caixa e encontrar lá dentro algo que já conhecia de memória: o abandono.

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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.

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