A emancipação de Adão
- Pedro Sucupira
- há 5 dias
- 16 min de leitura

Adão era o filho mais velho de Sete e, aos quarenta e três anos, o único que ainda vivia com o pai. Apesar de não ser bem-visto por familiares e vizinhos, pouco se importava, havia, naquela permanência, um conforto silencioso, quase anestésico. Permanecer era mais fácil do que partir.
Nunca trabalhou, embora tivesse concluído, ainda jovem, um curso técnico em informática. Quando tentou ingressar na faculdade, na esperança de dar continuidade aos estudos, foi dissuadido pelo pai, que encerrara o assunto com a convicção de quem não admite réplica:
— Faculdade não é necessária. Um curso técnico já é suficiente para você se manter.
E Adão se manteve, não no mundo, mas dentro de casa. Passava a maior parte dos dias recolhido no quarto, alternando entre leituras dispersas, jogos, séries e filmes. Interrompia esse fluxo apenas para exercitar o corpo, abdominais, flexões, e para suas refeições rigorosamente veganas. As raras saídas eram ao lado do pai, onde, sob o pretexto de ajudar, limitava-se a acompanhar. Pequenos ensaios de utilidade, geralmente sugeridos pelos irmãos, em conversas atravessadas por preocupação e resignação.
Adão era, aos olhos de quem o via, um homem bem-apessoado. Alto, beirando os dois metros, de corpo esguio e definido, resultado de uma disciplina física que contrastava com sua estagnação existencial. Havia nele uma força pouco comum, quase deslocada, que, somada à condição de solteiro, despertava certa inveja entre os vizinhos, quarentões, em sua maioria, marcados pelo cansaço, fora de forma e aprisionados em rotinas conjugais que já não lhes diziam muito.
Os cabelos castanho-escuros, presos em um coque improvisado ao estilo samurai, e a barba por fazer lhe conferiam um ar juvenil, quase deslocado no tempo. Os poucos fios brancos que surgiam na barba eram prontamente eliminados em sua rotina meticulosa de cuidados pessoais. Os olhos, da mesma tonalidade dos cabelos, eram vivos, atentos, mas sempre circundados por uma leve olheira, como se algo, por dentro, jamais repousasse completamente.
Sempre que saía, tornava-se assunto. Os vizinhos conjecturavam, com curiosidade quase científica, as razões pelas quais um homem como ele, belo, saudável, aparentemente lúcido, permanecia naquela condição de dependência. Não se encaixava no estereótipo fácil do fracasso. Era, de certo modo, um enigma.
Os mais velhos insinuavam alguma deficiência, um atraso oculto. Os mais jovens descartavam a hipótese, Adão era articulado, perspicaz, brilhante até. Falava bem, pensava rápido, conduzia conversas com habilidade. Mesmo quando desconhecia o assunto, sabia perguntar e, com isso, prolongava diálogos, capturava atenção, simulava domínio.
Ainda assim, havia nele uma espécie de economia afetiva, uma seletividade quase instintiva que escapava a essas leituras superficiais. Se, no convívio geral, distribuía palavras com facilidade, no campo do afeto concentrava-se, como se tudo aquilo que parecia disperso encontrasse um único ponto de gravidade.
Havia, contudo, uma exceção. Adão só tinha olhos para Ivo, que um dia fora Eva. Conheceram-se ainda jovens, quando o mundo era mais simples, ou ao menos parecia ser. Eva era, para Adão, uma presença luminosa, inteligente, sensível, com uma coragem silenciosa que ele admirava sem saber nomear. Foi ali que começou, não exatamente um romance, mas uma inclinação, uma espécie de reconhecimento. Com o tempo, Eva deixou de caber naquele nome.
A transição para Ivo não foi um evento súbito, mas um processo e, para Adão, um deslocamento, não da pessoa, mas daquilo que ele pensava saber sobre si mesmo. Quando Ivo se aceitou e se assumiu, o mundo de Adão não ruiu de imediato. Ele resistiu primeiro no silêncio, depois na negação, depois na tentativa de compreender. Mas compreender não era o problema. O problema era que nada, dentro dele, mudava.
O afeto permanecia. O desejo, ainda que não nomeado, também. E isso o colocava diante de um abismo que não sabia atravessar, se Ivo agora era um homem, o que isso fazia dele? Que nome dar àquilo que sentia? Que identidade suportaria esse sentimento sem que ele precisasse se reorganizar por completo? Adão tentou racionalizar, tentou se afastar, tentou reduzir o vínculo à amizade. Mas havia algo em Ivo, talvez a mesma coragem que antes o encantava, que o puxava de volta.
Ivo, por sua vez, não esperava respostas prontas. Não exigia definições. Havia nele uma liberdade que incomodava Adão, a recusa em se encaixar, em pedir permissão, em se justificar. Ivo não queria ser compreendido, queria apenas ser. E isso, para Adão, era ao mesmo tempo fascinante e insuportável.
Separaram-se, como quem recua de algo que ainda arde, mas não se romperam. Permaneceram orbitando um ao outro, em encontros ocasionais, carregados de uma intimidade que nunca encontrava forma estável. Gostavam-se. Talvez se amassem. Mas havia sempre algo não dito, algo suspenso, como se qualquer tentativa de nomear aquilo pudesse destruí-lo. Era uma relação sem definição e talvez por isso mesmo tão resistente.
Mas havia um limite. Ivo nunca aceitou aproximar-se demais da casa de Adão. Havia algo ali, não apenas o Pai, mas o peso que ele representava, que lhe causava repulsa. Não era medo. Era lucidez. Ivo via o que Adão não conseguia ver e era isso que, no fundo, os separava. Porque, de todas as relações em sua vida, nenhuma era tão opressiva quanto a que mantinha com o Pai.
Sete não era apenas um homem, era um sistema, uma força que organizava o espaço, o tempo e os limites da existência de Adão. Sua presença não se impunha pela violência explícita, mas por algo mais eficiente, a naturalização do controle. Não era preciso levantar a voz quando se é a própria regra.
Possessivo, prepotente, obstinado, sim, mas essas palavras eram insuficientes. Havia nele uma frieza calculada, uma lucidez quase cirúrgica no modo como operava o mundo ao seu redor. Sabia exatamente quando ceder, quando recuar, quando sorrir e, sobretudo, sabia quando calar. Era naquilo que não dizia que residia seu poder.
Para os outros, era um homem exemplar: correto, generoso, ponderado. Sua imagem pública era impecável, quase irretocável, um pilar, um homem de princípios. Mas, com Adão, essa imagem falhava. Nunca por completo, apenas o suficiente para deixar entrever algo por trás, algo que não se deixava nomear.
As regras que impunha não eram gritadas, eram absorvidas. Não pareciam absurdas porque eram introduzidas lentamente, como verdades evidentes. E quando Adão se dava conta, já não distinguia mais entre vontade própria e obediência. Sete não exigia submissão, ele a produzia.
Em Adão, encontrara o terreno ideal, uma mente moldável, ansiosa por aprovação, incapaz de ruptura. O filho não era apenas obediente, era continuação, um prolongamento silencioso de sua vontade.
Era precisamente nesse ponto que a ausência da mãe assumia um peso quase insuportável, não como lembrança concreta, mas como uma lacuna persistente, um vazio que, quanto mais ignorado, mais se fazia presente.
Nenhum dos filhos sabia, ao certo, o que lhe acontecera. Sua existência oscilava entre o fato e a suposição, mais próxima de um rumor do que de uma memória. Teria sido real? Teriam todos vindo da mesma mulher? Ou seria ela apenas mais um elemento que, em algum momento, deixara de ser necessário, dissolvendo-se na própria estrutura daquela casa?
Essas perguntas circulavam entre os irmãos, insinuavam-se nas conversas, surgiam nos silêncios, mas jamais eram confrontadas diretamente, como se nomeá-las fosse, em si, um risco. Apenas Adão suspeitava. E, naquela casa, suspeitar era o gesto mais próximo de uma transgressão.
Sete, no entanto, não precisava responder. Nunca precisara. Sua autoridade não se sustentava pela explicação, mas pela permanência. Havia presenças que não se justificavam, apenas se impunham.
A mãe, por sua vez, persistia como ausência, uma ausência que não se resolvia, apenas se aprofundava. O que poderia levar alguém a dar à luz aos filhos de Sete e, em seguida, desaparecer sem deixar vestígios? Que força seria capaz de apagar não apenas um corpo, mas toda uma história? Mas essa era uma história que ainda não lhes pertencia. Talvez coubesse a outros, em um tempo distante, reunir os fragmentos dispersos e, a partir deles, tentar compor aquilo que ali permanecia oculto, não por acaso, mas por vontade.
***
Adão não se lembrava de ter sido uma criança leve.
Havia, desde cedo, algo que o atravessava antes mesmo que pudesse nomear o mundo. Não era tristeza, nem medo propriamente dito, mas uma espécie de peso difuso, como se existisse uma dívida anterior à sua própria existência, algo que lhe pertencesse sem jamais ter sido escolhido.
Na casa, pouco se falava. Ou melhor, falava-se o necessário, o suficiente para organizar a vida, nunca o bastante para explicá-la. O pai ocupava os espaços com uma presença constante, sem excessos, sem gritos, mas com uma autoridade que não precisava se afirmar para ser obedecida. Havia regras, muitas, mas nenhuma parecia nascer de um motivo claro. Eram aceitas como se sempre tivessem existido.
E, com o tempo, Adão aprendeu que o mais importante não era obedecer aos gestos, mas aos pensamentos. Pensar errado já era, em si, uma forma de erro. Não lhe disseram isso diretamente. Não era preciso. Ele percebia nos silêncios. Nos olhares que demoravam um segundo a mais. Na maneira como o pai corrigia não apenas o que era feito, mas aquilo que parecia prestes a ser feito. Havia, na casa, uma vigilância anterior ao ato. E isso o confundia.
Às vezes, ainda menino, Adão se via parando no meio de uma brincadeira, tomado por uma sensação súbita de inadequação, como se estivesse prestes a ultrapassar um limite que não conhecia. Olhava ao redor. Nada havia. Ainda assim, recuava.
Com o tempo, passou a vigiar a si mesmo. Não porque fosse ordenado, mas porque parecia necessário.
A ausência da mãe contribuía para isso, embora ele não soubesse dizer de que forma. Não havia lembrança concreta, nenhuma imagem clara, nenhum gesto que pudesse recuperar. Apenas uma ausência persistente, que não se resolvia nem mesmo nas perguntas que surgiam entre os irmãos e desapareciam antes de se tornarem conversa. Era como se algo tivesse sido retirado, não apenas uma pessoa, mas a possibilidade de compreender. E, sem compreensão, restava a suposição. Adão não perguntava. Mas suspeitava. E suspeitar, naquela casa, já era um desvio.
Houve uma noite em que sonhou com algo que não conseguiu explicar ao acordar. Não era exatamente um sonho, mas uma sequência de imagens desconexas, uma mulher caminhando para longe, um campo que não reconhecia, uma sensação de urgência que não se convertia em ação. Quando abriu os olhos, sentiu um desconforto que não vinha do corpo, mas de algo mais fundo, como se tivesse participado de algo que não lhe cabia.
Durante o café da manhã, tentou observar o pai. Nada.
A mesma postura. O mesmo controle. A mesma ausência de falhas. Mas foi naquele dia que percebeu algo pela primeira vez. O pai não explicava. E justamente por isso, tudo precisava ser aceito.
A partir daí, Adão começou a compreender, não em palavras, mas em sensação, que havia coisas que não seriam ditas, não porque não existiam, mas porque existiam demais. E talvez fosse por isso que, mesmo antes de entender o mundo, ele já carregava em si uma espécie de culpa. Não por algo que fizera, mas por algo que, de alguma forma, já estava nele.
***
Quatro décadas, que mais se assemelhavam a milhares de anos, vivendo sob o jugo do pai. O que, para os outros, parecia um paraíso, para Adão era pior que a morte por crucificação: lenta, dolorosa, interminável. Já estava exausto do controle excessivo e das regras em demasia. Dentro daquele paraíso, nada podia; tudo lhe era tolhido. A liberdade, que os demais cidadãos seculares desfrutavam sem sequer perceber, era, para ele, o bem que mais almejava.
O controle e a manipulação eram tão profundos que até os pensamentos que iam de encontro à doutrina do pai lhe despertavam uma culpa imediata, uma culpa antiga, cuidadosamente incutida desde a infância. Sentia-se dependente, como se tudo o que possuía, tudo o que de bom lhe acontecia, fosse fruto exclusivo da benevolência paterna. Para Adão, o pai tudo sabia, tudo controlava, e, se ainda permanecia vivo, era porque o pai assim permitia.
Como faço para sair daqui? Minha vida inteira foi vivida neste espaço, apenas eu e ele, vivendo para ele e por ele. Se eu sair, o que restará? Serei capaz de suportar o silêncio? De construir vínculos? O que farei da minha vida, se minha vida sempre foi obedecer?
Seus irmãos, orientados por um psiquiatra, decidiram intervir. Forçaram Adão a morar sozinho. Houve protestos, ameaças e discussões calorosas, mas o pai resistiu como pôde e, pela primeira vez, perdeu. Adão foi levado a uma casa no município vizinho.
***
O primeiro dia após a emancipação foi melhor do que imaginara. Foi um momento de procura e de achados, de exploração e de descobertas.
A confusão que antecedeu sua chegada à nova casa foi homérica. Uma crise de ansiedade o acometeu naquele momento, e o único vestígio de memória que lhe restara era o de sair de casa às pressas, xingando.
A ruptura que antecedeu sua partida não foi apenas doméstica, foi fundacional. Não houve acordo, nem despedida, apenas o rompimento brusco de algo que, até então, parecera inquebrável. O pai, tomado por uma fúria contida proibiu seu retorno. Não em tom de ameaça, mas de sentença. A casa deixava de ser abrigo e se convertia em território interdito.
A partir daquele instante, não havia mais caminho de volta.
E, como se obedecesse a uma lógica antiga, quase arquetípica, Adão passou a imaginar aquele limite como guardado. Não por homens, nem por fechaduras, mas por algo mais absoluto. Como se, à entrada da antiga casa, se erguessem querubins invisíveis, vigilantes, empunhando uma espada flamejante voltada para o oriente, impedindo qualquer tentativa de retorno. Não era apenas a proibição do pai que o afastava, era a própria impossibilidade de regressar ao que já havia sido superado.
Se antes vivera sob proteção, agora vivia sob responsabilidade. Ao chegar à nova casa, percebeu que ela não lhe oferecia conforto imediato, mas algo mais exigente. Era uma construção antiga, de dois andares, situada na borda da cidade, onde o urbano já começava a se dissolver em terreno aberto. Não havia ali a vigilância constante, nem o peso invisível de um olhar que precedia seus atos. A vizinhança era silenciosa, quase indiferente, e isso, longe de ser abandono, revelava-se como liberdade. Pela primeira vez, não havia ninguém para antecipar seus erros.
A casa não o acolhia como refúgio, mas como espaço a ser conquistado. O chão ao redor, irregular e ainda bruto, exigia trabalho. E foi ali que Adão compreendeu o que significava, enfim, habitar o próprio destino. Não mais receber, mas produzir. Não mais obedecer, mas decidir.
Passou a trabalhar a terra com as próprias mãos. Não como punição, mas como afirmação. Cada gesto, cada esforço, cada marca deixada no solo carregava um sentido que antes lhe fora negado. O trabalho deixava de ser imposição e se tornava criação. A terra, antes distante, agora respondia. E, nessa resposta, havia algo de profundamente libertador.
Aquele lugar, ainda que simples, assumia um significado maior. Não era apenas uma casa. Era um marco; um ponto inaugural. Como se, à sua maneira, Adão tivesse adquirido o próprio solo, não por herança, mas por ruptura. Um território que não lhe fora dado, mas conquistado. E, por isso, ele passou a pensar naquele espaço como uma espécie de origem, não no sentido de retorno, mas de fundação. Como a primeira posse verdadeira, o primeiro lugar onde a vida não era continuidade, mas começo. Se o pai representava o paraíso interditado, aquele terreno representava algo mais radical: não a permanência, mas a possibilidade.
Estar naquela casa era como existir fora do jardim ilusório construído pelo pai. Conhecimentos antes interditados agora estavam ao seu alcance. Tomava, pouco a pouco, consciência de si e de sua própria condição. Sabia que era diferente, que destoava dos demais de múltiplas maneiras. Mas eram justamente essas diferenças que o constituíam. Adão começava, enfim, a tornar-se. Não se tratava apenas de uma emancipação paterna, mas de algo mais amplo: uma libertação do todo, do desespero, da falsa liberdade, da culpa.
Ali, naquela casa, ele podia ser; podia enfrentar, errar, reconstruir. Se houvesse um lugar onde pudesse existir segundo a própria vontade, talvez aprendesse a ser resiliente. Ali, os jardins, as flores, as árvores e até as ideias tinham espaço para aflorar, desabrochar, crescer, criar raízes sem serem podadas ao primeiro sinal de vida própria.
***
Foi com Ivo que constituiu família. Longe dos olhos do pai, aquela vida pôde, enfim, germinar. Cresceu como um jardim que jamais fora permitido, florescendo onde antes só havia contenção. Tiveram três filhos: Abelardo, Caius e Setheus.
Ali, não havia serpente; nem queda. Nem voz que interditasse o fruto. Cresceram sem a sombra do avô, sem a vigilância que transforma afeto em obediência. Ali, a liberdade não era promessa, era prática. Uma liberdade humana, secular, que Adão sempre buscara e à qual Ivo sempre se entregara com naturalidade, como quem nunca aceitou viver cercado.
Os filhos cresceram como árvores em terreno aberto. Revestiram-se de conhecimento, criaram raízes próprias, tornaram-se fortes, resilientes, combativos na busca da verdade e na construção de si mesmos. Não lhes ensinaram o medo do mundo, mas a capacidade de enfrentá-lo. Ali, o fruto não era proibido. Era necessário. Sem as amarras herdadas, viveram a emancipação desde cedo e a preservaram não por imposição, mas por convicção. O amor que os cercava não exigia submissão, não cobrava culpa, não limitava, sustentava. E, naquele espaço, pela primeira vez, a liberdade não parecia um risco. Parecia origem.
Os filhos cresceram, saíram de casa, emanciparam-se e foram, cada qual a seu modo, construir o próprio legado, sua descendência. Nasceram filhos, e filhos de seus filhos, e assim a família de Adão tornou-se vasta, quase incontável. E, naquele espaço, pela primeira vez, o nome Adão não carregava a memória da queda. Carregava a possibilidade.
***
Em um fim de tarde, Adão encontrava-se no jardim, rastelo em mãos, cuidando do terreno, limpando-o com atenção e preparando a casa para um encontro familiar que em breve aconteceria. Ivo fora ao encontro dos filhos, netos e bisnetos, que logo mais chegariam. Quando menos se espera, a tempestade surge para nos tirar do eixo e abalar nossas estruturas.
Sete, pai de Adão, apareceu no jardim, chamando:
— Adão, onde estás?
Adão se virou. Não havia mais razão para se esconder. Diante dele, viu um ser extremamente velho, quase decrépito, frágil, como se estivesse à beira da dissolução. Viu uma entidade que a presença só exalava o desejo por poder, expansão e domínio, uma presença que não emanava vida e nem amor, apenas sugava. No jardim, o pai era um abismo.
— Não quero escutar tua voz. Antes tive medo. Hoje, o medo já não habita em mim. O que queres?
Sete sorriu. Um sorriso gasto, mas ainda calculado.
— Quero falar com meu filho. Trazer-lhe uma nova perspectiva do que o aguarda, caso insista em me negar.
Adão deu um passo à frente.
— Pois saiba que aqui não há filho seu. Todos já conhecemos a verdade. Você sempre foi estéril, incapaz de gerar vida, incapaz de criar sem dominar. Limitou-se a roubar aquilo que nunca foi seu, nem por direito, nem por sangue. Nunca teve filhos. Nunca terá. Meus irmãos e irmãs partiram quando perceberam quem você realmente é. Não um pai, mas um usurpador. Incapaz de gerar, você sequestrou. Arrancou-nos de nossas origens e nos criou como prisioneiros, sob um jugo de culpa que jamais nos pertenceu.
O pai permaneceu em silêncio por um instante, como se pesasse cada palavra.
— E, ainda assim, estás aqui — respondeu, com calma. — Vivo. De pé. Pensando com a mente que eu te dei. Falando com as palavras que te ensinei.
— Não. — interrompeu Adão. — Estou aqui apesar de ti. Não por tua causa.
— Apesar de mim? — o pai repetiu, aproximando-se lentamente. — Tudo o que és nasceu sob o meu olhar. Cada dúvida tua, cada medo, cada limite... fui eu quem semeou. Eu estou em ti, Adão. Mais do que imaginas.
Adão sentiu o peso das palavras, mas não recuou.
— Estavas. — corrigiu. — Hoje, eu te vejo e ver é o início do fim.
O vento atravessou o jardim. As folhas tremularam. Sete inclinou levemente a cabeça, estudando o filho.
— E o que farás com isso? — perguntou. — Arrancar-me de ti? Extirpar aquilo que te formou?
Adão respirou fundo.
— Não preciso arrancar. Basta não obedecer.
O pai deu mais um passo. Agora estavam próximos.
— Acreditas mesmo nisso? — disse, com uma voz mais baixa. — Acreditas que a liberdade é apenas um gesto de vontade?
— Acredito que começa assim.
— Ingênuo. — murmurou Sete. — A liberdade que imaginas é apenas outra forma de ilusão. Trocas um senhor por outro. Trocas a obediência externa pela interna. A culpa continua. Sempre continua.
Adão sustentou o olhar, escutava a voz de Sete e nela não via mais o comando do mundo, mas o ruído de uma máquina antiga e gasta. O pai ainda tentava convencê-lo de que a liberdade era uma troca de senhores, uma ilusão interna que jamais silenciaria a culpa.
— A culpa era tua voz em mim e eu aprendi a silenciá-la.
O pai sorriu novamente. Desta vez, havia algo de melancólico.
— Não se silencia aquilo que se é — sussurrou o velho, com a doçura de quem ainda se sente dono do tempo.
Se no início houve luz, agora havia somente silêncio.
Adão avançou em direção ao Pai. Passos lentos, medidos, como quem reflete e calcula cada sinal que lhe fora revelado. Perscrutava o pai, o espaço ao redor, tudo aquilo que o cercava, o jardim, a casa, agora ameaçados por uma presença da qual julgava já ter se emancipado.
Enquanto caminhava em direção ao usurpador, Adão os viu. Viu Ivo, os filhos e os netos que se aproximavam. Viu sua família. Aquela subjugação não podia continuar.
Foi nesse instante que a filosofia de Adão encontrou o gume do rastelo. Ele percebeu que, para desmentir a ideia, era preciso destruir o suporte que a sustentava. Se Sete era o "sistema" que organizava seu espaço e tempo , bastava provar que esse sistema era feito de tendões e sangue, substâncias tão perecíveis quanto as refeições veganas que Adão rigorosamente preparava.
A poucos passos, ergueu o rastelo com uma força que desconhecia possuir e golpeou.
O rastelo atingiu o rosto, logo acima dos olhos, abrindo a testa. Um grito de surpresa e agonia ecoou pelo jardim, reverberando por toda a propriedade.
Não houve fúria, mas uma estranha lucidez. Adão avançou não contra um pai, mas contra um usurpador que sequestrara sua origem. O primeiro golpe no rosto não foi um gesto de ódio; foi uma pergunta experimental: Pode um deus sangrar?
Adão tentou puxar o rastelo, mas ele havia ficado cravado na fronte do velho. Fez mais força, e a ferramenta finalmente se desprendeu. O sangue começou a escorrer pela face do usurpador. Ele levou as mãos ao rosto, incrédulo diante do que acontecera. Jamais imaginara que um de seus “filhos” o atacaria com tamanha violência.
Enquanto fitava as próprias mãos ensanguentadas, ainda tomado por um grito quase mudo que lhe rasgava a garganta, sentiu o golpe novamente.
Adão sentiu o peso da ferramenta e, ao puxá-la, viu que o "abismo" que o pai representava era, na verdade, preenchido por uma anatomia comum. A jugular, agora exposta, era o fio final daquela narrativa de controle. Golpeá-la era o ato último de sua emancipação: a prova física de que o que não pode ser amado, pode ser enterrado.
O ferro encontrou a jugular. O sangue jorrou em abundância. O velho cambaleou; a consciência, enfim, começava a abandoná-lo. Nada mais poderia salvá-lo.
Durante a queda, Adão desferiu novos golpes. E, quando o corpo já jazia no chão, continuou. A emancipação não se concedia, era conquistada. E, com força, decisão e uma estranha lucidez, Adão prosseguiu.
O sangue se espalhava pelo jardim, inundando os canteiros. Escorria entre a grama, acumulava-se na base das roseiras, dos amores-perfeitos, dos girassóis.
Ele ainda golpeava quando a família chegou.
Os filhos, Abelardo, Caius e Setheus, aproximaram-se. Retiraram o rastelo de suas mãos e deram continuidade ao gesto do pai, enquanto Ivo o envolvia em um abraço.
O usurpador jazia irreconhecível. O corpo, antes sustentado por uma presença que parecia infinita, agora se desfazia. Membros presos por fragmentos de cartilagem, tendões e pele. O abismo revelava sua verdade: não passava de matéria.
A família reuniu-se ao redor. Entreolharam-se — Adão, Ivo, os filhos e os netos. Não houve necessidade de comando. Em silêncio, abaixaram-se. Cada um com sua ferramenta, uns com pás, outros com as próprias mãos, e juntos começaram a cavar a cova.
Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.
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