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Maquinação do Mundo: Resenha do Livro de José Miguel Wisnik

  • Foto do escritor: Pedro Sucupira
    Pedro Sucupira
  • há 13 horas
  • 4 min de leitura

Capa do livro Maquinação do Mundo — Drummond e a Mineração, de José Miguel Wisnik, publicada pela Companhia das Letras, com fotografia em preto e branco de uma paisagem de mineração a céu aberto.

A leitura de Maquinação do Mundo fez parte dos encontros do Grupo de Pesquisa Histórias Espectrais, coordenado pelo professor Dr. André Ramos, da UEMG. Ao longo de vários encontros, discutimos a obra em profundidade, explorando suas repercussões históricas, filosóficas, psicanalíticas, literárias e socioambientais, sempre em diálogo com as demais leituras realizadas durante o ano.

Trata-se de uma obra de rara qualidade intelectual. O trabalho desenvolvido por José Miguel Wisnik impressiona pela erudição, pelo rigor da pesquisa e pela capacidade de articular literatura, história, filosofia, economia, política e crítica cultural em um mesmo ensaio. É um livro que exige muito do leitor, mas que retribui esse esforço com reflexões de enorme riqueza.

O ponto de partida da obra é uma viagem realizada por Wisnik, em julho de 2014, à cidade de Itabira, em Minas Gerais, terra natal de Carlos Drummond de Andrade. Professor de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo, compositor e ensaísta, Wisnik encontra uma cidade profundamente marcada por mais de um século de exploração mineral. A antiga Itabira do Mato Dentro aparece como um território onde paisagem, memória, poesia e mineração se entrelaçam de maneira inseparável. A devastação provocada pela extração de minério de ferro leva o autor a investigar não apenas a história econômica da região, mas também a forma como ela atravessa a poesia de Drummond e, por consequência, a própria formação do Brasil moderno.

Ao longo da leitura, torna-se evidente que Maquinação do Mundo ultrapassa os limites da crítica literária tradicional. A análise dos poemas drummondianos serve de ponto de partida para uma investigação muito mais ampla, que envolve o processo de industrialização brasileira, a atuação das grandes mineradoras, o capitalismo internacional, a transformação da paisagem mineira e as tensões entre desenvolvimento econômico, memória e destruição ambiental.

Não se trata, contudo, de uma leitura simples. O livro exige fôlego ensaístico, familiaridade com referências filosóficas e literárias e disposição para acompanhar um raciocínio extremamente sofisticado. Wisnik estabelece diálogos constantes entre poemas de Drummond, acontecimentos históricos, conceitos filosóficos e interpretações críticas, construindo uma rede de significados que demanda atenção permanente do leitor.

Nas primeiras páginas, a própria estrutura do texto pode causar certo estranhamento. Em diversos momentos, Wisnik incorpora versos de Drummond diretamente ao corpo do ensaio, sem destacá-los no formato tradicional de poema. Inicialmente, essa escolha dificulta a leitura, mas, à medida que compreendemos sua proposta, o texto passa a fluir com maior naturalidade. Ainda assim, a obra mantém um elevado grau de densidade do início ao fim, intensificando-se progressivamente.

Essa progressão é, inclusive, assumida pelo próprio autor. O livro se organiza em três partes, que avançam, nas palavras do próprio autor, num "grau crescente de densidade". São elas: "O Espírito do Lugar" (a experiência afetiva de Itabira), "Maquinações Minerais" (a história econômica da mineração) e "A Máquina Poética" (a análise cerrada do poema "A máquina do mundo"). No fim, há ainda um "Postscriptum" que joga toda essa reflexão sobre o presente político brasileiro.

Para quem pretende extrair o máximo da leitura, recomendo fortemente assistir, antes de iniciar o livro, às três aulas ministradas pelo próprio José Miguel Wisnik e disponibilizadas gratuitamente pelo Instituto Moreira Salles no YouTube (https://www.youtube.com/watch?v=b8cgFYw9J54). Elas oferecem um panorama da obra, esclarecem diversos conceitos fundamentais e tornam a leitura significativamente mais proveitosa.

Outro recurso que considero indispensável é manter à mão uma coletânea da poesia de Carlos Drummond de Andrade. Wisnik dialoga continuamente com poemas como A Máquina do Mundo, Relógio do Rosário, José, Itabira, América, Confidência do Itabirano, Velhaco, Mrs. Cawley, Desfile, O Inglês da Mina, O Negócio Bem Sortido e Forja. Ler esses poemas à medida que aparecem no ensaio amplia consideravelmente a compreensão das análises desenvolvidas pelo autor.

Ao final da leitura, torna-se difícil olhar para a obra de Drummond da mesma maneira. Da mesma forma, Itabira deixa de ser apenas a cidade natal do poeta para revelar-se como um espaço emblemático das contradições da história brasileira, onde poesia, mineração, memória e devastação ambiental se cruzam continuamente. Maquinação do Mundo é um dos ensaios literários mais impressionantes que já li, tanto pela profundidade de suas interpretações quanto pela extraordinária capacidade de conectar literatura e realidade histórica. É uma leitura exigente, mas absolutamente recompensadora para quem deseja compreender Drummond, e o Brasil, em uma dimensão muito mais ampla.

Por fim, deixo meus sinceros agradecimentos à professora Dra. Polyana Valente, ao professor Dr. André Ramos e a todos os integrantes do Grupo de Pesquisa Histórias Espectrais. Foi graças aos encontros do grupo que tive a oportunidade de conhecer Maquinação do Mundo, uma obra que dificilmente teria chegado até mim de outra forma. Mais do que isso, as discussões realizadas ao longo das reuniões tornaram possível uma leitura muito mais atenta, crítica e proveitosa do que eu seria capaz de fazer sozinho. As reflexões compartilhadas por professores e colegas contribuíram imensamente para o meu aprofundamento nessa obra extraordinária e, consequentemente, para a minha própria formação como leitor e pesquisador.

Para você, leitor iniciante, deixo aqui um guia de leitura em linguagem simples. O texto original é denso e pressupõe que o leitor já tenha algum conhecimento de filosofia, teoria literária e da poesia de Carlos Drummond de Andrade. Aqui, nada disso é necessário de antemão: cada ideia mais complexa é explicada com calma, acompanhada de exemplos do cotidiano, e cada poema citado é apresentado antes de ser comentado. Este texto foi criado justamente para facilitar a leitura de quem está começando agora e tendo seu primeiro contato com essa obra, oferecendo um caminho mais acessível para compreender suas principais ideias e reflexões.


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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.

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