A Mineralização da Condição Humana: Extrativismo, Capitalismo e a Crítica de Horacio Machado Aráoz
- Pedro Sucupira
- há 13 horas
- 4 min de leitura

A mineração não destrói apenas montanhas, rios e florestas. Segundo Horacio Machado Aráoz, ela molda subjetividades, reorganiza afetos e redefine a própria experiência humana dentro da lógica do capitalismo contemporâneo. Em Mineração, genealogia do desastre, o autor propõe uma crítica radical da modernidade ao demonstrar que o extrativismo ultrapassa a dimensão econômica e ambiental, tornando-se uma racionalidade civilizatória baseada na extração contínua da vida.
Mais do que uma crítica à mineração enquanto atividade econômica, o pensamento de Machado Aráoz investiga os próprios fundamentos da modernidade capitalista. A mineração deixa de aparecer apenas como atividade produtiva e passa a ser compreendida como paradigma civilizatório, expressão de uma racionalidade fundada na apropriação, na fragmentação e na conversão da vida em recurso econômico. Ao longo da obra, o autor demonstra que o extrativismo não organiza apenas economias e territórios, mas também subjetividades, afetos e formas de perceber o mundo, revelando como a expansão do capital depende tanto da exploração material da Terra quanto da produção de sujeitos adaptados à lógica da produtividade e da insensibilidade.
É justamente no capítulo final — “Expropriação e mineralização da condição humana” — que essa crítica alcança sua formulação mais radical. Ao abordar a “mineralização da condição humana”, Machado Aráoz mostra que o extrativismo não opera somente sobre a natureza, mas também sobre os corpos, os afetos e as formas de vida. A Terra, reduzida à condição de depósito de recursos, encontra seu correlato humano em sujeitos igualmente convertidos em componentes funcionais de uma engrenagem produtiva, avaliados segundo critérios de desempenho, utilidade e rentabilidade.
Nesse ponto a reflexão do autor ultrapassa os limites tradicionais da crítica ambiental e encontra uma crítica mais ampla da modernidade capitalista. Quando Machado Aráoz afirma que a mineração foi central para o “devir-capital do mundo” e para o “devir-mundo capital”, ele sugere que o capitalismo não surgiu como simples sistema econômico abstrato, mas como processo histórico profundamente material, territorial e violento, cuja expansão dependeu da transformação da Terra em objeto de extração contínua. As minas coloniais das Américas não produziram apenas ouro e prata; produziram a infraestrutura material da modernidade europeia, financiaram impérios, consolidaram bancos, aceleraram o comércio global e instituíram uma nova forma de relação com o mundo, baseada na apropriação, na fragmentação e na conversão da vida em valor econômico. Mas talvez o aspecto mais sofisticado da análise esteja no modo como ela conecta exploração material e produção de subjetividades. A lógica extrativa não se limita a reorganizar territórios; ela precisa também produzir sujeitos capazes de naturalizar essa reorganização. É por isso que a crítica do trabalho moderno aparece como elemento central do argumento. Dialogando com Max Weber, o texto mostra como o trabalho, na modernidade capitalista, deixa progressivamente de se vincular ao cuidado e à ampliação dos meios de vida para converter-se em racionalização profissionalizada, isto é, na completa colocação dos sujeitos à disposição da reprodução do capital. Trabalha-se já não para sustentar a vida, mas para alimentar um sistema cuja exigência permanente é a expansão ilimitada.
Nesse contexto, a expressão “exploração do corpo e entrega da alma” torna-se especialmente reveladora, porque indica que a captura contemporânea já não é apenas física ou econômica, mas subjetiva. O capitalismo tardio não exige somente força de trabalho; ele demanda atenção, desejo, afetos, identidade e reconhecimento. A exploração transforma-se em autoexploração. O sujeito internaliza as exigências do desempenho e passa a administrar a si mesmo segundo os imperativos da produtividade, da eficiência e da otimização contínua. Aqui, a aproximação com as reflexões de Byung-Chul Han em Sociedade do Cansaço torna-se inevitável.
Han descreve justamente a passagem de uma sociedade disciplinar, fundada na coerção externa, para uma sociedade do desempenho, na qual a dominação se torna mais eficiente porque é interiorizada. O indivíduo neoliberal acredita agir livremente quando, na realidade, tornou-se empresário de si mesmo, explorador e explorado simultaneamente. A violência já não se manifesta prioritariamente pela proibição, mas pela positividade excessiva do “você consegue”, do “produza mais”, do “otimize-se”. O resultado é uma subjetividade esgotada, permanentemente insuficiente, aprisionada na obrigação de performar sem cessar.
É justamente por isso que a crítica de Machado Aráoz alcança uma dimensão ainda mais profunda quando aborda a produção moderna da insensibilidade. A mineração — enquanto racionalidade civilizatória — necessita fabricar subjetividades incapazes de perceber a violência que sustenta o mundo em que vivem. Não se trata apenas de negar conscientemente a devastação, mas de perder progressivamente a capacidade de senti-la. A racionalidade moderna-colonial, desde seus primórdios, definiu a objetividade como distanciamento emocional, convertendo sentimentos e afetos em sinais de fraqueza, irracionalidade ou primitivismo. A figura do sujeito civilizado passa então a coincidir com a figura do sujeito desapaixonado, capaz de dominar não apenas territórios e naturezas, mas também a si mesmo.
Essa formulação está entre as mais inquietantes do livro, porque sugere que a modernidade não produziu apenas tecnologias de exploração material, mas também tecnologias de anestesiamento afetivo. A objetividade moderna nasce, nesse sentido, como negação do sentir. O sujeito racional aprende a olhar a devastação sem sofrimento, a tratar rios como recursos, florestas como ativos e populações inteiras como externalidades administráveis. A violência torna-se invisível não porque esteja oculta, mas porque foi epistemologicamente normalizada.
Ao final, o que emerge da obra de Machado Aráoz não é apenas uma crítica à mineração, mas uma crítica à própria racionalidade que organiza a modernidade capitalista. A crise socioambiental contemporânea deixa então de aparecer como acidente, falha ou excesso do sistema e revela-se como consequência coerente de uma civilização fundada na extração, na hierarquização da vida e na transformação do mundo — inclusive do humano — em recurso disponível.

Este texto constitui uma análise do capítulo final da obra Mineração, genealogia do desastre, de Horacio Machado Aráoz, intitulado “Expropriação e mineralização da condição humana”.
Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.
Se este texto te interessou, aqui no blog você encontra outros escritos meus, entre resenhas, contos e reflexões.
No Instagram, você me encontra como @pedrosucupiraa.
No Skoob, como Pedro Sucupira, onde compartilho os livros que li, estou lendo e pretendo ler.
E no Lattes, é possível acessar minha produção acadêmica, incluindo artigos científicos, capítulos e livros publicados.
Se quiser conversar, trocar ideias, críticas, sugestões ou experiências, sinta-se à vontade para me escrever: pdrohfs@gmail.com.



Comentários