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A Mineralização da Condição Humana: Extrativismo, Capitalismo e a Crítica de Horacio Machado Aráoz

Pintura expressionista retratando operários exaustos trabalhando em uma fundição industrial. Quatro homens com roupas gastas carregam metal incandescente em um ambiente escuro, tomado por fumaça, calor e tons acinzentados. A iluminação alaranjada do metal derretido contrasta com a atmosfera pesada e opressiva da fábrica, evocando desgaste físico, exploração do trabalho e a dureza da industrialização.

A mineração não destrói apenas montanhas, rios e florestas. Segundo Horacio Machado Aráoz, ela molda subjetividades, reorganiza afetos e redefine a própria experiência humana dentro da lógica do capitalismo contemporâneo. Em Mineração, genealogia do desastre, o autor propõe uma crítica radical da modernidade ao demonstrar que o extrativismo ultrapassa a dimensão econômica e ambiental, tornando-se uma racionalidade civilizatória baseada na extração contínua da vida.

Mais do que uma crítica à mineração enquanto atividade econômica, o pensamento de Machado Aráoz investiga os próprios fundamentos da modernidade capitalista. A mineração deixa de aparecer apenas como atividade produtiva e passa a ser compreendida como paradigma civilizatório, expressão de uma racionalidade fundada na apropriação, na fragmentação e na conversão da vida em recurso econômico. Ao longo da obra, o autor demonstra que o extrativismo não organiza apenas economias e territórios, mas também subjetividades, afetos e formas de perceber o mundo, revelando como a expansão do capital depende tanto da exploração material da Terra quanto da produção de sujeitos adaptados à lógica da produtividade e da insensibilidade.

É justamente no capítulo final — “Expropriação e mineralização da condição humana” — que essa crítica alcança sua formulação mais radical. Ao abordar a “mineralização da condição humana”, Machado Aráoz mostra que o extrativismo não opera somente sobre a natureza, mas também sobre os corpos, os afetos e as formas de vida. A Terra, reduzida à condição de depósito de recursos, encontra seu correlato humano em sujeitos igualmente convertidos em componentes funcionais de uma engrenagem produtiva, avaliados segundo critérios de desempenho, utilidade e rentabilidade.

Nesse ponto a reflexão do autor ultrapassa os limites tradicionais da crítica ambiental e encontra uma crítica mais ampla da modernidade capitalista. Quando Machado Aráoz afirma que a mineração foi central para o “devir-capital do mundo” e para o “devir-mundo capital”, ele sugere que o capitalismo não surgiu como simples sistema econômico abstrato, mas como processo histórico profundamente material, territorial e violento, cuja expansão dependeu da transformação da Terra em objeto de extração contínua. As minas coloniais das Américas não produziram apenas ouro e prata; produziram a infraestrutura material da modernidade europeia, financiaram impérios, consolidaram bancos, aceleraram o comércio global e instituíram uma nova forma de relação com o mundo, baseada na apropriação, na fragmentação e na conversão da vida em valor econômico. Mas talvez o aspecto mais sofisticado da análise esteja no modo como ela conecta exploração material e produção de subjetividades. A lógica extrativa não se limita a reorganizar territórios; ela precisa também produzir sujeitos capazes de naturalizar essa reorganização. É por isso que a crítica do trabalho moderno aparece como elemento central do argumento. Dialogando com Max Weber, o texto mostra como o trabalho, na modernidade capitalista, deixa progressivamente de se vincular ao cuidado e à ampliação dos meios de vida para converter-se em racionalização profissionalizada, isto é, na completa colocação dos sujeitos à disposição da reprodução do capital. Trabalha-se já não para sustentar a vida, mas para alimentar um sistema cuja exigência permanente é a expansão ilimitada.

Nesse contexto, a expressão “exploração do corpo e entrega da alma” torna-se especialmente reveladora, porque indica que a captura contemporânea já não é apenas física ou econômica, mas subjetiva. O capitalismo tardio não exige somente força de trabalho; ele demanda atenção, desejo, afetos, identidade e reconhecimento. A exploração transforma-se em autoexploração. O sujeito internaliza as exigências do desempenho e passa a administrar a si mesmo segundo os imperativos da produtividade, da eficiência e da otimização contínua. Aqui, a aproximação com as reflexões de Byung-Chul Han em Sociedade do Cansaço torna-se inevitável.

Han descreve justamente a passagem de uma sociedade disciplinar, fundada na coerção externa, para uma sociedade do desempenho, na qual a dominação se torna mais eficiente porque é interiorizada. O indivíduo neoliberal acredita agir livremente quando, na realidade, tornou-se empresário de si mesmo, explorador e explorado simultaneamente. A violência já não se manifesta prioritariamente pela proibição, mas pela positividade excessiva do “você consegue”, do “produza mais”, do “otimize-se”. O resultado é uma subjetividade esgotada, permanentemente insuficiente, aprisionada na obrigação de performar sem cessar.

É justamente por isso que a crítica de Machado Aráoz alcança uma dimensão ainda mais profunda quando aborda a produção moderna da insensibilidade. A mineração — enquanto racionalidade civilizatória — necessita fabricar subjetividades incapazes de perceber a violência que sustenta o mundo em que vivem. Não se trata apenas de negar conscientemente a devastação, mas de perder progressivamente a capacidade de senti-la. A racionalidade moderna-colonial, desde seus primórdios, definiu a objetividade como distanciamento emocional, convertendo sentimentos e afetos em sinais de fraqueza, irracionalidade ou primitivismo. A figura do sujeito civilizado passa então a coincidir com a figura do sujeito desapaixonado, capaz de dominar não apenas territórios e naturezas, mas também a si mesmo.

Essa formulação está entre as mais inquietantes do livro, porque sugere que a modernidade não produziu apenas tecnologias de exploração material, mas também tecnologias de anestesiamento afetivo. A objetividade moderna nasce, nesse sentido, como negação do sentir. O sujeito racional aprende a olhar a devastação sem sofrimento, a tratar rios como recursos, florestas como ativos e populações inteiras como externalidades administráveis. A violência torna-se invisível não porque esteja oculta, mas porque foi epistemologicamente normalizada.

Ao final, o que emerge da obra de Machado Aráoz não é apenas uma crítica à mineração, mas uma crítica à própria racionalidade que organiza a modernidade capitalista. A crise socioambiental contemporânea deixa então de aparecer como acidente, falha ou excesso do sistema e revela-se como consequência coerente de uma civilização fundada na extração, na hierarquização da vida e na transformação do mundo — inclusive do humano — em recurso disponível.

Capa do livro Mineração, genealogia do desastre de Horacio Machado Aráoz.

Este texto constitui uma análise do capítulo final da obra Mineração, genealogia do desastre, de Horacio Machado Aráoz, intitulado “Expropriação e mineralização da condição humana”.


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