Alchemised, de SenLinYu: Resenha de Fantasia Sombria e Horror
- Pedro Sucupira
- há 22 horas
- 5 min de leitura

Alchemised, romance de estreia de SenLinYu, acompanha Helena Marino, uma antiga alquimista e integrante da Resistência que, após uma longa guerra, é capturada pelo novo regime que governa Paladia. Prisioneira de guerra e vítima de uma perda inexplicável de memória, Helena não consegue recordar especialmente os acontecimentos dos meses que antecederam sua captura, justamente o período que pode conter informações importantes sobre a Resistência e sobre os acontecimentos que levaram à sua derrota.
Paladia é governada por famílias de guildas e por poderosos necromantes, cuja magia permite criar e controlar criaturas mortas-vivas, os chamados necrosservos. Embora os registros indiquem que Helena ocupava uma posição relativamente secundária na Resistência, seus inimigos acreditam que suas memórias apagadas escondem informações valiosas. Para tentar recuperar essas lembranças, ela é entregue ao Alcaide-mor Kaine Ferron, um dos necromantes mais poderosos do novo regime.
A partir daí, a narrativa se desenvolve em torno da tentativa de Helena de reconstruir o próprio passado, compreender o que aconteceu durante a guerra e descobrir quais segredos estão relacionados ao homem que agora mantém sua vida sob controle. A história combina fantasia sombria, alquimia, necromancia, guerra, horror, intriga política e romance, utilizando a perda de memória da protagonista como recurso para revelar gradualmente tanto o passado de Helena quanto a verdadeira dimensão do conflito.
Um dos maiores méritos do livro, para mim, está justamente na construção desse universo. SenLinYu desenvolve diferentes sistemas de magia e apresenta conceitos como necromancia, vitamancia, animancia e diferentes formas de alquimia, cada uma com características e implicações próprias. São conceitos que eu nunca havia encontrado dessa maneira em outras leituras e que despertaram bastante a minha curiosidade. A quantidade de detalhes também impressiona, principalmente porque a autora constrói uma sociedade organizada em famílias, guildas, crenças, hierarquias e sistemas mágicos que se relacionam entre si.
Por outro lado, essa riqueza de informações também representa uma das maiores dificuldades do início do livro. As primeiras 150 páginas foram bastante arrastadas para mim. O universo é apresentado de maneira muito fragmentada, e o leitor demora para compreender como as famílias, os personagens, as diferentes formas de magia e os acontecimentos da guerra se relacionam. Os novos termos aparecem em grande quantidade e, nas primeiras cem páginas, tive dificuldade para acompanhar algumas dessas informações.
Cheguei a pesquisar por fora e encontrei materiais que ajudaram a organizar melhor os nomes das famílias, os conceitos e os sistemas de magia. Com o tempo, porém, as peças começaram a se encaixar. Por volta da página 160, a narrativa finalmente ganhou outra dimensão para mim: passei a compreender melhor quem eram os personagens importantes, quais eram as forças envolvidas no conflito e, principalmente, como aquele universo funcionava como um todo.
A diferença foi tão grande que minha experiência de leitura mudou completamente. Levei aproximadamente um mês para chegar às primeiras 150 páginas; depois disso, a leitura simplesmente deslanchou. Passei a querer ler todos os dias e terminei completamente envolvido pela história. Por isso, para quem pretende ler Alchemised, minha principal recomendação é ter paciência com o início. É necessário algum tempo para absorver a quantidade de informações apresentada pela autora, mas, depois que esse universo começa a fazer sentido, a leitura se torna muito mais fluida.
Outro aspecto que me chamou atenção foi a maneira como a obra trabalha a ideia de bem e mal. Não consegui enxergar a Chama Eterna como uma representação absoluta do lado virtuoso da guerra, assim como seus adversários tampouco funcionam simplesmente como a personificação do mal. Alguns personagens associados à Chama Eterna me causaram bastante irritação justamente pela ingenuidade, pelo fanatismo e pela disposição de sacrificar outras pessoas em nome de suas crenças. Em contrapartida, personagens que deveriam ocupar o lugar de antagonistas despertaram em mim muito mais empatia do que eu esperava.
Essa ambiguidade funciona bem porque impede que o conflito seja reduzido a uma disputa convencional entre heróis e vilões. Conforme a história avança, o leitor começa a questionar as motivações de cada grupo, as justificativas utilizadas para suas ações e o preço que cada personagem está disposto a pagar em nome daquilo em que acredita.
Helena, a protagonista, foi uma personagem difícil para mim. Sua passividade, sua leniência e a maneira como aceita determinadas situações me incomodaram durante boa parte da leitura. Ela sofre abusos de diferentes lados, inclusive de pessoas ligadas à própria causa que defende, passando por julgamentos, interrogatórios e situações de violência que poderiam despertar uma reação mais contundente. Em muitos momentos, tive a sensação de que ela simplesmente suportava os acontecimentos sem conseguir reagir a eles.
Isso acabou prejudicando minha relação com a protagonista. Como Helena está no centro da narrativa, houve momentos em que os acontecimentos ao seu redor me interessavam mais do que aquilo que acontecia com ela. Sua trajetória também é marcada por crises de ansiedade, por uma dificuldade constante de controlar seus próprios poderes e por uma submissão bastante intensa a uma crença religiosa que, ao mesmo tempo, ela própria questiona. Essa combinação me pareceu confusa e, em alguns momentos, cansativa.
Com o avanço da história, porém, minha percepção sobre Helena foi mudando. Aos poucos, fica mais claro que essas características fazem parte da construção da personagem e estão relacionadas ao seu passado, aos traumas que sofreu e às circunstâncias que determinaram sua personalidade. A autora consegue desenvolver Helena progressivamente, e aquilo que inicialmente me causava antipatia passou a fazer mais sentido conforme as informações sobre sua história eram reveladas. Ainda assim, continuo achando que a narrativa perde força quando se concentra exclusivamente nela.
O aspecto que mais me surpreendeu, entretanto, foi o horror. Alchemised possui uma violência bastante gráfica e não economiza nas descrições de tortura, mutilação, sofrimento e morte. Em alguns momentos, a narrativa se aproxima do gore, algo que me agradou bastante porque corresponde ao tipo de literatura que costumo procurar. SenLinYu não parece preocupada em suavizar determinadas situações para tornar a história mais confortável, e essa disposição de levar algumas cenas até consequências bastante brutais acrescenta uma camada interessante à fantasia sombria do romance.
Minha principal ressalva fica para o final. Depois de uma construção tão extensa e de tantos elementos apresentados ao longo das quase mil páginas, tive a impressão de que alguns acontecimentos foram resolvidos rapidamente demais. Existem situações e personagens que poderiam ter recebido maior desenvolvimento, e eu não teria me incomodado se o livro fosse ainda mais longo para explorar essas possibilidades.
No conjunto, porém, gostei bastante da experiência. Alchemised possui um universo original, complexo e cheio de possibilidades, além de uma combinação de fantasia, horror e alquimia que conseguiu despertar minha curiosidade durante praticamente toda a leitura. Foi um livro que exigiu paciência no início, mas que me recompensou quando finalmente consegui compreender a lógica daquele mundo.
É uma leitura que recomendo principalmente para quem gosta de fantasia sombria e de histórias que combinam magia, violência, necromancia e horror. Para mim, o maior mérito de SenLinYu está na criação desse universo e na disposição de explorar seus aspectos mais obscuros sem suavizá-los.
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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.
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