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A Mulher Ruiva, por Orhan Pamuk.

Atualizado: 22 de mai.


Box da obra A Mulher Ruiva, de Orhan Pamuk, com design gráfico marcante. À esquerda, a luva protetora em verde com estampas florais em rosa. Ao centro, o livro principal em vermelho vibrante com ilustrações estilizadas de figuras humanas e o título em rosa. À direita, um livreto complementar em rosa com a imagem de um guerreiro a cavalo, acompanhado do texto 'Prefácio inédito'. Arte gráfica inspirada em miniaturas orientais.

A Mulher Ruiva, escrito pelo autor turco Orhan Pamuk, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, foi minha primeira incursão pela literatura do Oriente Médio, e, devo dizer, uma experiência surpreendentemente rica. A leitura me apresentou um estilo narrativo muito diferente do que estou habituado, mais pausado, mais introspectivo, carregado de simbolismo e de camadas psicológicas sutis. E é justamente essa diferença que torna o romance tão interessante.

A história gira em torno de Cem Çelik, um jovem estudante de Istambul que, durante um verão marcante, vai trabalhar como ajudante de um cavador de poços chamado Mahmut. A relação entre os dois homens, marcada por silêncios, autoridade e expectativas, desperta em Cem uma profunda identificação. Mahmut passa a ocupar o espaço simbólico do pai ausente, figura que Cem busca, consciente ou inconscientemente, preencher ao longo de sua vida.

O romance é centrado nas relações humanas e em suas complexidades, especialmente nos laços paternos, reais, simbólicos, idealizados ou interrompidos. Pamuk costura a narrativa com base nessa tensão afetiva, mesclando memórias, mitologia, referências literárias e dilemas morais. A escrita é em primeira pessoa, dividida em capítulos curtos e de leitura fluida, o que facilita o mergulho no enredo mesmo quando ele ganha densidade filosófica. A linguagem é simples e acessível, mas não perde profundidade. Poucas vezes precisei recorrer ao dicionário, sempre para compreender termos ligados à cultura turca ou islâmica — o que, aliás, acrescentou muito à experiência.

O livro é dividido em três partes bem definidas, e foi apenas ao final da primeira, quando ocorre uma reviravolta inesperada e perturbadora, que me senti completamente envolvido. A partir desse ponto, a história ganha força e se transforma: o que parecia ser apenas um relato de amadurecimento assume tons trágicos, cheios de ambiguidade moral e tensão psicológica. As escolhas feitas por Cem nessa fase o assombrarão ao longo da vida, revelando a complexidade das decisões e as consequências inescapáveis de certos gestos.

Há, ao longo do livro, referências diretas e indiretas a mitos clássicos, como a tragédia de Édipo e a lenda persa de Rostam e Sohrab. Essas alusões enriquecem a narrativa, conferindo-lhe uma dimensão simbólica que ultrapassa a história individual do protagonista e alcança temas universais como culpa, destino, paternidade e identidade. Pamuk faz isso com grande elegância, sem soar pretensioso ou excessivamente erudito.

O título do livro, A Mulher Ruiva, refere-se a uma figura enigmática que Cem conhece ainda jovem e que, como uma aparição, marcará sua trajetória. Ela representa o desejo, a curiosidade, o desconhecido e, em certo sentido, o início de uma longa cadeia de desdobramentos existenciais. Sua presença no romance é breve, mas impactante, funcionando quase como um arquétipo que conecta o mito ao cotidiano, o real ao imaginado.

Recomendo a leitura, especialmente para quem deseja sair do lugar-comum e conhecer uma literatura que oferece ritmo próprio, outras sensibilidades e uma visão menos ocidentalizada do mundo e das relações humanas. A Mulher Ruiva é um romance silencioso, mas cheio de ecos. Uma história sobre ausências, escolhas e o peso que carregamos ao longo do tempo.

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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.

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