A Coragem de Ser Imperfeito — Uma leitura sobre vulnerabilidade, vergonha e autenticidade.
- Pedro Sucupira
- 3 de fev. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 22 de mai.
Nos últimos tempos, formou-se uma certa aversão, ou desdém velado, à literatura de autoconhecimento e autoajuda. Basta citar o termo para que alguns revirem os olhos, como se esse tipo de leitura fosse sinônimo de ingenuidade, sentimentalismo barato ou soluções prontas para vidas complexas. Sinceramente, eu não compreendo essa resistência. Afinal, o que há de errado em querer se entender melhor, lidar com os próprios traumas, reconhecer limites e cultivar coragem? Mau e pedante não é o ato de buscar ajuda, mas sim o orgulho que impede o sujeito de admitir que precisa dela.

Mesmo que você seja desses leitores céticos, que torcem o nariz para qualquer coisa com a palavra “auto” na capa, vale a pena abrir uma exceção para A Coragem de Ser Imperfeito. O motivo é simples: este livro não é um apanhado de frases de efeito, é o resultado de doze anos de pesquisa científica sobre vulnerabilidade, vergonha, medo e empatia. Brené Brown, professora e pesquisadora da Universidade de Houston, não escreve como uma guru da positividade tóxica, mas como alguém profundamente comprometida com o rigor do dado e a complexidade do humano.
E talvez o que mais impressiona em sua escrita seja justamente a junção entre método e humanidade. Brown apresenta suas ideias com uma clareza rara, sem perder a profundidade. Cada capítulo é construído com cuidado, como se ela mesma soubesse que está tocando em feridas abertas, e por isso o faz com sensibilidade, sem julgamentos. Ao longo da leitura, nos sentimos acolhidos, não pela promessa de uma vida perfeita, mas pelo convite à aceitação da imperfeição como parte inevitável (e bela) da existência.
Logo nas primeiras páginas, ela desmonta um dos maiores mitos do nosso tempo: a ideia de que vulnerabilidade é sinal de fraqueza. Para Brown, é justamente o oposto, a vulnerabilidade é a essência da coragem. É o espaço onde se encontram a criatividade, a autenticidade, a compaixão e a verdadeira conexão humana. "Nós gostamos de ver a vulnerabilidade e a verdade transparecerem nas outras pessoas", escreve ela, "mas temos medo de deixar que as vejam em nós". E por quê? Porque tememos não ser suficientes. Tememos que nossa verdade, nua e crua, não seja boa o bastante sem filtro, sem maquiagem, sem uma versão editada de nós mesmos.
Em um mundo que insiste em nos cobrar perfeição, na aparência, na produtividade, nas emoções, nas redes sociais, A Coragem de Ser Imperfeito surge como um manifesto pela autenticidade. É um lembrete de que a alegria, como ela mesma afirma, "nos visita em momentos comuns", e que corremos o risco de deixá-la passar despercebida ao perseguirmos incessantemente o extraordinário.
O livro também dialoga com pensadores como Carl Gustav Jung, que Brown cita: "Eu não sou o que me acontece. Eu sou o que escolho me tornar." Essa frase resume bem o espírito da obra: assumir a responsabilidade pela própria história, mesmo quando ela inclui falhas, quedas e cicatrizes.
Mas esse não é um livro que apenas emociona, ele provoca. Nos convida a refletir sobre padrões internalizados, sobre a cultura da escassez ("nunca sou bom o bastante"), sobre como a vergonha molda nossos comportamentos e afeta nossos relacionamentos. É uma leitura que exige sinceridade consigo mesmo, e isso, muitas vezes, é o que mais assusta.
Por isso, mais do que um texto inspirador, A Coragem de Ser Imperfeito é um chamado à ação. Uma ação interna, íntima, quase silenciosa, mas profundamente transformadora. Não se trata de tornar-se perfeito, mas de abandonar a ilusão de que precisaríamos ser.
Brené Brown escreve com ternura e autoridade. E, talvez, por isso sua mensagem seja tão poderosa: porque ela vem de alguém que já esteve lá, entre os escombros emocionais que todos nós, em algum grau, tentamos esconder. Sua obra nos lembra de que é possível, e necessário — viver com o coração aberto, mesmo que isso nos exponha.
Se você está cansado de armaduras, de fingimentos, de exigências impossíveis, ou se apenas deseja respirar com mais leveza e verdade, esse livro é um ótimo começo.
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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.
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