Sula - A liberdade, o desejo e a ruptura no romance de Toni Morrison
- Pedro Sucupira
- 23 de fev. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 22 de mai. de 2025
Sula é o segundo romance da trajetória literária de Toni Morrison, a primeira mulher negra a receber o Prêmio Nobel de Literatura, e uma das vozes mais fundamentais da ficção contemporânea. Publicado em 1973, o livro se passa na fictícia cidade de Medallion, em Ohio, e tem como ponto central a amizade intensa, ambígua e transformadora entre duas mulheres negras: Sula Peace e Nel Wright. Mas seria um erro reduzi-lo a um romance sobre amizade. O que Morrison faz aqui é, mais uma vez, usar a intimidade de suas personagens para escancarar estruturas profundas, de raça, gênero, moralidade e desejo, que sustentam (e sufocam) a sociedade.

A história se inicia na década de 1920 e avança em direção ao pós-guerra, mas o tempo cronológico é apenas o pano de fundo. O que realmente importa é o tempo das marcas: os traumas herdados, os silêncios construídos, os afetos interrompidos. Sula e Nel seguem caminhos distintos: uma se rebela, a outra se conforma. Uma desafia as regras sociais, a outra se molda a elas. E ainda assim, as duas permanecem ligadas por um fio invisível, de amor, de identificação, de confronto.
A liberdade feminina, em Sula, é abordada sob um prisma ousado e incômodo, especialmente quando associada à liberdade sexual. Morrison retrata com coragem o desejo feminino em toda a sua complexidade, sem suavizações, sem moralismo, sem a necessidade de justificar. E é justamente isso que torna o livro tão poderoso: ele não pede desculpas. Pelo contrário, ele exige que o leitor encare de frente os julgamentos que carrega consigo.
Toni Morrison escreve com uma beleza sóbria, de vocabulário econômico, mas carregado de sentido. Como em O Olho Mais Azul, há um lirismo denso que permeia a narrativa, sem jamais cair no sentimentalismo. É um romantismo feroz, diria eu, que fere, que marca, que nos arranca do conforto e nos força a repensar os pilares do que chamamos de certo e errado. A moralidade, aqui, é instável, ambígua, viva.
Sula é uma personagem desconcertante, e esse é o seu maior valor. Ela rompe com o esperado, com o tradicional, com o “lugar da mulher negra” na literatura e na sociedade. Não é feita para ser gostada ou aceita, mas para ser lida, sentida, debatida. E Nel, sua contraparte, é o espelho invertido: a mulher que tenta seguir o caminho traçado, mas que carrega, soterrada, uma inquietação que jamais a deixará em paz. Juntas, elas expõem uma verdade incômoda: às vezes, seguir as regras é mais devastador do que rompê-las.
O que mais me impressiona em Morrison é sua habilidade de construir personagens profundos em poucas linhas. A economia de páginas — Sula é um romance curto — não compromete, em nada, sua densidade. Pelo contrário, torna tudo mais concentrado, mais afiado. Cada cena tem peso, cada diálogo tem tensão, cada gesto reverbera. É uma obra que exige do leitor atenção emocional. E que recompensa com cenas de tirar o fôlego, como se a autora nos segurasse pela garganta com palavras afiadas e nos impedisse de escapar.
Ler Sula é um mergulho. E, como todo mergulho, há beleza e há susto. Em diversos momentos, me vi lutando contra o cansaço físico para seguir, incapaz de abandonar aquela cidade, aquelas mulheres, aqueles silêncios. Morrison não apenas nos conta uma história, ela nos envolve, nos atravessa, nos transforma.
Sula não é só literatura. É corpo, é pensamento, é coragem. Um livro que amplia o nosso olhar sobre o mundo e sobre nós mesmos.
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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.
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