O que a Bíblia realmente diz sobre a homossexualidade.
- Pedro Sucupira
- 10 de ago. de 2022
- 5 min de leitura
Atualizado: 28 de mai.
O que a Bíblia realmente diz sobre a homossexualidade, por Daniel A. Helminiak.
Uma resenha crítica por Pedro Sucupira
De onde vem tanto ódio? Qual é a origem dessa aversão brutal e insidiosa contra pessoas LGBTQIAP+? Em que momento da história o discurso religioso, que deveria ser um instrumento de amor, se tornou arma de silenciamento e violência?
Em um país como o Brasil, campeão mundial no assassinato de pessoas LGBTQIAP+, essas perguntas não podem mais ser ignoradas. Em tempos de hashtags corporativas e discursos envernizados sobre “diversidade e inclusão”, ainda vivemos, nas entranhas do cotidiano, a constante ameaça da exclusão. Há um abismo entre os slogans progressistas e a realidade de quem precisa, todos os dias, justificar sua existência.
Empresas estampam bandeiras, celebram datas, promovem campanhas. Mas quando um homem gay, cisgênero, não se sente seguro para falar de sua vida em um ambiente de trabalho dito “diverso”, algo está terrivelmente errado. A verdade é que, muitas vezes, a cultura organizacional é inclusiva apenas na aparência. O preconceito não se combate com posts; exige mudança estrutural. E essa mudança passa, necessariamente, por compreender a raiz da intolerância, e uma delas, talvez a mais profunda, está no uso político da religião.
É nesse contexto que o livro O que a Bíblia realmente diz sobre a homossexualidade, do teólogo e psicólogo Daniel A. Helminiak, torna-se uma leitura urgente. Publicado no Brasil pela Summus Editorial em 1998, com apenas 144 páginas, o livro é ao mesmo tempo uma obra de desconstrução e libertação. Helminiak nos conduz por uma análise crítica e profundamente humana dos textos bíblicos tradicionalmente utilizados para justificar a homofobia. O resultado é um convite à reflexão, um bálsamo para quem foi ferido pela fé mal interpretada.
Helminiak inicia sua investigação com uma distinção fundamental: a diferença entre a interpretação literal e a histórico-crítica da Bíblia. A primeira, típica do fundamentalismo religioso, lê os textos sagrados como verdades absolutas e atemporais, desconsiderando o contexto histórico, social e linguístico em que foram escritos. Essa abordagem, segundo ele, é fácil, rasa e perigosa porque reduz o sagrado à opinião popular ou à voz do pregador mais influente.
Já a leitura histórico-crítica exige esforço: requer arqueologia, estudo de línguas antigas, contexto antropológico. Não é simples, nem imediata, mas é justamente por isso que permite interpretações mais justas, coerentes e respeitosas com o espírito do texto. Helminiak, doutor em Teologia e Psicologia, demonstra como essa metodologia é capaz de desmontar, com elegância e erudição, os argumentos que sustentam a LGBTfobia cristã.
A partir dessa lente, o autor analisa alguns dos trechos mais utilizados por religiosos conservadores: as narrativas sobre Sodoma e Gomorra, os versículos do Levítico, e as cartas de Paulo aos Romanos, Coríntios e Timóteo. Em todos os casos, Helminiak mostra que as passagens, quando lidas em seu contexto histórico e cultural, não dizem o que os fundamentalistas afirmam que dizem.
Algumas de suas principais conclusões são:
A Bíblia não condena a homossexualidade como a entendemos hoje — ela simplesmente não aborda a questão da orientação sexual como categoria;
Os pecados de Sodoma foram a violência e a inospitalidade, não atos sexuais entre pessoas do mesmo gênero;
As cartas de Paulo tratam de comportamentos específicos de abuso e idolatria, não de relações homoafetivas éticas e consensuais;
Não há qualquer menção direta a lésbicas, pessoas trans, bissexuais, pansexuais ou intersexuais;
As traduções bíblicas variam conforme os preconceitos dos tradutores e das épocas em que foram feitas.
Mais do que demolir falácias, o livro propõe reconstruções. Helminiak apresenta passagens bíblicas que podem ser lidas como expressões de amor entre pessoas do mesmo gênero — como a relação entre Davi e Jônatas, Rute e Noemi, e até o encontro entre Jesus e o centurião romano. São textos que revelam ternura, cuidado e cumplicidade, sentimentos humanos que, por vezes, transcendem os rótulos da sexualidade.
Apesar de tratar de temas complexos como grego antigo, exegese e antropologia bíblica, o livro é acessível. Sua linguagem clara, suas frases curtas e seu ritmo fluido fazem com que o leitor se sinta conduzido, e não atropelado, pelo conteúdo. É uma leitura que informa, sim, mas também cura. Porque muitos de nós, LGBTQIAP+, carregamos feridas abertas por anos de discursos religiosos que nos fizeram acreditar que somos “errados”.
Foi o meu caso. Como muitos, cresci em uma família cristã, imerso em doutrinas que associavam minha identidade ao pecado. Durante anos, calei, temi, sofri. E foi somente ao acessar leituras como a de Helminiak que consegui romper com esse ciclo de autoaversão. Não apenas compreendi o quanto a Bíblia havia sido mal utilizada, mas também reencontrei, nas entrelinhas do texto sagrado, uma ética de amor, justiça e acolhimento que nada tem a ver com o ódio que pregadores do ódio propagam em seu nome.
Ler este livro me permitiu argumentar com firmeza diante de falas preconceituosas vindas de familiares, líderes religiosos e colegas. Mas mais do que isso, me reconectou com a minha “espiritualidade” de forma honesta e digna. Porque a fé não deveria ser um cárcere. Deveria ser um espaço de liberdade.
Por fim, vale lembrar: a religião moldou, e ainda molda, as estruturas sociais e políticas do Brasil. Desde a colonização, a moral cristã esteve presente na educação, no direito, na medicina, na política. Por isso, conhecer criticamente seus fundamentos é fundamental para desarticular os discursos que, travestidos de fé, perpetuam o preconceito.
O que a Bíblia realmente diz sobre a homossexualidade não é apenas um livro sobre teologia. É um instrumento de resistência. Um ato de justiça. Um convite para que voltemos a olhar para o sagrado com olhos menos dogmáticos e mais humanos.
E você? Que leitura tem feito da sua fé? O que acha sobre o assunto? Acredita que a religião tem sua parcela de culpa no que se trata de preconceitos? Você acredita que o pensamento cristão ajuda a perpetuar diferentes tipos de intolerâncias?

Referência
HELMINIAK, DANIEL A. O que a Bíblia realmente diz sobre a homossexualidade [Tradução Eduardo Teixeira Nunes]. 1º Edição – São Paulo: Summus, 1998. 144 páginas.
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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.
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Fonte foto de capa pexel.com
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