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O Mito do Progresso: Colonialidade, Desenvolvimento e a Crítica à Modernidade

Vivemos cercados pela promessa de que o futuro será melhor que o presente. Crescimento econômico, inovação tecnológica, expansão dos mercados e desenvolvimento aparecem constantemente como sinônimos de avanço civilizatório. Mas e se essa narrativa não for tão evidente quanto parece?

Neste ensaio, questionamos uma das crenças mais profundas da modernidade: o Mito do Progresso. Mais do que uma simples ideia política ou econômica, o progresso tornou-se uma poderosa narrativa capaz de orientar instituições, justificar projetos de desenvolvimento e moldar a forma como imaginamos o futuro. A partir de autores como Aníbal Quijano, Enrique Dussel, Boaventura de Sousa Santos e Walter Benjamin, investigamos como essa noção se consolidou como uma espécie de fé secular, sustentando expectativas coletivas e definindo aquilo que passa a ser reconhecido como avanço, civilização e desenvolvimento.

Ao examinar as relações entre colonialismo, capitalismo, desigualdade e destruição ambiental, o texto convida o leitor a formular perguntas que raramente são feitas: progresso para quem? Desenvolvimento de quê? E quais formas de vida permanecem invisíveis quando uma única narrativa pretende representar toda a humanidade? Talvez questionar o Mito do Progresso seja o primeiro passo para imaginar outros futuros possíveis.

Imagem de uma fachada de madeira escura com uma grande janela estilhaçada. No vidro rachado está escrita a frase “Work in Progress” em letras douradas. As fissuras se espalham por toda a superfície, criando um contraste entre destruição e reconstrução. A iluminação baixa e o ambiente sombrio reforçam a ideia de um processo de transformação ainda em andamento.

Evoluir para quê? Qual é, afinal, o objetivo desse chamado desenvolvimento? Falamos em progresso há séculos e, apesar disso, continuamos cercados por formas persistentes de sofrimento que parecem resistir a todas as promessas de modernização. Evoluir para quem? Se a fome ainda assola milhões de pessoas, se a desigualdade continua estruturando sociedades inteiras e se a destruição ambiental avança em escala planetária, quem realmente colhe os frutos desse desenvolvimento? Até quando seguiremos celebrando um movimento histórico que avança consumindo florestas, exaurindo territórios, deslocando populações e convertendo a vida em recurso econômico, enquanto a miséria permanece como uma presença constante no horizonte da humanidade?

Essas perguntas não pretendem negar as transformações técnicas, científicas e materiais que marcaram a história moderna. Seria absurdo ignorar os avanços da medicina, das comunicações, dos transportes ou das condições de vida em diversas regiões do planeta. O que está em questão é outra coisa: a própria estrutura narrativa que sustenta a ideia de progresso. Talvez o problema não esteja apenas nos resultados produzidos por esse modelo de desenvolvimento, mas na crença de que a história humana possui uma direção necessária, linear e universal, orientada para um futuro supostamente superior ao passado.

Há uma confiança profundamente enraizada na imaginação moderna segundo a qual o amanhã será inevitavelmente melhor que o ontem. Essa confiança atravessa governos, instituições, empresas, universidades e organismos internacionais. Ela organiza políticas públicas, legitima projetos econômicos e estrutura grande parte das expectativas coletivas sobre o futuro. Entretanto, raramente nos perguntamos de onde vem essa crença ou quais pressupostos ela carrega.

Nesse sentido, talvez seja pertinente levar a sério uma hipótese provocadora: mais do que um conceito econômico ou político, o desenvolvimento opera como uma forma de fé. Trata-se de uma crença compartilhada, de uma narrativa organizadora da experiência histórica, de um sistema simbólico capaz de atribuir sentido às transformações sociais. O progresso funciona como uma promessa. E como toda promessa, depende menos de sua realização concreta do que da capacidade de manter vivo o desejo de sua realização futura.

É precisamente por isso que o desenvolvimento se assemelha, em muitos aspectos, a uma religião secular. Possui seus dogmas, seus sacerdotes, suas instituições legitimadoras, seus rituais e suas heresias. Possui também uma escatologia própria, uma visão de futuro na qual os problemas do presente seriam gradualmente superados pela expansão contínua da racionalidade técnica, do crescimento econômico e da inovação. Aqueles que questionam essa narrativa frequentemente são tratados como irracionais, nostálgicos ou inimigos do progresso, da mesma forma que dissidentes religiosos foram historicamente acusados de ameaçar a ordem estabelecida.

Entretanto, a ideia moderna de progresso não surgiu em um vazio histórico. Ela emerge simultaneamente à expansão colonial europeia, à constituição do capitalismo mundial e à consolidação de uma visão específica sobre o que significa ser humano, civilizado e desenvolvido. Modernidade e colonialismo não são processos paralelos que ocasionalmente se encontraram na história. Eles constituem dimensões inseparáveis de uma mesma formação histórica.

Autores como Aníbal Quijano e Enrique Dussel insistiram nesse ponto. A modernidade costuma narrar a si mesma como uma história de emancipação, racionalidade e avanço civilizatório. Contudo, essa narrativa frequentemente silencia as condições materiais que possibilitaram sua existência. A riqueza acumulada pelos impérios europeus, a expansão dos mercados globais, a constituição dos Estados modernos e a própria Revolução Industrial dependeram, em larga medida, da exploração colonial, da escravização de povos africanos, da expropriação de territórios indígenas e da incorporação violenta de vastas regiões do planeta à lógica da acumulação capitalista.

Aquilo que aparece como progresso para alguns frequentemente significou devastação para outros.

Se o colonialismo diz respeito à dimensão concreta desses processos — ocupação territorial, exploração econômica, dominação militar e imposição de hierarquias raciais —, a colonialidade refere-se à permanência de estruturas de poder e formas de pensamento que continuam operando mesmo após o fim formal das administrações coloniais. A colonialidade não se limita à esfera econômica. Ela atravessa o conhecimento, a cultura, a linguagem, a política e a própria forma como aprendemos a perceber o mundo.

Sua força reside justamente na capacidade de transformar relações históricas em evidências aparentemente naturais. Sob diferentes registros — acadêmicos, científicos, jurídicos, midiáticos e institucionais —, produz-se uma visão da realidade na qual determinadas formas de vida aparecem como mais avançadas, mais racionais e mais desejáveis do que outras. A diversidade histórica da experiência humana é reduzida a uma escala hierárquica. Alguns povos são posicionados na vanguarda da civilização; outros são empurrados para as margens da história, tratados como remanescentes de um passado que ainda não alcançou o presente.

Essa operação possui efeitos profundos. Quando o progresso é concebido como uma trajetória única, toda diferença passa a ser interpretada como atraso. Modos alternativos de organizar a vida coletiva, formas distintas de relação com a natureza e concepções não ocidentais de conhecimento tornam-se obstáculos a serem superados ou resíduos históricos destinados ao desaparecimento.

É nesse ponto que a crítica de Boaventura de Sousa Santos se torna particularmente relevante. Segundo o autor, a modernidade ocidental produziu aquilo que denomina pensamento abissal: uma forma de conhecimento que traça uma linha invisível separando o que pode ser reconhecido como realidade legítima daquilo que é relegado à inexistência social e epistemológica. Essa linha não distingue apenas opiniões diferentes. Ela define quais saberes merecem ser considerados conhecimento e quais serão descartados como superstição, crença, tradição ou folclore.

O epistemicídio emerge precisamente desse processo. Assim como o colonialismo destruiu corpos, territórios e comunidades, também destruiu sistemas inteiros de conhecimento. Cosmologias indígenas, filosofias africanas, saberes camponeses e inúmeras formas alternativas de compreender o mundo foram sistematicamente desqualificados ou apagados. A violência colonial atingiu não apenas pessoas, mas também maneiras de pensar, sentir e interpretar a realidade.

O resultado foi um estreitamento dramático do horizonte do possível. Quando uma única racionalidade se apresenta como universal, outras formas de existência deixam de ser vistas como alternativas legítimas e passam a aparecer como desvios, anomalias ou insuficiências.

Talvez uma das consequências mais profundas desse processo seja a incapacidade contemporânea de imaginar futuros que escapem à lógica do desenvolvimento. Mesmo as críticas ao capitalismo frequentemente permanecem presas à ideia de crescimento, produtividade e expansão contínua. Mudam-se os gestores, alteram-se as políticas, redistribuem-se recursos, mas a estrutura imaginária do progresso permanece praticamente intacta.

Walter Benjamin percebeu esse problema de maneira extraordinária. Em suas Teses Sobre o Conceito de História, ele questiona a imagem da história como marcha triunfal da humanidade. Seu célebre anjo da história olha para o passado e enxerga não uma sequência de conquistas, mas uma acumulação incessante de ruínas. Enquanto o progresso empurra a humanidade para o futuro, os escombros se acumulam atrás dela.

A imagem permanece perturbadoramente atual.

Talvez a crítica ao progresso não exija que abandonemos qualquer desejo de transformação social. A questão não é defender um retorno romântico ao passado nem rejeitar avanços técnicos ou científicos. O desafio consiste em romper com a ideia de que existe um único caminho legítimo para a humanidade, uma única forma válida de desenvolvimento ou uma única definição possível de bem-estar.

Questionar o progresso significa recuperar a capacidade de imaginar outros mundos. Significa reconhecer que a história não possui direção garantida, que o futuro não está previamente determinado e que diferentes sociedades podem construir formas distintas de viver, produzir conhecimento e organizar suas relações com a natureza.

Talvez a tarefa crítica mais urgente do nosso tempo consista justamente em isso: suspender, ainda que por um instante, a fé no progresso para voltar a perguntar aquilo que sua própria evidência nos ensinou a esquecer. Progresso para quem? Desenvolvimento de quê? Crescimento a que custo? E, sobretudo, que formas de vida permanecem invisíveis toda vez que uma única narrativa pretende falar em nome de toda a humanidade?

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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.

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