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O Iluminado: resenha do livro de Stephen King


Capa do livro O Iluminado, de Stephen King, com tipografia vermelha em destaque sobre fundo escuro e envelhecido. Na parte inferior, uma porta de madeira marcada com o número 217 aparece iluminada por uma luz intensa, com a palavra “REDRUM” escrita em vermelho. A composição cria uma atmosfera sombria e claustrofóbica inspirada no Hotel Overlook.

O Iluminado, de Stephen King, é um livro que nos envolve logo no início pois constrói uma atmosfera psicológica suficientemente complexa para permanecer reverberando mesmo após o término da leitura. É uma obra extremamente fluida, de leitura fácil e agradável, quase viciante em determinados momentos, o que explica por que o romance se tornou não apenas um clássico do horror moderno, mas também uma porta de entrada para muitos leitores que desejam se aproximar da literatura de terror sem encontrar uma escrita excessivamente hermética ou cansativa.

Logo nas primeiras páginas, contudo, é possível que o leitor estranhe a cadência narrativa de King. O autor frequentemente interrompe descrições ou diálogos para inserir pensamentos súbitos das personagens, fragmentos de memória, delírios, vozes interiores e pequenas irrupções do sobrenatural que surgem quase sem aviso prévio. Há momentos em que a narrativa parece deslizar de uma consciência para outra sem grandes transições, como se estivéssemos presos dentro da mente inquieta daqueles personagens. Inicialmente isso pode causar certa sensação de desordem e confusão, mas rapidamente se compreende que essa escolha estilística não é um defeito, e sim parte essencial da experiência do romance. King deseja que o leitor compartilhe da instabilidade emocional e psicológica que lentamente corrói os habitantes do Hotel Overlook.

Resumindo bastante, a história gira em torno da família Torrance: Jack, Wendy e o pequeno Danny. Jack é um homem marcado pelo fracasso, pela frustração profissional e pelo alcoolismo. Aspirante a escritor e tentando reconstruir a própria vida após episódios violentos causados pela bebida, ele aceita trabalhar como zelador de inverno do isolado Hotel Overlook, localizado nas montanhas do Colorado. A proposta parece perfeita: alguns meses de isolamento absoluto durante o inverno rigoroso, tempo suficiente para cuidar do hotel vazio e, quem sabe, finalmente concluir sua peça teatral. Wendy, sua esposa, enxerga naquela oportunidade uma tentativa desesperada de salvar o casamento e preservar a família. Danny, por sua vez, carrega algo muito mais inquietante: um dom psíquico chamado de “iluminação”, que lhe permite perceber presenças, antecipar tragédias e enxergar aquilo que os outros não conseguem ver.

É justamente Danny quem compreende, antes de todos, que o Overlook não é apenas um hotel antigo. O lugar possui uma espécie de consciência própria, alimentada pelos rastros de violência, loucura e morte acumulados ao longo de décadas. O hotel parece absorver o sofrimento humano e transformá-lo em algo vivo. Aos poucos, essa força começa a agir sobre Jack Torrance, explorando suas fraquezas, seus ressentimentos e sua raiva reprimida. O que torna o livro particularmente interessante é que King não transforma Jack imediatamente em um monstro; pelo contrário, há um lento processo de deterioração psicológica, no qual o horror sobrenatural se mistura ao horror profundamente humano da dependência química, da violência doméstica e da incapacidade de escapar de si mesmo.

Embora seja frequentemente lembrado como um romance de fantasmas, o livro funciona muito mais como um estudo da decadência mental e emocional de um homem destruído pelos próprios impulsos. O sobrenatural existe, evidentemente, mas ele nunca aparece isolado da dimensão psicológica dos personagens. O Overlook apenas potencializa aquilo que já estava latente. O hotel não cria a violência de Jack; ele apenas encontra nela um terreno fértil para crescer.

O livro ficou famoso principalmente após a adaptação cinematográfica de 1980, dirigida por Stanley Kubrick e estrelada por Jack Nicholson, cuja interpretação se tornou praticamente inseparável da imagem cultural do personagem. Ainda assim, o livro e o filme são experiências bastante diferentes. Enquanto Kubrick constrói um terror mais frio, simbólico e visualmente opressivo, Stephen King investe muito mais na dimensão psicológica e emocional da família Torrance, especialmente na gradual desintegração de Jack.

Eu gostei bastante da leitura, embora tenha terminado o livro com uma sensação curiosa: esperava encontrar uma experiência mais aterrorizante no sentido tradicional do horror. Esperava aquela sensação constante de angústia, medo e assombração que paralisa o leitor e o faz hesitar antes de apagar a luz do quarto. Em O Iluminado, porém, o medo surge de maneira mais contida e psicológica do que propriamente brutal. Isso não diminui em absolutamente nada a grandeza da obra; trata-se apenas de uma expectativa pessoal. Talvez porque, pouco antes, eu tivesse lido O Cemitério e It - a coisa, dois livros que, para mim, provocaram um horror mais intenso e perturbador. O Iluminado parece menos interessado em assustar continuamente e mais empenhado em construir uma lenta atmosfera de deterioração, como se o verdadeiro terror não estivesse nos fantasmas do hotel, mas naquilo que existe dentro das próprias pessoas.

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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.

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