Insubmissas Lágrimas de Mulheres, por Conceição Evaristo.
- Pedro Sucupira
- 15 de jan.
- 3 min de leitura

Meu primeiro contato com Insubmissas Lágrimas de Mulheres não se deu pela leitura, mas pela escuta — e talvez isso já diga muito sobre a natureza da obra. Conheci o livro durante uma palestra literária conduzida pelo ator Odilon, que, em determinado momento, declamou o conto Maria do Rosário Imaculada dos Santos. O efeito foi imediato e incontornável: não apenas eu, mas grande parte do público foi tomada por uma emoção quase física, daquelas que não se deixam conter pela racionalidade. Chorei, não de maneira discreta, mas profundamente, como quem é atravessado por uma experiência que ultrapassa a esfera estética e se inscreve no campo do vivido.
A narrativa, que acompanha o sequestro de uma menina negra, arrancada de sua família e de sua história para ser inserida à força em outra realidade, só para reencontrar suas origens décadas depois, não se limita a contar um fato: ela restitui uma dignidade, uma memória e uma dor historicamente silenciadas. Ali, no espaço do teatro, o sofrimento, a resiliência e a persistência da vida se tornaram quase tangíveis como se, por alguns instantes, a literatura deixasse de ser mediação e se tornasse presença.
Saí daquele encontro com uma urgência: precisava ler Conceição Evaristo. Havia ali uma potência narrativa que não poderia ser reduzida a um único momento.
Ao me deparar com a obra completa, a expectativa não apenas se confirmou, mas se ampliou. A leitura dos demais contos reiterou aquela primeira impressão: trata-se de uma escrita que não se esquiva da dor, mas também não se limita a ela; há, em cada história, uma tensão constante entre sofrimento e resistência, entre violência e permanência.
Insubmissas Lágrimas de Mulheres reúne treze contos protagonizados por mulheres negras, cujas histórias, embora apresentadas sob a forma ficcional, nascem de experiências reais colhidas pela autora ao longo de sua trajetória. Evaristo opera, assim, em uma zona limítrofe entre ficção e testemunho, onde a literatura se torna instrumento de escuta e, ao mesmo tempo, de elaboração simbólica. Sua escrita — frequentemente associada ao conceito de “escrevivência” — não apenas narra, mas reinscreve essas vidas no espaço da linguagem, recusando o apagamento histórico a que foram submetidas.
O que impressiona não é apenas a força temática das narrativas, mas a precisão com que são conduzidas. Em pouco mais de cento e quarenta páginas, Evaristo demonstra que a extensão de um texto não determina sua profundidade. Ao contrário: há, em sua economia narrativa, uma intensidade que poucos romances extensos conseguem alcançar. Cada conto parece condensar uma existência inteira, com suas rupturas, suas perdas e suas tentativas de reconstrução.
Ler esta obra é confrontar-se com uma realidade que, embora muitas vezes invisibilizada, estrutura a sociedade brasileira. Mas é também reconhecer, nessas histórias, uma potência de vida que resiste, que insiste em existir apesar de tudo. Há dor, sem dúvida, mas há também dignidade, memória e uma forma de esperança que não se confunde com ingenuidade.
Nesse sentido, não é exagero afirmar que somos privilegiados por sermos contemporâneos de uma escritora como Conceição Evaristo. Sua obra não apenas amplia o campo da literatura brasileira, mas redefine seus contornos, ao incorporar vozes, experiências e perspectivas historicamente marginalizadas. E há, para mim, um orgulho adicional, o de saber que essa voz emerge de Belo Horizonte, tornando-se não apenas uma referência literária, mas também um marco afetivo e intelectual que levarei comigo.
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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.
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