top of page

Alice no PaĆ­s das Maravilhas — Um mergulho filosófico no nonsense de Lewis Carroll

Atualizado: 22 de mai.

Acredito que muitos conheçam a história de Alice, mas poucos, de fato, a leram. Essa frase, tão simples quanto verdadeira, resume o paradoxo de Alice no País das Maravilhas: é um dos contos mais conhecidos do mundo, mas também um dos mais mal compreendidos. Publicado originalmente em 1865 (e não 1866, como muitas edições trazem), o livro foi escrito por Charles Lutwidge Dodgson, sob o célebre pseudÓnimo Lewis Carroll, e até hoje fascina leitores com sua mistura de nonsense e profundidade simbólica.

Capa do livro Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, com ilustração colorida e onírica de Alice rodeada por personagens como o Chapeleiro Maluco, o Coelho Branco e um flamingo, sobre fundo verde-esmeralda.

Tal como muitos, meu primeiro contato com Alice foi pelas adaptaƧƵes cinematogrĆ”ficas — a clĆ”ssica animação de 1951, dos estĆŗdios Disney, e, anos mais tarde, a versĆ£o sombria e estilizada de Tim Burton, em 2010. Por jĆ” conhecer o enredo central, nĆ£o iniciei a leitura com grandes expectativas. Pensava que nĆ£o haveria nada de novo. Mas me enganei.

HÔ partes da história que jamais foram adaptadas para o cinema, e só a leitura revela. Cenas inteiras, diÔlogos e principalmente os poemas nonsense, cheios de duplos sentidos e jogos de linguagem, revelam um nível de complexidade e inventividade que vai muito além da versão popularizada. São momentos que, à primeira vista, podem parecer meras excentricidades, mas que, lidos com atenção, revelam questionamentos filosóficos, lógicos, psicológicos e até sociais.

Lembro quando ganhei o livro de uma grande amiga. Veio com um bilhete afetuoso e um conselho precioso:

– Leia devagar. Saboreie cada diĆ”logo.

E eu reforƧo esse conselho a quem me lĆŖ agora. Alice no PaĆ­s das MaravilhasĀ nĆ£o Ć© um livro para se correr. Cada cena, cada frase, cada absurdo tem um motivo para estar ali. Às vezes a lição Ć© clara; outras vezes, escapa pelas bordas da linguagem, se esconde atrĆ”s do humor ou da aparente falta de sentido. Ɖ uma leitura que exige escuta atenta e entrega. E recompensa com camadas.

Embora seja frequentemente categorizado como literatura infantil, trata-se de uma obra profundamente ambĆ­gua e filosófica. Sim, hĆ” o encanto lĆŗdico das criaturas falantes, dos cenĆ”rios surreais, dos jogos de lógica invertida. Mas por trĆ”s da estĆ©tica onĆ­rica, esconde-se uma crĆ­tica Ć”cida Ć  rigidez da educação vitoriana, aos valores da lógica cartesiana e atĆ© Ć s normas de conduta social. Ɖ um livro sobre transformação, identidade, linguagem, poder e absurdo.

Personagens como o Gato de Cheshire, a Lagarta, a Rainha de Copas e o Chapeleiro Maluco não são apenas excêntricos: são arquétipos que encarnam dúvidas existenciais e dilemas de linguagem. Os diÔlogos beiram o irracional, mas expõem, com sutileza, o quanto a razão pode também ser absurda. O que estÔ em jogo, muitas vezes, é a fragilidade dos significados.

AlĆ©m disso, Alice no PaĆ­s das MaravilhasĀ toca em algo muito profundo: a crise de identidade da infĆ¢ncia em transição.Ā Alice cresce e encolhe constantemente — nĆ£o apenas em tamanho, mas em percepção. A narrativa espelha o confuso amadurecimento que todos enfrentamos ao tentar compreender um mundo que parece, por vezes, sem sentido.

Por isso, Alice nĆ£o Ć© só um livro para crianƧas — Ć© um espelho para adultos que ousam se perguntar: "quem sou eu?"; "por que as coisas funcionam assim?"; "e se tudo isso for apenas um jogo de palavras?"

No fim, Alice no PaĆ­s das MaravilhasĀ Ć© um convite Ć  desorientação criativa. Um passeio pelo ilógico que revela as contradiƧƵes da lógica. Uma descida Ć  toca do coelho que nos devolve ao mundo real com novos olhos — talvez nĆ£o mais certos, mas seguramente mais questionadores.

Seja como for, ler AliceĀ Ć© mais do que revisitar uma história conhecida. Ɖ confrontar o estranho no familiar, e o familiar no estranho. E isso, sem dĆŗvida, Ć© o que a boa literatura faz.


*******************************************************************************************

Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansÔvel. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapÔvel da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.

Se este texto te interessou, aqui no blog você encontra outros escritos meus, entre resenhas, contos e reflexões.

No Instagram, vocĆŖ me encontra como @pedrosucupiraa.

No Skoob, como Pedro Sucupira, onde compartilho os livros que li, estou lendo e pretendo ler.

E no Lattes, é possível acessar minha produção acadêmica, incluindo artigos científicos, capítulos e livros publicados.

Se quiser conversar, trocar ideias, críticas, sugestões ou experiências, sinta-se à vontade para me escrever: pdrohfs@gmail.com.

Doação

Se você aprecia os textos, reflexões e histórias que compartilho aqui, considere fazer uma doação. Seu apoio ajuda a manter este espaço vivo, independente e pulsando criatividade. Obrigado por caminhar comigo.

R$

Obrigado(a) pela sua doação!

Acompanhe nosso Blog

Obrigado!

©2021 Pedro Sucupira.

bottom of page