Setembro Amarelo e Ubuntu: pertencimento, empatia e filosofia africana contra o suicídio
Atualizado: 16 de out.

No mês da conscientização e prevenção ao suicídio, uma palavra ressoa com força em minha memória: Ubuntu.
Eu sou um dos milhares de brasileiros que, em 2021, ligou para o número 188, do Centro de Valorização da Vida (CVV). Busquei ajuda. E confesso: foi uma das decisões mais difíceis e importantes da minha vida.
Estar em uma situação-limite, em que não se enxerga saída, é um dos maiores gatilhos para que o suicídio surja como solução imaginada — não por desejo real de morrer, mas por exaustão diante da dor.
E a forma mais imediata de escapar desse buraco, desse beco aparentemente sem saída, é o contato humano. É a escuta genuína do outro. É uma conversa — mas não qualquer conversa. A que me salvou foi com alguém que não apenas me ouvia, mas transpirava empatia.
Hoje, estudando filosofia, reconheço que essa experiência se alinha profundamente com um dos conceitos mais belos e transformadores da tradição filosófica africana: Ubuntu.
"Eu sou porque nós somos"
A cosmovisão africana encontra seu centro em Ubuntu, um princípio que afirma:"Eu sou porque nós somos."Diferente da filosofia ocidental, profundamente marcada pelo individualismo cartesiano e pelas noções de autonomia radical, o pensamento africano nos convida de volta ao comunitário, à experiência compartilhada do humano.
Como diz o filósofo Ivan Luiz Monteiro:
“A humanidade e o humano não se realizam senão por meio ou através dos outros seres humanos.”
No Ubuntu, o indivíduo não existe em isolamento. Ele se faz humano em relação, em vínculo, em pertencimento.
Empatia como fundamento existencial
Em minha experiência de sofrimento, o que me salvou não foi uma teoria, nem um remédio, nem uma fuga. Foi a presença empática de alguém do outro lado da linha. Foi sentir que eu pertencia, que minha dor podia ser compartilhada e que, de alguma forma, isso fazia sentido para o mundo.
Ubuntu ensina exatamente isso.
“A pessoa é uma pessoa através de outras pessoas.”(Motho ke motho ka batho, idioma sesotho do Sul)
Este é o primeiro e mais fundamental princípio da filosofia Ubuntu. Ele afirma que a identidade individual é sempre também coletiva. Que existimos por e com os outros. E que cada ser humano carrega consigo o poder de curar, fortalecer e dar sentido à existência do outro.
Em tempos de depressão, o sentimento de não pertencimento é devastador. A sensação de “sou um fardo”, “ninguém precisa de mim”, “minha ausência será um alívio” é um eco do vazio provocado por um modelo social que exalta a performance, o sucesso, o isolamento, mas silencia a dor.
Ubuntu vem na contramão dessa lógica. Nos lembra que sem mim, o grupo não é o mesmo. Que minha existência importa — e muito.
Mais vida do que riqueza
Outro princípio de Ubuntu diz:
“Ignore a vaca e salve o homem, pois a vida é maior do que a riqueza.”(Feta kgomo o tshware motho, idioma setswana)
Aqui, aprendemos que a vida humana está acima do lucro, da posse e do acúmulo. Em uma sociedade que constantemente nos mede por quanto produzimos, compramos ou entregamos, esta é uma lição radical.
Ela afirma que o valor da existência está na própria vida, e não em seus rendimentos. E isso inclui os dias ruins, os momentos de fraqueza, a pausa, o choro, o silêncio.
Ninguém é absolutamente inútil
“Nenhum ser humano pode ser absolutamente inútil.”(Motho gase mpshe ga a tshewe, idioma sesotho do Norte)
Esse princípio me toca profundamente.
Mesmo quando achamos que falhamos, que decepcionamos, que não servimos mais... Ubuntu nos lembra: ainda assim, há algo em nós que é valioso.
Mesmo nossas contradições, falhas ou visões divergentes têm algo a contribuir. Em uma comunidade viva, plural, diversa, as diferenças não são ruído — são parte da sinfonia. Elas provocam revisão, reflexão, crescimento.
Uma filosofia ancestral para um problema contemporâneo
O suicídio é um problema de saúde pública que se agrava a cada ano. E talvez uma das respostas esteja na própria ancestralidade africana, essa que foi silenciada, negada, inferiorizada por séculos pelo projeto colonial eurocêntrico.
Resgatar o pensamento filosófico africano não é apenas um ato de justiça epistêmica. É também uma cura social.
Ubuntu nos chama de volta ao essencial: o outro. A escuta. O afeto. O pertencimento. A dignidade.
Em um mundo cada vez mais adoecido pelo isolamento e pelo egoísmo, não há mensagem mais poderosa do que essa.
Este artigo foi inspirado pelo livro Introdução ao Pensamento Filosófico Africano, de Ivan Luiz Monteiro, e por todas as vozes que me escutaram quando eu não sabia mais o que dizer.
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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.
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