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Setembro Amarelo e Ubuntu: pertencimento, empatia e filosofia africana contra o suicídio

Atualizado: 22 de mai.



Árvore solitária refletida em um lago tranquilo ao pôr do sol, com tons intensos de vermelho e amarelo, simbolizando introspecção, esperança e pertencimento.


No mês da conscientização e prevenção ao suicídio, uma palavra ressoa com força em minha memória: Ubuntu.

Eu sou um dos milhares de brasileiros que, em 2021, ligou para o número 188, do Centro de Valorização da Vida (CVV). Busquei ajuda. E confesso: foi uma das decisões mais difíceis e importantes da minha vida.

Estar em uma situação-limite, em que não se enxerga saída, é um dos maiores gatilhos para que o suicídio surja como solução imaginada — não por desejo real de morrer, mas por exaustão diante da dor.

E a forma mais imediata de escapar desse buraco, desse beco aparentemente sem saída, é o contato humano. É a escuta genuína do outro. É uma conversa — mas não qualquer conversa. A que me salvou foi com alguém que não apenas me ouvia, mas transpirava empatia.

Hoje, estudando filosofia, reconheço que essa experiência se alinha profundamente com um dos conceitos mais belos e transformadores da tradição filosófica africana: Ubuntu.

"Eu sou porque nós somos"

A cosmovisão africana encontra seu centro em Ubuntu, um princípio que afirma:"Eu sou porque nós somos."Diferente da filosofia ocidental, profundamente marcada pelo individualismo cartesiano e pelas noções de autonomia radical, o pensamento africano nos convida de volta ao comunitário, à experiência compartilhada do humano.

Como diz o filósofo Ivan Luiz Monteiro:

“A humanidade e o humano não se realizam senão por meio ou através dos outros seres humanos.”

No Ubuntu, o indivíduo não existe em isolamento. Ele se faz humano em relação, em vínculo, em pertencimento.

E é aqui que tudo faz sentido.

Empatia como fundamento existencial

Em minha experiência de sofrimento, o que me salvou não foi uma teoria, nem um remédio, nem uma fuga. Foi a presença empática de alguém do outro lado da linha. Foi sentir que eu pertencia, que minha dor podia ser compartilhada e que, de alguma forma, isso fazia sentido para o mundo.

Ubuntu ensina exatamente isso.

“A pessoa é uma pessoa através de outras pessoas.”(Motho ke motho ka batho, idioma sesotho do Sul)

Este é o primeiro e mais fundamental princípio da filosofia Ubuntu. Ele afirma que a identidade individual é sempre também coletiva. Que existimos por e com os outros. E que cada ser humano carrega consigo o poder de curar, fortalecer e dar sentido à existência do outro.

Em tempos de depressão, o sentimento de não pertencimento é devastador. A sensação de “sou um fardo”, “ninguém precisa de mim”, “minha ausência será um alívio” é um eco do vazio provocado por um modelo social que exalta a performance, o sucesso, o isolamento, mas silencia a dor.

Ubuntu vem na contramão dessa lógica. Nos lembra que sem mim, o grupo não é o mesmo. Que minha existência importa — e muito.

Mais vida do que riqueza

Outro princípio de Ubuntu diz:

“Ignore a vaca e salve o homem, pois a vida é maior do que a riqueza.”(Feta kgomo o tshware motho, idioma setswana)

Aqui, aprendemos que a vida humana está acima do lucro, da posse e do acúmulo. Em uma sociedade que constantemente nos mede por quanto produzimos, compramos ou entregamos, esta é uma lição radical.

Ela afirma que o valor da existência está na própria vida, e não em seus rendimentos. E isso inclui os dias ruins, os momentos de fraqueza, a pausa, o choro, o silêncio.

Ninguém é absolutamente inútil

“Nenhum ser humano pode ser absolutamente inútil.”(Motho gase mpshe ga a tshewe, idioma sesotho do Norte)

Esse princípio me toca profundamente.

Mesmo quando achamos que falhamos, que decepcionamos, que não servimos mais... Ubuntu nos lembra: ainda assim, há algo em nós que é valioso.

Mesmo nossas contradições, falhas ou visões divergentes têm algo a contribuir. Em uma comunidade viva, plural, diversa, as diferenças não são ruído — são parte da sinfonia. Elas provocam revisão, reflexão, crescimento.

Uma filosofia ancestral para um problema contemporâneo

O suicídio é um problema de saúde pública que se agrava a cada ano. E talvez uma das respostas esteja na própria ancestralidade africana, essa que foi silenciada, negada, inferiorizada por séculos pelo projeto colonial eurocêntrico.

Resgatar o pensamento filosófico africano não é apenas um ato de justiça epistêmica. É também uma cura social.

Ubuntu nos chama de volta ao essencial: o outro. A escuta. O afeto. O pertencimento. A dignidade.

Em um mundo cada vez mais adoecido pelo isolamento e pelo egoísmo, não há mensagem mais poderosa do que essa.

Este artigo foi inspirado pelo livro Introdução ao Pensamento Filosófico Africano, de Ivan Luiz Monteiro. E por todas as vozes que me escutaram quando eu não sabia mais o que dizer.

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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.

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