História do Olho: resenha do livro de Georges Battaille
- Pedro Sucupira
- há 7 dias
- 3 min de leitura
Atualizado: há 5 dias

História do Olho é, sem dúvida, uma obra fora do comum, mas nem por isso, ao menos para mim, tão impactante quanto sua reputação sugere. Trata-se de um livro frequentemente exaltado por seu caráter transgressor, e de fato ele o é: radical, provocador e deliberadamente desconfortável. Ainda assim, a minha experiência de leitura ficou aquém da expectativa que o cerca.
Desde as primeiras páginas, Bataille constrói uma narrativa que rompe com convenções morais e estéticas, explorando sexo, morte e violência com uma crueza que não busca suavização nem justificativa. O efeito imediato é o estranhamento; uma obra que causa incômodo físico, que conseguiu me manter de cenho franzido durante quase toda a leitura, que me fez torcer o rosto em repulsa e, em alguns momentos, chega a gerar verdadeiro mal-estar. É talvez o único livro que, até hoje, chegou a me causar ânsia de vômito.
Esse desconforto, no entanto, parece ser intencional. Publicado em 1928, sob o pseudônimo Lord Auch, o texto surge em um contexto cultural marcado por repressões morais, e pode ser lido como uma tentativa de expor, sem filtros, aquilo que a sociedade prefere ocultar. A forma como sexo, morte, violência e suicídio são tratados, de maneira direta e banal, funciona como um ataque às convenções religiosas e burguesas da época.
Uma das cenas mais emblemáticas e perturbadoras ocorre quando Simone se masturba durante uma confissão, desencadeando uma sequência narrativa que evolui para uma sequência de sexo explícito grupal na sacristia, diante do altar, uma profanação em nível monumental. E, quando você acha que a profanação atingiu o ápice, Bataille a leva ainda mais longe, finalizando com um diálogo em que o cardeal, Simone e seus amigos comparam as hóstias ao esperma de Cristo, o vinho tinto ao sangue de Cristo e o vinho branco à urina de Cristo. A fúria e a hipocrisia do padre após ejacular são quase a cereja do bolo, com um tom que beira o cômico. O resultado é algo próximo de um terror gore eclesiástico. A cena, diga-se de passagem, é muito bem descrita e, curiosamente, é uma das mais “brandas” de todo o livro.
A narrativa avança como um mergulho contínuo na degradação, intensificando-se a cada página, como se testasse constantemente o limite da tolerância do leitor. Nesse sentido, o livro se aproxima mais de uma experiência extrema do que de uma narrativa tradicional. Não há alívio nem pausa; apenas uma progressão constante de excessos.
Um elemento que enriquece significativamente a compreensão da obra é o texto analítico de Eliane Robert Moraes presente ao final da edição. Paradoxalmente, trata-se de um material que talvez devesse ser lido antes do próprio romance, pois oferece chaves interpretativas fundamentais. Moraes evidencia que História do Olho pode ser lida como uma espécie de exegese autobiográfica — uma tentativa de Bataille de reconciliar as tensões entre o filósofo e o devasso que coexistiam em sua personalidade. Ao contextualizar aspectos de sua biografia, como a infância marcada pela convivência com um pai cego, paralítico, mentalmente instável, e que vivia na imundíce, e por uma mãe igualmente fragilizada, que enfrentava surtos e tentativas de suicídio, o texto ilumina aquilo que, na narrativa, pode parecer apenas excesso ou arbitrariedade. Sob essa perspectiva, o grotesco deixa de ser gratuito e passa a operar como expressão de uma experiência íntima radicalizada.
Conclusão: História do Olho não é uma leitura para qualquer leitor, nem para qualquer momento. Seu valor está menos no prazer estético e mais na provocação que propõe. Ainda que não tenha me convencido plenamente como obra literária, reconheço sua força enquanto gesto radical, capaz de confrontar o leitor com aquilo que ele talvez preferisse não encarar.
Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.
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