Deixa Eu Te Falar da Noite: resenha do livro de Paulo Roberto Farias
- Pedro Sucupira
- 28 de mar.
- 3 min de leitura
Atualizado: 3 de abr.

Deixa Eu Te Falar da Noite, de Paulo Roberto Farias, é um daqueles livros que não dependem de grandes acontecimentos para capturar o leitor. Nesta resenha, analiso como o romance transforma o cotidiano em matéria literária sensível, envolvente e surpreendentemente profunda.
Há livros que impressionam pela grandiosidade de seus temas, pela complexidade estrutural ou pelo peso filosófico que carregam. Deixa Eu Te Falar da Noite, no entanto, realiza um movimento mais sutil e, por isso mesmo, mais difícil: transforma o ordinário em algo digno de atenção, afeto e permanência. Foi uma leitura que, com naturalidade desarmante, me arrancou gargalhadas em diversos momentos, ao mesmo tempo em que soube instaurar pequenas tensões, quase imperceptíveis, mas suficientes para nos manter implicados na narrativa.
Marla, a protagonista, é o centro dessa experiência. Com sua voz direta, despretensiosa e, ao mesmo tempo, profundamente honesta, ela narra a própria vida sem ornamentos excessivos, como quem conversa e, talvez, seja justamente essa recusa ao artifício que a torna tão cativante. O que poderia soar banal — os episódios cotidianos, os pequenos incômodos, as observações aparentemente insignificantes — ganha espessura à medida que percebemos que é ali, nesse território do mínimo, que a vida efetivamente acontece.
E é nesse ponto que reside o grande mérito desse romance: ao invés de buscar o extraordinário, Paulo Roberto nos convida a olhar com mais atenção para aquilo que normalmente ignoramos. A rotina de uma mulher solteira de 26 anos, que trabalha em uma lavanderia, vive no centro de Porto Alegre cercada por suas seis samambaias e nutre o desejo de estudar Letras, torna-se matéria literária pela forma como é narrada com sensibilidade, humor e uma lucidez que beira a autoironia.
Há também, atravessando a narrativa, um processo silencioso de autodescoberta, especialmente no que diz respeito à sexualidade de Marla. Esse movimento não é tratado de maneira espetacularizada ou dramática; ao contrário, ele se inscreve na mesma lógica do cotidiano, como algo que se revela aos poucos, entre hesitações, pequenas certezas e ambiguidades.
O romance, portanto, não apenas conta uma história, mas propõe uma forma de olhar: ensina, sem didatismo, que a beleza não está necessariamente nos grandes acontecimentos, mas na maneira como habitamos os dias. Há, nesse sentido, uma ética do sensível que atravessa o texto, uma valorização das pequenas experiências, dos detalhes quase invisíveis, das trivialidades que, quando observadas com atenção, revelam uma profundidade inesperada.
A leitura é fluida, envolvente e, sobretudo, prazerosa. Avança sem esforço, sustentada por uma linguagem acessível, mas nunca pobre, e por uma construção narrativa que respeita o tempo do leitor. Ao final, permanece a sensação de ter acompanhado não apenas uma história, mas uma vida com suas hesitações, seus pequenos encantamentos e suas discretas epifanias.
Deixa Eu Te Falar da Noite me surpreendeu justamente por isso: por mostrar que, quando bem narrada, até a vida mais simples pode se tornar memorável. E talvez seja essa a sua maior qualidade.
Sem dúvida, esta obra entrou para a minha lista de leituras favoritas.
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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.
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