Pedro Páramo — O romance fantasma de Juan Rulfo que ecoa através do tempo
- Pedro Sucupira
- 2 de fev. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 7 de jul.
Pedro Páramo é um clássico da literatura latino-americana e, paradoxalmente, o único romance de Carlos Juan Nepomuceno Pérez Rulfo Vizcaíno, mais conhecido como Juan Rulfo. Publicado em 1955, o livro se tornou uma obra seminal não apenas pela sua originalidade estrutural, mas pela densidade de seu conteúdo: existencial, histórico e simbólico. Uma leitura curta, de apenas 140 páginas, mas de uma profundidade e dramaticidade impressionantes.

A narrativa segue Juan Preciado, que, atendendo ao último desejo de sua mãe moribunda, parte rumo à cidade de Comala para encontrar o pai que nunca conheceu, Pedro Páramo. O que parecia ser o início de uma jornada pessoal transforma-se, rapidamente, em uma travessia espectral. Juan não encontra o pai, mas encontra vozes, vultos, lamentos e mortos que ainda sussurram. Comala não é uma cidade, é um purgatório.
Apesar de breve, não é uma leitura simples. A narrativa começa com certa linearidade, o luto da mãe, a viagem, a chegada à cidade, mas logo mergulhamos num tecido fragmentado de flashbacks, vozes fantasmagóricas e múltiplas perspectivas temporais, e a linearidade implode. Confesso que em alguns momentos precisei voltar páginas para me situar. Comala não é um espaço geográfico; é uma metáfora viva da memória, da culpa, da terra condenada à espera de justiça.
E o que torna essa travessia tão poderosa são os diálogos carregados de densidade existencial. Em poucas falas, Rulfo condensa séculos de abandono, pobreza, resignação e desejo. Cito duas que me marcaram profundamente:
“Sei não, Juan Preciado. Fazia tantos anos que não erguia o rosto, que me esqueci do céu. E mesmo que eu tivesse erguido, o que haveria de ganhar? O céu está tão alto, e meus olhos tão sem olhar, que vivia contente só de saber onde ficava a terra.”
Essa fala ecoa como lamento coletivo. A dor que não busca redenção. O corpo que só existe para tocar o chão e jamais o céu.
“A vida já é dura o bastante. A única coisa que faz com que a gente mova os pés é a esperança de que ao morrer nos levem de um lugar a outro; mas quando fecham para a gente uma porta e a que continua aberta é só a do inferno, mais valeria não ter nascido... O céu para mim, Juan Preciado, está aqui onde estou agora.”
Aqui, o inferno não está abaixo, mas ao redor. O céu é ausência. E a vida, uma travessia no deserto de vozes.
Apesar de exigir do leitor atenção redobrada e certa disposição para a confusão temporal, Pedro Páramo recompensa com sobras. A linguagem é econômica, mas cheia de imagens potentes. Os personagens surgem como espectros, mas falam com uma intensidade visceral. E a cada página, o leitor se vê mais envolvido no entrelaçamento entre passado e presente, entre os vivos e os mortos, entre o México mítico e o México real.
Mais do que um romance, Pedro Páramo é uma experiência sensorial, quase ritualística. Um livro em que as palavras não apenas contam, mas ecoam. As vozes que Juan ouve em Comala não são só vozes do passado: são a nossa própria herança colonial, o eco de uma América Latina construída sobre dor, silêncio e ausência.
Talvez por isso a leitura pareça, em certos momentos, um esforço. Mas é o esforço de quem desenterra memória. De quem caminha entre mortos em busca de sentido. De quem compreende, com Rulfo, que há histórias que só podem ser contadas assim em ruínas, em fragmentos, em murmúrios.
Um clássico incontestável, que não envelhece. Lê-se hoje, quase setenta anos depois, e ainda dói como se fosse ontem.
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Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.
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