A Última Peça
- Pedro Sucupira
- 14 de mai.
- 7 min de leitura

Exagerado como sempre, Yamore decidiu seguir a vida sem pensar nas consequências. O excesso sempre lhe pertencera. Vivia suspenso entre o medo e o desejo, como alguém condenado a jamais alcançar aquilo que persegue. Sua existência era o próprio paradoxo do excesso: possuir muito e, ainda assim, permanecer tomado pela sensação de falta.
De um lado, a fome, a precariedade e o medo da exclusão impunham o trabalho como necessidade brutal; de outro, o luxo, o status e a promessa de ascensão operavam como sedução permanente. O sistema sustentava-se justamente nessa tensão, movendo os homens simultaneamente pelo medo e pelo desejo, moldados pela longa pedagogia da violência social: a fome como disciplina, o luxo como miragem.
Viver sob o manto da riqueza não bastou para aquietar-lhe a alma. Queria sempre mais. Desejava mais. Buscava mais. Nunca satisfeito. Superara Tântalo em inúmeras formas de suplício e trabalhava mais do que Sísifo em toda a sua eternidade. Ainda assim, permanecia perseguindo a miragem de um luxo perpétuo, como se a abundância pudesse preencher um vazio que, quanto mais alimentado, mais se expandia.
Sufocado pelo luxo e pelo excesso, tornou-se um acumulador de exclusividades. Cansara-se da matéria: bolsas, sapatos, vestuários, joias, objetos raros. Tudo ao redor era caro, refinado, inacessível aos outros. Quanto mais exclusivo, mais desejável lhe parecia. Mas até a abundância se desgasta quando possuída em excesso. Um dia, cansado das coisas, decidiu colecionar pessoas. Mais especificamente, cabeças.
Yamore passou a caçar seres humanos como quem busca peças raras para uma coleção privada. Afinal, o que poderia haver de mais exclusivo do que uma cabeça humana? Começou pelas mais comuns: rostos anônimos, traços ordinários, feições que se perdiam na multidão, mas o hábito, como todo vício, exigia escalada. Logo já procurava rostos simétricos, olhos de cores incomuns, bocas singulares, narizes marcantes. Cada detalhe distinto transformava-se em critério de raridade.
Montou uma coleção inteira dedicada aos olhos. Olhos azuis, verdes, âmbar, castanhos em todas as tonalidades, cinzas profundos. Durante muito tempo, os mais escuros foram seus preferidos. Havia, neles, uma densidade quase hipnótica, como se escondessem algo inalcançável aos demais.
Até o dia em que encontrou uma mulher de pele muito clara, traços orientais delicados e olhos castanho-escuros tão profundos que pareciam absorver a luz ao redor. Em contraste com os longos cabelos negros, suas feições ganhavam intensidade, tornando-se ainda mais marcantes, quase irreais. Pela primeira vez em muitos anos, Yamore sentiu não apenas desejo de posse, mas fascínio.
Depois da oriental, voltou-se aos heterocrômicos. Fascinavam-no as íris desencontradas, olhos que pareciam carregar duas identidades no mesmo rosto. Passou então a perseguir raridades ainda mais improváveis: uma íris verde e outra azul; uma castanha e outra mel; tonalidades que, coexistindo no mesmo olhar, transformavam a cabeça em peça única.
Sua favorita, contudo, era uma especialmente rara. Um dos olhos possuía um tom âmbar avermelhado, quase sanguíneo; o outro, um azul extremamente claro, próximo do albino. Em meio àquela coleção peculiar, era a joia máxima, não apenas pela raridade, mas porque os olhos, mesmo separados do corpo, pareciam conservar algo vivo, inquieto, observando silenciosamente o próprio colecionador.
Aquela coleção peculiar só não se tornava imediatamente macabra por causa da destreza com que era preservada. Havia delicadeza em tudo. Os cortes, sempre precisos, eram feitos com lâminas afiadas ao extremo, deixando junções quase invisíveis. Não havia sangue, nem brutalidade aparente. Apenas perfeição.
Os olhos, mantidos abertos por uma cola especial, perdiam parte da humanidade e adquiriam uma estranha qualidade escultórica. As cabeças deixavam de parecer restos mortais e assumiam o aspecto de obras expostas em um museu de cera, belas e inquietantes ao mesmo tempo, como figuras eternamente suspensas entre o humano e o artificial.
A exclusividade não residia apenas nas peças, mas também na qualidade e na destreza do trabalho. Tudo era executado com rigor obsessivo: catalogado, classificado, armazenado e preservado com extremo cuidado. Havia naquele método uma precisão fria onde Yamore transformava o horror em arte refinada.
Arte admirada por muitos. Todos os que se deparavam com a coleção eram tomados por fascínio e repulsa em igual medida. Mas Yamore, fiel à própria natureza excessiva, também se cansou das cabeças. Cansou-se dos humanos. Cansou-se de tudo aquilo que já existia e podia ser possuído. O problema do excesso é que ele nunca se satisfaz; quanto mais acumula, maior se torna a sensação de vazio. Algo ainda faltava à coleção, embora ele próprio não soubesse nomear o quê. Continuava buscando, ansiando, avançando compulsivamente em direção a alguma forma impossível de exclusividade; contudo, no íntimo de sua mentalidade adoecida, já não parecia restar nada a conquistar, possuir ou colecionar.
Yamore, nome leve, delicado, memorável, tem musicalidade, parece carregar uma história profunda mesmo sem explicá-la.
Yamore cansou dos humanos e decidiu colecionar demônios. Encontrou maneiras de aprisionar essas criaturas mitológicas, seres que se manifestavam sob formas diversas, por vezes belas, por vezes grotescas demais para serem descritas. Mas logo percebeu um problema: não existiam vitrines capazes de conter demônios. Nenhuma sala, nenhuma estrutura, nenhuma prateleira material seriam suficientes para aprisionar essa coleção.
Decidiu, então, transformar o próprio corpo em prateleira.
Yamore passou a carregar os demônios em si mesmo, como quem faz do próprio corpo um museu exclusivo para entidades que jamais deveriam habitar o mundo humano.
Yamore tornou-se Legião. Milhares de demônios passaram a habitar seu corpo, comprimidos dentro dele como vozes sem repouso. Cercado pelo palácio de cabeças e luxo que construíra ao longo da vida, permaneceu prisioneiro do mesmo excesso que sempre o guiara. Nada bastava. Nem a riqueza, nem os humanos, nem os próprios demônios. O vazio continuava ali, intacto, crescendo silenciosamente no centro de tudo.
Yamore-Legião encontrava-se em permanente transformação. Já não era apenas Yamore, mas um devir incessante, uma criatura aprisionada no próprio ciclo de adquirir, preencher e esvaziar — um devir-Yamore-Legião. Tudo o que possuía tornava-se insuficiente no instante seguinte à conquista. O excesso não o completava; apenas ampliava a falta.
Nem mesmo os milhares de demônios alojados dentro de si foram capazes de preenchê-lo. Continuava oco. Continuava faminto. Precisava de mais.
E foi no dia em que encontrou Lúcifer que compreendeu, enfim, o que ainda faltava à sua coleção de exclusividades. Faltava o ser mais exclusivo de todos: ele próprio. Em sua busca incessante pelo raro, pelo único, pelo inalcançável, Yamore trocara o ser pelo ter. Acumulara rostos, demônios, raridades e luxos, mas, em meio ao excesso perdera-se. Na compulsão de possuir tudo aquilo que julgava único, não percebera que a peça mais rara que poderia existir era justamente aquela que abandonara ao longo do caminho: a própria existência.
À medida que o inferno se esvaziava e os demônios desapareciam, absorvidos por Yamore, Lúcifer visitou-o em seu palácio de cabeças, curioso diante do homem que ousara transformar-se em prisão para o próprio abismo.
— Então era isso que buscavas? Exclusividade?
Lúcifer caminhou lentamente pelo salão de cabeças, observando cada rosto como quem passeia por um museu infantil. Não havia horror em seus olhos. Apenas curiosidade.
— Curioso... Vocês humanos sempre começam pelas coisas. Ouro. Roupas. Casas. Corpos. Depois, quando o vazio continua intacto, passam a colecionar pessoas. E quando nem pessoas bastam, procuram deuses, demônios, eternidades.
Yamore permaneceu em silêncio.
— Tu não querias cabeças — continuou Lúcifer. — Querias aquilo que julgavas existir dentro delas. Singularidade. Essência. O irrepetível. Mas não compreendeste uma coisa fundamental: nada pode ser possuído sem ser reduzido.
Lúcifer aproximou-se de uma das peças raras, os dedos deslizando sobre o rosto preservado.
— No instante em que transformaste a vida em coleção, mataste justamente aquilo que desejavas conservar. A exclusividade deixou de ser existência e tornou-se objeto. E todo objeto, cedo ou tarde, apodrece.
Yamore sentiu os demônios dentro de si se agitarem.
— Olhe para ti. Tornaste-te Legião porque nunca suportaste o vazio de seres apenas um. Precisavas consumir identidades, rostos, símbolos, entidades, porque não suportavas habitar a própria consciência. O excesso não era luxo. Era fuga.
Lúcifer sorriu.
— E sabes o mais irônico? Passaste a vida inteira procurando a peça mais rara do universo sem perceber que ela jamais poderia ser arrancada, comprada ou aprisionada.
Os olhos heterocrômicos de Lúcifer fixaram-se nele.
— A única coisa verdadeiramente exclusiva era tua alma antes de tentares preenchê-la com o mundo inteiro.
Yamore permaneceu imóvel após ouvir Lúcifer. Pela primeira vez em séculos, não havia desejo em seus olhos. Nem fome. Nem fascínio. Apenas silêncio.
Caminhou lentamente entre as prateleiras onde repousavam as cabeças que colecionara ao longo da vida. Rostos raros. Olhos impossíveis. Sorrisos congelados pela eternidade artificial que lhes impusera. Todos imóveis. Todos vazios.
Os demônios dentro dele se agitavam. Milhares de vozes, desejos e consciências comprimidas em sua carne. Legião pulsava sob sua pele como uma doença sagrada.
Então Yamore sorriu. Um sorriso pequeno, cansado, quase sereno.
Aproximou-se da mesa onde mantinha suas lâminas favoritas. Instrumentos delicados, perfeitamente alinhados, afiados ao extremo, capazes de separar a carne sem brutalidade. Passou os dedos sobre o metal como quem acaricia um velho amor.
Agora entendia. A peça mais rara jamais poderia ser encontrada fora de si.
Ergueu os olhos para Lúcifer, mas o visitante já não parecia necessário. Como um mestre que conclui o ensinamento, permanecia apenas observando.
Sem hesitação, Yamore posicionou a lâmina contra o próprio pescoço.
O corte foi preciso. Elegante. Quase belo.
A cabeça tombou lentamente e rolou pelo chão até bater em uma prateleira. Não houve sangue. Nenhum espasmo final. Nenhum colapso digno da morte. O corpo permaneceu de pé, ainda vivo, sustentado pelos demônios que agora pulsavam em seu interior. Yamore já não era apenas Yamore. Tornara-se outra coisa — um Devir-Yamore-Legião-sem-cabeça — condenada à própria continuidade.
O corpo moveu-se. Com passos lentos, aproximou-se da cabeça caída, ergueu-a com delicadeza ritualística e caminhou até as prateleiras onde repousava sua coleção. Entre rostos raros, olhos impossíveis e expressões eternamente preservadas, encontrou enfim o espaço vazio que faltava.
Ali posicionou a própria cabeça — a última peça.
Se você chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Meu nome é Pedro Sucupira, sou professor, pesquisador em formação e um curioso incansável. Amo estudar, ler e, recentemente, descobri o prazer inescapável da escrita. Sou um explorador apaixonado por literatura, comportamento humano, sociedade e por tudo que toca os campos da ciência e da saúde.
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